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sábado, 25 de abril de 2020

GATOS SÓ GOSTAM DE RATOS


GATOS SÓ GOSTAM DE RATOS




Pelo faro, os gatos descobrem ratos
E os ratos dos gatos têm pavor
Surge uma guerra universal de horror
Geneticamente, existem maus tratos.

Não se pode imaginar os motivos
Da mórbida tendência dos felinos
Parece maldição tal destino
Por esses desejos imperativos.

O gatão faz que dorme sossegado
Mas só pensando em sua própria vida.
Seu dono pensa que ele está cansado.

Gato ama, gato trai sem dor sentida
Com desprezo sai, e some calado
Vai e volta sempre sem despedida.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

ESPELHO, ESPELHO MEU!



"Viver é envelhecer, nada mais."
Simone de Beauvoir



ESPELHO, ESPELHO MEU!

Espelho, espelho meu! Que cara é essa?
Nunca me vi assim, tão feio assim
Pois sempre fui belo. Pobre de mim!
E tal pereba agora me remessa?

Dorian Gray apunhalou seu retrato
Enfurecidamente bipolar
Na maldita ânsia de delatar
Tudo que os prazeres lhe tenham dado!

O tempo porta a maldição da vida
E traz no seu bojo a melancolia,
Que incrimina a ventura consentida.

Só restam esses farrapos de agonia
Que o remédio pra essa vida falida
É desprezar a somatognosia.


terça-feira, 12 de março de 2019

CORTAR UM MAL PELA RAIZ?


Nem um papa, nem um juiz. Nem o somatório das seitas religiosas. Ninguém é ladrão, assassino ou pedófilo sem impulsão fisiológica. Além disso, tudo é ressignificável. Desvios de conduta e de personalidade têm causas indefinidas. Salve-se quem puder. E quem será capaz de cortar o mal pela raiz? Um papa ou um juiz pode atirar a primeira pedra?



CORTAR UM MAL PELA RAIZ

Nada vale o Papa mandar matar
Em fogueira na porta do convento!
Esses crimes se espalham pelo vento
Vindo a fonte do prazer condenar.

Tal transtorno não pode ser julgado
Por essa tendência obsessiva.
A vontade animal é concessiva
Pelo seu tipo do bicho rosnado.

Quem pode cortar pela raiz o mal?
Essas delícias de cada tendência
Que faz cada pessoa original?.

Prazeres malditos de uma existência!
Como serpente num gesto fatal
Curte as profundezas de uma demência.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

LEITO DE LAMA

A lama transforma o verde e as águas de Minas Gerais. Mas como isso é possível? Não se aprende nem com os erros? É mais lucrativo continuar errando? Só se percebe o valor de uma vida, depois que ela foi ceifada. E quanto vale uma vida? Andam por aí perguntando isso. Causar dano à terra é também demonstrar desprezo pela natureza. Que virá depois disso? Algum pressentimento?




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ENTRANDO PELO CANO

Uma mina, um mineroduto, um porto e muitos problemas. Por 525 Km, o mineroduto Minas–Rio é um sistema de transporte tubular de minério de ferro, que liga as cidades brasileiras de Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais e São João da Barra, no Rio de Janeiro. Enquanto os tubos vão sendo enterrados, um rastro de insatisfação vai se abrindo.





MINERODUTO

Esse mineroduto virou moda
Modelo de transporte tubular
Com a força de um rio inteiro empurrar
E chupar do outro lado da roda.

Fica então esse rio, ou esse ex-rio
Sem água, sem peixe ou navegação
Toda acertada a legalização
E não se pensa mais nesse martírio.

E nem se envergonha o nobre governante
Ao assinar tal proposta indecente
E afirmar seu povo ser ignorante

E pelo simples ato tão inocente
Sorri o alto poder que lhe garante
E apunhala a natureza inclemente




RIO ABAIXO

Bebo sim! Estou bebendo! Enquanto tem!
A água leva tudo! Leva até minério!
Por baixo, passa até de cemitério
No aqueduto que não gasta um vintém.

Quem diz que ele não beba um rio inteiro
Engolindo até os peixinhos caipiras?
Não escapam os lambaris ou as traíras
E vomitam no Rio de Janeiro.

Pra que essa água que tem esse rio,
Barulhento nas matas e cachoeiras
Que tanta força tem e poderio?

Preso enlatado em fontes altaneiras
Entubado, desce em crime e martírio,
Envergonhando as origens mineiras.,

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

LIBIDO


Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente; 
é um contentamento descontente, 
é dor que desatina sem doer[....] 
Camões 




Fenômeno geral – não existe rejeição

  • Impulso energético no cérebro dos seres humanos, fomentando desejos e tendências.
  • Do nascimento à morte, dirige comportamentos, sem se importar com consequências sociais ou de qualquer natureza.
  • A Libido comanda e o ser humano que lhe obedece cegamente.
  • Madame Bovary não agiu sozinha nas letras de Gustave Flaubert. Por destino, um fantasma dirigia seus passos. Era a busca do prazer pelo comando interno, silencioso e invisível. O autor pagou por essa revelação.
  • Freud e Jung discutiram por causa dela e mesmo assim, não chegaram a um acordo. No mundo, principalmente depois de 1960, com a liberação geral, a Libido mudou a cor do seu mapa.
  • A Libido teve forma definitiva e abriu seus tentáculos. Liberação foi ampla, e cada pessoa solta suas entranhas da maneira que seu comando interno determinar.
  • Libido não é maior nem menor. Ela quer dominar e se expressar com a cara e a coragem. Não aumenta nem diminui. Ela se incorpora em cada pessoa, e sobrevive nela.


LIBIDO

Libido é mesmo o tal fiel anjinho
Conselheiro, amigão e protetor
Aplaude sempre, e tudo tem valor
Invisível tanto que agarradinho.

Desejos vários que atraem ou repelem
Signos de vida envolvem e dominam
Desde o nascimento à morte acompanham
Desvendando as faces é o que mais querem.

A libido nasce com o portador
E carrega-o por toda a existência
Aceita todas as formas de amor.

Como fantasma até incita demência
Cai de vez a máscara do pudor
Ou glorifica a própria abstinência.



quarta-feira, 18 de abril de 2018

A DÚVIDA E A INCONSEQUÊNCIA EM DOIS SONETOS.


O diálogo interno, um bem e um mal.
Um longo diálogo interno produz a inércia.
Um curto diálogo interno produz um desastre.
Hamlet viveu a dúvida e dom Quixote viveu a inconsequência




PENSAR

Pensar demais retarda a decisão
O peixe voa e a andorinha nada
O jovem Hamlet esperou uma fada
E a dúvida invadiu seu coração.

To be, or not to be! Até agora?
Mais de quinhentos anos se passaram
Tantos outros reis o trono usurparam
E ele, de tanto pensar, ainda chora.

Tanta história rolou no seu país
E de tanto pensar surgiu dom Casmurro
Divulgando a teoria como quis.

Meditando, no rosto leva um murro
Imóvel, impassível, infeliz
Pois, de tanto pensar, morreu um burro.



NÃO PENSAR

Tão triste é uma decisão impensada!
Dom Quixote matou três adversários
No tal dia do seu aniversário,
Músicos de uma banda contratada.

Em algazarra e turbulência vinha
Para esta festa cheia de alegria
Imaginou inimigos que temia
Disparou todas as balas que tinha.

E agora? Como sair do conflito?
Como reverter a situação?
Rapidez no pensar, agiu aflito.

E nada a ganhar – decisão é ação!
Sem razão, pode rodar o infinito
Mas nada de pedir ressurreição.


segunda-feira, 9 de abril de 2018

SONETOS MORTÍFEROS



A tecnologia não pede licença e passa por cima até dos tratores.
A crueldade das inovações tecnológicas não pede passagem e arrasa o que estiver pela frente.
Entre na roda ou saia da frente.




A MARCHA DO PROGRESSO

Ninguém segura a marcha do progresso
Tudo aquilo que hoje está sendo feito
Será feito amanhã de outro jeito
Diferente será e com mais sucesso.

E no dia que um ser humano nasce
Tão logo ele casa-se com a mudança
Pode ser que não haja uma festança
Mas um pacto firme com ela faz-se.

Dizer que tem quinze anos de experiência
Ou um ano quinze vezes repetido
Será um trampolim para a competência?

Ou espelho retrovisor embutido
Que ilumina pra trás na decadência?
Fracassa em busca do tempo perdido.




AS VONTADES

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Camões falou e pôs dedicatória
Seu vaticínio vem rolando a história
E essas palavras parecem maldades.

Vem o século do obsoletismo
Traz as verdades pra fora de moda
Lança, usa, aproveita e gira a roda
Nada é para sempre, nem fanatismo.

Tapete mágico, conto de fadas
No alto o vento, e a chuva a vista embaça
Um sonho distante, mente estagnada.

Impedir a mudança virou desgraça
Nada resiste a força da manada
Os cães ladram e a carruagem passa.

terça-feira, 13 de março de 2018

VIVER É MORRER - SONETOS

Difícil viver? Mais difícil é morrer. Me aguardem, diz a morte.
E ela chegara, infelizmente. Sinto muito !




ENVELHECER

Não tem saída – ou fica velho ou morre!
E uma constante perda de energia,
Um pedaço que cai a cada dia
E sem perceber, tanta coisa ocorre.

O chumbo dos pés dificulta a marcha
E hoje não há mais ninguém a abraçar
O sorriso emudece, embaça o olhar.
A voz do silêncio é a que mais se acha.

A despedida é apenas suave aceno
Que nos trêmulos dedos se dissolve
E o mundo parece já tão pequeno.

Os pássaros cantam, a flor devolve
A cor e o brilho com perfume ameno,
O sol brilha mas triste bruma envolve.







POSTO VAGO

Vem mais uma perda na nossa empresa
Com a morte do colega Juvenal
Bom gerente da nova filial
Competente e de grande gentileza.

Por esse fato, senhor Diretor,
Sei que o posto não pode ficar vago
A sugestão para o senhor eu trago
Para o lugar dele pode me pôr.

O diretor ficou admirado
Por essa coragem extraordinária
De aceitar um local tão reservado.

Sua decisão assim voluntária
Não posso me opor, fico assim calado,
Pois a permissão vem da funerária.

sexta-feira, 2 de março de 2018

SONETOS



Dois sonetos não matam ninguém. Tudo é tiro de festim. Mentes brilhantes acolhem sem contestação.




ESCRAVO FORRO



Espírito maligno cai no Zé !
A colher de pedreiro arremessou
Logo o cimento no vaso enfiou
Logo o concreto virou picolé.

Já não se caça escravo com cachorro
Se a cidade inteira virou senzala
Pois seu povo serve, ajoelha e cala.
“Já não passo mesmo é de escravo forro.”

A nobreza precisa arrecadar
Para o nepote ter vida saudável
De carruagem poder desfilar

“Noblesse oblige”, ilustre magistravel,
A tal cota racial vai lutar
E seu poder não será confortável.





PECUNIA NON OLET



Quem não gosta de dinheiro padece.
Dinheiro no bolso traz alegria
Traz saúde e muito mais energia
E fica mais perto de quem merece.

Lavar as mãos, pois o dinheiro é sujo!
É uma das maneiras de afugentá-lo.
Quem gosta dele deve acariciá-lo,
Se amedrontado procura refúgio

Cada qual no seu bolso quer mantê-lo.
Liberdade pra voar ele pede
No vendaval ninguém mais vai retê-lo.

Mais discreto tudo ele pesa e mede
Vagueia no mundo e ninguém vai tê-lo
Se alguém for dizer que dinheiro fede.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

SÓ SONETOS

Pra que servem? Pra nada, como toda poesia. Mãos cheias de pedras. Provocando, agredindo, cutucando. A briga é continuada. Estilingue, catapulta, espada. Tiro de festim... nada mais.



PALAVRA DE REI

A palavra de rei não volta atrás
Diz o velho monarca ameaçado
Assim nesse transe desesperado
Tantas luzes para o seu povo faz.

Mudar de ideia é de mente brilhante
Conservar modelos fora de moda?
Manter paradigmas incomoda
Mudar e mudar tudo a todo instante.

Pedra sobre pedra não ficará
Se no mundo até as palavras fenecem
E o que passou nunca mais tornará.

Novas luas toda noite aparecem
E na terra nova luz brilhará
Se até os próprios reis desaparecem.



TRABALHO ESCRAVO


Trabalho escravo com nova senzala
Perdas constantes de quem não tem nada
Perder mais o quê? No fim da jornada
Quando o rico ri e o escravo cala.

O pobre nasce escravo sem saber
E cada sol lhe mostra o seu destino
E antes de a noite chegar vai sozinho
Para a dança do açoite se vender.

Um montão de leis no seu dorso cai
Para pagar os pecados do mundo
Dele o suor de Adão e Eva sai.

A rude mão calejada vai fundo
E nas suas correntes se distrai
Num suspiro, Castro Alves, profundo.



sexta-feira, 22 de setembro de 2017

GAROTA ESPERTA


O soneto vai além da poesia. A síntese predomina e nada de blablablá.





Até “bom-dia” já virou assédio
É a mulher, já é peça de porcelana
Prevenindo-se com tudo se engana
E por tudo tem que achar um remédio.


E a menina esperta trepou na escada
E deixou o público admirado
O panorama não foi reservado
Pelo trabalho, missão programada.


Mas a mãe, que tem mais experiência
“Eles querem é ver sua calcinha 
Esta é, pois, a grande maledicência”.


E nesse público só homem tinha.
“Sei disso... Tirei-a com antecedência.”
Mas a bela garota é bem espertinha.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

LA FONTAINE


Formiguinha estava muito cansada
Depois de um dia de trabalho duro
E viu , deslumbrada, do alto do muro
A casa da cigarra iluminada.

Tantas malas amarradas com fitas
- Estou em turnê, contratada, querida.
Pela Europa, deslumbrante e encantada
Nos salões de Paris, pelas conquistas.

Por tudo quanto de belo que eu fiz
Descobriram todo o meu esplendor
Notre Dame, Sacré Coeur ou matriz.

Que lembrancinha queres, meu amor?
- Vendo um tal de La Fontaine, em Paris,
Mate-o logo, pois é um farsante escritor.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

PARÓQUIAIS- SÉRIE DE SONETOS

Paroquia é o território e a população que está subordinada eclesiasticamente a um pároco. Também se aplica como sinônimo freguesia. Utilizada desde as mais antigas origens do Cristianismo para designar uma comunidade cristã local.




Paroquiais dois sonetos entrelaçados. Incidentes não intencionais, claro, fazem humor sem ofensas a qualquer tipo de religião ou seita. Ninguém está impune de cair numa armadilha verbal em tocaia.


O BATIZADO

Um ricaço queria batizar
Seu cão vira-lata de estimação.
Mas o padre temia a excomunhão
Certo que o bispo iria contestar.

Mas a troco de uma paróquia linda
Tudo se consegue em plena harmonia,
Floresce a paróquia em plena alegria
E ajudava o ricaço mais ainda.

Um dia o bispo em visitação
Descobre o escândalo do batizado
O que pôs o padre em pura aflição.

Pelo bispo o ricaço foi chamado
Demonstrando rara admiração:
E quando o cãozinho será crismado? 

 

 

ANTICONCEPCIONAL

 Enfim o bispo liberou a pílula.
E para os padres fez palestra
Para confirmar que nada mais resta
Dessa proibição tão ridícula.

E a pílula anticoncepcional é
Mais uma das maravilhas do mundo,
Liberando as mulheres e foi fundo
Controlando a natalidade até.

Declarou a liberação total.
E quem tiver dúvida da premissa
Tudo posso responder afinal.

E um dos padres questionou com preguiça,
Cumpridor do dever paroquial:
                                        - Pra tomar antes ou depois da missa?

segunda-feira, 8 de maio de 2017

PAIXÃO - SÉRIE DE SONETOS

A paixão é capaz de alterar aspectos do comportamento e pensamento da pessoa. A impulsividade, o desespero e a inquietação são outras características que costumam estar associadas ao sentimento de paixão.


PAIXÃO  - dois sonetos bem casados, contornam sentimentos idos e havidos. A história da vida não é escrita em rascunho. Cada um cai no espinheiro que lhe aprouver. Se entra na fogueira, sai chamuscado.





UNIDOS PARA SEMPRE

Casamento é festa e muita alegria
Duas famílias, traço de união,
Com champanhe, luzes no coração,
Roupas novas, presentes, fidalguia.

Pelo momento solene do sim
E nas promessas de fidelidade
Salta dos lábios a sinceridade
Reina o amor pelos caminhos sem fim.

-Unidos estamos por toda a vida!
Disse a noiva em lua de mel à vista,
Vaticina feliz e comovida.

E o noivo sente o peso da conquista.
Abre o coração em contrapartida:
-Não estou eu assim tão pessimista.





PENSEI MELHOR

Senhor Comissário, estou aqui de novo,
Sempre buscando a sua proteção:
Minha mulher sumiu – que ingratidão!
Misturou-se pois no meio do povo.

Sofrimento demais com a sua ausência
Sozinho em casa fiquei a pensar
E de tanto pensar e soluçar
Julguei-me ficar em plena demência.

Suspenda os meus pedidos de procura
Já não tenho mais nem um só lamento
Ficar só me deu prazer nesta altura.

A vida aceita qualquer argumento
A água vai batendo na pedra e fura
Pensei melhor – eis o meu juramento

  

quarta-feira, 3 de maio de 2017

AS BURGUESAS - SÉRIE DE SONETOS

Soneto – velho formato do gênero lírico, tem suas palavras enjauladas. Não basta ser poeta. Tem que ser, antes de tudo, um artífice.

 

Estrutura rígida, desde Petrarca e Dante Alighieri. Sintético e objetivo. Sem enrolação. Nele cabem a paixão e o amor. Agora vem o humor e o rancor. As palavras foram feitas para rir ou para chorar. Soneto causa efeito retardado. Pensar e meditar.




A RAINHA

Dois cavalos brancos são atrelados
À rica carruagem da rainha.
No traslado tanta elegância tinha
Para, em pompas, solenes perfilados.

Num momento, um cavalo solta um gás,
O que fez a rainha enrubescer
Fato que não podia acontecer
E desgosto o acontecimento traz.

Logo, ao convidado a rainha vem,
Neste momento, desculpas pedir,
E com o leque o nariz tapa também.

E o convidado vem pronto acudir:
-Majestade! Pois fica tudo bem!
Julguei que fosse o cavalo, ao partir.




A CONDESSA

A condessa ficou compadecida
Quando ela viu da sua alta janela
De sua mansão, muito rica e bela,
Um pobre homem em fome desvairada.

Esse homem comia grama na praça
Com imenso furor dessa fome vinha
A grama seca que na praça tinha
Tanto comia!!! Era tudo de graça.

E a condessa ordenou ao sentinela
Que abrisse os portões e deixasse assim
Que esse homem entrasse, que a vida bela.

E tendo o coração em paz, enfim,
Sugeriu com voz suave e singela:
- Há grama mais verde no meu jardim. 









quinta-feira, 27 de outubro de 2016

RETA FINAL

O ocaso do poder e da glória!!! Afastem-se de mim malditos fados, amargos e cruéis sonhos alados, que serão transformados em cinzas ao vento.


Eis a sentença inevitável e universal para os seres vivos: “ou morrer ou ficar velho”. Não há escapatória. A mocidade pode ser cantada ou decantada em prosa ou em verso que a guilhotina do tempo cortará palavras, ações ou intenções.
Festejando a passagem do tempo, aqui estão dois sonetos em lamentações e constatações dessa ventania do tempo.
O soneto é uma composição poética rígida em seu formato e imutável na sua estrutura. A síntese é a sua bandeira fundamental. As palavras ficam enjauladas no seu posto determinado. Assim foi desde os tempos de Petrarca e Dante Alighiere ou Camões. Mais recentemente, com o português Antero de Quental e os brasileiros Olavo Bilac, Raimundo Correia, Augusto dos Anjos. Recentemente, Vinicius de Morais. Os sonetos servem para exprimir paixão ou erotismo, conceitos filosóficos ou emoções, ou ainda, desabafo e choro de apaixonados e “cornuti”
Agora, são apresentados estes dois sonetos dedicados à terceira idade, sem choro nem vela. Eis a constatação da velhice, do antigo tempo de glória e poder. Retratam, sem retoque, imagens do tempo passado, das ilusões perdidas, tão cruéis como a própria fragilidade da vida. Os jovens que se cuidem que o tempo deles  chegará, rápido e trepidante. Amargos e cruéis sonhos alados que serão transformados em cinzas ao vento. Adeus sonhos alados!!! 


LEÃO VELHO
Leão velho vai no fim da manada
Estrepes nos pés, com fome incontida
Ronco rouco e vista turva embaçada
Juba emaranhada, força perdida.

O rei da selva com a extinta coroa
Embalde enfrenta seguir a jornada
Tenta pegar a ratazana à toa
E perde essa luta desesperada.

Os gordos ratos brincam em festival
Pulando  em suas pernas, sorridentes.
Nunca essa vida foi tão desigual.

Velho rei desfila, passos silentes
Quando os lobos aguardam o funeral
E as hienas em gritos estridentes. 



DESPEDIDA
Deixar de bandeja seu território
Seus troféus e tantas poucas medalhas
Conquistas que foram em duras batalhas.
Nada foi além de sonho ilusório.

A vida tornou-se em campos minados
Cada passo um trovão, uma tempestade
De tantos erros nasce esta maldade
Descaminhos, enganos deparados.

Dor silente corrói internamente
Nada resta senão que transportar
Para o corpo tudo que está na mente

E viva o herói sem poder mergulhar
Nessas águas turvas eternamente
Mesmo que esteja a ponto de chorar.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

SONETO


A pátria não é a raça, não é o meio,
não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos:
é o idioma criado ou herdado pelo povo.
Olavo Bilac

O SONETO

Antes de tudo, o soneto é um formato de composição literária. Formato rígido, com obrigações e deveres que ultrapassam os sentimentos e podem distorcer as ideias. É um jogo de palavras enjauladas, espremidas, mesmo que sejam tristes e soluçantes. Nada a fazer senão conformar-se com a estrutura imposta. Tem que ter dois quartetos e dois tercetos de dez sílabas poéticas. No total, 14 versos.  Neste caso, será decassílabo. Há também os de 12 sílabas, chamados de alexandrinos. Fora disso, qualquer composição poética pode ser maravilhosa, mas não será um soneto, se não estiver dentro desses parâmetros.
Os dois quartetos iniciais apresentam a temática a ser desenvolvida e os dos tercetos concluem e definem o final da história. Não é tarefa fácil porque ainda o compositor tem que pensar nas rimas. Elas podem ser seguidas ou alternadas. Cada quarteto pode ter suas próprias rimas. Já os dois tercetos finais obedecem a rimas próprias, isto é, as mesmas rimas.
Muitas vezes, o mote central do compositor vai para o espaço e ele acaba construindo alguma coisa apenas parecida com o tema desejado. Ele vai tecendo no arranjo das palavras, na metrificação e nas rimas, para chegar ao final. É, antes de tudo, um quebra-cabeça.
Soneto, (do italiano sonetto) é uma pequena canção, ou som pequeno.
Com relação à distribuição dos versos, existem sonetos assim classificados:
  • Soneto italiano ou petrarquiano – com duas estrofes de quatro versos (quartetos) e mais duas de três versos, (tercetos).
  • Soneto inglês ou shakespeariano – com três quartetos e um dístico.
  • Soneto monostrófico – com uma só estrofe com 14 versos.
  • Soneto estrambótico – com acréscimo de um ou mais versos, por isso, irregular.(Miguel de Cervantes).
A invenção do soneto partiu da Itália, Sicília, no século XIII, por Jacopo da Letini, na corte de Frederico II. Foi definitivamente estruturado por Arezzo (Fra Guittone)  e encontrou Petrarca, com sua força poética, capaz de internalizar esse tipo de composição.
Francesco Petrarca, (1304 – 1374) florentino, imortalizou o soneto, difundindo-o por toda a Europa. São 317 sonetos que compõem sua obra “Il Canzoniere” e grande parte deles dedicado a Laura de Novaes, seu grande amor platônico.

Soneto XXII original, em italiano

S’ amor non è, che dunque è quel ch’ io sento?
Ma s’egli è amor, per Dio, che cosa e quale?
Se buona, ond è effetto aspro mortale?
Se ria, ond’ è si dolce ogni tormento?

S’a mia voglia arado, ond’ è ‘I pianto e ‘I lamento?
S’a mal mio grado, il lamentar che vale?
O viva morte, o dilettoso male,
Come puoi tanto in me s’io nol consento?

E s’io ‘I consento, a gran torto mi doglio.
Fra sì contrari venti, in frale barca
Mi trivo in alto mar, senza governo,

Sí lieve di saber, d’error sí carca,
Ch’ i i’ medesmo non so quel ch’ io mi voglio,
E tremo a mèzza state, ardemdo il verno.

Petrarca
“Il Canzonieri”

(tradução)
Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que coisa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?

Se eu ardo por querer por que o lamento
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.

E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.

É tão grave de error, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.

Francesco Petrarca
in “Poemas de amor de Petrarca”
Nota: Francesco Petrarca é considerado o inventor do soneto.

Dante Alighieri, (1265 – 1321) autor de A Divina Comédia, foi seguidor de Guittoni, deslumbrando em sonetos o seu amor impossível por Beatriz (Beatrice Portinari), em Vita Nova.

XXVI

Tanto gentile e tanto onesta pare
La donna mia, quando'ella altrui saluta,
Che'ogne lingua deven tremando muta,
E li occhi no l'ardiscono di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
Benignamente d'umiltà vestuta;
E par che sia una cosa venuta
Da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi si paciente a chi la mira,
Che dà per li occhi una dolcezza al core,
Che 'ntender no la può chi no la prova:

E par che de la sua labbia si mova
Un spirito soave pien d'amore,
Che va dicendo a l'anima: «Sospira».


XXVI (tradução)

Aparece gentil e tão honesta
Minha senhora quando nos saúda,
Que cada voz, tremendo, fica muda
E os olhos não ousam mesmo olhar.

Vestida de humildade, lá vai ela,
Benignamente ouvindo-se louvar;
E dir-se-ia coisa de espantar
Vindo do céu à terra, num milagre.

Tão agradável surge a quem a vê
Que pelos olhos dá ao coração
Dulçor para entender, de conhecer.

Dos seus lábios parece que desliza
Um sopro de amorosa suavidade
Que vai dizendo à alma, tu, suspira!

Luís Vaz de Camões, (1524 – 1580) em Portugal, em suas viagens pela Europa, conseguiu estruturar os mais belos sonetos.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

William Shakespeare (1524–1616) desenvolveu o soneto inglês.
Na França, Charles Baudelaire (1821 – 1867) usou versos alexandrinos e Les Fleurs du Mal.
No Brasil, foi consagrado Olavo Bilac como o maior sonetista da época. Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Cláudio Manoel da Costa e, finalmente, Vinicius de Morais.

VERSOS ÍNTIMOS
 
Vês! Ninguém assistiu ao formidável    
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

Há a ressaltar que a obra francesa do século XII, Roman d´Alexandre, foi composta em versos de 12 sílabas poéticas, os dodecassílabos. Em controvérsia, a metrificação espanhola obedece a outros critérios, diferentes da francesa, italiana e portuguesa. Com o iluminismo, o soneto não foi muito frequente entre os poetas. Somente ressurgiu com o humanismo e o estilo barroco. Assim, voltou a ser cultivado com mais fervor pelos românticos, parnasianos e simbolistas. O soneto possui uma estrutura lógica com uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão, que é apresentada no último terceto. Esse terceto é chamado “chave de ouro”, que enuncia toda a temática da composição.   
   
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