No imaginário do povo brasileiro reina a musa, a bela Marília de Dirceu, Maria Doroteia Joaquina de Seixas, em toda a sua plenitude de inspiração poética.
Apresentação
Marília de Dirceu tornou-se o mito amoroso
literário do Brasil, pelo seu ardente e frustrado amor, dedicado ao poeta e
jurista português, Ouvidor da Corte, Tomás Antônio Gonzaga, que a retratou nas
suas liras, imortalizando-a, como o fez Petrarca a Laura e Dante Alighieri a
Beatriz. Três musas imortais!

Mas nem tudo são flores! O vento da
desgraça ululante passa, interrompendo as juras de amor eterno e arrastando os
sentimentos mais puros para os caminhos do infortúnio, do desespero, da
separação repentina. O noivo foi envolvido
no movimento libertário da Inconfidência Mineira, sendo logo preso, algemado e
conduzido acorrentado para o Rio de Janeiro, apesar de ser amigo do então
governador da capitania. Visconde de Barbacena. Preso incomunicável, oito dias
antes das bodas! Gonzaga permaneceu três anos na prisão e foi condenado ao
degredo na África para sempre.
Nunca mais mandou um versinho sequer para a
sua Marília tão amada, que viveu o infortúnio amoroso na mesma terra que a viu
nascer e morrer, já octogenária, esperando ainda, pelo eterno noivado, qual
Penélope esperando Ulisses!
Nesta noite silenciosa e triste de Ouro
Preto, invocamos a presença da bela Marília para uma entrevista virtual. Nada
poderia ser mais pungente para ela que reviver os belos dias de adolescente,
mas, mesmo assim, teve tranquilidade suficiente para reafirmar o inesquecível
amor ao poeta Gonzaga.
Estas foram as suas palavras.
Entrevistador - Saúdo e reverencio a bela
Marilia de Dirceu, musa inspiradora do grande poeta da Inconfidência Mineira,
Tomás Antônio Gonzaga! Podemos conversar um pouco?
Marília de Dirceu - No meu recolhimento
espontâneo, sinto-me tímida e constrangida, tanto agora como sempre fui. Peço
me desculpar por essas falhas, justificadas pela minha reclusão e pelo meu
sofrimento tão duradouro.
Entrevistador - Compreendo a sua reclusão.
Compreendo e imagino o seu sofrimento. Entretanto, na nossa conversa serena e
simples, não me proponho a ferir mais seu coração tão angustiado, com assuntos
do passado longínquo.
Marília de Dirceu - Agradeço a
consideração. Mesmo assim, nem o tempo pode apagar totalmente tantas
recordações de ardente amor, de desesperado amor, de amor impossível.
E - Realmente! Nem você, nem seu noivo, o poeta, Gonzaga,
nem o povo mineiro ou brasileiro puderam deixar de acompanhar e de sentir o desenlace
de seu romance, vitimado pela tragédia da Inconfidência Mineira. Por isso
mesmo, você é considerada como o primeiro mito amoroso literário do Brasil.
MD - Bem sei. Minha vida infortunada
começou cedo. Perdi a minha mãe quando era uma menina ainda. Ela morreu jovem.
Tínhamos o mesmo nome, Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Eu e meus quatro
irmãos passamos a residir com meu avô, tenente-general Bernardo da Silva
Ferrão. Depois, com meu tio muito amado, de alta patente militar, João Carlos
Xavier da Silva Ferrão e com minhas tias.
E - E o seu pai?
MD - Meu pai, Baltazar Mayrink, amargurado,
fechou-se nas suas fazendas de Itaverava.
E - Uma infância sofrida e atribulada!
MD - Sim! Apesar dessas primeiras
infelicidades, o meu novo lar foi sempre cheio de carinho e compreensões. A
educação esmerada dos meus familiares maternos moldou o meu caráter. Essa e a
maior riqueza que pude possuir.
E - Frequentou escolas?
MD - Só participei de cursos domésticos ou
maternais em Vila Rica, para alfabetização, cálculos elementares e instrução
cristã. Até meados do século XVIII, não havia, na capitania de Minas nenhuma
escola de qualquer nível, para moças. Eram proibidas por ordem da Coroa
Portuguesa. Só o seminário. O analfabetismo era generalizado. Em 1750 foi
fundado o Seminário Nossa Senhora da Boa Morte, em Mariana, pelas diligências
do frei Manuel da Cruz. Mais tarde foram implantados os colégios jesuítas.
E - Mas possui outras riquezas, além de sua
doce beleza física, do seu caráter, e de sua sensibilidade afetiva: o amor
enlouquecido despertado no jurista e poeta Tomás Antônio Gonzaga.
MD - São riquezas que se esvaíram muito
cedo. Encontrei o meu noivo, pela primeira vez, quando eu era adolescente
ainda. Ele era Ouvidor da Coroa em Vila Rica. Minha família fazia objeções a
esse namoro, principalmente pela diferença de idade entre nós. Ele já tinha
quarenta anos.
E - Mas o poeta era um homem disputado na
capitania, pela sua posição social, pelo cargo que exercia e pela sua
elegância.
MD - Ele era realmente uma pessoa de rara
sensibilidade, educado e graduado em Leis, pela Universidade de Coimbra em
Portugal. Era português, nascido na cidade do Porto, em 1744, filho de pai
brasileiro. Era um hábil poeta. Encantou-se por mim e passamos a ter
relacionamento afetivo e literário, por quase quatro anos.
E – Afetivo e literário?

E - Ele mudou seu nome para Marília?
MD - Sim. Era uma norma do movimento
literário da época, o Arcadismo. O termo tem origem grega. Uma região da
Grécia. Designava uma sociedade literária típica da última fase do Classicismo.
Os membros da Arcádia adotavam pseudônimos poéticos pastoris, em referência à
vida simples dos pastores, em comunhão constante com a natureza.
E - Que época?
MD - Esse movimento literário teve início
em 1768, com a publicação de OBRAS POÉTICAS, de Cláudio Manuel da Costa, em
Vila Rica. O seu término está considerado como ocorrido com o advento da obra
de Gonçalves de Magalhães, SUSPIROS POÉTICOS E SAUDADES, em 1836. Não há
registros oficiais desse movimento, mas Ouro Preto era a cidade mais importante
do Brasil, naquela época.
E - E as liras de Tomás Antônio Gonzaga,
seu noivo, todas dedicadas a você, Marília, já dão o primeiro passo para o
Romantismo. Não é verdade? Falam da supervalorização do amor e na idealização
da mulher, como mito. Amor constante e obstinado.
MD - Eu não poderia interpretar essas
características estéticas de movimentos literários, porque vivia um romance
envolvente na época.
E - Esse romance envolvente caracteriza um
pré-romantismo, com características transitórias. Mas isso não tem importância
senão para os especialistas. Então, como namoravam?
MD - Os encontros eram raros. Somente nas
missas, nas festas religiosas, solenidades sociais. Nada mais. Ah, sim!
Conversávamos pelas nossas janelas, em gestos, sorrisos, beijos distantes. Tínhamos
os lenços brancos em código. Era o nosso romance, a continuidade do amor de
minha primavera misteriosa. Era feliz! Era amada! Era louvada!
E - Conversavam com os lenços brancos?
MD - Pode parecer estranho nos dias de
hoje, com outras percepções e formas de amar. Mas nossos lenços traduziam
nossos sentimentos. Nossas mensagens, interpretadas com fidelidade. Quando
encontrávamos, fazíamos outros propósitos amorosos.
E -
Havia, pois, muito derretimento amoroso, amor-adoração, “melosidade” nas
liras, erotismo dengoso e açucarado do bucolismo do poeta?
MD - É verdade. Suas liras eram unânimes em
confirmar tudo isso. Sua obra contém 79 liras, 16 sonetos 2 odes e 2 poemas
especiais. A primeira fase foi escrita em Vila Rica, com 33 liras. A segunda
foi escrita na prisão, com 38. A terceira são 8 liras e mais os sonetos e odes,
também escritas na prisão. Não escreveu no degredo.
E - O poeta era um noivo apaixonado?
MD - Ele era decididamente uma pessoa que
desejava o lar, a vida tranquila e bucólica. Escreveu sobre isso muitas vezes.
Assim: “Lerás em alta voz a imagem bela! Eu vendo que lhe dás o justo apreço,
gostoso tornarei a ler de novo o cansado processo.”
MD - Tudo preparado para o nosso casamento.
Nada podia faltar, inclusive o meu vestido de noiva, que ele mesmo ajudou a
bordar. Ele era paciente, hábil.
E - E ele também bordava?
MD - Sim. Os nossos lenços eram bordados
por ele, também.
E - Sim! Mas por que não se casaram?
MD - Ele foi preso, implicado no movimento
libertário da Inconfidência Mineira, oito dias antes do dia marcado para as
bodas. Foi preso, encarcerado, incomunicável e transferido para o Rio de
Janeiro, acorrentado, apesar de ser amigo do governador Visconde de Barbacena. Ficaram para mim as suas doces palavras: “Eu
tenho um coração maior que o mundo! Tu, formosa Marília, bem o sabes. Um
coração e basta onde tu mesma cabes!”
E - E nunca mais o viu?
MD - Nunca mais o vi. O meu coração partido
e as minhas lágrimas foram insuficientes.
E - E os seus familiares eram pessoas de
influência política na capitania. Podiam interceder por ele.
MD - Meus tios eram militares a serviço do
governador e da Coroa. Não poderiam interceder por um traidor, por um
conspirador. Os bens de todos os inconfidentes foram imediatamente confiscados.
Quem se envolvesse era cúmplice. Tudo um desastre completo. A prisão inopinada
de todos os conjurados, com o confisco imediato dos seus bens. A devassa com
todos os seus rigores! A morte horrível do inconfidente Cláudio Manuel da Costa,
ocorrida na prisão! A condução dos presos para o Rio de Janeiro, algemados e
acorrentados. As imundas prisões! A execução espetaculosa de Tiradentes, alguns
anos depois. O esquartejamento em praça pública! Um alto poste erguido com a
cabeça de Tiradentes em praça pública de Vila Rica! O arrasamento de sua casa,
para que nada nela jamais pudesse germinar! O sadismo exacerbado, as calúnias,
as perseguições políticas, as denúncias oferecidas para granjear a simpatia do
governador! Tudo um desastre. E o meu amor
seria a menor parte dessas desgraças todas! Minha vida também corria perigo. A
ordem geral era mesmo o recolhimento e o silêncio.
E - E ele? E Gonzaga?
MD - Ele sofreu as mesmas angústias no
cárcere! A saudade, as dúvidas, as queixas, as lembranças do tempo passado na
bucólica terra fértil, de ovelhas brancas, do puro leite e da fina lã. Suas
esperanças ilusórias. Os interrogatórios. A vil traição. Disse, pois: “Não são
as honras que perco quem motiva a minha dor; mas sim, ver que o meu amor este
fim havia de ter. Ausente de ti, Marília, que farei? Irei morrer?”
MD - Nenhuma esperança! Meus familiares
previam o desfecho da tragédia e não escondiam nada de mim. Acompanhei, passo a
passo, todo o desenrolar dos acontecimentos. Tive notícia de que ele seria
condenado à forca. Como eu poderia ter um pensamento de alguma felicidade a
encontrar nesta vida? Depois, houve a comutação da pena. Foi condenado ao
degredo perpétuo na África. Eu era realmente, nesse momento, uma noiva
desesperançada.
E - Lembrava-se das conversas com os lenços
brancos, das janelas?
MD - Guardei os meus lenços brancos,
lavados e engomados, numa pequena caixa toda bordada de borboletas azuis.
Deixei-a perto da minha cabeceira e ao me deitar, abria cada um deles, absorvia
o seu perfume e, suavemente surgia à minha frente a imagem dele, com o seu
sorriso de sempre, trazendo uma nova lira dedicada a Marília de Dirceu. Dobrava
novamente cada lenço, conversando com eles. Colocava-os de novo na caixa
bordada. Fechava-a cuidadosamente, e sentia que as lágrimas desciam lentamente.
Nunca chorei. Era sempre um pranto silencioso, abafado. Meu mundo passou a ser
isso. Suas palavras, ainda: “Leu-me enfim a sentença pela desgraça formada.
Adeus, Marília adorada, vil desterro vou sofrer. Ausente de ti, Marília, que
farei? Irei sofrer!”
E - Era uma paixão muito forte! Compreendo
os seus momentos de desespero e de impossibilidade de reação. Era uma paixão de
uma adolescente! Era uma paixão arrasadora!
MD - No princípio do nosso namoro, eu
fiquei apenas enlevada com a sedução de uma pessoa tão importante no cenário
jurídico e político da capitania.
Depois, fui me envolvendo. Finalmente, antes do desenlace, o amor me trouxe
à realidade. Senti então que estava mesmo dentro de um momento de total
felicidade, encontrando um homem a quem poderia entregar a minha vida por
inteiro, que poderia desfalecer em seus braços. Seria amada e desejada por toda
uma existência. Infelizmente, as portas do destino se abriram para outros
itinerários. Não tive o direito de ser feliz.
E - A felicidade passou à sua porta apenas
uma vez?
MD - As marcas de uma paixão não se
desfazem com um simples estalar de dedos. Um sentimento guardado
silenciosamente é mais difícil de ser calcado para o fundo do
inconsciente. Por mais amores que
pudesse ter tido nesta vida, nenhum seria o amargurado primeiro amor.
E - A senhora teve uma vida de reclusão,
mas foi uma vida confortável e privilegiada na sociedade da época!
MD - Vivi confortavelmente meus oitenta e
seis anos como se fosse uma menina de dezessete, pois nasci em 4 de outubro do
ano de 1767. Hoje, ainda brinco de bonecas! Guardo pequenos bordados, lenços
brancos. Tudo por compulsão. Um pedaço de pano branco? Posso bordá-lo com uns
peixinhos do mar. Para quê? Nem eu mesma sei.
Será que meus últimos suspiros foram pensando nele? Talvez ele tivesse
outras formas, outros espectros para avivar a minha memória. Nem posso afirmar
que o tenha visto nos meus momentos finais, ao se apagarem as minhas luzes.
E - E no degredo, em Moçambique? Nem mais
uma palavra do sempre noivo e poeta Gonzaga?
MD - Nenhuma palavra me chegou aos ouvidos.
Nenhuma mensagem de alegria ou de dor. Ele deve ter tido uma vida afortunada em
Moçambique!
E - Quando na prisão, consta que ele propôs
que a senhora o acompanhasse para a África, no degredo! Um casamento?
MD - Uma proposta que nunca chegou até mim.
Será que eu mesma teria condições de me decidir a ir para a África? Será que o
convite não foi apenas uma formalidade poética? Nossos caminhos se desviaram
infelizmente. Que me resta? Fiz testamento de próprio punho, para impedir
outras destinações para meus bens. Ainda vivi alguns anos depois. Finalmente,
em 1853, me despedi da minha terra, do meu lar, do meu eterno noivado.
E - Gonzaga morreu em Moçambique
possivelmente em 1810. Consta que ele tinha se casado com uma mulata
analfabeta, filha de um rico comerciante português, Na época desse casamento,
ele tinha 49 anos de idade e ela apenas 19. Imagino que possam ter tido uma
vida pelo menos abastada.
MD - São informações vãs e frágeis para
poder destruir o império de recordações, amargas e doces, de minha juventude.
Mas, na vida não há passagem de retorno. Em vão, penso reviver o amor ardente.
Impossível! Nem os dedos das minhas mãos me obedecem para fazer uma simples
carícia, naquele rosto lindo, nas suaves expressões faciais de ternura infinda.
Como posso dizer adeus à vida, sem ter realizado um simples sonho de
adolescente? Minhas mãos estão trêmulas e o ar que respiro não aplaca os meus
suspiros. Infelizmente, tenho que dizer adeus, assim mesmo. Digo, finalmente,
para os jovens amantes, que aproveitem a vida como se os dias que passam fossem
os últimos de sua vida. Cada dia deve ser vivido como se fosse realmente o último.
Depois disso, vem a desesperança. Inevitavelmente! Essa é a grande trapaça
desta vida! Desculpe, tenho que sair!
Não estou suportando a mágoa dessas lembranças.
E - Perdão! Antes de nossas despedidas,
gostaria de perguntar se a senhora teve conhecimento de tantos poetas que
escreveram sobre a doce Marília?
MD - Sei, sim. Tantos e tantos. Outros
tantos ainda virão. Recolho todos esses fragmentos de inspiração poética e
guardo-os no meu casto e branco seio.
E - Lembra-se do poeta Bueno de Rivera?
MD - Sim! Impossível esquecê-lo! A minha
emoção está sufocada. Tudo é passado! Passei a minha vida, quase toda,
procurando o aroma das brisas nos campos floridos, cheios de ovelhas brancas.
E - Há dois séculos a mão paciente borda o
inacabado vestido de noiva! Borda com enlevo rosas no ombro, borda açucenas
vivas no colo. Borda um colar de anjos na gola. Borda cirandas na barra da
saia. Borda coroas de abelhas nos punhos. Borda na manga um peixe voando. Borda
uma ave de ouro no umbigo. Borda uma lira no bico do seio. Borda nas costas um
campo de trigo.
Os dias se enrolam como carretéis. Se
desenrolam de novo, de novo se enrolam, A agulha de prata segue no tempo
bordando, bordando na casa da amada, na ponte em suspiros, no vil calabouço,
nas terras da África, na morte no exílio.

MD - Volto meus olhos ao poeta mineiro em
sublime agradecimento pela minha memória, dois séculos passados! Meu longo
vestido do eterno noivado!
E - E Cecília Meireles:
Este é o lenço de Marília, pelas suas mãos
bordado, nem a ouro nem a prata, somente a ponto cruzado. Este é o lenço de
Marília para o amado. Em cada ponta, um raminho, preso num laço encarnado, no
meio, um cesto de flores, por dois pombos transportado. Não flores de
amor-perfeito, mas de malogrado!
MD - Um belo poema que não tive
oportunidade de conhecer em vida. Agora, sinto-me ainda constrangida, tímida e
cansada de tudo.
E - Não pretendemos estender o seu sofrimento
com tantas recordações. Agradecemos as suas sentidas e amarguradas palavras. Os
nossos agradecimentos. Entretanto, neste final, todos ficam esperando as suas
despedidas, Marília, sempre bela e sempre amada!
Marília de Dirceu - Meu olhar vagueia pelas
montanhas abruptas das cercanias e pelo vasto campo onde pastoreiam as minhas
ovelhas, ainda hoje. Adeus campos
floridos! Adeus amores perdidos nas brumas do tempo! Adeus terra que me viu
nascer e morrer! Parti desta vida, mas pairo abençoando os corações enamorados,
por onde quer que se encontrem. Adeus!
Entrevistador - Esta é a musa brasileira!
TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA
Tomás Antônio Gonzaga, ouvidor da Coroa
Portuguesa em Ouro Preto, nasceu na cidade do Porto – Portugal, em 1744. Era
graduado em Direito pela Universidade de Coimbra. Vindo para Ouro Preto,
enamorou-se de Maria Doroteia Joaquina de Seixas, escrevendo todas as suas
liras em seu louvor, transformada em Marília de Dirceu. Com ela iria se casar,
mas foi preso, envolvido no movimento libertário da Inconfidência Mineira, oito
dias antes das bodas. Foi levado acorrentado pra o Rio de Janeiro, onde ficou
preso por três anos e depois do julgamento, foi deportado para a África, onde
ficou até a sua morte, sem nunca mais ter visto a sua amada noiva.
Suas liras são divididas em três partes: a
primeira, escrita em Ouro Preto. A segunda e a terceira durante a prisão. Aqui
está uma das suas últimas liras.
A UMA DESPEDIDA
PARTE III
Chegou-se o dia mais triste
Que o dia da morte feia;
Caí do trono, Dircéia,
Do trono dos braços teus.
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
Ímpio fado, que não pôde
Os doces laços quebrar-me
Por vingança quer levar-me
Distante dos olhos teus.
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
Parto, enfim e vou sem ver-te,
Que neste fatal instante
Há de ser o teu semblante
Mui funesto aos olhos meus.
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
E crês, Dircéia, que devem
Ver meus olhos penduradas
Tristes lágrimas salgadas
Correrem dos olhos teus?
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
De teus olhos engraçados,
Que puderam, piedosos,
De tristes em venturosos
Converter os dias meus.
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
Desses teus olhos divinos,
Que, ternos e sossegados,
Enchem de flores os prados
Enchem de luzes os céus?
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
Desses teus olhos, enfim,
Que domam tigres valentes,
Que nem rígidas serpentes
Resistem aos tiros seus?
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
De maneira que seriam
Em não ver-te criminosos,
Enquanto foram ditosos
Agora seriam réus.
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
Parto, enfim, Dircéia bela,
Rasgando os ares cinzentos;
Virão as asas dos ventos
Buscar-te os suspiros meus.
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
Talvez? Dircéia adorada,
Que os duros fados me neguem
A glória de que eles cheguem
Aos ternos ouvidos teus.
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
Mas, se ditosos chegarem,
Pois os solto a teu respeito,
dá-lhes abrigo no peito,
junta-os c´os suspiros teus.
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
E quando tornar a ver-te
Ajuntando rosto a rosto,
Entre os que dermos de gosto,
Restitui-me então os meus.
Ah! Não posso, não, não posso
Dizer-te,
meu bem, adeus!
BIBLIOGRAFIA
GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de
Dirceu.RJ:
Ediouro, RJ, 1997
SANCHEZ, Alexandre. Maria Dorothea, a musa
revelada. Belo Horizonte: Gráfica e Editora Lima Ltda, 2006.
VASCONCELOS, Salomão. A casa de Marília.Belo Horizonte:
revista do IHGMG, n.VII pág. 15
MORICONI, Ítalo. Os cem melhores poemas do
século. Rio de Janeiro: ed. Objetiva,
2001
CARNEIRO,
David. Marília um novo julgamento da inspiradora de Gonzaga. Belo
Horizonte, Imprensa Oficial, 1952
JÚNIOR, Augusto de Lima. O amor infeliz de
Marília de Dirceu. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1998
Fantástico!
ResponderExcluirMaurício Trindade
Que lindo!! Eu ainda não havia encontrado algo da, Marília de Dirceu assim tão original.
ResponderExcluirQueria ter um amor para me fazer feliz e me completar. Aquela sensação que a pessoa, trouxe junto de si, aquele pedacinho de mim que eu nem sabia que estava faltando. Infelizmente ainda ainda não encontrei. Seu texto é lindo. Fiquei com inveja da Marília,
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