ALEIJADINHO
Antônio Francisco Lisboa
Escultor, Entalhador, Santeiro
.
A obra desconhece ou
não quer saber se o artista padeceu na criação. Ela tem que falar por si mesma.
Autor:Rogério de Alvarenga
Apresentação

Enfiava-se nas camisas de longas mangas, no seu
paletó surrado, nas botas, no chapéu abanado e ainda, na grande capa que
encobria também seu burro paciente e amigo. Dobrava a gola de seu paletó, como
se fosse simplesmente uma proteção contra o frio cortante das manhãs serenas.
Não queria que ninguém o visse. Não queria ver
ninguém. Não por maldade ou malquerer. Simplesmente magoado com as desditas,
com tristeza profunda e irremediável.
A natureza transformou-o por completo e tirou as
suas expressões humanas, substituindo-as por deformidades. Violentou-o em todas
as partes de seu corpo. Seu rosto transfigurou-se. Sua fisionomia era incapaz
de abrir um sorriso amistoso e fraterno para quem quer que fosse. Não por
vontade própria, mas por imposições cruéis da natureza.
Entretanto, atrás desse vulto deformado e triste,
havia um gênio da arte de esculpir e entalhar que, com suas obras, romperia os
séculos como o expoente máximo das artes do século XVIII, como expressão
referencial para o mundo.
Eis, pois, conosco, trazido pelas circunstâncias
mais pungentes e dolorosas, a expressão da cultura mineira. Veio para uma
conversa franca e decidida.
Ele relutou em vir. Veio mais como uma obrigação
natural de artista, do que por dinheiro, por fama ou por prestígio. Nada disso
tem mais valor para ele. Veio como se fosse um trabalho a executar com
perfeição e arte. Veio, finalmente, como um dever a cumprir e, como sempre, com
sofrimento. Nada mais. Assim, está conosco, em pessoa, o escultor, o
entalhador, o santeiro, Antônio Francisco Lisboa.
Entrevistador
Mestre Antônio Francisco Lisboa! Os nossos
cumprimentos mais calorosos! É uma satisfação e uma honra poder vê-lo hoje
conosco, para uma entrevista exclusiva.
Antônio Francisco Lisboa - Aleijadinho
Não digo que esteja aqui por um momento de
satisfação, de uma honra ou de qualquer dispositivo semelhante. Estou aqui por
sofrimento, cumprindo um dever da arte, como sempre o fiz.
Entrevistador - Peço desculpas pelo
constrangimento, mas, como o senhor mesmo sabe, tornou-se um artista de renome
internacional, pelo seu trabalho, pela sua técnica, pela sua habilidade e
finalmente pelo seu destemor frente às imposições da vida.
AFL - A vida me tem sido cruel desde o dia que
nasci. Mesmo assim, nunca me intimidei
com as adversidades e procurei cumprir as minhas obrigações e me dedicar
exclusivamente ao trabalho.
E - E as suas obras são conhecidas pelo mundo
afora.
AFL - São apenas expressões da minha dor física, do
meu sofrimento interior, do meu desespero incontido e da minha obstinação. E,
sem obstinação, sem compulsão, nada seria construído e demonstrado. Jurei expor
meus sentimentos de revolta e angústia em cada parte da minha obra. Cada uma
delas teria que chorar por mim.
E - Como o senhor deixou transfigurado nos Passos
da Paixão, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do
Campo! Não é isso?
AFL - Nos Passos da Paixão tive uma oportunidade
mais segura de poder imprimir nas figuras o sentido da violência, das
falsidades humanas, da covardia, do sadismo de prazer na crueldade.
E - Foram as suas últimas obras?
AFL - Meus dez últimos anos de trabalho árduo.
Passei a residir em Congonhas do Campo, no alto daquela colina maravilhosa e
inspiradora. Meu sonho de escultor e entalhador! Nunca pensei que aquela
oportunidade pudesse esgueirar-se para mim. E eu peguei-a com unhas e dentes,
embora nessa época, já não tivesse mais unhas nem dentes.
E - Disseram que, para entender o sublime da sua
obra, é preciso saber o quanto custou em sofrimentos. Jamais, talvez, o gênio
exigiu tanto heroísmo para realizar-se.
AFL - Agradeço as referências, mas, a obra
desconhece ou não quer saber se o artista padeceu na criação. Ela tem que falar
por si mesma. Assim foram os Passos, também.
E - O senhor mesmo não deve ter o registro de todas
as obras que executou?
AFL - Realmente minhas anotações eram precárias.
Hoje, os pesquisadores conseguiram determinar o conjunto das minhas obras.
Sempre, como entalhador, trabalhando com madeira, esculpia parte de desenhos
meus e também riscos de outros. Fiz imagens, obras de escultura monumental como
fachadas, púlpitos, frontadas e finalmente, em Congonhas do Campo, produzi os
Passos da Paixão e os profetas em pedra sabão. Só isso.
E - Tudo que executou saiu de uma região de mineradores
que só queriam ver o ouro e o enriquecimento imediato. Como poderiam apreciar
seus modelos de arte?

E - Os bandeirantes trouxeram mulheres, crianças,
brancos, mamelucos, índios. Também gado e provisões. Também sementes de cereais
com que iniciaram as lavouras. Mas, o que foi fundamental?
AFL - A descoberta do ouro. Gente chegando de São
Paulo, da Bahia, de Portugal. Uma verdadeira loucura! Espalhou-se pelo mundo a
notícia do ouro abundante e disponível para todos, sem nenhuma regulamentação.
O mundo luso-brasileiro sucumbiu à tentação de riqueza imediata. Funcionários e
soldados desertavam. Marinheiros abandonavam seus barcos. Monges largavam seus
conventos, atirando seus hábitos às urtigas. Escravos e negros fugiam das
plantações de cana de açúcar. Com essa afluência desesperada, vieram também a
violência, o roubo, o massacre, os assaltos, os incêndios, as revoltas.
E - Mas os reis tanto de Portugal quanto da Espanha
tiveram que refrear essa situação!
AFL - Portugal se transformou num deserto. O povo
sumiu da Espanha. Houve então o cancelamento de passaportes, impedindo a saída
desses povos para a América. Portugal tinha dois milhões de habitantes e passou
para oitocentos mil.
E - Em Vila Rica foram criados modelos de
organização e controle da cata do ouro?
AFL - Nunca fui minerador, mas sei que houve
restrições. Inicialmente, não. Era de quem chegasse primeiro. Depois, com o
espantoso volume de ouro catado, Portugal acordou e veio buscar o que era dele,
por usurpação. E tentaram expulsar os descobridores paulistas na guerra dos
Emboabas. Então, surgiram normas e regulamentação. Era o quinto do ouro
retirado. Mais tarde, com as minas exauridas, o Marquês de Pombal instituiu
taxas obrigatórias como contribuição extraordinária individual, a derrama.
E Portugal enriqueceu?
AFL - Poderia ter se enriquecido. Enriqueceram os
paulistas. A descoberta das minas enriqueceu momentaneamente Portugal, mas
trouxe também o fermento da liberdade. Em consequência, veio a perder o próprio
Brasil.
E - E sobravam riquezas até para as artes?
E - As artes acompanham o poder econômico?
AFL – Verdade! Mas em Vila Rica aconteceu um pouco
diferente. A maior prosperidade das artes em Minas Gerais coincide com a
decadência do ouro. Entretanto, o povo queria pagar as promessas aos santos de
sua predileção. Ou pedir mais ouro, embora as minas já estivessem exauridas.
Queriam mais milagres. .
E – O senhor conseguiu bons contratos de trabalho.
Deve ter ganhado muito dinheiro nessa época.
E - Veio de uma família de artistas?
AFL - Meu pai, Manuel Francisco Lisboa, era insigne
arquiteto português, que trabalhou demais em Vila Rica, até no Palácio do
Governador. Meu tio, Antônio Francisco Pombal, era entalhador. Minha mãe era uma escrava de origem africana.
Foi escrava do meu pai. Nasci escravo e fui alforriado no dia do meu batizado. Em
seguida, meu pai casou-se com uma portuguesa, Antônia Maria de São Pedro, com
quem teve mais três filhas e um filho.
E - Quer dizer que você era mulato bastardo?
AFL - Sim, claro, mulato bastardo. Fui humilhado, por isso, inúmeras vezes. pela
infâmia de ser bastardo e mulato. Essa infâmia me impedia de assinar contratos
e colocar meu nome nos registros das ordens religiosas. Sempre trabalhei para
as irmandades na Ordem Terceira do Carmo e de São Francisco de Assis, sob
contrato, mas nunca pude tampouco entrar para essas irmandades. Eram
aristocráticas as ordens dos franciscanos e dos carmelitas, para as quais tanto
trabalhei.
E - Os negros e mulatos ficaram isolados?

E - Fez trabalhos acompanhando seu pai?
AFL - Inicialmente, sim. Muitas vezes, sim. Meus
brinquedos de infância foram feitos no atelier do meu pai. Depois, fui
crescendo com pequenos trabalhos e me divertindo. Consegui me firmar como
oficial, mesmo sem poder ter um registro. Ia conseguindo contratos próprios,
até que chegou uma oportunidade na igreja matriz de Caeté. Ganhei o suficiente
para melhorar de vida.
E - Seu pai era também carpinteiro e pedreiro?
AFL - Sim... ele era grande carpinteiro e juiz de
oficio Também trabalhei em madeira com
ele. Sempre querendo aprender mais e a me aperfeiçoar nas artes de qualquer
natureza. Meu meio irmão também participava. Trabalhamos juntos, por muito
tempo. Depois da morte de meu pai, paguei os estudos para ele, até tornar-se
padre, reverendo Antônio Felix Lisboa. Nas horas vagas era também entalhador,
como não poderia deixar de ser.
E - Você não se casou?
AFL - Estava mais pra viver a vida com os seus
pequenos prazeres. Era jovem disposto e saudável. Frequentava as danças e
gostava de me divertir também. Há algum mal nisso? Tive um filho bastardo, com
uma mulata livre, cabra forra, de nome Narcisa, quando eu tinha já 47 anos de
idade. Dei-lhe o nome do meu pai, Francisco Manuel Lisboa. Nunca me casei.
E – Você teve escola?

E – O segundo vereador de Mariana, Joaquim José da
Silva, considera você como o iniciador de um novo estilo e um dos artistas que
mais purificaram a arte da talha dos exageros do barroco. Diz ele que nem em
Portugal havia alguém do seu nível.
AFL - Minha aprendizagem foi no canteiro dos
altares das naves, principalmente em Caeté, onde fiquei sozinho com o meu
desempenho. Meu aprendizado prático foi feito dentro de atelier, serrando
madeira, lixando madeira, no trabalho braçal, sem escolhas ou preferências. Fiz
de tudo na carpintaria do meu pai. Minha infância e meu aprendizado foram
feitos no trabalho árduo. Minha infância foi trabalho.
E - Mas, seus biógrafos se dividem quanto ao ano de
seu nascimento. Rodrigo José Ferreira Bretas diz que você nasceu em 1730 e
outros, baseando no seu atestado de óbito, afirmam que você teria nascido em
1738, tendo falecido em 18 de novembro de 1814, aos 76
anos de idade. Que diz sobre isso, para um acerto definitivo?
AFL – Infelizmente, as brumas permanecerão. Hoje,
nada mais posso dizer sobre isso. Vivi o suficiente para produzir uma obra que
falará por mim. São polêmicas dos humanos. Um dia ou um ano não faz diferença
para quem se encontra em outra esfera.
E - Verdade! Dessa forma, ficarão seus biógrafos
atormentados com pequenos problemas, enquanto deixam de refletir sobre as
marcas deixadas pela sua passagem pelo planeta Terra, as marcas de suas
próprias mãos. Isso me faz tocar numa questão muito constrangedora, mas vou ter
a ousadia de perguntar. Disseram que os Passos e os Profetas foram esculpidos
por um homem sem mãos?

E - Os dedos começaram a cair?
AFL - Sim. Inicialmente os dedos dos pés. Não
conseguia mais me locomover. Tive que providenciar uma armadura de couro para
firmar meus joelhos ao chão. Andava de joelhos. Mesmo assim, não fiquei fixado
à terra. Tinha que me movimentar. Andei de joelhos. Tirem-me os dedos dos pés,
mas a minha cabeça ainda dirige o meu corpo por onde for possível e impossível.
Nunca fiquei parado ou deitado numa cama por causa disso.
E - Mas e os dedos das mãos?
AFL – Começaram a cair também. Primeiramente,
minhas mãos se entortaram e eu não conseguia mais manusear o cinzel e a
marreta. Estavam me prejudicando. Prejudicando o meu trabalho. Os dedos queriam
cair e não caíam. Comecei a amputá-los, um a um. Colocava o cinzel sobre ele e
meu escravo Maurício batia a marreta.
E - E o escravo Maurício executava essa tarefa sem
resistência?
AFL - Com muita resistência, a princípio. Ou ele
pegava a marreta ou eu lhe dava umas chibatadas nas costas. Preferia pegar a
marreta.
E - Amputou todos os dedos das mãos?
AFL - Menos o indicador e o polegar. Além disso,
meu rosto deformou-se. Minha boca entortou. Minhas pálpebras se retorceram.
Meus dentes foram caindo. Fiquei triste demais. Nunca acreditei que tal
desgraça pudesse acontecer comigo. Minha cabeça inchou e meu rosto arredondou-se.
Mais seria impossível. Sempre fui uma pessoa de boa fisionomia e gostava de
mim. Sempre me achei um ser humano de boa aparência, capaz de despertar
interesse, respeito e amizade entre os homens e admiração entre as mulheres.
Restou isso de mim. Nunca me conformei. Nunca me conformei com isso, agora o
digo com a maior força e desespero de meu coração. Tive ódio e desespero.

AFL - Claro que não. A deformidade foi constante,
mas gradativa e lenta para que eu notasse essas transformações diariamente.
E - Por isso, não queria mais ter contato com o
público?
AFL - Odiei o mundo, as pessoas. Não queria mais
ver ninguém. Não queria que me vissem. Procurei o isolamento no meu mundo.
Sabia que as pessoas me achavam um monstro. Eu mesmo achava isso e não me
perdoava. Por que? Por que? Tive que criar o meu mundo particular. Um mundo só
meu. Um mundo do trabalho e da arte. Trabalhei os sete dias da semana, de sol a
sol, ou melhor, de noite a noite. Quanto
mais me dedicava ao trabalho. mais esquecia do meu mal, da minha infelicidade
constrangedora e inevitável. Só as minhas figuras, minhas estátuas falavam
comigo, sem temor, sem asco.
E - Desculpe-me se toquei num assunto delicado e
que trouxe reflexões desagradáveis para o senhor.
AFL - Nunca admiti a mais leve referência ao meu
estado físico. Muitos pensavam que eu tinha lepra. Lepra nervosa. Outros, que
era zamparina, um mal epidêmico, um surto de gripe, ocorrido no Rio de Janeiro,
provocando alterações no sistema nervoso e no locomotor, provocando, ainda,
deformações. Outros diziam que eu tinha tomado muita erva cardina, da flora
tropical, entorpecente alucinógeno. Outro diagnóstico me falava de humor
gálico, sífilis hereditária ou adquirida. Escorbuto, provocando a necrose das
extremidades.
E – O senhor se referiu a lepra?
AFL - Convivi em sociedade 37 anos e não transmiti
meu mal a ninguém, nem a meus escravos com quem trabalhava. A lepra produz a
atrofia dos músculos da mão, atrofia das pálpebras, paralisia facial, queda dos
dentes. Além de tudo, é contagiosa. De qualquer jeito, seja qual for o tipo do
meu mal, era um mal insuportável. Tanto sofri naquele tempo, como sofro agora,
rememorando o que não teve cura. Com a sua permissão, peço que nunca mais me
pergunte qualquer coisa relativa ao meu mal.
E - Nunca foi minha intenção rememorar fatos ou
situações que fossem desagradáveis ou que pudessem trazer qualquer forma de
ressentimento para o senhor. Apenas, uma questão básica sobre isso. Em 1777,
quando estava no projeto da igreja das Mercês de Baixo, o senhor já estava
sendo transportado pelos seus escravos?
AFL - Isso mesmo. Meu calvário começou em 1777 e só
terminou com a minha morte em 1814. Tive 37 anos de sofrimento físico e de
ordem psicológica grave. Cada vez mais grave e progressivo.
E - Foi então aí que o apelidaram de O ALEIJADINHO?
AFL - Uma crueldade inevitável. Compreendo que isso
poderia ter acontecido. Sei, agora, que não faziam por mal. Entretanto, como eu
poderia negar todas as evidências? E como eu poderia também aceitar uma
verbalização frontal no meu desespero e na minha revolta? Não era apenas a dor
física. Sentia-me feio, simplesmente. Horrível, medonho. Causador de compaixão.
Nunca quis isso. Nunca aceitei essa caracterização. Se quiserem, podem
continuar me chamando por esse apelido. Que posso fazer? Não me interessa mais
se compreendam ou não. Para os séculos sei que não vou passar mesmo de um
aleijadinho.
E - Melhor falar em trabalho, obras, projetos. São
seus assuntos de preferência.
AFL - Vivi por eles, com abnegação total. A minha
existência não teria motivo sem meu trabalho. As minhas talhas, minhas
esculturas, minhas imagens de santos e, finalmente, os profetas do Santuário do
Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas do Campo.
E - Nessa cidade mineira, distante 66 km de Vila
Rica, estão as suas obras primas?
AFL - Acho que sim. Como artista, não posso
desprezar nenhuma das minhas criações. Imagens de santos em talhas, portadas ou
outras obras que realizei.Tanto em Vila Rica, como em Sabará, Caeté, São João
del-Rey e muitas outras localidades importantes. Mas o Santuário de Congonhas
do Campo é a síntese da minha expressão artística nesta vida de humanos.
Entreguei-me a ela de corpo e, sobretudo, de alma.
E – Por que Congonhas do Campo?
AFL- O destino tinha que se cumprir. Tudo começou
com um devoto minerador português Feliciano Mendes. Dizem que na vida não há
encontros e sim, reencontros. O destino tinha que se cumprir.
E - Que aconteceu com esse garimpeiro?
AFL - O minerador Feliciano Mendes, originário de
Braga, fez uma promessa ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Curado de grave
enfermidade contraída na própria mineração, decide dedicar sua vida ao culto do
Senhor Bom Jesus e inicia em 1757, a construção da igreja de Congonhas, com a
devida autorização das autoridades religiosas. Uma devoção a Cristo
crucificado, venerado em santuários famosos do norte de Portugal, como os de
Braga e Matosinhos. Ele mesmo iniciou a coleta de auxílios financeiros para a
obra. Consta que ele abriu a lista com 60$000 (sessenta mil réis).
AFL - Sim. Com a peregrinação de substituição. Se o
devoto não podia visitar pessoalmente os lugares santos de Jerusalém, fazia
suas orações na própria terra, em locais devidamente dispostos para esse fim.
E - Surgiu a ideia dos Passos ou pontos de parada
de Jesus no seu caminho para o Gólgota? A Via Sacra?
AFL - Isso mesmo. A via dolorosa. Isso compunha o
plano diretor do conjunto arquitetônico. Primeiramente, foram construídos o
templo e o adro, com as escadarias. Com a conclusão dos Passos, mais uma etapa
estava vencida. Observe que o conjunto arquitetônico teve início em 1757.
Somente quarenta anos depois, iniciou-se a obra dos Passos. Um espírito
superior sobrevoava os desígnios do santuário.
.
E - Quando você começou a obra dos Passos?
AFL - Em 1796, fui chamado para o término do
projeto. E foi iniciado no dia primeiro de agosto desse mesmo ano. Com a ajuda
dos meus oficiais.
E – O senhor já estava sexagenário?
AFL - Muitos poderiam duvidar de mim, da minha
capacidade pela idade e pelas minhas condições físicas. Não dei ouvidos, nem
pensei duas vezes e me embarquei para a cidade de Congonhas do Campo com todo
meu pessoal, com minha obstinação e meu destino. Iria expor minha alma total e
desnudada. Já que sempre quiseram me ver pessoalmente, vou me mostrar por
inteiro, não só para meus contemporâneos, como também para toda a humanidade,
pelos séculos afora.
E - Uma grande decisão?
AFL - Um velho aleijado, numa empreitada
impossível! Mas, quando cheguei àquela maravilhosa colina, vi o horizonte se
perder atrás de montanhas e montanhas sem fim. Então, ergui meu pensamento às
causas impossíveis e entrei para o trabalho. Sabia que era um local
predestinado. Impossível vislumbrar essa paisagem descortinada entre dobras de
montanhas verdes, azuis e brancas no infinito sem suspirar as lágrimas de
encantamento e devoção a Deus.
E - Trabalhou dia e noite?
AFL – Dia e noite num trabalho contínuo, em três
anos. Assim, em 31 de dezembro de 1799, entreguei a primeira parte dos Passos
da Paixão de Jesus.

AFL - Isso mesmo.
E - Os profetas foram outro projeto?
AFL - Ao entregar o último lote das imagens, eu já
estava com outro contrato nas mãos, para esculpir as estátuas dos profetas em
pedra. Mais cinco anos de trabalho.
E - Mas as imagens dos Passos ainda não estavam
terminadas totalmente?
AFL - A minha parte, sim. Elas estavam a céu
aberto. Precisavam de policromia. Entretanto, de minha parte, pelo meu
contrato, tudo estava concluído.
E - Suas imagens ficaram expostas sem proteção.
Consta que uma devota, ao visitar uma dessas cenas dos Passos, julgou estar
diante de um grupo de pessoas reais e tentou cumprimentar uma delas.
AFL - Pode ser verdade. Minha intenção era essa mesmo.
Ter semelhança total com as figuras da época. Se tiver acontecido realmente,
fico muito satisfeito em ter conhecimento disso.
E - Foi uma longa história o seu contrato para a
obra dos Passos e do plano diretor em Congonhas do Campo, não é verdade?
AFL - Uma longa história. E todas as histórias têm uma semente, um
minúsculo sonho que fermenta e germina. Cresce e frutifica, quando bem
cultivada. Foi iniciada em 1802 a construção de pequenas capelas para abrigar
cada uma das cenas da Paixão. Só foram terminadas em 1818. Portanto, eu não
tive oportunidade de vê-las.
E - Que pode dizer mais sobre essa história da
construção das estátuas em pedra?
AFL - Com a responsabilidade de um contrato em
mãos, tive que estudar a Bíblia com meus oficiais. Tínhamos gravuras para
algumas cenas, como modelo. Mas, sempre prevalecia o imaginário. Agora,
estávamos diante de profetas do Antigo Testamento. Quantos eram? Quantos seriam
representados? Quais seriam escolhidos. Que posições gestuais iriam assumir?
Tinha a intenção de representar posições de autoridade decisória, anunciando a
vinda do Messias redentor, o salvador da humanidade. A harmonização entre o Antigo
e o Novo Testamento.
AFL - Viajar pelo inconsciente, pelas gerações e
gerações, até atingir o momento de alta significação mental, para que pudesse
dirigir as minhas fragilizadas mãos pelo caminho certo e poder dar força
expressiva aos meus profetas e poder ainda transportar fragmentos do espírito
cristão até aos nossos dias.
AFL - Apenas 12 profetas.
E - Mas, segundo o Antigo Testamento, são
dezesseis.
AFL - Houve realmente um procedimento especial na
escolha dos profetas. Não estou em condições de esclarecer esse fato. Houve
ainda a presença de Baruc, que não era profeta, substituindo um deles.
E - Como estão posicionados no adro da matriz?
AFL - Seguem a ordem bíblica. Isaias e Jeremias
estão no portal de entrada. Baruc está à esquerda e Ezequiel à direita. Depois,
Daniel na parte central de honra e Oseias à direita. Amós, Abdias e Jonas estão
nos ângulos laterais à esquerda. Finalmente, Naum, Habacuc e Joel estão em
posições correspondentes à direita.
E - Quer dizer que não estão representados Sofonias,
Ageu, Zacarias, Malaquias e Miqueias.
AFL – Realmente não estão representados. Houve uma
discrepância, Baruc era como se fosse um secretário de Jeremias. Ele não
integra a lista de profetas.
E - Mas por que foi feita essas posições
gestuais? .
AFL - Nos mistérios da Páscoa e do Natal, os
profetas são invocados a testemunhar contra os judeus, dizendo cada um deles
uma frase, extraída das profecias, representada por um rolo documental.
Apresentam-se com gesticulação eloquente e porte de atores medievais.
E - São fantásticas as vestimentas e os diversos
apetrechos de adorno.
AFL - Foram inspirados em documentos da Europa do
Norte. Os patriarcas, com longos casacos e mantos, à moda turca. Debruados com
faixas bordadas, com barretes em forma de turbantes. São figuras de Flandres,
no Séc. XVII. A iconografia da Paixão baseia-se no evangelho de São João.
E - Os profetas são trágicos nas suas feições e nas
mensagens transmitidas pelo latim de suas cartelas.
E - Houve outras obras, depois dos Profetas em
pedra sabão?
AFL - Quase nada. Daí pra frente, a realidade do
fim da vida tomou conta de mim e não tive mais forças para recomeçar, como
tantas vezes o fiz. Um de meus escravos faleceu. Os outros foram alforriados,
porque nem alimentação eu podia dar a eles. Cheguei ao fim da minha história. A
partir de 1810 passei a viver de favores. Finalmente, nem de favores. Estava
ainda vivo sem permissão de viver.
E - E seu meio-irmão, o padre Félix?
AFL - Não tive mais notícias dele, nem das minhas
irmãs. Ninguém podia escutar os meus frouxos lamentos, tão frágeis e
inaudíveis. Mesmo assim, encontrei uma pessoa abnegada, que me assistiu nos
últimos dias de minha vida e na minha hora final.
E - Muito sofrimento, outra vez?

E - Não é nossa intenção exigir mais depoimentos
tão dolorosos como este. Penso que chega ao fim nossa carinhosa entrevista.
Agradecemos de coração aberto. O senhor, um artista da escultura barroca do
Século XVIII, nascido das minas ouro de Vila Rica, onde todos tinham as
atenções voltadas para a riqueza fácil e imediata, Antônio Francisco Lisboa,
dedicou-se exclusivamente, obstinadamente, à arte. Não ficou rico. Ficou famoso
e laureado. Ficou reverenciado pelas gerações e gerações, com o testemunho das
suas obras. Trouxe, agora, um momento de reflexão sobre o trabalho árduo e
compulsivo, para as pessoas de qualquer ramo de atividade, na forma de mito e
modelo. Com firmeza e dedicação ao trabalho,
o universo conspira, realmente, a seu favor. Gostaríamos agora de ouvir a sua
mensagem de despedida.
AFL - Em vida, jamais teria dado uma entrevista e
todos já sabem agora os motivos. Sempre tentei me envolver nas penumbras, de
andar à noite e de trabalhar rodeado de tapume e fora da curiosidade dos meus
contemporâneos. Muitas vezes fui grosseiro e áspero, na defesa dos meus
princípios. Fui objeto de compaixão. Nunca desejei isso. Queria apenas que a
minha obra fosse expurgada do desespero e do ódio pela natureza que me fez um
ser hediondo. Assim, agora, neste momento, devo pedir, sim, apenas compaixão e
pedir, ainda, que me absolvam por tantas iniqüidades que tenha cometido. Para a humanidade, deixo as palavras dos
profetas do adro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas
do Campo, estado de Minas Gerais, eloquentemente mística e altiva.
E - Meus agradecimentos na eternidade!
AS CARTELAS DOS PROFETAS
1.
ISAIAS - ISAIAE, CAP. 6
CUM SERAPHIM DOMINUM, CELEBRASSENT
A SERAPH UNO ADMOTA EST LABRIS FORCIPE PRUNA MEIS
Ordem direta
Cum seraphim celebrassent Dominum,
admota est pruna a seraphuno labris meis forcipe.
Tradução
Depois que os serafins celebraram
o senhor, foi encostada por um serafim uma brasa aos meus lábios por meio de
uma tenaz
2 - IEREMIAS – IEREMIAS CAP. 35
DEFLEO IUDAEAE CLADEM SOLYMAEQUE
RUINAMAD DOMINUMQUE VELINT QUAESO REDIRE SUUM
Ordem direta
Defleo cladem ludaeae et ruinam
Solymaeet quaeso velint redire ad Dominum suum
Tradução
Choro o desastre de Judéia e a
ruína de Jerusalém e peço que queiram voltar ao seu senhor
3 - BARUC -
BARUC CAP. I
ADVENTUM CHRISTI IN CARNE
POSTREMAQUE MUNDI. TEMPORA PREDICO PREMONEOQUE PIOS
Ordem direta
Predico adventum Christi in
carneet postrema tempora mundi et premoneo pios.
Tradução
Anuncio a chegada de Cristo em
carne e os últimos tempos do mundo aviso os bons.
4 - EZEQUIEL – EZECHIEL CAP.I
QUATUOR IN MEDIIS DESCRIBO
ANIMALIA FLAMIS HORRIBILESQUE ROTAS AETHEREUMQUE THRONUM.
Ordem direta
Describo quatuor animalia in
mediis flamis et horribiles rotas et aethereum thronum.
Tradução:
Descrevo quatro animais no meio
das chamas e horríveis rodas e o trono etéreo
5 – DANIEL – DANIEL CAP. 6
SPELAEO INCLUSUS (SIC REGE
IUBENTE) LEONUM NUMINIS AUXILIO LIBEROR INCOLUMIS
Ordem direta
Inclusus spelaeo leonum (sic iubente
rege) liberor incolumis auxilio Numinis.
Tradução
Preso na cova dos leões, por ordem
do rei, sou libertado incólume pelo auxílio da Divindade.
6 – OSÉIAS – OSEE – CAP.I
ACCIPE ADULTERAM, AIT DOMINUS MIHI
ID EXSEQUOR ILLA, FACTA UXOR, PROLES CONCIPIT ATQUE PARIT.
Ordem direta
Ait Dominus mihi: accipe
adulteram. Exsequor id, Illa,
facta uxor, concipit atque parit proles.
Tradução
Diz o Senhor para mim: recebe a
adúltera. Cumpro isso. Ela, tornada esposa, concebe e gera filhos.
7 – JOEL – JOEL CAP. I,4
EXPLICO IUDAEAE QUID TERRAE ERUCA,
LOCUSTA BRUCHUS RUBIGO SINT PARITURA MALI.
Ordem direta
Explico Iudaeae quid mali eruca,
locusta, bruchus, rubigo paritura sint terrae.
Tradução
Explico à Judeia o mal que a
lagarta, o gafanhoto, o bruco e a alforra produzirão para a terra.
8 – AMÓS – AMOS CAP. I
PRIMO EQUIDEM PASTOR FACTUSQUE
DEINDE PROPHETA IN VACCAS PINGUES INVEHOR ET PROCERES
Ordem direta
Equidem factus primo pastor,
deinde propheta, invehor in vaccas pingues et proceres.
Tradução
Na verdade, feito primeiramente,
pastor, depois profeta, invisto contra as vacas gordas e os líderes.
9 – ABDIAS -
ABDIAS, CAP. I
VOS EGO IDUMAEOS ET GENTES ARGUO:
VOBIS NUNTIO IUCTIFICUM PROVIDUS INTERITUM
Ordem direta
Ego arguo vos, Idumaeos et Gentes:
providus nuntio vobis iuctificum
interitum.
Tradução
Eu acuso a vós, Idumeus e Gentios.
E vos anuncio, previdente, uma lutuosa ruína.
10 – JONAS – JONAS, CAP. I
A CETO ABSORPTUS LATEO NOCTESQUE DIESQUE TRES VENTRE
IN PISCIS: TUM NINIVEN VENIO.
Ordem direta
Absorptus a ceto, lateo tres
noctes et dies in ventre piscis, tum venio Niniven.
Tradução
Engolido pela baleia, fico
escondido três noites e três dias no ventre do peixe: então, chego a Nínive.
11 – NAUM – NAUM, CAP. I
EXPONO NINIVEN MANEAT QUAE POENA
RELAPSAM EVERTENDAM AIO FUNDITUS ASSYRIAM.
Ordem direta
Expono quae poena maneat Niniven
relapsam, aio Assyriam evertendam funditus.
Tradução
Exponho que castigo pesa sobre
Nínive decaída. Digo que a Assíria deve ser totalmente destruída.
12 – HABACUC – HABACUC 1.2
TE BABYLON BABYLON TE TE CHALDAEAE
TYRANNE ARGUO: AT IN PSALMIS TE DEUS ALME CANO.
Ordem direta
Arguo te, Babylon, Babylon, te te,
tyranne Chaldaeae at cano te in psalmis, alme Deus.
Tradução
Acuso-te, ó Babilônia, Babilônia,
a ti, ó tirano da Caldéia. Mas canto em, salmos, a ti, ó Deus criador.
BIBLIOGRAFIA
BRETAS, Rodrigo José Ferreira. Traços biográficos relativos ao
finado Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho.
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional:, RJ, n.15, 1951.
LANARI, Cássio. Rodrigo José Ferreira Bretas biógrafo do
Aleijadinho. Centro de Estudos Mineiros: Belo Horizonte, 1968.
JORNAL CORREIO OFFICIAL DE MINAS. Ouro Preto. Ano II,
quinta-feira, 19 agosto, n. 169, 1858.
FERREIRA, Delson Gonçalves. O Aleijadinho. Rona Editora, 2a.edição:
Belo Horizonte, 2001.
JARDIM, Márcio. Aleijadinho catálogo geral da obra. Editora RTKF:
Belo Horizonte, 2006.
OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. Passos da paixão Aleijadinho.
Edições Alumbramento: RJ, 1989
ÁVILA, Affonso. Resíduos seiscentistas em Minas Gerais. Centro de
Estudos Mineiros, 2 vol: Belo Horizonte, 1967.
CARPEAUX, Otto Maria. As sete cidades do ouro. Editora Itatiaia:
Belo Horizonte, 2000
SALLES, Fritz Teixeira. Associações religiosas no ciclo do ouro.
Centro de Estudos Mineiros – UFMG: Belo Horizonte, 1963.
MENEZES, Joaquim Furtado de. Igrejas e irmandades de Ouro Preto.
IEPHA de Minas Gerais: Belo Horizonte, 1975
muito bacana o seu blog Rogerio...
ResponderExcluirDevagar estou lendo tudo, porque achei muito belo, as imagens e a historia.
abracos..
Lourdes _CLARA_
Parabéns Rogério, como sempre o seu bom gosto é maravilhoso.
ResponderExcluirAbraço
Vera Lucia
Esse foi o cara do século, o Michelangelo brasileiro. Visitei algumas cidade de minas para conhecer de perto as obras barrocas desse gênio. Parabéns pelo blog. Maneira interessante de expor a cultura mineira.
ResponderExcluirBelo txt ainda nao conheco mg. Quero ir a ouro preto
ResponderExcluirEstava pesq. E um link me trouxe neste blog. Gostei muito sou estud d artes no RS. Quero muito conhecer as obras deste gênio. Otimo texto,criativo e direto. Deu mais vontade de ijadinho de perto as obras de aleijadinho. Vlw.
ResponderExcluirQ legal
ResponderExcluirAs igrejas de minas são maravilhosas graças a este artista
ResponderExcluirolha Andreia.. rsrsrsrsrrs entramos juntas na pagina. Vamos visitar minas esta semana ai pesquisando. rsrsrsrs. bjs
ResponderExcluireste foi o cara das esculturas
ResponderExcluirseu trabalho é de vanguarda, gosto muito de seu blog. o senhor anda sumido volte a nos prestigiar com seus escritos. me deculpe por deixar vários recados hoje, mas é pra ver se influencio na sua decisão de voltar a escrever sobre PNL
ResponderExcluirbjin de luz
grande mestre da arte brasileira já esquecida
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