segunda-feira, 7 de maio de 2018

ITABIRA EM FOTOGRAFIA NA PAREDE

Três sonetos
Uma radiografia, um recado e uma proposta.
Uma contribuição. Sem romantismo.



ITABIRA

Itabira não tem mais solução!
Vendeu bem barato sua alma ao diabo
Solo, subsolo e tem preso o rabo
Desde o parto, desde a concepção.

Também Fausto, um dia, vendeu a alma
Em troca de prazeres ao demônio.
No fim, perdeu todo o seu patrimônio
O paraíso, em desespero, a calma.

Como rasgar essas escrituras
Se o patrono aceitou as condições
Dando tudo das gerações futuras?

Anseios sepultados aos montões
Sem projetos pois as belas figuras 
Decretaram sua vida aos porões.



FALA DA VALE

Quem quiser montar indústria, que monte!
Eu vim aqui só pra buscar minério
Por isso, não saio do meu critério
Pago o preço e pego o ferro na fonte.

Não vim pra criar emprego a ninguém
Nem pra tirar cidade do buraco
Sem papo, todos vêm me encher o saco,
Com pires na mão, querendo um vintém.

Meus direitos não são de concessão
Fui criada para a exploração das minas
Por mineiros, Silva e Batista, não?

Agora, chegam tantas sabatinas
No Rio de Janeiro a implantação
Lá, firme a sede fica. Quer propinas?



TURISMO ECOLÓGICO

Turismo ecológico cheira a mato
A transa, droga, farofa e mochila
Grana curta pra encontrar um gorila
Banho de cachoeira e carrapato.

Um campo de pouso internacional
Estrada duplicada e ajardinada
Pernoites? Cama larga almofadada
Raios de sol rompem na matinal.

Grandes praças de esporte e lazer
Boys e girls como gentis serviçais
À mesa faisões tostados trazer.

À noite,as danças e os jogos florais,
Música e vinhos pra juntos sorver!
Muito além dos antigos carnavais!

quarta-feira, 18 de abril de 2018

A DÚVIDA E A INCONSEQUÊNCIA EM DOIS SONETOS.


O diálogo interno, um bem e um mal.
Um longo diálogo interno produz a inércia.
Um curto diálogo interno produz um desastre.
Hamlet viveu a dúvida e dom Quixote viveu a inconsequência




PENSAR

Pensar demais retarda a decisão
O peixe voa e a andorinha nada
O jovem Hamlet esperou uma fada
E a dúvida invadiu seu coração.

To be, or not to be! Até agora?
Mais de quinhentos anos se passaram
Tantos outros reis o trono usurparam
E ele, de tanto pensar, ainda chora.

Tanta história rolou no seu país
E de tanto pensar surgiu dom Casmurro
Divulgando a teoria como quis.

Meditando, no rosto leva um murro
Imóvel, impassível, infeliz
Pois, de tanto pensar, morreu um burro.



NÃO PENSAR

Tão triste é uma decisão impensada!
Dom Quixote matou três adversários
No tal dia do seu aniversário,
Músicos de uma banda contratada.

Em algazarra e turbulência vinha
Para esta festa cheia de alegria
Imaginou inimigos que temia
Disparou todas as balas que tinha.

E agora? Como sair do conflito?
Como reverter a situação?
Rapidez no pensar, agiu aflito.

E nada a ganhar – decisão é ação!
Sem razão, pode rodar o infinito
Mas nada de pedir ressurreição.


segunda-feira, 9 de abril de 2018

SONETOS MORTÍFEROS



A tecnologia não pede licença e passa por cima até dos tratores.
A crueldade das inovações tecnológicas não pede passagem e arrasa o que estiver pela frente.
Entre na roda ou saia da frente.




A MARCHA DO PROGRESSO

Ninguém segura a marcha do progresso
Tudo aquilo que hoje está sendo feito
Será feito amanhã de outro jeito
Diferente será e com mais sucesso.

E no dia que um ser humano nasce
Tão logo ele casa-se com a mudança
Pode ser que não haja uma festança
Mas um pacto firme com ela faz-se.

Dizer que tem quinze anos de experiência
Ou um ano quinze vezes repetido
Será um trampolim para a competência?

Ou espelho retrovisor embutido
Que ilumina pra trás na decadência?
Fracassa em busca do tempo perdido.




AS VONTADES

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Camões falou e pôs dedicatória
Seu vaticínio vem rolando a história
E essas palavras parecem maldades.

Vem o século do obsoletismo
Traz as verdades pra fora de moda
Lança, usa, aproveita e gira a roda
Nada é para sempre, nem fanatismo.

Tapete mágico, conto de fadas
No alto o vento, e a chuva a vista embaça
Um sonho distante, mente estagnada.

Impedir a mudança virou desgraça
Nada resiste a força da manada
Os cães ladram e a carruagem passa.

quinta-feira, 22 de março de 2018

SONETOS EM PENCA DE TRÊS

Três sonetos do reino animal, sem clemência. Cada qual aparece de modo mais estranho. São as personagens do dia. Desculpem-me alguma irreverência.



PERU
Um peru que pia como peru
Como peru deve ele ser tratado.
Cada pio que der é analisado,
Já fede o filhotinho de urubu.

O eco é uma resposta de um som qualquer
Que assim que ouvido é interpretado.
Caso não seja de total agrado,
Quem emite tem a culpa e mister.

Cada qual veste certo a sua história!
Cada planta tem a sua folhagem
Que não desmente a verdade ilusória.

O velho espelho retrata esta imagem
Que bem gravada fica na memória.
Cada qual traz na cara sua mensagem.



SER VACA
As portas do hospício estão sempre abertas
Pra quem sai fora da linha do trem
Vê o outro lado que a vida contém
E o crivo da imaginação liberta.

Solta o verbo, mesmo sem microfone
Veste-se de Adão - e de Eva ataca.
Morador diz que se transformou em vaca
E em vez de chifre na cabeça um cone.

Cada qual veste a vida que escolher
E cada qual sua verdade tinha
E cada qual procura o que fazer.

- E desde quando a transformação vinha?
E sem hesitar vai já responder:
“Desde quando eu era uma bezerrinha.”



CACHORRO MORTO
Foi numa vila bem longe daqui
Cachorro morto na rua jazia
Três ou quatro dias de sol, fedia.
Ninguém veio para tirá-lo dali.

Mulher sentada na porta da casa
Cuidava dos filhos brincando em frente
Queixava da fedentina inclemente
E o mau cheiro os moradores arrasa.

Um vizinho quis enterrar o bicho
Mas ninguém ajudou nesse socorro
Por moleza, por preguiça ou capricho.

Deixa o tal acabar até o couro!
E ele só? Ia por a mão no lixo?
Desistiu. Sozinho, era desaforo!

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