A
PSICÓLOGA DE MINAS GERAIS
Em
1929, aportou em terras mineiras, contratada pelo estado, a jovem psicóloga
russa, Helena Antipoff, para um trabalho que duraria, em princípio, dois anos.
Aqui ficou e trabalhou até o seu último dia de vida, ainda com grandes projetos
em execução. Suas palavras ao despedir-se da vida: “fico envergonhada de morrer
deixando ainda tanta coisa por fazer.”
Autor: Rogério
de Alvarenga
APRESENTAÇÃO

Entrevistador
- Disponível para uma entrevista virtual, professora Helena Antipoff?
Helena
Antipoff – Sempre estou disponível. Por onde começar?
Entrevistador
- Iniciando esta entrevista virtual, sinto-me na obrigação de dizer da minha
satisfação de poder contar com as suas palavras, sempre cheias de otimismo e de
calor humano.
H
A - Dediquei minha vida, realmente, a causas humanitárias e à educação, sempre
em benefício da coletividade. Isto significa que obsessivamente me preocupei
com a causa do desenvolvimento das pessoas, onde quer que elas estivessem.
E
- Mas, a senhora chegou ao Brasil em 1929?
H
A - Realmente! Em abril, assinei contrato com o governo do estado de Minas
Gerais, por dois anos. Estava ainda trabalhando em Genebra, no Instituto Jean
Jacques Rousseau e, a partir desse mês, comecei os preparativos para a viagem
ao Brasil, despedindo-me dos amigos, dos colegas e dos mestres.
E
- Naquele tempo as viagens eram mais difíceis.
H
A - É verdade. Vim pelo navio transatlântico italiano Júlio César, de 200m de
comprimento. Uma viagem que durou 14 dias, de Gênova a Santos.
E
- Uma aventura?
H
A - Sim! Uma aventura. Tive um convite para trabalhar no Egito e outro no
Brasil. Tive informações pelo psicólogo Leon Walther de que as condições de
trabalho no Brasil eram bem favoráveis. Ele teve contrato de trabalho e aqui
permaneceu por dois anos. Fiz a minha opção.
E
- E a família? Deixou os entes queridos na Europa?
H
A - Uma semana antes do meu embarque, tivemos uma despedida inesquecível.
Reunimo-nos numa casa confortável em Villefranche sur Mer, na região de Côte
d´Azur. Minha mãe, Sofia, minha irmã Tânia com um colega do curso de
odontologia. Além de Daniel, meu filho único, muito amado, que já estava com
dez anos de idade. Foi a última vez que nos reunimos. Não estava presente a
minha irmã Zina, que já morava nos Estados Unidos.
E
- A senhora não trouxe o seu filho Daniel para o Brasil?
H
A - Nessa oportunidade, não achei conveniente a vinda dele. Como disse, era uma
aventura pelo desconhecido, com informações de dificuldades para a sua
formação, além de doenças tropicais, cobras e tantas outras coisas que se
falavam do Brasil, naquela época.
E
- E o seu filho de dez anos ficou na França?
H
A - Deixei-o sob os cuidados de uma colega Mlle. Marguerite Sabeyran, internado
na sua escola, em Dieulefit. Ah! Esqueci-me de dizer que também estava presente
em Côte d´Azur, o meu marido, o jornalista russo Victor Iretzky. Ele residia,
exilado, na Alemanha e veio para as nossas despedidas. Foi a última vez que o
vi. Ele trouxe de presente para mim um anel com uma bela pedra de ônix, preta,
que passei a usar por toda a minha vida. Foram dias de alegria e de tristeza.
Mesmo assim, vivemos a emoção do reencontro e da despedida. Lembro-me dos
lenços brancos do cais. Lenços brancos da despedida, que foram ficando
pequeninos até desaparecer. Mesmo assim, nunca desapareceram da minha memória.
Minha vida é cheia de recordações
E
- Depois dessa semana, todos se dispersaram?
H
A - Realmente foi isso que aconteceu, como estava previsto. Daniel ficou para
passar uns dias com o pai, num passeio pela França. Os outros, logo após, foram
cumprir o seu destino.
E
- E a senhora, para o Brasil?
H
A - Desembarquei no porto de Santos no dia 6 de agosto de 1929. Durante a longa
viagem, comecei a estudar a língua portuguesa. Estabeleci a meta de aprender
pelo menos 300 palavras antes de desembarcar.
E
- E as primeiras impressões?
H
A - Uma bela recepção. Estavam presentes o meu colega Leon Walther, o psicólogo
e o educador Lourenço Filho. Fomos para a cidade de São Paulo, em seguida.
E
- Não entendia o que falavam?
H
A - Algumas palavras eu conseguia entender. Percebi uma entonação de vozes que
me lembrava a língua russa.
E
- Depois, Belo Horizonte!
H
A - Sim, onde fui recebida pelo doutor Mário Casasanta, Inspetor Geral da
Educação Pública do estado de Minas Gerais. Fiquei hospedada no Grande Hotel,
localizado na rua da Bahia, onde fica hoje o edifício Maletta. Logo depois,
tive a visita da professora Amélia Monteiro de Castro, diretora da Escola de
Aperfeiçoamento, onde eu iria trabalhar.
E
- Depois, foi recebida pelo governador!
H
A - Fui conduzida ao secretário de Educação do Estado, doutor Francisco Campos
e, assim, fomos recebidos pelo governador, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade.
Senti-me segura e valorizada. Desse momento em diante, senti que estava sendo
tratada com uma consideração especial e minha responsabilidade crescia a cada
momento. Pressenti que iria ter muito trabalho pela frente e criei forças para
enfrentar desafios. Vim para um contrato de trabalho de dois anos. Não sabia
que a minha vida estava determinada a ter o seu curso nesta terra mineira, até
o fim dos meus dias.
E
- E o Grande Hotel?
H
A - Permaneci algum tempo hospedada no melhor hotel da cidade. Hotel dos
políticos e de empresários! Depois, me transferi para a pensão de dona Nicolina
Brandão, na rua Pernambuco com rua Cláudio Manuel, num quarto muito
confortável. Tive oportunidade de relacionamento com outros hóspedes e isso facilitou
a minha adaptação à cidade e aos costumes.
E
- E o seu trabalho na Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico?
H
A – No dia seguinte, fui me apresentar para iniciar o trabalho. Chegando ao
edifício, vi a placa: Escola Maternal – e um soldado em continência. Achei
estranho, mas, em seguida, apareceu uma moça que estava saindo e fitando-me,
aproximou-se: “Êtes-vous Madame Antipoff?” – “Oui, c´est moi-même.” “Venez par
ici, je vous en prie. Je vais vous conduire à la directrice!” (A senhora é
Madame Antipoff? Sim, sou eu mesma. Venha por aqui, por favor. Eu vou levá-la à
diretora) Mais tarde, fiquei sabendo que
seria uma colega, a professora Lúcia Schmidt Casasanta. Veio em seguida a
diretora Amélia Monteiro de Castro, nomeada em substituição ao diretor provisório,
doutor Lúcio dos Santos.
E
- Foram os primeiros contatos com o novo trabalho?
H
A - Recebi o resumo semanal do horário das aulas de psicologia para três grupos
de alunas e grande número de aulas práticas. Ela mostrou-me todas as
dependências da escola. Fiquei conhecendo a professora Alda Lodi, e tantas
outras professoras, Jeane Milde, Helena Paladini, Zilda Assunção, Maria Luiza
de Almeida Cunha, Filocelina Matos, Fiquei conhecendo também a capela, onde
diariamente era celebrada uma missa, pouco antes da primeira aula. Depois
disso, o trabalho.
E
- Pegou o seu novo ritmo de trabalho!
H
A - Montei também o meu próprio ritmo pessoal. Ao chegar a casa, vindo do
trabalho, ia me deitar às 21h30. Das 23 até as 4h, estudava e preparava as
aulas. Dormia de 4 às 6h, quando me preparava para chegar à escola, às 7h.
Pegava um bonde e descia na porta da escola. Tudo calmo. A cidade tinha 200 mil
habitantes. Tive oportunidade de fazer amizade com o professor Arduíno Bolívar.
Mais tarde, minhas relações afetivas com alunas e colegas foram muito amplas.
Fui convidada para madrinha de casamento da aluna Alaíde Lisboa, que se casava
com o professor José Lourenço de Oliveira. Encontrei colaboradoras e amigas,
que duraram a vida inteira, como a Elza de Moura, Irene Pinheiro e outras. Fui superando dificuldades e
abrindo novos horizontes de vida.
H
A - E me tornei dona Helena para o resto da vida. Foi assim que me integraram a
essa comunidade mineira.
E
- De Mme Antipoff a Dona Helena! Uma grande transformação?
H
A - Uma inesperada transformação em minha vida, cheia mesmo de mudanças e
transformações. Tive que me adaptar sempre. A grande tese da vida foi
adaptação. Assim foi a minha vida e a minha infância. Tive uma infância de
burguesia russa.
E
– Lembra-se bem da sua vida na Rússia?
H
A - Tantas alegrias, tantas decepções, tantas amarguras e tantos sofrimentos.
Nunca poderia me esquecer.
E
- Teve formação aristocrática na Rússia?
H
A - Pouco depois do meu nascimento, em 1892, na cidade de Grodno, na Rússia,
meu pai, Wladimir Vassilevitch Antipoff, militar de alta patente, foi
transferido para São Petersburgo, onde serviu como general, junto ao Czar
Nicolau II. Tivemos uma vida confortável, em casa assobradada, com criados,
governantas, professores de francês e de piano. Minha mãe, Sofia
Constantinovna, de origem burguesa, era cuidadosa na formação das filhas. Eu e
Zina, dois anos mais nova. Tânia ainda não tinha nascido. Tivemos uma boa base
cultural.
E
- Uma governanta francesa?
H
A - Lembro-me de Mlle. Simone Beaulieu como nossa professora de francês e logo
depois de Fräulein Gertrude Kauffman, no estudo do alemão. Nosso estudo de
línguas estrangeiras começou muito cedo. Tive uma experiência interessante: aos
13 anos de idade, num período de férias, comecei a lecionar inglês para uma
jovem, para ganhar algum dinheiro. Meu pai, quando soube, ordenou que
devolvesse o dinheiro imediatamente.
E
- E seu pai, promovido a general do exército, servindo na então capital São
Petersburgo!
H
A - E passamos a chamar a minha mãe de: la generala! Mas, esse período durou
menos do que imaginávamos.
E
- Sua vida teve outros caminhos?
H
A - Antes de continuar, fomos em férias ao mar. Agora, com a nova irmã Tânia,
já com um ano de idade, fomos com tios e
primos para um período no mar Báltico. Aí, fiz amizade com o meu primo Yacha,
que ainda não conhecia. Levei livros e cadernos, mas a companhia do meu primo
não dava tempo para os estudos. Por fim, senti que a vida era bela demais e que
precisava viver e fazer relacionamento com as pessoas. Gostei do meu primo Yacha.
E
- Foram momentos de encantamento!
H
A - Algum tempo depois, Sofia Constantinovna resolveu se separar do marido e
viver em Paris, levando as três filhas com ela. Já tinha se iniciado a grande emigração
russa, ocasionada pelos focos de movimentos políticos. Havia tumultos e
desordens generalizados, que brotavam em todas as partes. Em 1909, foi a
primeira vez que saí da minha terra. Sofri muito com a separação do meu pai.
Sofri com a mudança de hábitos na nova vida em Paris. Também sofreu muito a
minha mãe, Sofia Constantinovna.
E
- A vida em Paris era mais realista?
H
A - Minha mãe passou a fazer trabalhos domésticos. La generala tinha agora de
carregar balde de carvão para aquecimento em casa e subir escadas. A grande
dama reduzida a mulher doméstica, sujeita aos encargos de dona de casa.
E
- Realmente, tudo deve ter mudado!
H
A - Em Paris, depois de tanta proteção familiar, estava eu entregue às minhas
próprias opções universitárias. Tinha 16 anos de idade e com amplas
oportunidades que a vida da cidade oferecia. Entretanto, era estrangeira russa,
com as minhas vestimentas diferenciadas dos parisienses. Tinha que me adaptar.
E
- E passou a descobrir Paris?
H
A - Visitei o museu do Louvre, com uma colega. O Panteão de Paris, em homenagem
a Napoleão. Admirei a pintura de Rafael. Cheguei à biblioteca pública para
conhecer dados sobre homens ilustres.
E
- Mas, e suas atividades universitárias?
H
A - Pois bem! A mudança repentina para Paris me trouxe uma angústia porque o
meu curso secundário e o Complementar Normal, feitos em São Petersburgo em
1909, só davam diplomas russos, não reconhecidos em outros países. Procurei me
informar e na Faculdade de Ciências me sugeriram submeter-me a um exame de madureza,
exame de equivalência entre o curso russo e o francês. Em junho realizaram-se
esses exames com milhares de candidatos. Felizmente o meu nome estava entre os
primeiros da lista dos aprovados. Agora, chegou a hora da decisão quanto a
minha escolha profissional. Anteriormente, tinha pensado no magistério.
E
- E decidiu?

E
- Abandonou o curso de medicina?
H
A - Preferi assistir às aulas do Colégio de France, cujo recinto era franqueado
ao público. Ouvi aulas magistrais de Pièrre Janet e de Bérgson e senti que
estava palpitante pela psicologia. Finalmente, bati às portas do psicólogo Alfred
de Binet, cujas experiências no campo da educação já eram comentadas. As portas estavam fechadas. Alfred de Binet
tinha falecido três dias antes. Retornei, dias depois, e tive a oportunidade de
encontrar o doutor Théodore Simon e me apresentei a ele, com o interesse de um
estágio e fui incluída num grupo de estudantes orientados por ele.
E
- E nesse estágio do professor Simon?
H
A - Fundamental para a minha vida. Aí aprendi as novas técnicas de avaliação
psicológica. Uma verificação estava sendo feita quanto a já famosa escala
métrica de medida da inteligência de Binet, aplicada, desta vez, em crianças da
escola maternal. E foi durante esse estágio que conheci o professor Edouard
Claparède.
E
- Foi uma grande oportunidade?
H
A - Foi uma das grandes oportunidades da minha vida. Fui convidada ou fui
escolhida, juntamente com uma colega, para trabalhar no Instituto de Ciências
da Educação, em Genebra. Admirei o professor e médico, Edouard Claparède, desde
o primeiro momento que o vi. Foi o meu mestre, administrador do Instituto Jean
Jacques Rousseau. Foi um período áureo, apesar da guerra de 1914. Muitos jovens
retornam a seus países e a situação se recrudesce em 1916. Estava plenamente
integrada ao meu trabalho. Entretanto, pensava
na Rússia e antes de tudo, pensava em meu pai.
E
- Grandes preocupações?
H
A - Acompanhava tudo pelos jornais. Depois, as notícias se escassearam. Minha
cabeça não estava disponível mais para o meu trabalho, em forma de entusiasmo e
de integração. Senti que precisava fazer alguma coisa. Consultei a minha
família e decidi me despedir do Instituto e do mestre Edouard Claparède, para
ver o que se passava no meu país. Lutas internas e lutas externas contra os
alemães. O povo russo estava dividido, fragmentado em seus ideais.
E
- Reencontrou a família!
E
- Um namorado?
H
A - Enquanto procurava documentos para liberar uma viagem a Rússia, encontrei,
por acaso, o jovem Carlos Garcia, freqüentador assíduo do Boulevard Saint
Germain. Quase diariamente era visto no Café Beauregard. Fiquei admirada pela
sua simpatia, pela sua elegância e, sobretudo, pela sua beleza física. Muito
gentil. Iniciamos uma conversa. No outro dia, encontramo-nos também por acaso.
Depois, fiquei sabendo que ele teria relacionamento com a embaixada da Espanha
e que poderia me ajudar a resolver a minha pendência diplomática. Chegou a
visitar o nosso apartamento e a conhecer Sofia e Tânia. Convidou-nos para
passar uns dias a beira mar, em Quimperlé, em direção a Brest. Fomos todos de
trem. Um automóvel nos aguardava. Foi a primeira vez que a Taninha entrou num
automóvel. Ficamos numa bela mansão de parentes do Carlos. Numa tarde, num
passeio a Brest, longe dos familiares, passamos uma noite e ficamos noivos com
alianças de ouro. No outro dia, Sofia abriu uma garrafa de vinho branco para
comemorar. Foi um noivado curto. Descobri que Carlos fazia tratamento contra
tuberculose há longo tempo e isso nos separou. Não foi esse o único motivo. Carlos,
entretanto, dias depois, foi à embaixada de seu país e resolveu todas as
pendências com relação ao meu passaporte. Isso foi tudo.
E
- Depois disso, ficou legalizada a sua situação para viajar à Rússia?
H
A - Retornei a Rússia a procura de Wladimir Antipoff. Depois de quarenta e oito
horas de viagem, cheguei a Minsk. As estações estavam cheias de soldados e
havia clima de guerra. Quando cheguei à fronteira, comecei a perceber os
efeitos da desorganização e da desordem. Ninguém queria obedecer a ordens e a
regulamentos. Em Minsk havia casas saqueadas, com portas e janelas quebradas.
Uma carruagem arrebentada, parecendo que os ocupantes tinham sido assaltados,
certamente massacrados. Homens e mulheres com aspecto doentio! Aparecem ratos
na boca dos esgotos. Muitas pessoas com pernas ou cabeça enfaixadas. E o frio
também chegando, embora ainda não fosse muito intenso.
E
- Sentiu a desolação total!
H
A - Tinha trazido apenas duas malinhas de Paris com o necessário, prevendo a
dificuldade de carregar malas. Fui ao hospital central onde esperava obter
informações do meu pai. Todos pensavam que eu fosse estrangeira pela minha
indumentária. Admiravam-se quando eu falava o russo, normalmente. Não havia
notícias. Tive que me hospedar numa pequena pensão para, no dia seguinte,
reiniciar a busca de informações. Procurei uma repartição militar. Fui de porta
em porta. Uma informação de que em Grodnovo havia um forte movimento militar.
Fui para lá num trem de carga, sem alimentação, sem o mínimo de conforto, cheio
de militares. Encontrava hospitais cheios de pacientes, entre funcionários e
oficiais do exército, todos manifestando raiva e o ódio com o povo esfomeado. Conversei com muitas pessoas.
Histórias! Histórias! Nenhuma pista para o meu enigma. Percebi que não estava
no caminho certo.
E
- Nada de informações em Grodnovo?
H
A - Apenas a fome e a desolação. Eu também estava faminta. Fiquei sabendo que
em Smolensk, em maio, teria havido um grande movimento de revoltados, movimento
do povo contra o regime e que o exército regular tinha sido chamado para entrar
em ação. Pensei que poderia ser uma solução partir para Smolensk. Troquei um
par de sapatos parisiense por um pedaço de carne e parti para lá, num trem de
carga. As distâncias são grandes.
E
- Mas a sua decisão também era grande!
H
A - Dois dias de viagem. Felizmente, encontrei um oficial que me arranjou um
lugar num vagão de passageiros. Visitei todos os hospitais e casas de saúde.
Todos cheios de mutilados pela guerra. Listas e listas de feridos. Finalmente
um nome parecido, meio apagado. Finalmente, uma informação de que havia um
militar graduado, oculto numa casa. Encontrei-a e não me permitiram entrar. Com
dificuldade, simulei que estava fazendo levantamento de feridos. Encontrei um
homem, em estado de inconsciência. Com dificuldade, reconheci. Era o meu pai.
Precisava fazê-lo voltar à vida.
E
- Foi difícil superar essa fase!
H
A - Vim de Paris para salvar o meu pai. Encontrei-o muito doente. Estava magro
demais, sem tratamento adequado. Com bravura que eu mesma desconhecia em mim,
consegui interná-lo no hospital militar. Depois de quarenta e cinco dias,
obtive autorização para ele poder já deixar o hospital. Agora, era levá-lo para
um clima mais ameno na Crimeia, e o general, agora passou a ter o nome suposto
de Sergei Ivanovitch Chilicov.
E
- Um objetivo alcançado!
H
A - Ficamos na cidade de Simferopol, à beira do Mar Negro, em casa de parentes,
enquanto se restabelecia. Depois, numa pequena casa, mas com conforto e sem
riscos maiores que pudessem prejudicar a sua saúde. Assim, retornei a
Petersburgo para cuidar da antiga casa, invadida e saqueada, para apossar do
que restava. Fiquei só e tive que procurar trabalho.
E
- Novamente na sua antiga casa!
E
- Resolveu ficar algum tempo em Petersburbo?
H
A - Resolvi trabalhar. Estava sozinha, sem amigos. Consegui um emprego.
Arranjei acomodação no antigo prédio do Ministério do Interior, já extinto. Meu
trabalho era cuidar de adolescentes sem teto e sem rumo. São em número cada vez
maior. Isso no princípio do ano de 1916. Chegavam novos adolescentes a cada
dia. sem pais e sem abrigo. Esse fenômeno estava ocorrendo em todas as cidades.
Assim, de um momento para outro, tive que comandar um grupo enorme de
delinqüentes. Procurava as autoridades para criar um centro de triagem.
Apliquei minhas técnicas de psicologia para conseguir o ajustamento desses
jovens. O que não foi fácil. Definição das lideranças para a formação de grupos
e assim me envolvi e não via o tempo
passar e nem percebi o aumento das dificuldades. Tive que buscar apoio entre
outros profissionais, principalmente os jornalistas.
E
- Foi nessa época que conheceu o jornalista Victor Iretzky?
H
A - Nessa ocasião fiz amizade com esse jornalista Victor Iretzky e acabei me casando
informalmente com ele. Era também escritor, com grande poder de observação.
Escrevia imitando camponeses e sabia lidar com todas as classes sociais. Ele
tinha 35 anos, portanto, dez anos mais velho que eu. Pensamos numa casa numa
região rural e o romantismo nos fez imaginar uma vida de felicidade. Victor tem
séria crise de asma. Depois, o pior. A situação do país vai de mal a pior e,
pouco a pouco os bolchevistas passam a dominar a situação. Jovens desocupados
carregam bandeiras com o novo símbolo da foice e do martelo. Cantam hinos
marciais, impregnados de ódio e de violência. Tudo paralisa, inclusive os
trens, a pequena indústria. Vem a pilhagem, o saque, o pânico. A sujeira impera
e as aves de rapina ficam à espreita para entrarem em ação.
E
- E o czar?
H
A - Circulavam notícias de que a família do czar já tinha transposto a
fronteira. Outras, ao contrário, diziam que o czar Nicolau II estava preso,
pronto para ser julgado. Havia comentários de que toda a família real,
inclusive a mulher dele, a alemã, seria fuzilada sumariamente pelos crimes
cometidos.
E
- E o seu trabalho, como ficou?
H
A - Quebraram todas as instalações do antigo prédio do Ministério do Interior.
Os meninos se debandaram, pois nem alimentação existia mais. Era outubro de
1917 e essa é a data da insurreição das massas e da revolução russa. Daí pra
frente, nada se podia prever. Foi o fim do regime czarista que, durante séculos,
dominou a Rússia.
H
A - É difícil imaginar o que passei no período de 1917 a 1921. Terminada a
Grande Guerra, com a vitória dos Aliados, o exército russo não podia voltar
triunfante para o seu país. São recebidos como inimigos do povo, porque são
adeptos ao velho regime. Muitos desertam ou nem atravessam as fronteiras porque
são tratados com ódio pelos irmãos comunistas. O que cresce é a fome e o
desespero das populações de modo geral. Há a tendência de sair da cidade e
fazer reservas de tubérculos, raízes, talos ou folhas encontradas ou furtadas
no campo. Catam-se pinhas e sementes de espécies de vegetais. Frutinhas do
mato. Resinas de árvores para saciar a fome. Armadilhas para pegar algum
coelho. Vale tudo! E foi nessa época que meu filho nasceu, 31 de março de 1919.
Forte ao nascer mas pouco depois teve febre escarlatina, a carência de alimento
e a precariedade da habitação. Tinha inevitável magreza e procurei recursos por
todas as partes. Todos estavam procurando as mesmas coisas e ninguém
encontrava. Levei-o a Escola de Medicina, onde foi exposto como amostra de
raquitismo. Isso não comovia ninguém. Finalmente, encontrei uma camponesa
robusta que tinha perdido o filho e pôde amamentar o meu filho Daniel. Foi a
sua salvação!
E
- E onde moravam?
H
A - No albergue. Victor Iretzky sonhava com uma casinha no campo. Um dia,
encontramos uma que seria o nosso sonho. Depois dos arranjos e da limpeza
geral, transferimos a nossa residência. Foi apenas um dia. Victor não voltou
para casa, no dia seguinte, após o trabalho.
Depois, fui informada na redação de que ele tinha sido preso pela
polícia. Por que foi preso sem culpa e sem julgamento? Ninguém sabia e ninguém
tinha coragem de procurar saber. A mesma sorte é reservada aos que são
“demasiado curiosos”. Onde estava? Fui á polícia e a todos os órgãos policiais.
Nada. Somente se fosse a Moscou e procurasse a “Tcheka” – polícia especial que
informa sobre presos políticos. São mais de mil quilômetros. Como fazer essa
viagem?
E
- Era uma situação realmente lamentável!
H
A - Tive que trabalhar na cidade e morar naquela casinha de subúrbio, com meu
filho pequeno e uma jovem que me auxiliava. Meu marido e eu tínhamos plantado
uma horta e tudo crescia e nos dava alimento. Um dia, os cavalos de militares
pisotearam a horta. Nada restou. Fiquei indignada. Outro dia, fui retida pela
polícia ao transpor a barreira depois das 22 horas e Daniel passou uma noite
sozinho na casa. Tudo são acontecimentos deploráveis.
E
- O filho ficava sozinho em casa?
H
A - Tinha uma moça de dezesseis anos que ficava com ele. Mas eu tinha que
trabalhar no centro da cidade, com responsabilidades cada vez maiores. Um dia,
o comissário do distrito educacional me comunica que vão chegar mais 53 jovens,
aprisionados por estarem em bandos perdidos nos parques da cidade. Vinham
escoltados por soldados armados. Delinqüentes, como eram chamados. Foram
tosquiados como cordeiros e entregues à nova “educatrice française”, com forte
tom de ironia. Mas eu tinha um plano elaborado e apresentei-o, para discussão.
Ele gostou e passamos a um diálogo mais cordial. Passei a novo modelo de
trabalho.
E
- Convivia com os delinqüentes?
H
A - Todos eram produto da situação política e social. Estavam perdidos e queriam
um apoio, uma ajuda, uma orientação. Confiança sempre tem mão dupla. Se não se
oferece, não se recebe. Um desses jovens, perdido na cidade desde os 12 anos de
idade, conviveu com meu filho Daniel, protegendo-o e acolhendo-o, por mais
estranho que possa parecer. Pobre Freddy, como me lembro de você!
E
- E como convivia no novo regime político?
H
A - A Rússia soviética, no afã de depuração de todos os que não aceitavam o
novo regime leninista, passa também a cometer abusos. Abusos – era o termo
empregado. Mas eu estava dentro de um projeto, independente de qualquer
disposição ideológica. Queria salvar esses jovens. E Victor era um preso
político, encarcerado há mais de um ano, sem eu ter notícia do seu paradeiro.
Cansei de percorrer todas as repartições e delegacias policiais a procura de
notícias. A opinião generalizada é que poderia estar em Moscou.
E
- E decidiu ir a Moscou?
H
A - Preparei-me para a viagem, ausentando-me por 15 dias, deixando meu filho
com sua ama. Tinha que saber onde ele estava. Quando cheguei a Moscou, que
tinha se transformado na capital do país, procurei a “Tcheka”. Encontrei uma
multidão junto ao portão de entrada, ainda bem antes da hora marcada para a sua
abertura. Com muita dificuldade, descobri que ele realmente estava ali
encarcerado. Fiquei sabendo, também, que dentro de três meses encerravam-se os
interrogatórios e que ele poderia ser condenado ou exilado para a Alemanha.
Aguardando a sentença, e que seria transportado a Petersburgo, após esses
interrogatórios.
E
- E esse prazo foi cumprido?
H
A - Efetivamente, cinco meses depois, Victor Iretzky está entre os intelectuais
presos e devolvidos a Petersburgo. Como uma liberalidade, podia receber uma
visita quinzenalmente. Por isso e para isso me preparei para ir à Prisão
Central, embora não tivesse conhecimento da decisão das autoridades.
E
- Pôde então visitar o marido?
H
A - Num domingo, dia 26 de novembro, é a data marcada para a visita, das 13 às
15 horas. Antes da hora marcada, estava eu com meu filho Daniel, junto ao
portão. Quando ele foi aberto, uma multidão de pessoas aflitas penetrou na
prisão, para ver os entes queridos. Vislumbrei Victor à distância. Não podia
entender o que ele falava porque tantas pessoas falavam ao mesmo tempo e um
largo balcão nos separava. Coloquei Daniel sobre o balcão e enfiava bilhetes no
bolso dele. Desse jeito, conversamos. Em casa, pude ler os bilhetes. Ele
realmente seria exilado para a Alemanha.
E
- E isso aconteceu?
H
A - Em fevereiro de 1922, Victor parte para Berlim. Eu e Daniel ainda ficamos
em Petersburgo, até conseguir dinheiro para as passagens. Pretendíamos viver
juntos em Berlim.
E
- Permaneceria em Petersburgo?
H
A - Em princípio, sim. Mas, recebi um convite para executar um trabalho em Viatca.
Boas condições, clima melhor. Melhores condições de abastecimento. Ofereciam moradia, numa escola residencial, espécie de
patronato para adolescentes difíceis. Nessa Estação médico-pedagógica fui
admitida como psicóloga. Pelo menos estava assegurada a parte de alimentação e
moradia. O governo queria mostrar que estava cuidando da juventude. Recebi
carta branca para o trabalho e Daniel tinha outros meninos para conviver. E Viatca
situa-se no limite dos continentes europeu e asiático. Está bem perto da cadeia
dos Montes Urais, na linha reta oeste-leste.
E
- Uma mudança radical?
H
A - Para melhor, com mais liberdade para o trabalho e mesmo para viver. Tinha
ação direta com os jovens, montei o laboratório de psicologia e coordenei as
atividades de tantos outros professores e pedagogos. Tive trabalhos em outras
cidades da região o que me obrigava a viagens constantes. Numa dessas viagens,
tive que me ausentar por mais de um mês. Daniel sentia a minha ausência, mas
adaptava-se bem com outras pessoas.
E
- Mudanças e mudanças! Quanto tempo permaneceu em Viatca?
H
A - Por mais de quinze meses, até que recebi uma carta de Victor, me comunicando
que tinha conseguido dinheiro para as passagens e queria que fôssemos para
Berlim. Era o nosso sonho. Era chegado o momento de sair da Rússia soviética.
Era preciso, agora, conseguir o visto para a viagem e uma justificativa junto
ao governo para uma saída temporária do país. De malas prontas, voltamos a Petersburgo
para os preparativos finais. Vendi um piano, que estava guardado em casa de
amigos e outros pequenos pertences. Nada mais me ligava a Rússia. Vendi tudo
que tinha.
E
- E o visto para a viagem a Berlim?
H
A - Consegui que o professor Netschaieff , com quem já tinha trabalhado, me
desse um documento no qual esse cientista me recomenda uma visita a um centro
modelo de recuperação de deficientes físicos na Alemanha. E esse documento
valeu. Foi então marcada a partida para o dia 25 de novembro de 1924. Na data
marcada, uma grande tempestade impediu a saída do navio. Entretanto, no dia
seguinte, foi dada a partida. Havia muitos outros passageiros que também se despediam
do seu país, a procura de novas oportunidades de vida. Pela segunda vez, deixei
o meu país. Não pensava que essa seria a última visão que guardaria da minha
terra.
E
- Era o afastamento da pátria, mas prestou serviços relevantes a seu povo!
H
A - Prestei assistência e orientação a jovens anônimos, supostamente delinquentes,
pois estavam abandonados. Também deixei a minha experiência de profissional com
outra visão de mundo. Escrevi textos, artigos que publiquei. Um deles, “O nível
mental das crianças em idade pré-escolar”, em russo, criou algumas dificuldades
com autoridades, pois revelava que as
crianças filhas de intelectuais e nobres eram mais capazes do que as filhas de
proletários, partidários da revolução. Um comissário de Leningrado chegou a
fazer uma denúncia, como se eu fosse partidária e elemento prejudicial ao
regime.
E
- Uma vida nova em Berlim?
H
A - No final do mês de novembro do ano de 1924, chegamos ao porto de Stettin,
em Berlim, sobre o Báltico. De longe, avistamos um homem de capa, acenando para
nós. Era Victor que nos aguardava. Ele trazia uma penca de bananas bem amarelas
para Daniel, que não conhecia frutas tropicais. Logo depois, de trem, muito
limpo e organizado, seguimos para a nossa nova morada. Tudo é novidade para
nós. Em Berlim, sente-se logo um regime disciplinado e de ordem perfeita.
E
- Uma cidade organizada!
H
A - Agora eu era Frau Antipoff! Tudo era admiração, mas não entendíamos a
língua. As longas avenidas! Nada faltava. O povo expansivo e barulhento. Uma
cidade reconstruída depois da guerra. Belos letreiros luminosos. Uma nova vida
que se iniciava. Por isso mesmo, buscamos nos adaptar a esse convívio já que
tínhamos perdido a cidadania russa, como todos os que abandonam o país.
E
- Sentiu muitas diferenças?
E
- E a família?
H
A - A família ficou alojada num apartamento de um quarto, muito amplo, é
verdade, mas insuficiente para proporcionar privacidade e conforto para nós.
Resolvi colocar Daniel num internato, nas imediações. Achei tudo difícil. O
clima muito frio e brumas diariamente. Pensava em encontrar um novo caminho,
uma nova decisão a tomar.
E
- Sempre com um novo projeto?
H
A - Victor era um exilado desde 1922 e
tinha limitações para conseguir um bom emprego. Escrevia artigos, publicados em
suplementos dominicais. Era autor de livros de ficção que não podiam ser
publicados na Rússia por questões políticas. No meu caso, não teria grandes
oportunidades de trabalho. Victor tinha nobreza em seu modo de ser e de se
compor. Sempre bem vestido. Era moreno, com sobrancelhas grossas, escuras. Era
ucraniano, natural de Kiev. Seus livros eram considerados perigosos ao regime
soviético. Ele era observador e conseguia tirar conclusões. Depois de um ano de
vida juntos, percebeu que eu não estava me adaptando à mentalidade alemã.
E
- E tomou uma nova decisão?
H
A - No dia três de janeiro de 1926, eu e Daniel estávamos chegando à estação
ferroviária de Genebra. Não podia deixar passar as oportunidades e nem me
mortificar dentro de frustrações. Ou agora, ou nunca.
E
- Nova oportunidade em Genebra?
H
A - Na estação, nos esperando, estava o meu mestre, professor e amigo, Edouard
Claparède. A princípio, me hospedei com a senhora Baranoff, de origem russa.
Ela nos recebeu muito cordialmente. Uma semana depois, Daniel já estava
matriculado na famosa escola “Maison des Petits”, educandário criado pelo
professor Claparède e onde eu já tinha lecionado anteriormente. Daniel não
sabia a língua ainda, pois, até os cinco anos adotou o dialeto russo. Mais
tarde, ele recebeu uma adaptação de alemão. Agora, precisava aprender também a
língua francesa. Eu comecei a trabalhar no famoso Instituto Jean Jacques
Rousseau, lecionando Psicologia da Criança e Técnicas Psicológicas. Pouco tempo
depois, eu passava a assistente do professor Claparède, na Universidade de Genebra.
E
- Foi um período de grande desenvolvimento do instituto?
H
A - Era uma fase de grande importância para o instituto. Grandes mestres da
psicologia deram cursos aí, convidados e coordenados pelo professor Claparède. Posso
citar alguns deles, Pièrre Bovet, Jean Piaget, Mira y Lopez, Richard Melli e Leon
Walther. Participantes do mundo inteiro acorriam a esses cursos. No meu caso,
tinha mais facilidade de comunicação porque dominava a língua francesa, o
inglês, o alemão e, sobretudo, o russo, com fluência total. Genebra tornou-se o
centro das “Sciences de l´éducation” e dos estudos psicológicos no período de
1926 a 1928.
E
- E a sua família?
H
A - Minha mãe continuava em Paris. Victor estava em Berlim, sempre adoentado. Por
isso, eu mandava algum dinheiro pra ele. Quanto a meu pai, esqueci-me de dizer.
Em 1924, pouco antes da minha despedida da Rússia com destino a Berlim,
empreendemos uma viagem, eu e Daniel,
até Simferopol, na Crimeia, para rever meu pai e despedir-me dele. Era
agora um refugiado político, vivendo com muitas dificuldades financeiras. O
general Wladimir Vassilevitch, primeiro aluno da Academia Militar da Rússia,
era agora um reformador de calçados para a sua sobrevivência. Estivemos alguns
dias com ele, e no último dia, fez um par de botas para Daniel, muito
reforçadas e bonitas. Depois disso, nunca mais o vi. Mais tarde, recebi uma
comunicação de que ele tinha falecido.
E
- Foi nessa oportunidade de sucesso em Genebra que a senhora teve o convite
para um trabalho no Brasil?
H
A - Recebi uma proposta do cônsul do Brasil, mas encontrei alguns problemas
pela frente. Primeiro, percebi que o professor Claparède tinha ficado um pouco
magoado. Depois, senti que era imprópria a minha saída nesse momento de grande
desenvolvimento da psicologia. Passei então a proposta ao meu colega Leon
Walther.
E
- Mas o governo do estado de Minas Gerais não desistiu da proposta!
H
A - Realmente! Um ano depois, recebi outro convite pra vir para o Brasil.
Mediante as informações favoráveis do professor Leon Walther, eu resolvi
aceitar. Foi uma grande decisão. Era um contrato para dois anos de trabalho.
Nunca pensei que esse contrato fosse se estender por toda a minha vida.
E
- E encontrou um campo de trabalho todo disponível para a senhora?
H
A - Abracei um povo que me recebeu de braços abertos. Comecei a trabalhar sem
parar, até o dia 9 de agosto de 1974, dia da minha despedida final. Foram 45
anos de vida dedicados exclusivamente à educação e ao desenvolvimento humano.
Não pensem que achei que tinha concluído a minha obra. Deixei tanta coisa por
fazer, em benefício de quem tanto esperava que eu o fizesse.
E
- E a Sociedade Pestalozzi?
HA
- Tantas coisas chamaram a minha atenção nestas terras brasileiras, mas uma
delas me abalava profundamente. Eram as crianças portadoras de alguma
deficiência mental, principalmente. As famílias procuravam esconder essas
crianças no fundo das casas, como se envergonhassem delas. Por isso, tentei
reunir um grupo de pessoas de influência político-administrativas,
profissionais liberais, professores e tivemos a iniciativa de criar um modelo
de assistência e acolhimento a essas crianças.
E
- Foi o primeiro passo?
H
A - Isso aconteceu em 1932, em Belo Horizonte. Encontrei mãos colaboradoras
como de Henrique Marques Lisboa, Otávio de Magalhães, Ester Assunção, Imene
Guimarães, Zilda Assunção, Lincoln Continentino, José Lourenço de Oliveira,
Guilhermino César, Orville Conti, Fernando de Magalhães Gomes, Monsenhor Artur
de Oliveira, padre Álvaro Negromonte, Mario Vilhena, João de Deus Costa e
tantos e tantos outros. Inicialmente, pensávamos em organizar um granja-escola
para amparar meninos infradotados, crianças excepcionais que o estado de Minas
Gerais não tinha lugar que pudesse abrigá-los.
E
- A granja-escola foi a ideia inicial?
H
A - Conseguimos um terreno no quarteirão entre as ruas Timbiras e Ouro Preto e,
de um dia para a noite, levanta-se um barracão improvisado. Este foi o núcleo
inicial do Instituto Pestalozzi. Começamos a disponibilizar a receber crianças
excepcionais.
E
- Crianças excepcionais!
H
A - Não havia ainda um termo exato para definir essas crianças e passamos a
chamá-las de “excepcionais”, evitando-se dar uma conotação injusta para essas
crianças. Foi uma criação minha e não sabia se ela poderia ser adotada no país.
Assim, depois da nossa instalação, o Secretário da Educação do estado de Minas
Gerais, doutor Noraldino Lima, inaugurava outras salas e colocava à disposição
professores para auxiliar no desenvolvimento dos trabalhos.
Tornei-me
presidente desse instituto, e depois de articulações com técnicos e professores
do Rio de Janeiro, propus o modelo da Sociedade Pestalozzi do Brasil,
estendendo conceitos e atitudes pelo território brasileiro.
E
- E o pequeno jornaleiro?
HÁ
- Naquele tempo, crianças vendiam jornais pelas ruas. De madrugada, com frio,
mal-agasalhadas, estavam essas crianças vendendo jornais. As bancas eram poucas
e os meninos gritavam as manchetes. Criamos a Casa do Pequeno Jornaleiro,
lembrando dos tempos em que na minha pátria tantos meninos andavam perdidos,
sem lar e sem comida.
E
- Recebeu visitas dos amigos europeus?
H
A - Muitas visitas. Em 1930, esteve em Belo Horizonte o meu mestre, professor
Edouard Claparède. Minha mãe, Sofia, também aqui esteve, no ano de 1932, e
permaneceu mais de um ano, mas não se adaptou à vida da cidade. Recebi também,
no período de férias, a visita do meu filho Daniel, que tinha ficado na França.
Depois, em 1934, eu mesma estive na Europa, revendo amigos e familiares. De
volta à América, em 1936, recebi notícias da morte de Victor Iretzky, falecido
aos 54 anos de idade. Vesti-me de preto em sua homenagem, por alguns meses.
Também, em 1937, representei o Brasil, no 1o.Congresso Internacional de
Psicologia e Psiquiatria Infantil, realizado em Paris. Hospedei-me no
apartamento da minha mãe e tive oportunidade de encontrar velhos amigos.
Aconteceu, entretanto, que tive que submeter-me a uma delicada intervenção
cirúrgica o que não permitiu o meu regresso imediato.
E
-E o filho Daniel continuava na Europa?
H
A - Em 1938, quando ele já contava 19 anos, resolvemos que ele viesse para o
Brasil. Essa decisão estava também relacionada com a possibilidade de ele ser
convocado para a guerra, na França. Passou a residir comigo, fazendo amizades,
dando aulas de francês e depois, estudando português, submeteu-se ao exame de
madureza, obtendo o certificado de segundo grau. Matriculou-se no curso Técnico
de Agricultura em Viçosa (MG), onde, tempos depois, arranjou uma namorada,
Ottilia, na cidade vizinha de Visconde do Rio Branco e casou-se com ela. Depois
de uma experiência de administração rural na cidade de Patos de Minas, resolveu
matricular-se no curso de Filosofia da UFMG e posteriormente, enveredou-se para
o campo da psicologia. Também Ottília já estava envolvida com a psicologia
desde os tempos em que morava na cidade de Visconde do Rio Branco e acabou
graduando pela Universidade Católica.
E
- E a Fazenda do Rosário?
H
A - Em 1939, a primeira turma do Instituto Pestalozzi concluía o curso primário
e era nosso pensamento ter uma propriedade rural, para atividades mais amplas e
continuadas para assistência aos excepcionais. Tínhamos 120 contos de réis, em
dinheiro. Uma boa quantia! Iniciamos a procura de um terreno apropriado e
encontramos na região metropolitana de Belo Horizonte, na cidade de Ibirité.
Compramos um sítio de 40 alqueires. Um sonho! Aqui será o dormitório, aqui as
salas de aulas, ali, uma casa de repouso, mais além as oficinas e as hortas
comunitárias. E me diziam: “mas isso aqui é mato puro, dona Helena! E um
cerrado! É campo aberto!” E eu respondia: “Hoje! Amanhã, não será! E assim,
pouco a pouco, fomos construindo uma cidadezinha rural, com indústrias,
oficinas, escolas, granjas, empresas agrícolas, clube recreativo, biblioteca,
museu, casa de repouso, capela, com o propósito de melhor servir o homem do
campo, numa sociedade culta, próspera e harmoniosa. Assim nasceu a FAZENDA DO
ROSÁRIO – um centro de vida comunitária, amplo e diversificado, referência para
assistência e orientação educacional e profissional. E realizamos também um
projeto de formação e desenvolvimento de professoras rurais.
E
- E o sonho foi concretizado?
H
A - Tudo! Perdão, não tudo. Nossos sonhos não terminariam assim, tão
facilmente. Sei que tivemos sucesso total em tantas atividades que diariamente
eram realizadas. Uma atrás da outra. Eu tinha tantos projetos em mente e sempre
estava recebendo ajuda de tantas pessoas abnegadas, pessoas que abandonavam
tudo para conseguir nossos ideais. Levantamos um projeto de assistência e
orientação aos jovens intelectualmente bem-dotados. Não pude continuar. Tantos
jovens incompreendidos que veem e sentem mais dos que os outros e se cansam de
acompanhar os mais lentos. Isso também era fundamental. Fui em frente. Nunca fiquei
sabendo o que seria um obstáculo. De mãos dadas com meus colegas e amigos
venceríamos tudo.
E
- E o primeiro laboratório de psicologia da América Latina?
H
A - Foi um sonho a mais que realizamos.
Aliás, uma das minhas primeiras idealizações e realizações que trouxeram
grandes resultados para a Escola de Aperfeiçoamento. Deu o rumo certo ao ensino
em Minas Gerais. Tantas publicações! “Crianças excepcionais”,“Desenvolvimento
mental da criança”, “Formação das classes” e tantos outros. E tantas ex-alunas que
se projetaram no campo da educação: Naytres Rezende, Zilda Assumpção, Zilá
Frota, Elza de Moura, Irene Lustosa, Maria Angélica de Castro, Maria Augusta
Cunha e tantas outras!
E
- Também a Escola Normal Rural!
E
- Foi um projeto ambicioso que teve a participação
do governador Milton Campos e do secretário da educação, Abgar Rennault. Um
acontecimento inédito no Brasil. A formação da professora para a região rural.
Um nome não pode ser esquecido nessa empreitada. Dona Olga Coelho Ullman! Foi
uma realização que deu bons frutos. Uma realidade para o Brasil desenvolver.
E
- E o seu último projeto?
H
A - Percebi, pelos estudos e pelas observações quanto a resultados das crianças
e dos adolescentes que, muitos jovens bem-dotados intelectualmente, muitas
vezes, não alcançavam os resultados que se esperavam deles. Por isso, junto com
vários colaboradores, elaboramos o projeto para apoio e orientação a jovens
superdotados. Criamos a ADAV –
“Associação Milton Campos para desenvolvimento e assistência a vocações de
bem-dotados”, com sede própria na cidade de Ibirité (MG). Deixei tanta coisa
sem concluir... Mas sei, hoje sei, que teve o seu papel relevante no apoio às
mentes brilhantes.
E
- Sem fazer relatório sobre sua vida, sei que a senhora não teve casa própria.
H
A - Casa própria? Tivemos na Rússia, em Petersburgo. Nunca mais precisei
investir dinheiro em propriedades para mim. Meus bens são coletivos. Meu
salário como professora da Faculdade de Filosofia, estava investido nas pessoas
que precisavam dele. Meu filho conseguiu uma casa, num bairro residencial de
Belo Horizonte, onde teve seus filhos e netos. Eu, sozinha, pensava em pessoas
que estavam me esperando. Foi isso.
E
- Sei que a senhora recebeu homenagens, prêmios, medalhas de tantos brasileiros
e mineiros.
H
A - Recebi mais do que merecia. Mesmo assim, cidadã honorária de Ibirité,
simples como ela própria, me satisfaz junto com outras que agradeço de coração.
Recebi o título de cidadã brasileira em 1951, em ato do presidente Getúlio
Vargas. Já me sentia brasileira, desde o dia que aqui cheguei, em 1929. Recebi
braços abertos que me abraçaram durante toda a minha vida e que me depositaram
na minha cidade de Ibirité, Minas Gerais, onde permaneço pela eternidade.
E
- Dona Helena! Nada mais ouso pedir. Gostaria de uma palavra final?
H
A - Sim. Gostaria sim... Levo tantas lembranças de minha vida abençoada. Deixo
minha família cumprindo seus desígnios, seus mistérios. Todos felizes. Minha
família se estende normalmente a todos os que precisaram de mim na sua caminhada.
Daniel me disse um dia que eu não amava a minha família, que eu não amava
ninguém. É verdade? Amei a todos, igualmente, sem distinção egoística. Estava
presente, de coração aberto, junto a todos que precisassem de ajuda, mesmo sem
pedir. Amei os meus colegas de trabalho, meu filho, minha nora, meus netos,
meus excepcionais e, sobretudo, a humanidade.
E
- E a humanidade, por sua parte, agradece e reverencia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTIPOFF, Daniel I. Helena Antipoff, sua
vida/sua obra. Rio de Janeiro: J. Olímpio, 1975
ANTIPOFF, Daniel I. Entres dois
continentes. Belo Horizonte: (?),1997
ANTIPOFF, Daniel. Excepcionais e talentosos
– os escolhidos. Belo Horizonte: 1999
CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA HELENA
ANTIPOFF – CDPHA. Coletânea de obras escritas de Helena Antipoff. Vol. I e II.
Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1992
BOLETIM DO CDPHA, Fundação Helena Antipoff,
complexo educacional da Fazenda do Rosário: Ibirité (MG), 1997
http://www.russiangrave.ru/?id=21&prs_id=75
ResponderExcluirLeitura agradável de uma história de vida de dedicação e conquistas. Parabéns Sr. Rogério!!!!
ResponderExcluiresta foi uma mulher de verdade para o brasil e minas gerias
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