Bandeirantes/Bandeiras – Uma cidade em movimento! Expedições
fundamentadas em decisões e incentivo de poderosos reis de Portugal que, de
longe, comandavam exércitos de voluntários que, por conta própria, se embrenhavam
pelas trilhas e pelo verde deserto.
Cada passada tua era um
caminho aberto!
Cada passo mudado, uma nova
conquista!
E, enquanto ias, sonhando o
teu sonho egoísta,
Teu pé, como um deus,
fecundava o deserto!
Olavo Bilac - O caçador de
esmeraldas
Autor: Rogério de Alvarenga
APRESENTAÇÃO

ENTREVISTADOR - Bandeirante Fernão Dias
Pais! Os seus dias estão distantes, mas os seus passos estão marcados nas
terras do estado de Minas Gerais! Podemos abrir uma conversa franca e amiga com
o senhor, sobre a sua grande expedição?
FERNÃO DIAS PAIS - Sempre estive de
passagem de um lugar para outro, cumprindo o meu objetivo maior. Mesmo assim,
aqui estando arranchado, posso abrir meu coração, como sempre o fiz na minha
vida.

FD - Na minha vida atribulada, não tive
tempo de pensar em desviar uma conversa. Sempre falei e falo o que tenho na
cabeça, na hora, sem procurar esconder coisa alguma.
E - Melhor assim. Então, a primeira questão
que me desponta à mente: o senhor não se considerava velho demais para
organizar e comandar uma expedição tão grande e perigosa pelo mundo
desconhecido nas matas sem fim?
FD - Jovem - sempre fui e velho – um dia
serei. A minha experiência e a minha coragem foram emblemas para a minha
credibilidade
E - Mas, a sua idade?
FD - Eu tinha apenas 66 anos de idade
quando parti de São Paulo para revelar o que havia atrás das montanhas e
montanhas, matas e matas. Parecia o infinito! Todos queriam saber o que havia
atrás delas, muitos ousavam, mas quase nunca voltavam.
E - Atrás das montanhas e das matas havia o
mistério?
FD - Havia o mistério e as lendas. Alguns
se aventuraram, em pequenos grupos organizados, subindo e descendo montanhas sem
fim. Alguns voltaram, outros se perderam no emaranhado das trilhas, ou perdidos
no caminho da volta. As notícias e as histórias aumentavam.
E - O senhor se compara ao descobridor da
América, Colombo ou ao navegador Pedro Álvares Cabral?
FD - Por que não? Um mar de águas
desconhecidas ou um mar de matas intransponíveis? Lá, os tubarões, a fúria dos
ventos e das tempestades. Aqui, as feras, os índios, as chuvas e as enchentes!
As tempestades, os raios e os trovões!
E - E de quem eram essas matas intransponíveis?
FD - Em princípio, de ninguém, ou de quem
chegasse primeiro. Depois, da Coroa Portuguesa, a quem se prestava obediência
imediata.
E - Podia explicar melhor?
FD - Expedições podiam ser organizadas e
autorizadas. Muitas partiam sem ordem, sem autorização legal. Mas, com o tempo,
foram-se organizando grupos bem estruturados, com registro e autorização
oficial do rei de Portugal. Formavam-se as Bandeiras, num estilo quase militar,
incentivadas, estimuladas pela Coroa Portuguesa, na busca de riquezas.
E - Que riquezas?
FD - Ora! Ora! Sempre havia lendas e lendas
de que o ouro jorrava, de que as pedras preciosas iluminavam os caminhos com o
seu brilho e seu esplendor. Só faltavam
homens capazes de buscá-las onde elas estivessem dormindo. O ideário do povo na
época era encontrar uma civilização milenar e rica, bem estruturada, com os
templos cobertos de ouro e pedras preciosas. Riquezas e mais riquezas!
E - Pode-se comparar com o sonho
tecnológico de se chegar à Lua, de se chegar até Marte? Desvendar a crença de
que há vida nos planetas?

E - Faltavam recursos técnicos e por assim
dizer, faltavam homens de coragem?
FD - Mais ou menos isso mesmo. Faltavam
empreendedores maiores. Por isso, fui chamado. Não pense que a minha Bandeira
tenha sido um ajuntamento de pessoas com um objetivo incerto. Nada disso.
E - Bandeira? Uma Bandeira?
FD - Sim! Uma Bandeira! Uma expedição
devidamente organizada, nos moldes militares, princípios rígidos e objetivos determinados.
E - O senhor mesmo organizou essa expedição
de exploração do interior do país?
FD - Sim! Eu mesmo! Era pessoa de posses e
de experiência militar, no comando de vários empreendimentos oficiais. Tive
confiança de investir nessa aventura. Tinha feito meu nome, tinha conceito
público e credibilidade.
E - O senhor sempre gostou de aventuras?
FD - Sempre fui um homem de labor insano.
Desconhecia o medo e estava sempre pronto para desafios. Além disso, sempre fui
curioso em desvendar os mistérios das matas e das distâncias. Meu braço forte e
meu espírito de ousadia frente ao desconhecido!
E - Daí o seu desejo de dessas aventuras?
E - Mas o senhor partiu de São Paulo no dia
21 de julho de 1674, não é verdade? Consequentemente, gastou três anos em
preparação?
FD - Não se pode imaginar, hoje, as
dificuldades da época. Uma Bandeira, uma responsabilidade imensa! Uma Bandeira
era uma cidade em movimento. Os seres humanos são frágeis diante da natureza e
precisam de alimentos, remédios, agasalhos. Armas, equipamentos! Animais de
carga e de montaria. Os integrantes das expedições precisavam ter em mente,
ainda, os objetivos da missão. Precisavam ter uma decisão pessoal para embarcar
rumo ao desconhecido, sem previsão de regresso fácil e imediato. A única
certeza de que se podia dar aos acompanhantes eram as dificuldades, as
privações, o desconforto, o perigo.
E - Mas os integrantes das bandeiras deviam
ter compensações, pelo menos uma visão de resultados pessoais?
FD - Se não houvesse uma visão de
benefícios pessoais não haveria nenhuma inscrição voluntária. A população
crescia e já não havia mais atividade profissional disponível. A oportunidade
de se conseguir riqueza fácil era a ideia fixa da época na capitania de São
Vicente Havia, ainda, a lenda de ITABERABUÇU - SABARABUÇU, as lendas do
ELDORADO, da famosa lagoa de VAPABUÇU!
E - E o povo acreditava nessas lendas?
FD- Todos acreditavam. Eu mesmo sempre
via, à minha frente, uma montanha de esmeraldas, resplandecente e verde,
luzindo cores e riquezas. O meu sonho compulsivo eram as esmeraldas. Itaberabuçu
significa mesmo montanha grande que resplandece.
E - É SABARABUÇU?
FD - Era a mesma Itaberabuçu, a terra
encantada! Rica em ouro e prata! Civilização milenar! Riquezas espalhadas pelos
regatos, pelas matas, pelas encostas e pelos vales. Terra em forma de paraíso.
E - E VUPUBAÇU?
FD - Ou Vapubuçu! Uma lagoa imensa, com as
margens de prata e pedras preciosas. Uma das maravilhas ocultas da humanidade.
Pisar ao seu redor seria um bem da natureza. Quem não teria construído no seu
ideário uma fantasia de enfrentar o desconhecido para alcançar um paraíso, aqui
mesmo nesta terra?
E - E as inscrições de voluntários foram
aparecendo?
FD - Os capitães e os chefes de grupos eram
convidados. Os voluntários brancos dispunham dos seus bens, das suas posses, armazenando
condições para a longa viagem. Os índios eram obrigados a se incorporarem às
expedições. E havia ainda os negros escravos para os serviços braçais.
E - Os índios eram obrigados a se
incorporarem às expedições?
FD - Os índios aprisionados eram mantidos
para serviços de patrulhamento e de guias. Prestavam bons serviços, conheciam
caminhos e trilhas, sabiam enfrentar animais selvagens, répteis e, além disso,
sabiam caçar. Por isso, aprisionados, domesticados, eram bons companheiros.
E - Índios aprisionados?

E - O senhor sabe que esse objetivo de
prear os habitantes da terra, os donos da terra, é considerado um ato
repulsivo?
FD - Vivíamos o ciclo de prear índios!
E - Tudo são águas passadas, mas as
Américas, cada uma a seu jeito, têm muito que lamentar por isso, não é verdade?
FD - Seria infantilidade pretender ocultar
que o bandeirantismo não se incorpora ao panorama de violência que caracterizou
o apossamento das Américas pelos europeus, pode dizer um historiador de época
futura.
E - O crime foi do tempo e não dos
europeus, poderia dizer hoje, em irônica justificativa.
FD - Talvez tenha razão, embora eu não ter
percebido isso na minha época.
E - Sabe-se nos dias avançados que “o ciclo
do aprisionamento do índio é uma das mais cruéis manchas da história brasileira
e para a qual não há nenhuma desculpa”, como mais tarde disse alguém.
FD - Nunca permiti uma ação corretiva. Sei
que centenas morreram por doença, fome, cansaço nessas expedições. Nenhum índio
na minha companhia foi maltratado.
E - Peço me desculpar por esse desvio de
rota na nossa conversa. Como disse, são águas passadas. Entretanto, o senhor
teve que prestar juramento para assumir o comando da Bandeira?
FD - Sim. Tive que prestar juramento
perante o Capitão-mor da capitania de São Vicente, na saída de São Paulo, no
dia 21 de julho de 1674.
E - Todos os seus auxiliares imediatos
estavam presentes?
FD - Todos eles. Matias Cardoso era meu
imediato. Meu filho Garcia Rodrigues Pais, meu genro Borba Gato, Francisco
Dias, meu sobrinho, demais capitães e frades acompanhantes. Além deles, meu
filho bastardo José Dias. Quarenta brancos e centenas de tupis. Não posso
informar o número certo.
E - Uma grande responsabilidade
embrenhar-se nas matas com tão grande número de pessoas.
FD - A história há de julgar o meu
destemor. A minha equipe de capitães, os peões, os meus bravos soldados
acompanhantes, formavam um só corpo militar, imbuído de princípios e
regulamento quase sempre verbais, prontos para enfrentar situações adversas com
a natureza e mesmo na aplicação de normas internas disciplinares para o bom
relacionamento.
E - E que rumo tomaram?
FD - Como disse, partimos de São Paulo no
dia 21 de julho de 1674, em direção a Taubaté, depois a Guaratinguetá e, na
Mantiqueira, enfrentamos a garganta do Embaú. Era dia após dia, sem descanso e,
como disse, a nossa expedição era uma cidade em movimento. Depois, atingimos
Passa Quatro, Pouso Alto, Caxambu, Baependi, Ingaí para, finalmente, chegar a Ibituruna,
onde permanecemos durante o período das águas.
E - Esse roteiro não foi planejado, não é
verdade?
FD - Sim, não sabíamos o que iríamos
encontrar no trajeto diário. Há pessoas que julgam que fizemos outro itinerário
para chegar a Ibituruna. Mas, para esclarecer melhor esse ponto, pode realmente
ter havido pequenas alterações, mas não havia essas localidades ainda. Nossa
Bandeira foi plantando roças, povoados. Os nomes foram surgindo e não havia
placas demarcadoras dessas localidades por onde nós passávamos. Apenas as
trilhas ficavam.
E - Quanto tempo deve ter gastado nessa
primeira etapa da viagem?
FD - Chegamos a esse local, que chamamos Ibituruna
ou Ibitiruna, uma serra negra, na segunda metade do mês de setembro de 1674.
Gastamos, pois, dois meses de viagens continuadas.
E - Esse primeiro arranchamento tornou-se
histórico?
FD - Sim! Uma paisagem maravilhosa, com a
natureza se abrindo em flores com a chegada da primavera. Aí, nesse local, Ibituruna,
é considerado O MAIS ANTIGO LAR DA PÁTRIA MINEIRA.
E - Hoje, informo ao senhor que o ex-Governador
do Estado de Minas Gerais, no ano de 1974, Rondon Pacheco, prestou-lhe uma
homenagem muito carinhosa. Fixou uma placa e um monumento especialmente
erigidos com os dizeres:
1674 – 1974 – I B I T U R U N A - PRIMEIRO
POVOADO MINEIRO FUNDADO PELA BANDEIRA DE FERNÃO DIAS PAIS – HOMENAGEM DO ESTADO
DE MINAS GERAIS NAS COMEMORAÇÕES DO TRI-CENTENÁRIO DE SUA FUNDAÇÃO – GOVERNO
RONDON PACHECO.
FD - Retorno meu olhar a esse passado
distante, quando ainda estava cheio de entusiasmo pela minha ousada jornada
pelo interior do território do atual estado de Minas Gerais. Relembro Ibituruna,
a serra negra, no meu primeiro pouso, na minha primeira parada para plantação
de roças e construir benfeitorias.
E - Permaneceu em Ibituruna algum tempo?
FD - Permanecemos em Ibituruna
possivelmente seis meses, até que o período de chuvas passasse e as águas dos
rios baixassem um pouco. Aí ficou o corpo da Bandeira, fazendo benfeitorias e
plantando roças. Aí ficaram alguns peões, dando continuidade às benfeitorias e
roças plantadas. Estávamos já a quinhentos quilômetros de São Paulo. Ainda
tínhamos um bom caminho pela frente.
E - Que destino tomou?
FD - Em março de 1675, deixando Ibituruna,
transpusemos o divisor de águas do rio Grande e São Francisco, chegando ao vale
do Paraopeba, - água barrenta – água rasa – descendo até São Pedro do
Paraopeba, hoje Belo Vale.
E - E depois?
FD – Finalmente, nesse período, chegamos a
um lugar que chamamos Sumidouro, hoje, região de Pedro Leopoldo. Nesse local,
procuramos nos estabelecer para pesquisar as redondezas, nas nossas buscas
minerais.
E - No Sumidouro – Pedro Leopoldo –
permaneceu algum tempo mais.
FD - Sim. Aí arranchamos. Aí ficamos por
quase sete, isto é, até por volta de 1680, nas proximidades do rio das Velhas –
Usimií – com tempo para pesquisar a região, atingindo até Ribeirão do Carmo,
com a descoberta dos primeiros sinais de ouro disponível.
E - Foi um longo período. Foi a segunda
pátria da cultura mineira? E as esmeraldas?
FD - Até então não vimos esmeraldas, a não
ser no meu sonho e nos meus propósitos. Trabalhamos muito no Sumidouro, uma
bela região fértil. Achei que podíamos ficar mais tempo nesse local. Foi um
período de observação e de grandes expectativas. Passamos por belos momentos e,
depois, porque não dizer, por trágicos momentos que gostaria de apagar da minha
memória.
E - Sim?

E - A Bandeira já não estava completa nessa
ocasião!
FD - É verdade. Matias Cardoso me comunicou
que estava de retorno a São Paulo. Que fazer? Velho amigo, companheiro, meu
ajudante mais próximo. Tive que concordar. Com ele voltaram os frades. Que
posso fazer? Meus argumentos foram em vão. Posso levar um cavalo ao rio, mas
não posso obrigá-lo a beber. É o destino. Estávamos, nessa ocasião, a dois mil
quilômetros de São Paulo, de acordo com a minha previsão.
E- Em Itacambira houve acontecimentos
relevantes?
FD - Passamos por momentos de indecisão.
Estávamos arranchados, pesquisando minerais pelas cercanias, fazendo
benfeitorias e plantando roças. Surgiram dificuldades pela incompreensão, pela
monotonia, pelo cansaço, pelo desconforto, pela fome. Mataram-se até os
cachorros. Fome generalizada. Nada disso seria surpresa para nós. Mas um grupo
resolveu protestar. Protestar, decidindo retornar para São Paulo,
imediatamente, querendo também levar mantimentos e armas que, para nós, já eram
reduzidas.
E - E a rebelião?
FD - No nosso vocabulário não existe a
palavra rebelião. Desistir? Nunca. Em frente, na busca do nosso objetivo: as
esmeraldas. E sabe o que esse grupo de rebeldes decidiu? Assassinar o chefe da
Bandeira, para não haver impedimentos.
E - Como o senhor ficou sabendo?
FD - Logo, vieram me contar. Decidi,
naquele mesmo momento, que o chefe dessa rebelião seria condenado à morte. E
sabe quem era o chefe da rebelião? O meu próprio filho José Dias Pais. Era
filho bastardo e muito amado. Tive que cumprir o juramento que fiz. Foi a minha
decisão.
E - E depois? Foi uma decisão ou uma condenação?
FD - Quando saí de São Paulo não imaginava
perder nem uma das batalhas. Infelizmente, não posso deixar de confessar que
uma dor profunda e uma tristeza sem fim tomou conta de mim, tomou conta do meu
corpo, do meu coração, dos meus sentimentos mais profundos. Entretanto, perdi
batalhas, mas não saí para perder a guerra. Foi uma decisão irrevogável de um
chefe de uma expedição em desespero. Sei que os companheiros ficaram
estarrecidos, mas cumpri e ordenei o enforcamento.
E - Lamento ter feito o senhor retornar o
pensamento para momentos tão conturbados. Sinto muito!
FD - Todos nós sentimos demais. A minha mão
no cumprimento da decisão foi muito pesada e sentida por todos. O silêncio
pairou como nuvem ameaçadora e ninguém teve mais palavras nesse dia.
E - Compreendo.
FD - Continuamos as nossas pesquisas
minerais pela redondeza. Que fazer? Temos que encontrar novamente a rotina do
trabalho.
E - Mas foram premiados com as primeiras
esmeraldas?
FD - Alguns dias depois, encontramos um
veio de pedras verdes maravilhosas. Não resisti e dei um grito para os
companheiros. Borba Gato deu dois tiros para o alto. Minhas mãos se encheram de
pedras verdes. Um momento de êxtase. Eu sabia! Eu sabia!
E - Que providências?
FD - Catar pedras verdes e colocá-las com
carinho nos nossos embornais. Pedras grandes, brilhantes e pedras pequenas mais
coradas. Tudo tem valor para a nossa glória. Como descrever esse momento?
Cumpria pesquisar mais as cercanias e estender nossas vistas pelo caminho de
volta. Agora sim! Podíamos retornar!
E - E mais? Alegria incontida?
E - Mas era o momento das comemorações!
FD - Claro que sim. Ajuntamos o que pudemos
em sacos especiais. Pedras grandes e pequenas. Dois ou três sacos bem dispostos
nas cargas, em regresso.
E - Finalmente em regresso a São Paulo?
FD - E, no regresso ao lar, os passos são
sempre mais largos. Tínhamos que passar pelo Sumidouro e, dali, seguir nosso
caminho para São Paulo.
E - Foi na chegada à Quinta do Sumidouro
que a febre o pegou?
FD - Era a febre maleita. A “carneirada”
como diziam. Garcia, meu filho muito amado, preparou as beberagens. Nada
aliviava a minha tremedeira e finalmente, não resisti, justamente à vista da
minha Quinta do Sumidouro.
E - Que providências foram tomadas?
FD - Daí pra frente, não posso dizer mais
nada com a precisão das minhas palavras, sempre corretas. Falaram-me em
embalsamamento do meu corpo, à maneira dos índios. Colocado meu corpo em cova
rasa e fogueira por cima. Depois, meu corpo teria sido colocado numa caixa. Não
posso confirmar. Entretanto, ao atravessar o rio das Velhas, a canoa que me
transportava não resistiu ao peso e naufragou. Minhas pedras estavam juntas em
grande peso. Perdemos tudo! Garcia se
pôs em desespero e permaneceu no local por vários dias. Encontrou o saco das
pedras, mas meu corpo, só foi encontrado em local muito abaixo do rio, vários
dias depois, a grande distância.
E - Nesses dias, já no Sumidouro, chega o
fidalgo castelhano. Mas pode dizer alguma coisa sobre esse fidalgo, D. Rodrigo
Castel Blanco?
FD - Não é mais do meu tempo. Chegou junto
a nós, entretanto, esse fidalgo que portava carta da Coroa Portuguesa,
designando-o governador de todas as minas encontradas e por encontrar. Eu teria
me assustado com essa carta. Era um petulante dominador, sei bem. Depois de
todo nosso trabalho e de todo nosso sofrimento!
FD - Sei que Garcia Rodrigues entregou-lhe
todas as pedras verdes que trouxemos de Itacambira, lavrando e transferindo
termo de posse. Sei que também Borba Gato, de temperamento mais agressivo, não
teve a tranquilidade para suportar a petulância desse nobre fidalgo castelhano.
E - E essas pedras verdes chegaram a São
Paulo e a Portugal?
FD - Tenho a certeza de que sim. Não poderia imaginar que tal fato não
ocorresse como coroamento de tanto sacrifício e tanta obstinação.
E - E a qualidade dessas pedras?
FD - Sempre foram pedras lindas, verdes,
reluzentes. Não fiquei sabendo o destino delas.
E - Eram esmeraldas?
FD - Para mim, sempre foram esmeraldas da
melhor qualidade e pureza, pelo seu brilho e pelo seu esplendor. Aos meus olhos
sempre foram esmeraldas e ainda as vejo luzindo, ofuscando meus olhos.
E - Esmeraldas ou turmalinas?
FD - Todas verdes e maravilhosas,
ostentando a beleza escondida no seio da terra brasileira, no mais recôndito do
seu ser. Para mim, sempre foram esmeraldas!
E - Que sejam esmeraldas ou turmalinas, não
importa. E Borba Gato se desentendeu com D. Rodrigo? Ficou sabendo?
E - O senhor deve ter falecido com 73 anos
de idade, no ano de 1681, pois nasceu em 1608?
FD - É verdade. Com todas as dificuldades
da vida rústica e precária, tive uma vida de trabalho durante setenta e três
anos.
E - Sinto muito por esses acontecimentos. Consta,
entretanto, que seus restos mortais estão depositados no mosteiro de São Bento,
em São Paulo?
FD - Nada posso confirmar. Seria bom que a
lápide conjugada com minha esposa Maria Garcia Rodrigues Betim estivesse junto
a mim e disponível para a recordação dos meus feitos e da minha disposição para
novas descobertas minerais. Por sete anos vivemos distantes um do outro. Talvez
seja apenas um gesto de carinho dos meus conterrâneos paulistas, colocando-nos
juntos no descanso eterno.
E - Finalmente, agradecendo a franqueza e a
sinceridade de suas palavras, que mensagem gostaria de transmitir a seus
conterrâneos paulistas?
FD - Para eles, uma pequena palavra
bastaria: honrei as tradições do meu
povo pela bravura e pela obstinação! Deixo uma palavra de agradecimento por
terem acreditado em mim para uma expedição memorável pelas matas, pelas
montanhas e pelos rios do sertão desconhecido, que durou sete anos. Agradeço as
providências do meu irmão Padre João Leite, intercedendo junto às autoridades a
favor da minha esposa Maria Rodrigues Garcia Betim, empobrecida pela minha
coragem e ousadia desvairada. Não posso deixar de abençoar a estrada BR Fernão
Dias, assim denominada em minha homenagem, pelo meu primeiro percurso. Meus
olhos se voltam para o seu grande destino, facilitando os viajantes, os
bandeirantes da modernidade.
E - E para os povoados, vilas e cidades
fundadas pela sua Bandeira? São agrupamentos de seres humanos que têm a sua
paternidade!
FD - Sei que meu filho Garcia Rodrigues foi
sempre prestigiado pelos mineiros. E ele prestou serviços ao estado de Minas
Gerais traçando os rumos do CAMINHO NOVO, constituindo hoje a Estrada Real. Sei
que achou ouro e teve prosperidade e consideração especial na região de
Pitangui. Sei que Borba Gato sempre foi estimado e considerado em Sabará. Sei
que achou muito ouro e teve vida próspera. Lanço o meu olhar com um leve
sorriso de aprovação. Vejo-os em abraço fraterno, vigilantes seguros dos
destinos dos velhos povoados, hoje tão prósperos e hospitaleiros. Tenho as maiores
recordações da minha Quinta do Sumidouro. Finalmente, tenho a certeza hoje de
que o nosso sacrifício não foi em vão! As esmeraldas verdes transformam em
campos floridos de grupamentos humanos!
E – Agradecemos as suas palavras e esses
ensinamentos para reflexão.Expressamos os sentimentos mais puros em
reconhecimento pela participação no desbravamento do sertão brasileiro. Nas
terras de Minas Gerais seu nome está ligado a esmeraldas e esmeraldas, a Fernão
Dias Pais.
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