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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

ENTREVISTA VIRTUAL COM PADRE EUSTÁQUIO


É o missionário holandês que dedicou sua vida a aliviar o sofrimento dos seus semelhantes, em fervorosas súplicas à Divina Providência. Faleceu em Belo Horizonte, em 1943 e, pelas suas virtudes e pela sua dedicação, deu natural nome a uma região da cidade, onde foi glorificado e sepultado.  Santo Padre Eustáquio foi beatificado pelo papa Bento XVI, em 2005. Seu sepultamento foi trasladado para a Igreja dos Sagrados Corações, que ele iniciou a construir.




Entrevistador -Venerável Padre Eustáquio! Pelos Sagrados Corações, peço, antes de tudo, a sua bênção e a sua proteção.
Padre Eustáquio – Em nome de  Deus, e pela minha Congregação dos Sagrados Corações, será abençoado e protegido.
E – Graças a Deus! Amém!
PE – Graças a Deus!
E – Padre Eustáquio! Sua vida foi uma missão? A entrega de uma vida?
PE – Verdadeiramente, assim é. Quando um sacerdote decide entregar-se por uma causa a favor da humanidade, significa que ele tomou uma decisão para toda a sua vida. É a predominância da fé nos seus objetivos de vida.
E – E o senhor decidiu entregar a sua vida por uma causa de Deus e da humanidade!
PE – Isso mesmo! Eu, por minha vez, decidi a minha missão. O que eu iria prestar em serviços aos meus semelhantes? Foi uma decisão muito pensada e sofrida. Ter que abandonar a minha pátria, meus pais, meus familiares, todos e meus amigos fraternos. Sou de uma família de onze filhos. Eu era o oitavo. Nós nos amávamos muito.
E – E pesou mais a sua vontade de servir a Deus?
PE – Antevi a minha missão, entregando minhas mãos, meu corpo inteiro e, além disso, a minha própria alma, para ajudar pessoas em conflito, onde quer que estivessem.
E – E como surgiu essa força, essa convicção?
PE – Quando jovem estudante na minha pátria, Holanda, caiu em minhas mãos um livro sobre a biografia de um missionário belga da nossa Congregação, Padre Damião Veuster.
E – Sim! E o que tinha de especial esse padre Damião Veuster?
PE – Quando li os relatos do trabalho dele, da abnegação e entrega total â sua missão, houve um abalo no meu peito e eu me curvei fervorosamente.
E – E o que tinha feito o Padre Damião?
PE – Tão pouco aos olhos de muitos, ajudando pobres miseráveis, sem destino, que talvez não tivessem nenhum valor, sob o ponto de vista dos poderosos.  Tinha para Deus. Padre Damião seguiu por um caminho que o levaria à santidade. O missionário belga se entrega em ajudar uma população enferma na ilha do Havaí. Na época, um reinado carente, com alto índice de enfermidades, desde gripe à sífilis contraída ou hereditária, até a lepra.
E – E padre Damião entrou como voluntário?
PE – Nesse reinado, por comando das autoridades, os leprosos foram isolados numa ilha afastada, ilha de Molokai. Mais de 600 pessoas em estado de desespero. E famintas. Ilha de Molokai. O Havaí é hoje uma unidade incorporada aos EUA mas, na época, predominavam as enfermidades e o abandono.
E – Foram isolados, numa ilha afastada?
PE – A Royal Board of Health fornecia alimentos, mas não tinha condições de fornecer também medicamentos. Uma infelicidade generalizada. Todos condenados.
E – E Padre Damião? 
PE – Em 1865, foi colocado em missão na ilha do Havaí. O Monsenhor Louis Maigret, vigário apostólico, que protegia os leprosos, designou Padre Damião para assistir esses leprosos com os sagrados sacramentos e com os atos religiosos. Uma população segregada. Damião sabia que tal designação seria uma sentença de morte para ele.  Depois de muito pensar, Damião solicitou a sua designação para servir a Deus nessa ilha de Molokai.
E – E Padre Damião seguiu para Molokai?
PE – Damião chegou à ilha em 1873 e foi apresentado pelo Monsenhor Maigret como um pai para todos os moradores - “viverá e morrerá com vocês”. Isso foi. Damião assumiu essa paternidade total. Trabalhar sem saber por onde começar. Abriu tantas frentes de trabalho que nem imaginava resultados. Passou a construir um pequeno hospital, com a colaboração de um médico que tinha contraído a doença e se refugiou na ilha. Logo depois, uma capela, com a ajuda das mãos feridas dos leprosos. Uma  população revoltada. Nada podia ser diferente. Era uma população agressiva que matava por um punhado de arroz. Paz, apaziguar e manter clima de harmonia em princípio. Assim, incorporou a figura de pai, amigo, confidente, professor e representante de Deus. Foi realmente um pai para todos. Tornou-se mesmo mais que um pai e um irmão, procurando amenizar o sofrimento tanto quanto possível.
E – E aí morreu?
PE – Sim... mas antes disso, recebeu do Rei Kalakaua, do reino do Havaí, o título honorífico de Cavaleiro Comandante da Real Ordem. E, no dia que a Princesa Lydia Lili´uckalarti visitou a ilha para entrega da comenda, ela se comoveu tanto que não conseguiu ler o seu discurso. Padre Damião nunca usou essa medalha recebida.
E – Houve reconhecimento quanto ao seu trabalho?
PE – Sim... Nos EUA e na Europa – Hoje tem o título de Patrono Espiritual dos Leprosos do mundo inteiro. Era Jozef de Veuster, da Congregação dos Sagrados Corações, nascido em Tremelo, Bélgica, em 1840.
E – Um santo?
PE – Sim... Um santo. Dez anos depois de chegar a Molokai, num dia, colocou os pés numa bacia de água fervente. Nada percebeu. Foi constatada a contaminação da lepra. Ainda viveu por mais algum tempo sem abandonar a sua missão... Faleceu em 1889, nessa mesma ilha de Molokai. Era um missionário da minha Congregação, que tanto me emocionou e inspirou.   
E – Padre Damião foi assim admirado pelo senhor?
PE – Tornou-se meu ídolo inspirador. Tomei a decisão na minha vida, aliviar enfermidades e propor paz e harmonia entre as pessoas. Meu lema seria SAÚDE E PAZ. Vi que eu também poderia prestar algum serviço à humanidade. Qualquer pequena ajuda. Vi quão pequeno eu era diante do Padre Damião, diante da sua força e diante da sua convicção. Eu não era nada.
E – E o senhor era um jovem estudante na Holanda, nessa época.
PE – Eu era Humberto Lieshout, nascido em 1890, em Aarle Rixtel, Holanda. Iniciei o noviciado canônico em Tremelo, na Bélgica. Nessa época, adotei o nome de Eustáquio. Fiz votos de pobreza, castidade e obediência, como religioso da Congregação dos Sagrados Corações. Fiz votos perpétuos em 1919, após cursar Filosofia e Teologia na congregação e fui ordenado sacerdote.
E – Aí começa a sua vida sacerdotal?
PE – Sim. Inicialmente, comecei a prestar serviços em pequenas comunidades na região de Roterdam. Depois, atendendo refugiados belgas, vítimas do final da Primeira Grande Guerra de 1914/1918, até que fui designado para trabalhos na América do Sul.
E – E finalmente, o Brasil?
PE – Em 1925, chegamos ao Brasil. Éramos três sacerdotes, eu e os Padres Gil van den Boorgart e Padre Matias van Rooy. Dirigimo-nos a cidade de Uberaba, em Minas Gerais, a convite do Bispo Dom Antônio de Almeida Lustosa. Assumimos a pastoral do santuário episcopal e das paróquias de Nossa Senhora da Abadia, na cidade de Romaria da paróquia de São Miguel de Nova Ponte e Santana de Indianópolis, todas da Arquidiocese de Uberaba. Fiquei como vigário paroquial com prioridade para os serviços de atendimento às comunidades da região.
E – Uma comunidade rural de modestas aspirações?
PE – Uma comunidade afetiva e acolhedora. Aprendi muito e tive que me adaptar às circunstâncias. A atividade pastoral em Romaria, no início foi muito difícil. Pouco a pouco fomos nos acertando. Talvez uma descrença generalizada. Visitava os enfermos e pessoas que podiam me acolher com simpatia. Distribuímos fé e amor a Deus. Se as pessoas não vinham a mim eu iria a elas. Consegui mais do que esperava e reuni esforços em várias comunidades distantes. Montava a cavalo e viajava por todos os lados. Tive sucesso. Prestei alivio a pessoas em conflito físico e espiritual. Tudo era distante e as comunicações eram precárias.
E – Consta que o senhor era ágil, dinâmico e acolhedor. Atendia até mordida de cobra?
PE – Isto aconteceu. Comunidade rural, sem médicos ou medicamentos. Estava eu, cavando um local a procura de areia especial para algum aproveitamento a dores, quando fui chamado para dar os últimos sacramentos a um rapaz da região que tinha sido mordido por uma cobra e estava em estado terminal. Peguei o cavalo e fui disparado para o local. Manoel estava sem ar, perna roxa, suando frio, praticamente sem consciência. Lembro-me bem! Pedi que todos se afastassem do quarto. Tirei um bisturi da minha bolsa de couro e fiz um incisão no local da marca dos dentes da cobra. Perna roxa e inchada. Jorrou um sangue preto. Limpamos tudo. Coloquei minha boca nesse local e aspirei uma boa quantidade de sangue. Manoel, um belo rapaz, foi salvo, graças à vontade de Deus.
E – Mas o senhor já tinha dado bênçãos milagrosas a outros paroquianos em dificuldades e doenças.
PE – Sempre procurei atender e pedir a Deus por eles. Muitas vezes fui atendido.
E – Mesmo assim, depois de tanto trabalho, a Congregação aceitou a sua transferência para a cidade de Poá, em São Paulo.
PE – Meu voto de obediência exigia esse caminho diferenciado. Mas a população de Romaria não permitiu. Tudo fez para impedir a minha saída. Até o bloqueio de estrada de acesso. Finalmente, uma festa de despedida. E o caso de um crime abalou a cidade. Saí discretamente mas deixando a população entristecida, sei disso.
E – E o que encontrou em Poá?
PE – Tudo diferente. Uma paróquia nova, grande e confortável. Comunicação rápida. Tudo diferente em termos, pois a população era sofrida pelo trabalho nas indústrias e como hortigranjeiros. Atendia de forma diferenciada. Comecei a visitar enfermos e pessoas em dificuldades. Houve, em pouco tempo, uma procura desproporcional às minhas possibilidades de atendimento, principalmente pela água milagrosa que eu trouxera da cidade de Lourdes - França. Depois, pela fonte construída em homenagem a Lourdes. Houve curas a meu pedido. Houve distúrbio e pessoas de outras regiões acorriam às minhas bênçãos e ao meu atendimento. As autoridades eclesiásticas não queriam isso. Obrigaram-me ao recolhimento. Impediram que eu aparecesse para os paroquianos. Tudo tão estranho e desconfortável para mim. Isso fez com que pedissem meu afastamento. Passei um tempo de desconforto e de humilhação. Estava mesmo em desespero. Por que Deus me daria esse castigo? Meditei, viajei, sofri em desamparo. Talvez me afastar do país? Portugal me acolheria? Finalmente, fiz uma carta a meu amigo, Dom José Gaspar de Affonseca e Silva, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, relatando meu estado de desespero e humilhação e disposto a continuar o exercício paroquial em qualquer outra comunidade do estado de modo como ele julgasse apropriado. Dom Gaspar respondeu que seria inviável a minha permanência no estado, para evitar aglomerações e atividades que poderiam ocasionar até advertências do Sumo Pontífice e coisas assim. Estaria eu livre para ir para onde quisesse.
E – Era manifestação das autoridades eclesiásticas e não as do povo.
PE – Sim, mas o povo era a causa. Pensei que pudesse ser até uma contradição entre as autoridades que buscam o povo e depois, tenta afastá-lo.
E – E o senhor?
PE – Meu voto de obediência foi preservado. Procurei caminhos. Todos se fecharam. Eu era então um sacerdote rejeitado. Que fazer da minha vida? Por que Deus me deu um poder e ao mesmo tempo me tolhe e me angustia? Chegou finalmente a ordem para que eu me afastasse imediatamente, mesmo considerando que era tarde da noite quando recebi a comunicação. Obediência mesmo sem ter tempo de acabar de ler o meu breviário. Assim mesmo.
E – Que decisão?
PE – Que decisão? A quem recorrer? Não podia também prejudicar a imagem da minha Congregação. E meus amigos? Apareceu o Padre Gil. Confabulamos e traçamos planos em várias tentativas de acerto. Mais erros e decepções. Finalmente, uma luz. Padre Gil articulou-se com o Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral e me foi oferecida uma paróquia de subúrbio da cidade, ao redor de um hospital de tuberculosos, o Sanatório Alberto Cavalcanti.  Uma capela distante, de difícil acesso num bairro despovoado. Além de tudo com uma lista de recomendações. Aceitei tudo de pleno coração. Encontrei-me em casa.
E – Nova vida?
PE – Assim foi. Iniciei minhas atividades em Belo Horizonte, em 9 de abril de 1942,  e agi de acordo com as circunstâncias. Aos poucos fui crescendo e a comunidade foi chegando a mim. E foi chegando tão inesperadamente que alguns meses depois, Dom Cabral me pediu que esquecesse daquelas recomendações que tinha feito.
E – O povo acolhia as suas bênçãos!
PE – Sim... Vinham pessoas de várias regiões, inclusive de São Paulo mesmo. Assim foi, até que o atual prefeito da cidade, doutor Juscelino Kubitschek de Oliveira doou um terreno para a construção da Igreja dos Sagrados Corações. A pedra fundamental foi abençoada pelo próprio Dom Cabral, em 16 de maio de 1943.
E – Missão interminável?
PE – Percorria as ruas a pé, pelas trilhas e pelas montanhas da cidade, onde quer que os enfermos se encontrassem, até que em meados do mês de agosto, o enfermo fui eu mesmo. Não havia medicamentos para a febre tifo que tinha contraído e esperei com ansiedade o meu fim. Queria tanto despedir-me do meu amigo e confrade, padre Gil. Ele custou a aparecer. Quando ele surgiu na minha porta, em 30 de agosto de 1943, disse-lhe apenas – “Padre Gil, como demorou a chegar!”. E me despedi. Finalmente, me despedi.
E – Uma vida inteira, uma bandeira de Saúde e Paz! Não foram termos abstratos mas traduzidos em ações imediatas e contínuas. Mais ações e menos palavras.
PE – Padre Damião, Santo Padre Damião do Molokai, foi meu conselheiro em todas as horas. Tão pequena e leve foi a minha missão, mas dediquei todo meu esforço em interceder com a Divina Providência, para aliviar o sofrimento físico e espiritual dos meus semelhantes. Nada mais.
E – Novamente, peço a sua bênção, Venerável e Santo Padre Eustáquio! Reafirmo, perante a humanidade, que o senhor teve o dom de trazer alívio e tranquilidade para tantas pessoas que o procuraram, mediante a sua santidade,  e que tantos e silenciosos milagres realizou. O senhor não se referiu nem uma vez, nesta entrevista, a qualquer feito glorioso que tivesse realizado. Tudo guardado no seu coração, como se nada tivesse acontecido. Pelos Sagrados Corações, descanse em paz.


Referências Bibliográficas
Andrade, José Vicente. Venerável Padre Eustáquio. Congregação dos Sagrados Corações. Belo Horizonte, 2004
http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20060615_eustaquio_po.html
http://evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT&module=saintfeast&id=12527&fd=0
http://padreeustaquio.org.br/

domingo, 20 de novembro de 2016

ENTREVISTA VIRTUAL COM O BEATO ANTÔNIO CONSELHEIRO

ANTONIO CONSELHEIRO E SEU MOVIMENTO MESSIÂNICO
A palavra de Deus semeia amor e bondade. Da sua mão decorre o trabalho para a sobrevivência. Nosso povoado sempre procurou obstinadamente a paz e trouxeram-nos a guerra, a destruição, a morte. A alma dos sertanejos, degolados, mortos e insepultos, paira nos céus desta República. 


ENTREVISTADOR – Beato Antônio Conselheiro, louvado seja nosso senhor, Jesus Cristo!
- ANTÔNIO CONSELHEIRO – Para sempre seja louvado, irmão!
E – Senhor Antônio Vicente Mendes Maciel! O senhor chegou a esta aldeia de Canudos, norte do estado da Bahia, portador da desgraça e da destruição?
AC – Prezado amigo! Cheguei a esta comunidade por missão imposta pelo meu Deus, para salvar seu povo, ajudar, trabalhar, ensinar. Tudo para a glória de Deus.
E – E no final, chegou à destruição total do povoado.
AC – Não por minhas mãos, amigo! Nunca saímos como forasteiros a provocar e fazer guerra. A destruição total foi feita, aqui, a Guerra de Canudos, em 1896 e 1897, pelo Exército da República e foi ocasionada pela inveja do nosso desenvolvimento social e econômico. Os pobres famintos chegaram bem perto do paraíso, pelo trabalho e pela organização da comunidade. E pela participação do meu povo.
E – Seu povo?
AC – Passei a considerar a população de Canudos como meu povo, meus amigos, amigos fraternos.
E – Por que essa amizade?
AC – Quando bati às portas desta aldeia, a população me acolheu como um emissário da palavra de Deus.
E – Emissário? O senhor veio de onde?
AC – Vim andando a pé, de pouso em pouso, suportando a fome, a sede, o cansaço, a desesperança. Perdido no espaço e no tempo dos sertões torrados pelo sol e pela seca. Quantos anos tenho andado pelo sertão, levando a palavra de Deus? Nem sei. Talvez tenha sido 10 anos? Talvez, 20? Nunca mais peguei num calendário. Meu guia é o próprio destino.
E – Sim! Mas a sua origem?
AC – Minha terra é Quixeramobim, no Ceará, onde nasci em 1830. Minha família tinha posses, estudei muito. Trabalhei desde jovem. Fui professor e advogado prático, isto é, sem diploma. Atendia meu povo de muitas maneiras. Como professor, ensinava de tudo. De tudo que o povo precisasse. Eu era uma pessoa socialmente ajustada, até que um dia, um desastre, o desmoronamento do meu lar. Meu lar foi desfeito pela traição da minha esposa. Fiquei triste demais, desmoralizado socialmente. Saí pelo mundo, pregando a palavra de Deus, a misericórdia.
E – É um sacerdote?
- AC – Sou um sacerdote de Deus pela liberdade de voluntário, a serviço da salvação da humanidade. Não sou sacerdote de formação. Sempre fiquei ao lado do povo pobre desassistido, abandonado. No sofrimento físico e mental.
E – Voluntário?
AC – Sim, voluntário! Porque não? A palavra de Deus é livre para todos. A mão de Deus está disponível para todos os que veem o caminho do bem, da misericórdia. E mesmo, o caminho da glória na eternidade.
E – E o quê o senhor fazia em Canudos?
AC – Pregava a palavra de Deus, primeiramente. Depois, fazia de tudo. Tudo que fosse preciso. De pedreiro a professor. Ajudava na construção das casas de quem quer que fosse. Na organização da aldeia. Na agricultura, na pecuária. Ensinava nas minhas pregações diárias. Incentivava a preparação para o trabalho. Vim para ajudar a todos e não para pedir ajuda.
E – Ajudava na construção desses casebres, dessas taperas?
AC – Nunca pensamos em construir palácios! Sim, para os pobres tinha que ser uma construção imediata, pequena que fosse. Uma tapera, ou mesmo um esconderijo. Tudo para hoje ou para agora. Um agradecimento à obra de Deus.
E – Mas o senhor mesmo era um pobretão!
AC – Sim! Um pobretão! Isso não significa que fosse um ignorante qualquer. Tinha estudos e sabia alguma coisa sobre organização e orientação do trabalho.
E – E o povoado cresceu?


AC – De forma inesperada! A população aumentou. Além dos forasteiros sem pouso, chegaram milhares de ex-escravos, perdidos e abandonados no sertão, com suas famílias, desalojados das fazendas  dos latifundiários. Libertados da escravidão, mas sem trabalho, sem rumo, sem destino. Tão pobres e miseráveis como todos nós em Canudos. Fugindo da seca. Mas a seca estava em todos os lugares.

E – Seca?
AC - Um período de seca interminável. Canudos estava às margens do rio Vaza Barris e podia sobreviver. Resolvi fundar outro povoado mais produtivo. Dei o nome de Belo Monte, mesmo vendo que estávamos num vale prodigioso. E Canudos não suportava mais tanta gente que todo dia ia chegando.
E – E havia alimentação e moradia para todos esses forasteiros?
AC – Tudo pouco e repartido. Tudo distribuído de mãos abertas. Moradia? Como disse, até mesmo esconderijo do sol e do sereno da noite tinha para todos. E todos agradeciam. Ninguém pedia nada além do que podia existir para ele. Ninguém reclamava ou se lastimava.
E – E assim ficou um grande povoado de pobres famintos ou até miseráveis?
AC – Sim! Por que negar? Pobreza não é doença e não é motivo de vergonha ou desespero. E isso não significava que todos deviam ficar de braços cruzados, aguardando a chegada de mais sofrimento. Lutar todos os momentos da vida. Sobreviver!!
E – E o senhor transformou-se num prefeito?
AC – Nunca agi como comandante ou delegado. Bondade e amor escorre das mãos de Deus. Distribuí tarefas e responsabilidades para as lideranças de acordo com os diversos setores de produção.
E – Seus ministros ou secretários?
AC – Cada responsável por um setor tinha o seu grupo de trabalho. Produção para distribuição para todos. O lucro era a satisfação dos resultados. Nesse ritmo surgiu o entusiasmo. A luta contra a fome era a meta principal.
E – E a população cumpria  as suas determinações?
AC – De certa forma, sim. Não havia uma determinação, mas orientação no trabalho, visando resultados maiores. Povo tão carente que muitas vezes resistia em começar uma tarefa, por julgar-se incapaz ou impossível de ser realizada.
E – Transformou-se assim num comandante?
AC – Comandante é termo militar. Nada do nosso feitio. Distribuir responsabilidades de acordo com a habilidade e interesse de cada um de nós. Desde a higiene, a saúde, a educação. A limpeza o bem-estar.
E – E a população obedecia ao que o senhor pregava?
AC – A princípio, não entendiam as palavras ou essas ideias eram novas para eles. Depois, eu mesmo peguei a executar as tarefas de varrer, limpar, organizar. Acharam então o caminho da ordem e do desempenho. Fui varredor e servente de pedreiro. Aí, começaram a me ajudar, até que tomassem o trabalho para eles mesmos. Dei exemplos de humildade e dedicação.
E – Viram que o pobretão podia fazer alguma coisa. Ajudar!
AC – Viram que eu queria fazer alguma coisa, antes de ficar falando palavras de Deus. Ação correspondente às palavras. Ajudava de porta em porta, ouvia e via a infelicidade geral. Minhas mãos afagavam e incentivavam. Não vou dizer que curavam, porque não tinha esse dom, mas abriam um pequeno sorriso de agradecimento. Eu, na minha simplicidade, ficava satisfeito com esse pagamento. Um pequeno sorriso é uma mensagem de agradecimento, vindo do coração.
E – E esse povoado foi enchendo de gente?
AC – Como disse, chegava gente todo dia. Nosso progresso começou a ser percebido pelos fazendeiros da região. Começaram a ter medo da nossa força. Nossa força? Eles eram os poderosos. Juntaram-se com a Igreja e levantaram histórias de que iríamos tomar as suas terras. Que iríamos marchar até a Capital e restaurar a monarquia. Coisas tão impossíveis, coisas imaginárias para causar a nossa desgraça. Na verdade, os fazendeiros tinham ficado sem os seus escravos, agora libertados. As fazendas ficaram improdutivas.
E – As fazendas ficaram sem empregados?
AC – Empregados? Ficaram sem escravos. Pagar empregados? Nunca pensaram nisso. Uma calamidade pagar alguém pelo trabalho. Eles mesmos, os fazendeiros, não queriam trabalhar. A escravidão era coisa do passado. Os últimos escravos abandonavam seus lares e rodavam perdidos no mundo.
E – E essa revolução propagada pelos fazendeiros e Igreja?
AC – Foi o início da nossa desgraça. De boca em boca, essa história da nossa revolução foi parar nas autoridades constituídas da República. Como podíamos fazer uma revolução? Nunca pensamos nisso. Nem sabíamos o que era isso. Nosso povo só pensava na sobrevivência, em como viver o dia de amanhã. Sempre nos armamos de paz.
E – Como que uma comunidade de miseráveis poderia fazer uma revolução?
AC – Como? A força das injustiças e a força dos poderosos informavam que o povo de Canudos, cá em baixo, sujava a água que eles bebiam lá em cima. Não tínhamos preocupação com a guerra, porque seria totalmente ilusória. Desnecessária. Poderiam arrasar toda nossa comunidade com um sopro mais forte, apenas. Não tínhamos condições de defender, quanto mais de atacar. Nunca iríamos sair do nosso território para qualquer ataque bélico. Uma ideia que nunca passou pela cabeça de nenhum de nós.
E – Fizeram uma revolução pela sobrevivência e pela paz?
AC – Na verdade, fizemos uma revolução branca, no despertar da força de trabalho dessa população que voluntariamente se agregava ao nosso modelo de vida. Essa a nossa força. E ela foi a nossa desgraça.
E – Mas que deu resultados?
AC – Da areia e das pedras surgem as flores e os frutos, plantados e cuidados com abnegação. Estávamos no caminho certo, superando as nossas dificuldades básicas. Passaram a me chamar de Conselheiro, de amigo, de pai. Eu não tinha mais nem um minuto de descanso. Atendia a todos a qualquer hora do dia ou da noite.
E – E os fazendeiros?
AC – Continuaram a nos agredir. Juntaram-se todos à Igreja e nos denunciaram à República, pedindo providências imediatas. Um só pedido: a nossa destruição. Nada mais.
E – E a guerra de Canudos começou?
AC – Quando começou o dia de 24 de novembro de 1896, bem de madrugada ainda, o Exército estava às nossas portas. Bem armados belicamente, fuzis e metralhados, nos acordaram. Nós, sem armamento, sem técnicas de combate, juntamos nossas ferramentas de trabalho, espingardas velhas, revólveres enferrujados, foices, facões, porretes e entramos em guerra. Matar ou morrer? Não. Morrer ou matar. Resistimos. O tempo foi a nosso favor. O sol abrasador chegou e nosso inimigo não ia suportar essa inclemência. Nossos soldados, sem pensar no que fazer, atacaram em retaguarda. No final da batalha, muitas mortes de ambos os lados, e o Exército teve de debandar. Cantamos vitória do povo unido e reunido. O Exército da República diz que apenas abandonou o campo de batalha e que não foi vencido. Então, por que debandaram? Foi a primeira vitória do nosso povo. Que força é essa? Que valentia e que coragem?
E – Sim. Mas o Exército voltou mais bem preparado!!!
AC – Agora, estávamos também mais preparados. Juntamos o armamento abandonado pelos adversários no campo de batalha e nossas forças se recompuseram. Nessa segunda investida do Exército, nossa vitória foi cantada em termos nacionais. O país inteiro comentava as nossas vitórias. Chegou, então, a terceira força, comandada por eminentes generais, vindos da Capital da República e foram rechaçados com violência. Até os generais foram trucidados. Não fomos buscar a guerra. Estávamos nessa guerra apenas para nos defender. Nossas orações eram dirigidas no sentido de pedir paz e que nos deixassem viver a nossa vida de sertanejos perdidos nesse deserto de sofrimento.
E – Mas seu dia chegou! O Exército tinha que lavar sua honra de três derrotas consecutivas.
AC – Foi a carnificina final e acabada. Desta vez, com equipamento de guerra pesado, arrasaram por completo a nossa comunidade. Degolaram mulheres, crianças e velhos. Tudo sem dó nem piedade. Incendiaram todos os nossos casebres. Casebres indefesos. Morte total. Desaparecemos do mapa. Eu mesmo, tive morte nesse dia. Mesmo assim, fui exumado e degolado a faca, para gáudio dos sádicos inimigos. Éramos nessa época, mais de 20.000 flagelados, mortos e degolados, cabeças cortadas. Do Exército, mais de 5.000 soldados perderam a vida. Essa foi a Guerra dos Canudos. Setembro de 1897. Que lucro teve a República? Decisão, decisões desastradas! Esta é historia contada e recontada por tantos quanto tiveram alguma referência desse desastre.
E – Essa guerra foi criminosa?
AC – Antes de tudo, toda guerra é criminosa, mas esta foi considerada como o maior crime, tido e havido, nesta República.
E – E o final dessa Guerra de Canudos?
AC – O conflito de Canudos mobilizou aproximadamente doze mil soldados, oriundos de dezessete estados brasileiros, distribuídos em quatro  expedições militares. Em 1897, na quarta incursão, os militares incendiaram o arraial, mataram grande parte da população e degolaram centenas de prisioneiros. Estima-se que morreram ao todo, cerca de 25.000 pessoas, culminando com a destruição total da povoação.
E – Sei que ao final dessa guerra, foi publicada uma série de obras, escritas por testemunhas oculares, militares, jornalistas, médicos e outros. Destaca-se o livro de Euclides da Cunha, Os sertões, 1902,  jornalista correspondente do jornal Estado de São Paulo. Um dos mais importantes marcos da literatura brasileira.
AC – Bem sei! Sei também e reafirmo que esta Guerra de Canudos constituiu-se num dos maiores crimes já praticados em território brasileiro. Covardia exacerbada. Acabaram com a pobreza do país? Desapareceu a miséria? Reina, agora, o silêncio em Canudos! Dormem em paz os sertanejos insepultos e sonhadores!  Tudo pela glória de Deus!
E – Beato Antônio Conselheiro, louvado seja nosso senhor, Jesus Cristo!!!
AC – Para sempre seja louvado, irmão.        



sexta-feira, 18 de abril de 2014

BERNARDO MASCARENHAS - ENTREVISTA VIRTUAL



Palavras que poderiam ter sido proferidas por Bernardo Mascarenhas, (1847 – 1899),  orgulho e mito da família Mascarenhas e da Cia. de Fiação e Tecidos Cedro e Cachoeira. Traduzem o suor do seu rosto e os calos de suas mãos.  Aos 21 anos de idade, convenceu dois irmãos, arraigadamente conservadores, a constituir uma firma, Mascarenhas & Irmãos, (1868), para implantar uma fábrica de tecidos.  Onde? Onde quer que fosse. Foi determinado que seria no sertão da província de Minas Gerais, Taboleiro Grande, (Paraopeba/MG) na região do Cedro. E foi  inaugurada em 12 de agosto de 1872.




Entrevistador
Bom dia! Senhor Bernardo Mascarenhas! Antes de tudo, meus cumprimentos ao famoso “Pardal do Sertão!”
Bernardo Mascarenhas
Bom dia! Fui mesmo um ousado pardal do sertão, já que procurei ir além da minha capacidade de trabalho e rompi com as limitações imaginárias.
E
Sim! É verdade. Sempre esteve sobrepondo-se a limites imaginários! Mas, sentimos muito a sua pressa ao deixar esta vida, partindo assim tão jovem. A isso, não podemos perdoar.
BM
Sim. É verdade. Deixei esta vida aos 52 anos de idade, na tarde/noite de 9 de outubro de 1899. Nem pude me despedir dos familiares nem dos amigos. Estava sentado junto à minha mesa de trabalho e fui surpreendido por um momento fatal.
E
Com 52 anos de idade?
BM
Isso mesmo! Nasci no dia 30 de maio de 1847, era portanto, um geminiano, e sempre fui uma pessoa de horizontes abertos e descortinados.
E
Pela sua forma de ser, o senhor sempre foi apressado e ágil nos seus empreendimentos.
BM
Sempre fui ágil mesmo e apressado também. Minhas ideias e meus projetos pululavam dentro do meu cérebro e passavam imediatamente para as minhas mãos, isto é, para a execução. Não aguentava ficar esperando, pois tinha muitas coisas por fazer. Infelizmente, ainda deixei muitos projetos em andamento. Que fazer? A morte termina todas as histórias.
E
O senhor se considerava preparado para executar tantos projetos, tantas obras como as que tiveram a sua marca?
BM
Nunca estaria preparado se deixasse o tempo passar. Minha formação também foi curta e apressada. Estive interno no Colégio do Caraça por três anos. De 1860 a 63 e me dediquei totalmente aos estudos com os educadores lazaristas. Nesse colégio, implantado no meio de montanhas, matas e cachoeiras, o convite ao estudo e à meditação era uma oportunidade que não se poderia perder. Aproveitei ao máximo, junto com meus irmãos Pacífico, Caetano e Sebastião. Depois, passei por colégios em São João del Rei e me convenci de que precisava executar, produzir. Movimentar na vida do trabalho.
E
E parou de estudar?
BM
Nunca parei de estudar. Dia após dia, as técnicas se sobrepunham rapidamente. Inovações. Máquinas novas. A energia hidráulica ficou superada. Veio a utilização do vapor e depois, a eletricidade. Quem se sentasse à beira do caminho e se conformasse com o que tivesse adquirido, estaria superado facilmente, e superado tecnicamente. Para inovar e acompanhar o desenvolvimento há necessidade de estudo e aperfeiçoamento constantes.
E
Seu irmão, Antônio Cândido, era conservador?
BM
No princípio, ele me acompanhou, mas não resistiu ao meu ritmo e à minha velocidade. Com ele e meu outro irmão, Caetano, constituímos uma firma, Mascarenhas e Irmãos, com o objetivo de implantar uma fábrica de tecidos. Antônio Cândido era o nosso irmão mais velho, e assumia o papel de orientador geral da família. Ele teve sucesso no comércio e na agropecuária. Era um financista do seu tempo. No caso de Caetano, quatro anos mais velho do que eu, sempre mantivemos uma forte relação de amizade e ele sempre esteve ao meu lado. Nenhum dos outros irmãos acreditou no sucesso de nosso empreendimento. Nem o nosso pai. Estávamos unidos os três, com um objetivo definido. Isso aconteceu em 1868, quando eu tinha, na época, 21 anos de idade. Estava fundada a nossa sociedade, devidamente registrada.
E
Implantar uma fábrica de tecidos! Mas onde seria? No sertão despovoado da Província de Minas Gerais?
BM
Essa era a obstinação do nosso irmão Antônio Cândido. Ele iria financiar a fábrica, contanto que ela fosse instalada no Taboleiro Grande. Ele não tinha ideia das dificuldades que adviriam para a implantação da fábrica no Cedro, região do Taboleiro Grande. De minha parte, pensava em Juiz de Fora, uma cidade que teria condições apropriadas  para uma grande fábrica com plenos resultados de êxito. Caetano ficava neutro.
E
E Antônio Cândido venceu?
BM
Ele iria entrar com o capital. Não havia argumentação convincente. A decisão não poderia ser outra, pois a minha obsessão era implantar uma fábrica de tecidos. Onde? Isso seria um problema menor. Mas o sacrifício e as dificuldades seriam muito maiores. Antônio Cândido estava irredutível e minha fábrica já estava concretizada no meu pensamento. Eu também estava irredutível.
E
Foi um desafio?
BM
Talvez o meu primeiro desafio. Saberia que outros viriam. Tive que vencer um por um. E muitos viriam mesmo à minha frente. Derrubei cada um deles.
E
O senhor tinha alguma experiência com tecelagem?
BM
Minha mãe, Policena Moreira da Silva Mascarenhas, na fazenda São Sebastião, no município de Curvelo, iniciou uma atividade artesanal com escravos. Eu acompanhava o trabalho nos teares de pau, dava orientação para sua melhoria e a produção foi aumentando. Sempre acompanhei esse trabalho de tecelagem. E aquele início artesanal foi transformado em teares metálicos produzindo tecido grosso, para sacaria agrícola e roupas para os escravos. Numa época, eram escravas no trabalho com os teares. Uma boa produção que se transformou numa indústria rural.
E
Fazenda São Sebastião?
BM
Meu pai, Antônio Gonçalves da Silva Mascarenhas, algum tempo depois de casado com Policena Moreira da Silva Mascarenhas, adquiriu do sogro essa propriedade, Fazenda São Sebastião, em 1.836. Aí viveram e tiveram 13 filhos. Eu era o décimo deles. Meu pai era um expansionista e foi adquirindo fazendas no decorrer de sua vida, pelo sucesso na produção agrícola e pecuária. A fazenda só importava querosene, sal e ferro. Produzia café, algodão e trigo, e tantas outras coisas. Tinha oficinas diversas: carpintaria, alfaiataria, de ferreiro, de sapateiro. E minha mãe era uma mulher dinâmica e participava de todo movimento da fazenda. Assim, resolveu produzir tecidos. O algodão era cultivado na própria fazenda. Começou de baixo e teve sucesso. E eu fui aprendendo com ela. Meu pai não entrava nesse negócio. Apenas apoiava com curiosidade. Daí, mais tarde, surgiu a Fábrica São Sebastião.
E
E os outros irmãos?
BM
Todos tiveram sucesso nos empreendimentos. Somente Pacífico e Sebastião decidiram continuar os estudos e formaram-se em medicina, no Rio de Janeiro. Além disso, meu pai presenteava todos os filhos com 26.000$000 – vinte e seis mil réis – quando completavam 18 anos e as filhas, quando se casavam. Eu mesmo, com o meu irmão Caetano, iniciamos uma sociedade no comércio de sal e na pecuária. Vi logo que não era o que eu queria, que não era o meu itinerário de vida.
E
Mas e a fábrica de tecidos?
BM
Isso mesmo. A nossa fábrica de tecidos do Cedro estava em gestação. Foi prolongada essa gestação e durou quatro anos, pois só foi inaugurada em 12 de agosto de 1872.
E
E o local?
BM
Ficou determinado que a fábrica seria instalada na região do Cedro, como Antônio Cândido estabeleceu. Assim, sem mais discussões, passamos à escolha do terreno, pesquisar as condições da captação da água para mover as máquinas, o açude, o bicame e a construção de um prédio para abrigar a fábrica e de casas para os operários.
E
E as máquinas?
BM
Ah! As máquinas! Antônio Cândido tinha seu negócio florescente e Caetano cuidava de comércio e pecuária. Sobrou para mim. Eu fiquei como responsável por tudo e mais alguma coisa. Parti para a Corte, isto é, para o Rio de Janeiro e estabeleci contato com representantes de máquinas. Dois meses de pesquisas e contatos. Finalmente, em setembro de 1870 assinei contrato de compras do maquinário de uma fábrica de Nova Jersey, EUA. Agora, era aguardar a chegada dessas máquinas. Demoram mais de seis meses.
E
Retornou a Taboleiro Grande?
BM
Sim. Imediatamente. A responsabilidade da construção do açude, da planta da fábrica e de tudo mais, dependia de mim. Foi mais um trabalho árduo. Precisava de operários, de mão de obra. Passei então a alugar escravos. Meus irmãos e meu pai tinham escravos de aluguel.
E
E quando as máquinas chegaram?
BM
Se existiram desafios, o transporte dessas máquinas foi o maior deles. Elas chegaram ao porto do Rio de Janeiro e foram transportadas até Três Rios pela estrada de ferro Dom Pedro II. Consegui uma empresa para levá-las até Juiz de Fora. Daí a Taboleiro Grande foi a maior dificuldade.
E
Muitas máquinas?
BM
Muitas e muito pesadas. No total seriam 250 toneladas. Todas elas foram transportadas por carroções e por carros de boi. A distância era de 60 léguas, ou 360 km. Veja que cada carro transportava no máximo 1,5 ton. E a viagem, por estradas de lama ou mata durava 30 dias. Um desafio impossível de ser realizado. Não havia alternativas. E tudo foi realizado com muito sacrifício. Não podia haver o impossível. Antônio Cândido nem quis ficar sabendo dessas dificuldades.  
E
E as máquinas chegaram. E depois?
BM
Eis a questão. Montar essas máquinas desconhecidas e colocá-las em funcionamento. Um técnico inglês, James Wells, comandava e administrava a montagem. Eu fui aprendendo com ele e participava de todo o processo. Visitei a fábrica São Luís, em Itu, São Paulo, para obter subsídios técnicos. Depois, fui a outra fábrica no estado do Rio de Janeiro.
E
Finalmente, a fábrica estava pronta para entrar em funcionamento?
BM
Festejei a minha primeira vitória impossível e pusemos as máquinas para produzir, impulsionadas pela água do açude. Era finalmente 12 de agosto de 1872. Passei a gerente da fábrica do Cedro aos 25 anos de idade. Produzimos tecido grosso para sacaria e vestimenta de escravos. Meus sócios festejaram, meus irmãos admiraram e meu pai nem quis ver.
E
Sucesso total?
BM
Sucesso, sim... mas não total. Nossa produção se acumulava no depósito. Onde estavam os nossos compradores? As distâncias entre as comunidades eram grandes, a comunicação precária, feita apenas pelo cavalo. E assim, os pontos de estrangulamento: a comercialização, os insumos, isto é, o algodão e, complementando, a mão de obra desqualificada.
E
Tantos problemas?
BM
Tudo gira em torno de desafios, não de problemas. Antes, era a montagem das máquinas, ouvindo e vendo os técnicos estrangeiros incompetentes. Não repassavam informações e tive que iniciar minha aprendizagem de idiomas para enfrentá-los. Sem que eles imaginassem, eu estava a par de todo o processo de mecânica na fábrica. Dominei a técnica de montagem desses equipamentos.

E
E os insumos, o algodão?
BM
Meu irmão Antônio Cândido comprava tudo que aparecia e formou um  bom estoque. Era pouco para a Fábrica do Cedro. Tivemos que comprar o algodão do produtor antes mesmo de plantá-lo. De outra visão, estávamos financiando a agricultura.
E
E a mão de obra despreparada?
BM
Sem mão de obra qualificada nenhuma indústria poderia ter um bom produto. Admitimos muitos trabalhadores da região, sendo eles homens, mulheres, meninos e meninas. Além dos escravos alugados, por bom preço. De modo geral, esses operários eram analfabetos. Tive que montar escola noturna no decorrer do tempo para qualificá-los.
E
Mesmo analfabetos seu pessoal aprendia as técnicas da fabricação?
BM
Foi demorada a aprendizagem. Nossa jornada de trabalho era de 6h às 18h. Assim, de 6 às 6. Aprendiam pela repetição. Tivemos que iniciar o pagamento de salários para os operários.
E
E por que não compravam mais escravos?
BM
O custo seria muito alto. Talvez o mesmo preço das próprias máquinas. Assim, fomos produzindo com a mão de obra do sertão.
E
E a comercialização?
BM
Ainda não tínhamos uma política definida de comercialização. Antônio Cândido na sua empresa abriu um varejo e aliviava o nosso estoque. Depois, passamos à venda em consignação e venda por atacado, mas a prazo de 180 dias. Outro desafio: a falta de capital de giro.
E
Mas a fábrica do Cedro estava com produção contínua?
BM
A nossa fábrica era admirada pela força motriz e pela disciplina da organização. Eu mesmo olhava e não acreditava. Teares novos rodando, relembrando aqueles teares da fazenda São Sebastião que exigiam a força humana para movimentá-los. Tive a convicção de que a indústria era a linguagem do momento, superando a agricultura. Mesmo no ambiente primitivo do interior da província de Minas Gerais tinha surgido uma moderna fábrica de tecidos, com meios de transporte tão rudimentares.
E
E a proposta da montagem de outra fábrica na região da Cachoeira?
BM
Meus irmãos, Pacífico, Victor e Francisco, associados com o nosso cunhado, Luís Augusto Viana Barbosa, decidiram montar também uma fábrica na Cachoeira. Claro que se entusiasmaram com os resultados da fábrica do Cedro. Surgiria então um novo empreendimento. De minha parte, receberam os maiores incentivos. E eles juntaram os recursos financeiros e entraram em ação.
E
E vieram pedir a sua colaboração porque além de Bernardo Mascarenhas, nenhuma outra pessoa teria alcançado tamanha experiência e tecnologia.
BM
Queriam que eu me encarregasse da compra do maquinário. Aceitei esse desafio, mas sugeri que, ao invés de comprar máquinas de representantes, eu fosse à Europa e EUA para a escolha mais apurada. Concordaram comigo. Isso aconteceu no ano de 1874, já com dois anos de funcionamento da Cedro. Passei a ser o consultor da Mascarenhas & Barbosa. Assim, parti para esse novo desafio, sem dominar perfeitamente o idioma daqueles países. Tinha um pequeno vocabulário aprendido com os técnicos contratados.
E
E partiu para a Europa?
BM
Especialmente para a Inglaterra. Manchester era a grande cidade inglesa que tinha a vanguarda na produção de máquinas. Tive a felicidade de articular com o engenheiro Robert L. Kerr. Do trabalho surgiu uma amizade duradoura. Ele abriu todas as portas para mim. Estagiei em diversas fábricas, fiz cursos, comprei livros, estudei e tornei-me técnico na montagem de máquinas. Não perdi um dia em resultados na minha estada na Inglaterra. Depois, fábricas em Liverpool. Resolvi comparar preços e qualidade com máquinas americanas e parti para os EUA. Retornei à Inglaterra e decidi fazer um contrato para a compra de máquinas para 52 teares. Inicialmente, o pensamento era de 30 ou 40. Passei para 50 e acabei comprando para 52 teares. Isso significava que a Fábrica da Cachoeira seria três vezes maior do que a Cedro, que tinha 18. Além disso, a Fábrica da Cachoeira iria produzir tecidos finos que possivelmente iriam acompanhar a produção internacional.
E
Dizem que nessa viagem o senhor acabou comprando um piano. O senhor tem vocação para a música, também?
BM
Vocação? Vocação? Propriamente penso que tenho amor à música. Comprei realmente um piano em Paris, além de uma flauta. Comprei partituras diversas porque imaginei que poderia formar uma banda de música no Cedro, o que realmente aconteceu. Com esse piano em casa, transportado que foi para o Cedro, aprendi a tocar algumas melodias.  Muito esforço e prazer no pequeno espaço de tempo que me sobrava. Mais tarde, fui até elogiado por um técnico inglês que residiu com a esposa na nossa região, James Nicholson. Digo mais, comprei livros de culinária que me permitiram ensinar às escravas na melhoria dos pratos e das refeições. Eu mesmo praticava em algumas oportunidades.
BM
Não perdeu tempo?
BM
Como disse, não tinha tempo a perder. Eu sempre fui apressado e tinha meu destino a cumprir. Estudei muito, aprendi muito. Percebi com entusiasmo o florescente movimento do capitalismo inglês. Imaginei incorporar-me a essas novidades do final do século XIX. Era a revolução industrial para nós, com a necessidade de movimentos estruturais para a distribuição e comercialização em grande escala. Precisávamos produzir pano, mas também vender pano e obter lucros.
E
Praticamente se formou industrial?
BM
Permaneci mais de um ano nessa viagem e procurei me inteirar de tudo para até substituir os técnicos estrangeiros que vinham ganhando altos salários e omitindo informações técnicas, com medo de serem preteridos. Pensei em aprender para transmitir informações e formar técnicos brasileiros. Inovações diárias no mundo da tecnologia. Acompanhar? Abrir o interesse do povo para se inserir nas modernidades? Aprendi que modernização é um processo interminável. Nada é moderno para sempre. Tinha que propagar também essas ideias entre os meus irmãos e meus amigos companheiros de trabalho. Contaminar todos os irmãos para os novos tempos e as novas oportunidades. O mundo estava mudando. Infelizmente, nem todos me acompanharam, mas eu fui em frente, sem me apegar a críticas e observações desairosas.
E
E o regresso foi auspicioso?
BM
Encontrei algumas divergências entre meus sócios. Antônio Cândido recriminou algumas das ideias trazidas, como seria de se esperar. Ele era escravocrata arraigado e pensava em obter lucro imediato em tudo que pusesse a mão. Entretanto, ressaltei que sempre é preciso despender algum cobre para depois ser de novo recolhido. Ele não compreendia por que pagar salários a operários. Os meus familiares tinham escravos alugados.
E
Mas o senhor mesmo teve alguns escravos alugados...
BM
Não posso negar. Entretanto eu era fruto do meu tempo. Em 1871 foi  promulgada a LEI DO VENTRE LIVRE e eu cumpria a legislação vigente. Trabalhei na fábrica ao lado dos escravos. Lado a lado. Fundei escola e não queria nenhum operário analfabeto. Todos cresceram.
E
Mas e a nova Fábrica da Cachoeira?
BM
Como disse, passei a ser o consultor assalariado dos meus irmãos. Afastei-me da Cedro e passei a residir na casa do meu irmão Francisco, o caçula. Francisco foi o meu companheiro inseparável, fiel escudeiro. Acreditou em mim e procurou tirar as melhores oportunidades de crescimento e desenvolvimento industrial, acompanhando sempre as fantasias da modernidade.
E
E a Cedro não achou adequado o seu comportamento?
BM
É verdade. Antônio Cândido não me perdoou e passou a criticar até com veemência a minha participação na Cachoeira. Não seria só por ciúme. A Fábrica da Cachoeira era um novo desafio. Alguém tinha que fazer tudo. Esse alguém era eu mesmo. O certo é que, daí pra frente, Antônio Cândido me tirou do mapa dos irmãos amigos e companheiros. Nunca recriminei a sua atitude. Compreendia que ele apenas gostava de dinheiro imediato dentro de sua obsessão. A minha era produzir, implantar, criar. Modernizar. Crescer. Cada um de nós tem o seu ponto fraco. Ou forte? Foi mesmo Antônio Cândido que ironizou a minha obsessão, dizendo que eu era apenas “um pardal do sertão.” Ele nunca mudou de ideia a meu respeito. Talvez, tivesse razão. Entretanto, segui meu itinerário de vida, mas era mesmo um pardal de altos voos.
E
E Caetano, o outro irmão sócio?
BM
Caetano era conservador e acompanhava diretamente Antônio Cândido nos seus negócios. Entretanto, encontrei o Chico, o menino Francisco que ficou do meu lado. Os outros irmãos olhavam de banda e ficavam observando.
E
E o senhor montou as máquinas da Cachoeira?
BM
Por que não? Tudo montado e funcionando com 52 teares, produzindo tecidos finos. A comercialização surgiu pelo conhecimento da qualidade da nossa produção. Depois disso, retornei à administração da Cedro. Agora com um novo projeto: substituir a força motriz hidráulica por outra a vapor. O açude tinha se rompido e a fábrica teve que paralisar temporariamente. Essa substituição foi outro fato inovador. Mais um projeto desse pardal irrequieto! Modernizar, ampliar a produção com novos teares. Não podemos ficar parados no tempo. Estamos no sertão, mas com os olhos abertos para acompanhar ou superar nossos concorrentes. E os lucros eram pequenos, mas sempre crescentes. A produção também. Tudo isso alarmava o sócio Antônio Cândido novamente.
E
E foi implantado o sistema motriz a vapor?
BM
Foi um sucesso. Daí pra frente, gastávamos lenha ou carvão e não água. Mas as coisas não paravam por aí. Eu já previa que nosso destino era a eletricidade. E os sócios se alarmavam com mais uma alteração no processo.  Eu estava ávido por implantar a eletricidade. Procurei ler tudo que tinha e me aprofundei no assunto. Claro que meus irmãos ficavam alarmados em destruir uma coisa por outra, num curto espaço de tempo. Que fazer? Seria eu o culpado?
E
Sua imaginação também não tinha limites?
BM
Além disso, era minha preocupação o capitalismo, o conglomerado de empresas trabalhando associadas. Por isso, andei pregando a fusão das fábricas do Cedro com a Cachoeira. Minha pregação e meu ideal só foram concretizados quase dez anos depois. Era uma semente dura de brotar nessa terra árida. Mas disso eu não me esquecia e esperava com relativa tranquilidade. Relativa? Ficava cansado de esperar. Eu me cansava mais por isso do que colocar tudo em ação. A empresa passou a denominar-se “COMPANHIA DE FIAÇÃO E TECELAGEM CEDRO E CACHOEIRA – pela lei 3.150 das sociedades anônimas, de 4 de outubro de 1882. Tinha capital de 1.000.000$000 (um milhão de réis), com 5.000 ações nominativas de 200$000. Eu fiquei com 658 ações e meus irmãos Antônio Cândido, Pacífico, Caetano, Francisco, e Victor, além do meu cunhado Luís Augusto Viana Barbosa ficaram com a mesma quantia. Theophilo Marques Ferreira ficou com 353 e Antônio Joaquim, com 41 ações. Fui designado Presidente da Companhia. Esta decisão foi estabelecida em 19 de dezembro de 1882, mas registrada em cartório de Curvelo em 2 de abril de 1883.              
E
A fábrica da Cachoeira estava em plena ação?
BM
A fábrica da Cachoeira estava pronta em 1876, mas entrou em funcionamento em 23 de janeiro de 1877 e a produção surgiu em abril desse ano. Terminado o meu trabalho na Cachoeira, retornei à Cedro, depois de três anos, com o objetivo de fazer a reorganização geral, mudando a linha de produção para tecidos finos. Comprar novos teares. Com a constante resistência e até mesmo agressividade de Antônio Cândido, propus a ele a venda da minha parte, ao que ele respondeu que eu estava querendo vender um negócio ruim. Achei graça e me convenci de que havia necessidade de reorganização da Cedro. Não perdi tempo porque, como disse, não tinha tempo para perder. Assim, passamos a produzir tecido fino com as novas máquinas.
E
Mas, antes disso, o senhor fez outra viagem à Europa?
BM
Sim... não podia perder a Exposição Universal de Paris no ano de 1878. Não podia perder a oportunidade de estar presente a essa exposição universal. Novamente um pardal voador. Desta vez, levei o meu irmão Francisco. Temos que ficar em sintonia com o que acontece no mundo. Isso mesmo. O Chico voltou deslumbrado. Ficamos ausentes por alguns meses. Sofri demais quando cheguei, porque meu filho Aníbal, primogênito, tinha falecido. Uma perda irreparável. Amélia, minha esposa, estava desolada. Além disso, críticas pesadas de Antônio Cândido. Ficar preso ao sertão? Precisava ver o que se passava no mundo. O dele era restrito e bastava a região do Taboleiro Grande ou Curvelo quando muito. É isso.
E
Também Francisco teve alguns problemas.
BM
Sim. Foi acusado injustamente de assédio e teve alguns problemas. Passou a ter mais cuidado nos seus relacionamentos e nada prejudicou sua vida, seu trabalho, sua dignidade pessoal.
E
Admitiram novo sócio?
BM
Sempre recebemos propostas de adesão, mas não eram aceitas fora da família. Entretanto, numa oportunidade mais difícil, aceitamos como sócio e companheiro o senhor Theophilo Marques Ferreira, que se transformou logo num batalhador ferrenho pelo desenvolvimento das nossas fábricas.
E
E a nova fábrica de São Sebastião?
BM
Foi remodelada, novos teares, nova linha de produção somente com operárias escravas. Era administrada pelo nosso irmão Victor. Nesse tempo, foi promulgada a Lei Áurea, Abolição da Escravatura. Victor teve grandes dificuldades de manter a antiga produção. Ele não era muito afeito a diálogo com escravos. Queria produção, e os negros queriam folgar. Tanto tempo de serviço pesado e agora ainda era tempo de aproveitar um pedaço do paraíso. Victor se dizia humilhado diante da atitude dos operários. Antes, eles só tinham obrigações e deveres. Agora tinham direitos. Dizia o Victor que algumas ex-escravas eram desaforadas e hostilizavam seus antigos senhores. Ele, então, teve que usar a antiga palmatória para chegar ao eixo essas negras “atrevidas”. Tudo a seu jeito nessa época, para dar continuidade à produção.
E
E a sua vida particular. Sua esposa, seus filhos?
BM
Casei-me com Amélia Guimarães Mascarenhas, filha do juiz José Ignácio Gomes Guimarães e de Amélia Macedo Guimarães – da sociedade ouro-pretana. São os nossos filhos: Maria Amélia, Helena, Eneas, Romeu, Julieta, Achiles, Apolinário, Ulisses, Sílvia, Clóvis e Bernardo que nasceu no ano da minha morte.
E
E seu pai, o major Mascarenhas, acreditou nas fábricas dos filhos?
BM
Meu pai era pessimista quanto ao nosso ideal de industrialização. Resistiu tanto quanto pôde, mas um dia apareceu e ficou encantado. Daí surgiu também a expansão da fábrica de São Sebastião, agora administrada pelo nosso irmão Victor.
E
Victor tinha dificuldades no relacionamento com escravos?
BM
Como disse, Victor tinha personalidade forte e resistente a modificações sociais. Ele sofreu com a liberação dos escravos, pois seus argumentos e sua força opressora tinham que ser modificadas. Parece estranho dizer que ele tenha sofrido com a abolição da escravatura. “Essas negras estão com o diabo!”
E
O senhor tinha outros conceitos sobre o trabalho?
BM
Desde que estive na Inglaterra, no período de 1874, já pressentia as mudanças sociais na vida do trabalho. O ministro inglês Benjamin Disraeli (1804 - 1881) pregava um novo mundo de mudanças nas relações do trabalho. Falava enfaticamente sobre reformas nessas relações trabalhistas, sobre as condições do operário, sobre os sindicatos, sobre o trabalho feminino e das crianças, sobre a redução da jornada de trabalho, sobre o repouso semanal de meio dia aos sábados, sobre as condições sanitárias.
E
Era uma revolução?
BM
Mais que uma revolução. Na minha família era uma guerra. Tive que moderar meus conceitos e abrandar atitudes de acordo com o pensamento do grupo. Não quer dizer que tenha sido voto vencido, porque fui introduzindo modificações mais discretas e conseguindo bons resultados. Nunca tive problemas com os operários.
E
Com tantas modernizações, como diria Antônio Cândido, houve resultados imediatos?
BM
Tivemos resultados surpreendentes, com produção incalculável. Passamos de uma produção de 640 mil metros de tecidos para dois milhões. A Cedro, que tinha 40 teares, passou para 56. A Cachoeira, que tinha 60 teares, passou para 140. No total tínhamos 196 teares. Isso, em 1888, quando eu já tinha me afastado das fábricas.
E
Sim. Sei disso. Mas o Francisco estava ainda propondo mais novidades.
BM
Francisco veio me falar sobre a eletricidade. Ouviu isso de alguns políticos e ficou entusiasmado, com a possibilidade da iluminação e com a força da eletricidade que era capaz de derreter o aço. Eu já tinha lido muito sobre isso, pelos livros que meu amigo Robert L. Kerr tinha me enviado de Manchester. Achei melhor esperar um pouco.
E
Mas Francisco não desistiu.
BM
É verdade. Francisco voltou a me cutucar com essa possibilidade. Ele tinha comprado essa ideia e foi ele que me vendeu por um preço muito barato. Acabei me interessando mais profundamente pela eletricidade. Não podia frear o progresso e omitir as mudanças tecnológicas. Mas eu estava de saída e deixei o desafio para o próprio Francisco, que conseguiu implantar a luz elétrica nas fábricas.
E
O senhor estava de saída?
BM
Eu já tinha comprado um pasto, um terreno de três alqueires, em Juiz de Fora, e estava decidido a enfrentar outros desafios. Era prudente de minha parte afastar-me das desavenças dos conservadores, Antônio Cândido e Caetano. Eu administrava a companhia como um ditador. Era a opinião deles. E isso contaminou acionistas.
E
Houve nova eleição da diretoria?
BM
Sim. Em reunião de 22 de abril de 1886, mesmo com essas insinuações de ditador, fui eleito novamente com 143 votos dos acionistas. Antônio Cândido teve 123. Entretanto, para configurar bem a minha administração, no período de 83 a 87, a Cia. teve lucro de 853 milhões de réis. Passei a considerar o operário como fator preponderante para o processo produtivo e que ele deveria receber educação formal da empresa para lidar com a tecnologia. Deveria, também, receber incentivos pecuniários para produzir mais e melhor. Abrimos recrutamento de pessoal.
E
Houve aumento do quadro de pessoal?
BM
Obrigatoriamente teria que haver. Em 1883 eram 264 operários e, em 87, éramos 446. Havia aproximadamente a seguinte distribuição: 20% de homens, 24 a 45% de mulheres, 24% de meninos e 14% de meninas. Tivemos que criar uma caixa econômica dos operários, objetivando a poupança para o futuro. O sistema de prêmios foi implantado, o que era uma medida avançada para o nosso tempo, além do treinamento. Nosso pessoal foi valorizado tanto que houve aliciamento por parte de empresas concorrentes. Tem mais! O aumento da produção subiu 66,34% de 85 para 86. Foi preciso forçar a comercialização para esvaziar nossos estoques.
E
Houve então um choque de mentalidades?
BM
Parece que foi isso mesmo. Entretanto, havia uma fenda que se abria a cada ano. Era impossível estancar esse tal choque de mentalidades. Assim, pedi exoneração de membro da diretoria e da superintendência da Cia. Imediatamente, foi negado o meu pedido. Entretanto, minha decisão estava tomada e eu iria seguir outros itinerários.
E
Missão cumprida.
BM
Nem tanto por isso. A missão também é interminável, mas era o momento certo para evitar agravamento de relações familiares. Deixei a Cia. com 220 teares. Não foi possível implantar a terceira fábrica em Rio Pardo. A morte do meu pai em 1884 nos deixou um pouco desarticulados para esse empreendimento que teria 300 teares aproximadamente.
E
E novos caminhos se abriram?
BM
Sim! Seriam novos caminhos. Pretendia implantar uma fábrica de tecidos em Juiz de Fora, uma hidroelétrica para iluminação pública e particular, além de ter a fonte de energia industrial. Desafios ousados. Meu irmão previa o fracasso, questionando o que iria fazer o pardal do sertão no meio dos canários da cidade. Ainda previu o meu fracasso financeiro, dizendo que eu voltaria para o arraial do Cedro mendigando emprego.
E
Decisão tomada?
BM
Do pensamento à ação imediatamente. Despedi-me dos operários e senti o calor da amizade que construí nas nossas fábricas. Vi o quanto eu representei para todos eles. Mas o tempo era outro. Procurei amealhar os meus recursos financeiros, apurando tudo que podia e embarquei no novo projeto de vida na primeira quinzena de maio de 1887. Juiz de Fora era o meu destino. Deixei minha família em Ouro Preto, em companhia do meu sogro, até que me firmasse em Juiz de Fora. Eu mesmo senti insegurança e não queria levar a minha família sem que estivesse acertada uma posição bem segura.
E
Em Juiz de Fora sentiu diferenças de modo de vida?
BM
Outros costumes, outra cultura. Vida caríssima. Povo educado e afetivo. Amizades de fácil convívio. Eu sempre fui republicano e nacionalista. Encontrei muitos amigos que adotavam princípios republicanos. Entretanto, havia a proximidade da Corte, onde a bexiga estava dizimando a população. Era perigoso. As condições sanitárias da cidade não eram satisfatórias. Mesmo assim, minha família foi devidamente alojada e ali nasceu a minha filha Julieta, no dia 26 de agosto de 1887. Adquiri um terreno para a implantação da fábrica de tecidos e entreguei a planta a um empreiteiro. Tinha pressa, porque as despesas pessoais eram grandes. Em continuidade, adquiri a concessão de iluminação pública e particular e de gás, visando minhas atividades futuras. A minha fábrica, só minha porque implantei-a sozinho, foi inaugurada em 14 de maio de 1888, com 60 teares. Só tinha a tecelagem que era mais simples. Adquiria os fios da Inglaterra e foi um sucesso. Tecido fino, brins, zefires, com variedade de cores e padrões. Sucesso total.                        
E
E começou a ficar conhecido na cidade?
BM
O jornal “O Pharol” publicou que eu estava com projeto de implantar luz elétrica na cidade. Foi o início da especulação. Na verdade, era um projeto ambicioso. A eletricidade era desconhecida totalmente pela população, mas a cidade estava disponível para receber esse melhoramento. Passaram a acompanhar o meu trabalho e a população estava certa de que eu estava trabalhando para isso.
E
Eletricidade para o povo?
BM
Com auxílio do engenheiro mecânico Agenor Barbosa, implantamos a energia elétrica na fábrica de Tecidos Mascarenhas, em 27 de agosto de 1889. Houve solenidades programadas com banda de música e foguetes. A cidade ficou entusiasmada. Convidei o juiz Francisco de Paula da Costa para acionar o motor de 30 cavalos. Havia convidados por todos os lados da Companhia, aguardando o desenrolar da mágica elétrica inacreditável. O juiz Francisco de Paula entrou num compartimento especial e acionou o motor. Imediatamente, todas as máquinas puseram-se a rodar, os 150 operários, nos seus postos, começaram a produzir, sob a assistência do público que aplaudia sem cessar. As luzes se acenderam e uma claridade intensa, nunca vista numa noite dessas, ofuscava a visão de todos. A banda de música ainda tocava o hino nacional. Aplausos continuados. Em seguida, convidei as autoridades para um grande salão iluminado, totalmente iluminado, para conhecer um fogão elétrico. E o confeiteiro servia biscoitos e salgados aquecidos naquele fogão. E o barulho das máquinas era outro fator de admiração. E o tecido brotava dos teares. E os operários eram admirados. O Jornal do Comércio, no dia 28 de agosto, não deixou por menos e estampou uma página inteira. Era a primeira fábrica de tecidos movida a energia elétrica.
 E
E a sua responsabilidade aumentava?
BM
Passei a ser conhecido e respeitado. Além de tudo, o povo da cidade confiava em mim na expectativa da iluminação pública e particular. Na Câmara, os vereadores discutiam as vantagens e desvantagens de substituir a iluminação a querosene pela energia elétrica. Todos falavam dos perigos, dos incêndios e de tantas outras fantasias, todas imaginárias, porque não tinham conhecimento seguro sobre a energia elétrica. Além disso, poderia haver choques entre os fios dos telefones com os da eletricidade nas ruas. O povo ansiava pela eletricidade, mesmo desprezando o telefone que era usado por poucos.
E
E nasceu a Cia. Mineira de Eletricidade?                
BM
No dia 7 de janeiro de 1888, era constituída a Cia. Mineira de Eletricidade, com capital de 150.000$000 em 1.500 ações de um mil réis. A iluminação pública era esperada para substituir os lampiões a querosene. A imprensa estava ávida por novidades e modernização, esclarecendo o povo quanto ao uso dessa energia elétrica que alterava conceitos de vida no mundo inteiro. Juiz de Fora estava na vanguarda e colocavam meu nome como um empreendedor de primeira linha, um benfeitor para a cidade. Foi, finalmente, marcada a data da inauguração da iluminação pública, com os postes e as lâmpadas fincadas nas ruas principais. Essa data foi adiada. Adiada? Sim. Amélia, minha esposa, esteve gravemente enferma e eu tive que dar assistência total à minha companheira. Os jornais justificaram e aceitaram esse adiamento. Também, sem mim, nada seria feito. Finalmente, a data chegou. Eu estava mais emocionado do que o povo ou as autoridades. Em sigilo, marquei uma experiência para a noite de 22 de agosto, para verificar se tudo estava nos seus devidos lugares. Houve um forte temporal nessa noite e, mesmo assim, fiz três experiências. Na primeira, a luz tremia muito. Na segunda, a luz estava muito fraca. Na terceira, a luz brilhou com todo o seu esplendor, e com uma intensidade fantástica que eu mesmo fiquei surpreso. Luz firme e contínua.
E
Na noite de 22 de agosto houve mesmo a inauguração?
BM
Nesse dia, ou melhor, nessa noite, às 21 horas, o povo estava nas ruas. Foi mais uma experiência. E a luz jorrou sem piedade sobre esse povo estarrecido. Houve girândolas de foguetes, aplausos de admiração. Era a expectativa do século vinte. E Juiz de Fora estava na vanguarda. Banda de música nas ruas. Fui saudado com discurso na fábrica, onde permaneci, pelo senhor João Severino da Fonseca Hermes. O povo da cidade, tanto os políticos, como a elite e gente de todas as classes sociais, compareceu em massa.  Vivas. Viva o povo de Juiz de Fora! Gritei ao alto e tão alto quanto pude. Convidei a todos para entrarem na fábrica e ofereci um copo de cerveja. A comemoração, com iluminação, foi até as 23h.  E os lampiões? Alguns foram até apedrejados. Impossível conter o povo.
E
Não era ainda a inauguração oficial?
BM
É verdade. A inauguração oficial foi marcada para o dia 5 de setembro de 1889, com a presença das autoridades locais, devidamente consagrando o momento com grande concentração popular. Nessa noite, em frente à Tecidos Mascarenhas, com a presença da diretoria completa, com a banda de música do maestro Carlos Alves, foi realizada a inauguração oficial da eletricidade. 
E
O povo encheu as ruas?
BM
A cidade foi iluminada com um toque de mágica ao acionarem-se as turbinas. Um comando obedecido de imediato. Toda a cidade ficou  iluminada. Fogos. Em seguida, o povo passeava pela rua Halfeld, totalmente iluminada. Fomos para a Loja Maçônica Fidelidade Mineira. Aplausos intermináveis. Admiração total. O seu interior estava feericamente iluminado. Nos salões da Loja Maçônica houve grande recepção para a melhor sociedade de Juiz de Fora. Grande número de convidados. Discursos. O jornalista Joaquim Campos Porto, ressaltando o acontecimento, prestou homenagens à família Mascarenhas, representada pela nossa mãe, Policena Moreira da Silva Mascarenhas. Assim começa o baile com quadrilhas, valsas e polcas até tarde da noite.
E
E seus familiares e amigos do Cedro?
BM
Minha mãe, Policena, como disse,  estava presente  e foi saudada em discursos. Estavam comigo Amélia e nossos filhos e genros, além de Francisco Mascarenhas, Antonino Pinto Mascarenhas, Inácio Furtado Magalhães,  Urbano Mascarenhas, Aristides José Mascarenhas. Na oportunidade, meu irmão doutor Sebastião Mascarenhas agradeceu a homenagem e as referências à nossa família e, especialmente a mim. Momento de glória desse pardal do sertão que se revestia de nova plumagem.
E
E as solenidades promovidas estiveram em nível da importância da implantação da eletricidade em Juiz de Fora?
BM
A inauguração foi modesta, como alguns jornalistas comentaram. A mídia, entretanto, foi unânime em ressaltar o acontecimento como um dos principais do final de século XIX. Eu, de minha parte, penso que tudo que fiz, foi em função dos meus ideais e nunca procurando aplausos. Talvez eu tenha recebido até mais aplausos que merecia. Felizmente, pude responder com resultados aquelas pessoas que vaticinaram sempre o meu fracasso.     
E
Senhor Bernardo Mascarenhas!
 Minha admiração e minha reverência. Foi momento de glória a sua vida, posso afirmar e assegurar. Glória para a família Mascarenhas. Juiz de Fora pôde reconhecer o seu trabalho, o seu valor em homenagens que decorrem ao longo do tempo. O povo de Juiz de Fora não se esquece do senhor e sua memória é cultivada como um dos benfeitores da humanidade. Grato pelas suas palavras. Grato pela sua presença.
BM
De minha parte, agradeço. Vale, finalmente, reverenciar e reconhecer a ousadia empreendedora da família Mascarenhas nos tempos difíceis dos grandes desafios. Tempos difíceis todos são. Entretanto, meus companheiros de luta e aqueles que acreditam nesse Pardal do Sertão hão de continuar empunhando a bandeira de outras grandes conquistas. Adeus.                

 


  

      

  
     
      




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