QUEM DEU ASAS AO HOMEM – O PAI DA AVIAÇÃO
Autor: Rogério de Alvarenga
APRESENTAÇÃO

Aqui estão as suas palavras, como
se ele próprio estivesse ainda presente entre nós.
Entrevistador
No ano de 2006, levanta voo de
novo, nas praças do mundo, em reverência ao construtor das asas do ser humano!
No campo de Bagatelle, em Paris, justamente no dia 23 de outubro de 1906, o
mais pesado que o ar começou a voar! Primeiro centenário! Um desejo incontido
da humanidade, desde o seu alvorecer, estava agora disponível ao mundo, abrindo
as fronteiras, por ares nunca dantes voados! Boa noite, senhor Alberto
Santos-Dumont!
Alberto Santos-Dumont
Boa noite! Revejo, com a leveza de
um balão que sobe aos céus, o meu itinerário de trabalho e de esforço. Todos
anseiam elevar-se aos ares, sem as correntes invisíveis da força da gravidade,
uma sentença imposta pelos deuses aos seres humanos!
Entrevistador
Mas uma vida dedicada
exclusivamente à busca do domínio do espaço, do vasto e imenso espaço
visualizado, mas nunca dominado. Dominar o espaço!
SD
Sim! A minha vida inteira foi uma
obsessão sem limites de dominar o espaço, como uma terrível força impulsora que
tomava todo o meu ser, impregnava o meu inconsciente e me arrastava
inexoravelmente para um desafio que já tinha subjugado até os próprios deuses
do Olimpo. Um desafio petulante de minha parte! Podem hoje imaginar! Um desejo
quixotesco e arrogante, mas alguém teria que ousar. Foi o meu esporte, de
vitória em vitória. Vitórias seguidas, até mesmo nos desacertos. Nunca
fracassei.
Entrevistador
A humanidade jamais esquecerá esse
dia memorável, quando um aparelho mais pesado do que o ar, elevou-se do solo.
Por toda a eternidade, enquanto houver criatura humana na terra, para historiar
a distância e a velocidade dos voos, será forçoso, absolutamente inevitável
começar pela resenha oficial de dois recordes batidos no relvado de Bagatelle,
em Paris. Por aqueles dois recordes de Santos-Dumont!
SD
E
Tudo rompe a barreira da
imaginação... A minha curiosidade não tem limites, também. Desta forma,
gostaria de ter informações sobre a sua vida e sobre o seu trabalho.
SD
Jamais neguei a alguém qualquer
fato do meu trabalho ou da minha vida pessoal. Sempre estou disponível. Nunca
fiz mistérios. Nunca tirei proveito pessoal das minhas ideias e dos meus
inventos. Nem do que criei ou do que fiz. Trabalhei por idealismo civilizador
puro. No trabalho, pus o máximo de inteligência, o máximo de tempo e o máximo
de recursos financeiros próprios. Doei tudo, depois, para a humanidade. Todos
os meus planos, meus estudos e meus projetos. Publiquei tudo. Divulguei tudo
sem solicitar patente para coisa nenhuma. Deixei plena liberdade a toda gente,
na continuidade do desenvolvimento da aviação. Nada ocultei a ninguém, por
egoísmo injustificável. Os prêmios em dinheiro que recebi, distribuí com os
mecânicos, meus auxiliares e com os pobres de Paris. Autorizei resgatar todas
as cautelas de instrumentos ou ferramentas de trabalho, empenhados pelos
operários, nos bancos de Paris. Portanto, estou agora, mais do que nunca,
disponível para informar sobre todos os momentos de minha vida na face da
terra.
E
Queria saber tudo sobre esta
personalidade-mito que domina o imaginário da vida brasileira!
SD
Com o coração aberto, ponho-me
diante da nação brasileira, para um debate franco e cordial.
E
Com o coração aberto! Onde está
seu coração?
SD
Sempre esteve comigo, em vida.
Após a minha morte, ocorrida em 23 de julho de 1932, o médico Walter
Harberfeld, após o embalsamamento do meu corpo, retirou o meu coração e, mais
tarde foi colocado em exposição. Meu corpo foi transladado para o Rio de
Janeiro em 17 de dezembro desse mesmo ano, e sepultado no cemitério São João
Batista.
E
Sim! Mas onde está seu coração?
SD
Encontra-se incrustado numa esfera
de cristal e lâminas de ouro, sobre um pedestal de jacarandá, com uma estatueta
de bronze de Ícaro, com os braços erguidos. Foi entregue ao primeiro Ministro
da Aeronáutica do Brasil, Joaquim Salgado Filho, em 1944, por ocasião da SEMANA
DA ASA, pelo presidente da PANAIR DO BRASIL, Paulo Sampaio. Depois, à Escola de
Aviação do Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Entretanto, devo acrescentar
que meu coração encontra-se verdadeiramente pairando sobre o meu estado de
Minas Gerais, sobre o meu país, sobre a França e, afinal, sobre todos os
recantos do mundo inteiro, em voos cada vez mais audaciosos.
E
O senhor disse estado de Minas
Gerais?
SD
Sou mineiro, nascido a 20 de julho
de 1873, no mesmo dia que meu pai completava 41 anos de idade. Nasci na cidade de Palmira e, em minha
homenagem mudou seu nome para Santos Dumont, num sítio a 18 quilômetros da
cidade, denominado, Cabangu. Hoje, essa casa me pertence por doação, feita em
1919. Fiz uma inscrição na porta: “Recebi por doação a casa onde nasci,
Cabangu, oferecida pelo Congresso Nacional, como prêmio pelos meus trabalhos.
Santos-Dumont. Obrigado”.
E
Considera-se mineiro, portanto!
SD
Meu pai é mineiro. Henrique
Dumont, nascido em Diamantina, no ano de 1832. Era filho de franceses: François
Dumont e Eufrásia Honnorée Dumont, que era filha de ricos ourives em Bordeaux.
Vieram para o Brasil em princípios do século XIX e se estabeleceram em
Diamantina, estado de Minas Gerais. Dedicaram-se à mineração de diamantes.
E
E pelo lado materno?
SD
Pelo lado materno, eu descendo de
portugueses. Meu bisavô era médico da Corte Portuguesa, Joaquim dos Santos.
Veio para o Brasil na época de D.João VI. Um dos filhos do Dr. Joaquim dos
Santos, Francisco de Paula Santos radicou-se em Ouro Preto, capital do estado,
casando-se com Rosalina, que era ouro-pretana.
E
Quer dizer que seu pai, Henrique
Dumont, natural de Diamantina, casou-se com Francisca, a filha de Francisco de
Paula Santos, uma ouro-pretana?
SD
Assim foi. Casaram-se Henrique
Dumont e Francisca de Paula Santos na freguesia do Pilar, em Ouro Preto, no dia
6 de setembro do ano de 1856.
E
Santos! Esta a origem de seu nome
brasileiro, portanto!
SD
Sim, Dumont pelo lado paterno e
Santos pelo lado materno. Sempre fiz questão de que meu nome fosse constituído
de partes brasileiras e francesas: Santos-Dumont, que os franceses diziam:
“Sontôs-Dimon”.
E
Quantos irmãos?
SD
Meus pais tiveram oito filhos,
três homens e cinco mulheres. Eu era o sexto filho do casal. Todos nasceram no
estado de Minas Gerais, com exceção das filhas Sofia e Francisca que nasceram
em Valença. Uma curiosidade: três das minhas irmãs casaram-se com três irmãos.
Maria Rosalina, casou-se com Eduardo Villares. Virgínia, com Guilherme Villares
e Gabriela, com Carlos Villares.
E
Seu pai era engenheiro?
SD
Meu pai estudou em Paris na École
Central des Arts e Métiers, obtendo o diploma de engenheiro, em 1853. Ao
regressar ao Brasil tornou-se empreiteiro de obras públicas em Ouro Preto.
Trabalhou depois na Estada de Ferro D.Pedro II, Central do Brasil. Construiu a
ponte da Estrada de Ferro Central do Brasil, sobre o rio das Velhas, em
Sabará. Depois, esteve na Mantiqueira,
onde moraram e em Valença, no Rio de Janeiro. Ainda, nessa época, teve uma
experiência num projeto de mineração em Jaguará, perto de Santa Luzia, MG e
ainda uma experiência no campo da agricultura, nessa região.
E
E o Rei do Café?
SD
Meu pai, em 1879, adquiriu um
vasto terreno em São Paulo, na região de Ribeirão Preto e transformou-o numa
das maiores fazendas produtoras de café do Brasil. Tinha trezentos contos de
reis e oitenta escravos. Posteriormente admitiu trabalhadores estrangeiros,
imigrantes, com formação em mecânica. Plantou milhares de pés de café.
Transformou também a propriedade num empreendimento comercial de alta
rentabilidade. Como era engenheiro, com a experiência adquirida no estado de
Minas Gerais, chegou a construir estradas de ferro dentro da propriedade, para
facilitar o escoamento da produção. A essa propriedade deu o nome de Arindeúva.
E
Quer dizer que sua família passou
a residir nessa fazenda Arindeúva?
SD
Meu pai dedicou-se totalmente ao
novo empreendimento e transferiu toda a família para lá. Ali, também, fomos
muito felizes e meu pai conseguiu ganhar muito dinheiro com esforço, trabalho e
inteligência. Ali vivemos de 1879 até 1891. Foram, portanto, 12 anos de
trabalho e dedicação de meu pai.
E
1891?
SD
Nesse ano, meu pai vendeu a sua
empresa “DUMONT COFFEE COMPANY”, para intermediários de uma empresa inglesa.
Doze mil contos de réis! Os ingleses pagaram alto preço. Uma soma de dinheiro
fabulosa.
E
Por que seu pai desfez dessa
propriedade?
SD
Antes de tudo, foi uma questão de
oportunidade comercial. Em segundo plano, meu pai teve um acidente com uma
charrete e ficou hemiplégico, incapaz de acompanhar todos os serviços da
lavoura. Ele era objetivo e tinha espírito de um cidadão preparado para o
século XX que se aproximava. Não era um perdulário, mas não prendia sua fortuna
entre as suas próprias mãos. Repartiu com os filhos, com a alegria de ter
deixado para sua descendência uma vida financeira assegurada. Cumpriu seu
destino. Meu pai me transmitiu isso. Nunca tranquei minhas economias em cofre
de chave perdida.
E
Mas em Arindeúva viveu um bom
período de sua juventude!
SD
Nessa fazenda, considerando-se as
precariedades da época, fui feliz e pude levantar os meus primeiros voos,
principalmente os imaginários. Ali, fui alfabetizado pela minha irmã Virgínia,
pois não havia escola pública oficial. Com isso, iniciei a leitura das obras de
Júlio Verne e viajei com ele, em suas naves e em seus submarinos. Li “Cinco
semanas em um balão”, “Da terra à lua”, “Vinte mil léguas submarinas”. Tinha
tranquilidade para isso.
E
Além das leituras, gostava de
lidar com as máquinas da fazenda!
SD
Gostava realmente de mexer com as
máquinas. Meu pai notou logo minha tendência para a mecânica e me incentivou
sempre. Permitiu até que eu dirigisse locomotivas na fazenda. Estudava
matemática e mecânica. Tive muitos professores, inclusive estrangeiros. Não
tinha ainda definido o meu futuro profissional.
E
Ficou em várias escolas?
SD
É verdade! Estudei em São Paulo,
em Campinas e no Rio de Janeiro. Meu pai chegou a me matricular na Escola de
Minas de Ouro Preto. Lá fiquei dois anos
sem muito interesse em estudar. Nunca fui um aluno prodígio, mas sempre acatava
as decisões do meu pai.
E
Não se adaptava aos regimes
escolares?
SD
Talvez, sim. Todos vinham com uma
sabedoria já pronta. Eu queria ir além, procurar por meus próprios meios e
avançar além das teorias conhecidas.
E
Quando sentiu o primeiro balão?
SD
Ancorado no meu pensamento ficou o
balão que vi numa feira em São Paulo, no ano de 1888. Era um balão esférico,
cativo, isto é, preso à terra por uma corda. Havia um balonista profissional,
artista de circo que fazia acrobacias maravilhosas que me encantaram. Ele era
esperto e fazia tudo por dinheiro. Elevava-se aos ares numa barquinha suspensa
a seu balão de gás. Anunciava que desceria de paraquedas, coisa que nem existia
na época. A barquinha descia puxada pela corda. Tudo me fascinava. Minhas
retinas registraram esse acontecimento e ainda hoje o vejo claramente
rememorado.
E
Depois, Paris!
SD
Meu pai levou toda a família a
Paris, para conhecer os parentes e amigos franceses. Depois, ver as novidades
da cidade maravilhosa, com iluminação elétrica. A capital do mundo civilizado!
Talvez eu passasse a estudar em Paris. Também vi um balão que me atraiu de modo
arrebatador. Não o tirei do meu pensamento. Queria entrar e subir nesse balão,
que por ele toda Paris encontrava-se enfurecida de prazer. Peguei o ANNUAIRE
BOTIN e encontrei o endereço do balonista. Queria fazer a minha primeira viagem
ao espaço num balão. Mas o balonista pediu-me um mil e duzentos francos, com
tantas exigências de responsabilidades de danos contra terceiros, bem como
outras despesas asseguradas em documento devidamente assinado e registrado.
Pensei muito e acabei desistindo. Desisti naquela oportunidade. Não desisti do
meu intento. Resolvi então comprar um carro de estrada. Um PEUGEOT de 3,5
cavalos. Tornei-me automobilista. Um motor a gasolina. Não havia necessidade de
tirar documento de autorização para dirigir automóveis. Quando voltei para o
Brasil, trouxe esse carro comigo.
E
E sua emancipação?
SD
Mais tarde, meu pai me levou ao
tabelião e assinou a minha emancipação aos dezoito anos de idade, isto é, em
1891 e me deu centenas de milhares de réis. Disse-me: “prefiro que não se faça
doutor! O futuro do mundo está na mecânica. Não precisa ganhar a vida, pois eu
lhe deixarei o necessário para viver!”
E
Voltou para Paris?
SD
Tão logo que pude. Em 1897, fiz a
minha mudança. Comprei outro carro de estrada Peugeot e fui procurar os
balonistas famosos que dominavam os ares, na época, M. Lachambre e seu sobrinho
Machuron.
E
Nessa época, já tinha um projeto
em mente?
SD
Mais do que nunca já tinha um
objetivo firmado. Além disso, tinha pressa. Não podia esperar. Uma avidez sem
limites. Tinha dinheiro suficiente. Comecei a estudar mecânica e fui em frente.
E
E os senhores Lachambre e
Machuron?
SD
Eles me receberam muito bem. Fui
claro! Quero voar com vocês nesse balão. Quanto custa? Eles me disseram que
eram duzentos e cinqüenta francos, apenas. Achei barato em vista do anterior
que me pediu um mil e duzentos francos e mais as responsabilidades de danos.
Perguntei pelos danos? E eles me responderam que não haveria danos e que só
subiam na certeza de bom desempenho e com total segurança. Senti firmeza!
Paguei na hora, e marcamos o dia da ascensão. Não aguentava esperar mais.
E
Era uma ascensão com segurança
total?
SD
Isso me foi garantido. Era um
balão esférico, com uma barquinha a bordo. Balão livre, sem motor, ao sabor dos
ventos. Cheguei cedo ao local da ascensão. Não aguentava esperar. Subi com o
piloto, senhor Machuron. Subimos mil e quinhentos metros. Depois três mil. Eu
estava eufórico, sem medo, admirando a paisagem do alto e vendo as pessoas como
formigas na terra. Três horas depois, abri a minha caixa de lanches e fizemos o
primeiro piquenique em balão do mundo. Eu e o meu já amigo, senhor Machuron.
Descemos numa área rural. Depois ficamos sabendo que estávamos a cem
quilômetros do ponto de partida. Pegamos o trem para retornar à base. Machuron
fez questão de pagar a passagem que já estava incluída no contrato. Foi um
momento marcante na minha vida. Senti que tinha um destino a cumprir e não
podia esperar.
E
E depois?
SD
Fiz observações sobre o modelo do
balão, perguntei tudo e tirei conclusões. Fui logo falando para o senhor
Lachambre que queria encomendar um balão para mim. Muita pretensão da minha parte, mas eu queria
um balão com algumas características especiais, de cem metros cúbicos, apenas,
e a barquinha como pêndulo. Desenhei o balão. Esférico, construído com seda
japonesa, muito fina e leve. Além de tudo, resistente. O senhor Lachambre achou
perigoso tal empreendimento, mas no final, concordou comigo. Seu custo: US
$30.000.
E
E assim foi feito?
SD
Assim foi feito. Era como se a
primeira ideia aeronáutica propriamente dita, estivesse na iminência de nascer.
Pressentia isso. E era isso mesmo que acontecia. Tinha dinheiro para esse fim.
Era meu destino! E tinha que se cumprir.
E
Assim nasceu o balão SD nº 1?
SD
Assim nasceu o balão SD número 1.
Era o Santos-Dumont número um. Dei-lhe o nome de BRASIL e ficou concluído no
dia 4 de julho de 1898. Era a maior experiência no campo da aerostação. – Não
havia aeronáutica, ainda. Era um balão esférico, desenhado por mim, pequeno,
que poderia ser levado pelo vento com facilidade. Era perigoso, como disse o
senhor Lachambre. Com ele subi pilotando
sozinho. Aprendi comigo mesmo, pelos ares, com a própria experiência. Foi um
momento maravilhoso, mas cheio de pequenos fracassos, também maravilhosos
porque foram recolhidos com paciência e sabedoria. Já pensava num balão
oblongo, em forma de charuto, acionado por motor e puxado por hélice. Era
dirigir no espaço! Um balão dirigível!
No ar, por sobre a cabeça dos parisienses, fui visto pela humanidade.
Entrei para o meio dos famosos. Passaram a citar o meu nome em todos os
acontecimentos de aerostação.
E
Alguns problemas?
SD
Muitos problemas. Ocorriam
imprevistos que eu mesmo tinha que dar solução imediata ou me perder pelo
espaço. Uma descida muito longe do ponto de partida. Um comportamento
inesperado do balão, em grande altura sem motivo aparente. Uma surpresa pela
noite que descia antes do balão, dificultando a aterrissagem. Tudo concorria
para aperfeiçoar a técnica de pilotagem balonística e me dar segurança e
confiança nas iniciativas. Além disso, para me projetar no vasto cenário do
interesse do público dessa maior metrópole cultural do ocidente.
E
O SD nº 1 lhe trouxe fama e
prestígio?
SD
Tive a popularidade de um
aeróstata. Minhas relações sociais se avolumaram e Paris me conhecia. Mas eu
queria avançar nas minhas experiências, seguir eliminando erros e avançando nas
técnicas para construir novos balões. .
E
Consta que o senhor era conhecido
e admirado nos salões, nos cafés, nos jardins, onde quer que o senhor
estivesse, com amigos, conhecidos e com admiradores anônimos. Era interrogado
pelos curiosos. Era o “petit Santos!”
SD
Mas o SD nº 1 – o balão Brasil,
assinalou o começo de uma lista impressionante de fracassos, por assim dizer,
magníficos. Tive que modificar toda a sua estrutura. Por isso, fiz muitas
modificações. Nada era definitivo, precisava aproveitar os resultados. Nada de
ficar estático sobre essa pequena popularidade. Avançar! Nem dormia direito e
estava sempre exaltado, forçando o trabalho dos mecânicos e desenhando novos
modelos de balões. Meu sonho era dirigir no espaço, construir um balão
dirigível, era o meu objetivo. Era o primeiro dirigível! Em 18 de setembro de
1898, com o invólucro alongado, o dirigível nº 1 já possuía todos os elementos
que iriam garantir o sucesso das outras aeronaves. Houve um acidente na
primeira tentativa de vôo. Fui salvo por um grupo de crianças que brincavam por
ali. Pedi para puxarem a corda, a fim de evitar a queda do piloto. Foi a
salvação. Depois, com humor, fiz o comentário: “subi em balão e desci em
papagaio.”
E
E que fim teve esse balão Brasil,
SD nº 1?
SD
Depois de duas ou três ascensões,
ele dobrou-se e encerrou a sua curta história. Dobrou o balão, não o balonista.
E
O senhor construiu outros balões
do mesmo tipo?
SD
Projetei o SD nº 2. Meu
relacionamento profissional com os senhor Lachambre e seu sobrinho Machuron
passou a se tornar cada vez mais íntimo. Obtive a confiança deles e já pilotava
sozinho qualquer balão. Afinal, trabalhávamos juntos com o mesmo objetivo.
Eles, entretanto, não tinham a ambição que dominava o meu ser por completo.
Minha vida passou a ser planos, oficinas, operários, forja, bigorna. Eu
trabalhava com o objetivo de conseguir a dirigibilidade dos balões. Não pensava
em triunfo apenas. Queria demonstrar a minha capacidade de criar formas para
dominar o espaço.
E
Mas e o SD nº 2?
SD
Este foi de encontro às árvores
dos Jardins da Aclimação de Paris. Mas parti para o SD nº 3, modelo 1999. Fiz
evoluções perfeitamente dirigidas, e passei a voar com frequência sobre os
telhados de Paris. Mas, um dia, desgovernado, devido à perda de um leme de
direção, fui descer em péssimas condições na planície de Ivry. Passei a
projetar o SD nº 4, que voou em presença dos membros do Congresso Aeronáutico
Internacional e também do cientista norte-americano professor Samuel Pierpoit
Langley, membro desse Congresso. Dele recebi “o mais cordial encorajamento”. Mas,
a estrutura foi modificada. Tinha hélice de proa, acionada por um motor Buchet de
7 cv e um balão de hidrogênio de 420 m3 de gás. Era o SD nº 4,
dirigível, portando um selim para o piloto. Foi um sucesso. Meus balões eram
cilíndricos. As rodas eram usadas apenas para sair do hangar.
E
O que era o hangar?
SD
Um grande galpão para recolher as
aeronaves e servir de oficina. Além disso, era nosso ponto de encontro com as
personalidades interessadas nos nossos balões. Foi também uma criação da época.
E
Finalmente o SD nº 5?
SD
Não finalmente, mas em
continuidade. Com ele, em caráter não-oficial, contornei a Torre Eiffel. Era
capaz de voar com controle e velocidade. Entretanto, um dia, esse balão foi
bater na quina da platibanda de um prédio, nos Jardins do Trocadero, em Paris e
explodiu como um saco de papel cheio de vento e esmagado com grande força. Esse
balão SD nº 5 era dirigível e o que mais perto chegou do triunfo, ao conduzir
um aeronauta. Não foi uma glória perfeita e desejada, mas me levou bem perto da
morte; Não tive nem um arranhão.
E
Passou imediatamente para o SD nº
6?
SD

E
Finalmente, o SD nº 6?
SD
Não finalmente, mas em
continuidade. Era o encontro com o destino, tanto meu como da própria
humanidade. Ocorreu na tarde do dia 19 de outubro de 1901. O meu SD nº 6 foi construído em 22 dias,
tendo sido testado várias vezes para ganhar o prêmio “DEUTSCH”, ao fazer o
contorno da Torre Eiffel e retornando à base de onde tinha partido. Esse balão
tinha 33 metros de comprimento e seis metros de largura. Nesse dia, partindo de
Saint Cloud, às 14h42, conquistei o Prêmio Deutsch, oferecido pelo patrocinador
Deutsch de la Meurthe, magnata do petróleo, meu amigo e admirador. Ele era,
ainda, um dos maiores incentivadores da aviação. Houve aplausos da multidão que
assistia ao evento. Enquanto os membros do Aeroclube discutiam, a multidão
aplaudia, sabendo que, a partir daquele momento, a humanidade seria diferente
para sempre. Conquistei um prêmio de 100.000 francos! Era o maior desafio da
aeronáutica, no primeiro ano do século, ao decolar de Saint Cloud, contornar a
Torre Eiffel e voltar em menos de trinta minutos!
E
Ao terminar a prova, sua emoção
era grande!
SD
Será que ganhei? Foi o que disse.
Logo me disseram que sim. Esse fato repercutiu no universo inteiro, como um empreendimento
humano contra as leis então conhecidas e ainda não dominadas da natureza. Vasta
repercussão na face da terra. O homem poderia erguer-se aos ares e comandar os
movimentos em todas as direções no espaço atmosférico! Com mais esse evento,
acabei de conquistar a sociedade parisiense. Era o triunfo total!
E
E o prêmio?
SD
Reparti o prêmio inteiro que, com
os juros, chegou a 125.000 francos, entre os meus auxiliares mecânicos, com os
pobres de Paris. Resgatei todas as cautelas de ferramentas de trabalho
empenhadas por trabalhadores franceses. Acompanhei de perto essa distribuição,
sob a responsabilidade do chefe de Polícia de Paris, senhor Lépine.
E
Já podia naturalizar-se francês?
SD
Nunca me fizeram essa proposta
porque sabiam da força das minhas convicções brasileiras, arraigadas no meu
sangue e na minha têmpera. Mas, seria também uma honra, porque sempre admirei a
França, Paris e, sobretudo, o povo francês. Como disse antes, nunca precisei de
auxílio financeiro do governo francês ou do brasileiro.
E
O povo francês passou a admirá-lo
com muito carinho!
SD
É verdade. Havia coisas estranhas.
Os parisienses me admiravam. Por isso, procuravam se modelar em mim. Como eu
passasse a aumentar o tamanho do salto de meu sapato, pois eu tenho apenas 1,52
m de altura, o povo me copiou e passou a ser moda, aumentar a altura dos
sapatos masculinos. Também as roupas em listras verticais e a pentear os
cabelos partidos ao meio. Também o colarinho alto das camisas. Ah! Também o chapéu
abanado, amarfanhado, que usei uma vez, depois de apagar o fogo que irrompeu
num balão. Quando desci, estava com o chapéu todo roto. Assim me fotografaram e
assim saiu nos jornais do dia seguinte. Dias depois, a população parisiense
usava o chapéu, cuidadosamente, amarfanhado. Finalmente, passei a usar o meu
relógio de algibeira amarrado ao pulso esquerdo para facilitar a consulta às
horas. Foi um sucesso popular. Os empresários começaram então a fabricar
relógios de pulso por minha causa. E a moda pegou. O precursor foi o empresário
Louis Cartier, que, em 1908, iniciou a produção. Posteriormente, a firma
Jalger, em 1911, lançou o modelo “Santos”!
E
E os novos admiradores?
SD
Eram inúmeros amigos que me
apoiavam e tinham carinho especial por mim, pelo meu trabalho e pelas minhas
ousadias no campo da aerostação. Dentre elas, não posso deixar de citar a
Imperatriz Eugênia, Condessa d`Eu. Além disso, o senhor Alexandre Gustave
Eiffel veio me cumprimentar pessoalmente. Ele era o engenheiro francês que construiu
a Torre Eiffel, no campo de Marte, em Paris, por conta dos Estados Unidos que
prestava homenagem à França, na Exposição Mundial de 1899. Minhas amigas, a
artista Cleo de Mérode e a soprano Maria Barrientos. Não posso deixar de citar
o amigo, senhor Lachambre e meu amigo e meu instrutor, o piloto Machuron. E
tantos mais. Sei que estou fazendo uma grande injustiça, deixando de citar
tantos amigos e admiradores.
E
Vamos prosseguir porque há muitas
coisas ainda que precisamos saber. Depois das glórias, do prêmio e do domínio
da dirigibilidade no ar, que aconteceu?
SD
Nada mais do que, no dia seguinte,
iniciar o trabalho no meu hangar. Meus amigos mecânicos estavam eufóricos, mas
disse a eles que haveria muita coisa, ainda, a comemorar. A humanidade nos
esperava com o relógio no pulso esquerdo. Era hora de trabalho sem descanso.
E
E que destino teve o balão SD nº 6?
SD
Caiu no mar Mediterrâneo, num
passeio que fiz, com alguma distração de minha parte. Descemos lentamente. No
dia seguinte, foram resgatados o balão, a quilha e o motor.
E
Prosseguiu na construção de novos
balões?
SD
Agora, mais do que nunca. Uma
obsessão, uma doce obsessão me perseguia e me impulsionava. Estive nos Estados
Unidos e em Londres. Retornei a Paris, tendo em vista construir um aeródromo.
Esta foi a primeira estação de aeronaves. Na primavera de 1903, minha estação
ficou pronta e eu possuía três aeronaves: o SD nº 7 o SD nº 9 e o SD nº 10.
E
E o SD nº 8?
SD
Saltei esse número por
superstição. Alguns pensam que saltei o número sete.
E
E o SD nº 7?
SD
É o meu dirigível de corrida. Tem
duas vezes a capacidade ascensional que o SD Nº 6, o premiado. Mas, o SD nº 10
foi chamado pelo pessoal de “ônibus”, Tinha a força para transportar quatro ou
cinco pessoas. Grande provisão de combustível, para não falar em munição para a
guerra.
E
E o SD nº 9?
SD
Esse foi o menor dos dirigíveis
possíveis. Era prático e com ele voei durante várias semanas. Com ele, eu
passeava em Paris, ia almoçar no Bois de Bologne, ou em minha casa na avenida
Champs Elysées.
E
E Aída de Acosta?
SD
A grande amiga, Aída de Acosta,
uma jovem cubana, foi a primeira mulher do mundo a pilotar sozinha um
dirigível, em 29 de junho de 1903.
E
E a parada militar?
SD
Voei com o SD nº 9, em Paris, sobre a parada militar que ocorria no dia 14
de julho de 1903, em comemoração ao centenário da tomada da Bastilha. Sobrevoei
por Longchamps e quando passei pelo presidente da República, disparei 21 tiros
para o ar com o meu revólver. Era uma excepcional circunstância essa da
apresentação de uma aeronave a um exército, pela primeira vez.
E
E a bandeira do Brasil?
SD
Estava tremulando sempre nos meus
balões, junto com a bandeira da França, desde o SD nº 1, denominado Brasil.
Mas, nesse dia da parada, depois de cumprimentado oficialmente pelo Governo,
ofereci-o às autoridades francesas para que o usassem da maneira que quisessem,
bem como todos os meus planos e projetos estariam à disposição, inclusive em
caso de guerra, desde que não seja guerra contra países da América e, claro,
contra o meu país, o Brasil..
E
E como chegou aos aparelhos mais
pesados que o ar?
SD
Construí primeiro o SD nº 14, um
aeromóvel mais leve que o ar. Ele era um balão dirigível e eu já pensava em
aeroplanos. Estava no auge dos meus experimentos. Daí, a minha experiência mais
importante. Construir um aparelho mais pesado que o ar e colocá-lo acoplado a
outro para conseguir altura e iniciar o voo. Mas, como comandar aviões? Quem
poderia me ensinar? Nunca seria possível encontrar alguém. Tive que passar por
etapas no processo de aprendizagem e domínio do espaço. Por isso, imaginei
acoplar ao SD nº 14 ao novo modelo SD nº 14-Bis.
E
A ideia tinha nascido?
SD
Por três anos me envolvi na idéia
de um aeromóvel no espaço. Estava envolvido pelas circunstâncias a dar
prosseguimento ao meu trabalho. Sentia o peso da minha responsabilidade e da
minha habilidade de chegar a um limite. Temia esse limite. Fui longe demais.
Não podia desistir. Assim, me embarquei nessa ideia de colocar no espaço os
modelos mais pesados que o ar. Um francês, obcecado pela aerostação, Clément
Ader, já tinha inventado a palavra “avião”. Meu destino tinha que se cumprir.
Fui à luta.
E
Construiu um aeroplano?
SD
Mesmo sem saber se voaria ou não.
Como manobrar esse aeroplano, como disse antes? Quem me ensinaria? Por isso,
construí primeiro o balão SD nº 14, para erguer-se no espaço carregando o SD nº
14-Bis. Os aeronautas morriam porque não sabiam, como ninguém no mundo sabia,
como comandar esses aparelhos. Para evitar a morte em acidente, desenvolvi esse
procedimento de acoplamento. Assim, fiz várias tentativas. Em 13 de setembro de
1906, consegui por instantes, permanecer 50 a 70 centímetros do chão.
E
Novas experiências?
SD
Em 23 de outubro, houve tempo
maior. Um jornalista francês escreveu que tinha sido “um minuto memorável na
história da navegação aérea.”
E
Finalmente, nesse dia 23 de
outubro de 1906!
SD
Agora, concordo! Finalmente! Nesse
dia, consegui os primeiros recordes da aviação do mundo. Voei, no tempo de
vinte e um segundos e um quinto a distância de 220 metros. Tudo estava
registrado e controlado oficialmente pela comissão especialmente constituída
pelo Aeroclube da França, no campo de Bagatelle. Um jornal parisiense dizia: “É
a primeira vez que um aeroplano com motor, carregando um homem, alça voo
livremente.”
E
Por que concordou com aquele
“finalmente?”
SD
Esse foi o meu segundo e o último
encontro com o meu destino na aerostação: a glória. Estava batido o primeiro recorde
de distância e de velocidade do mundo, em aeroplanos, isto é, em aparelho de voo
mais pesado que o ar – e tudo sob o controle oficial do Aeroclube de França,
que era, na época, a autoridade universalmente reconhecida para esse fim. Toda
a França festejou o acontecimento, e o telégrafo recebeu mensagens do mundo
inteiro. Estavam consagrados o dia 23 de outubro 1906 e o SD nº 14-Bis
E
Mas ainda houve o “Demoiselle”!
SD
Foi o mais leve e o mais
manobrável dos aeroplanos. Três anos de glória também para o Demoiselle. Voei
por onde bem quis, pilotando-o . Gozei as delícias de ser dono de uma glória,
então única na face da terra, imortalmente única na face da terra, imortalmente
única para a humanidade.
E
E a repercussão desse recorde do
SD nº 14-Bis?
SD
Um jornal francês da época
publicou: “Por toda a eternidade, enquanto houver criatura na face da Terra,
será inevitável, será forçoso relembrar aqueles dois recordes batidos no
relvado de Bagatelle, por Santos-Dumont”.
E
Depois da glória, a riqueza?
SD
Nunca tirei proveito pessoal
daquilo que inventei ou do que fiz. Trabalhei por idealismo, por missão.
Empreguei meus recursos financeiros tanto quanto tinha. Ou se mais eu tivesse e
precisasse. Dei tudo de presente para a humanidade. Não ocultei nada a ninguém.
Publiquei tudo, divulguei tudo, sem registrar patente para coisa alguma. Os
prêmios? Reparti todos com os meus amigos e companheiros. O caminho está aberto
para o mundo dominar o espaço e chegar ao infinito. Não construí e nem desejo
construir aeroplanos para venda. Tudo está à disposição de todos. Estão
disponíveis todas as indicações para que se façam outros aparelhos mais
aperfeiçoados. Meu grande e único desejo é o desenvolvimento da aviação.
E
E em continuidade?
SD
Em 1909, em ato irrecorrível,
decidi afastar-me de tudo quanto fora de meu passado como atividade
profissional. Não posso esquecer o meu passado. Um peso enorme. Agora, sinto-me
incapaz de continuar. Estou cansado. Muito cansado!
E
Tem notícia dos acontecimentos
mais recentes da aviação?
SD
Sei que em 1947, conseguiram, pela
primeira vez, voar com a velocidade igual à do som. Sei que hoje, os aviões são
capazes de transportar centenas de pessoas. Eu previ que o Aeroporto de Nova
York seria o maior do mundo. Sempre tive isso em mente.
E
E a guerra de 1914 a 1918?
SD
É um capítulo indefinível na minha
consciência e que me perturba e que me entristece. Foi uma guerra devastadora.
Lamentei que a aviação tivesse sido arma de destruição. Não posso conceber
isso. Depois dessa guerra, além das mortes e da destruição pelo lançamento de
bombas, restaram pilotos desempregados. Em 1918, a França tinha 5.600 pilotos
desempregados. A Inglaterra, 7.500 pilotos. A Alemanha, outros milhares de
pilotos desempregados. Permaneci na Suíça, nessa época. Sei de tudo que se
passou e retornei à minha pátria.
E
Em vez de bombas, hoje transportam
cargas e passageiros. Há o correio aéreo e a aviação civil.
SD
Certamente é o que me conforta.
E
E, pela sua chegada ao Brasil
houve grandes manifestações de carinho e consideração.
SD
Sim, apesar de ter havido tantos
acidentes e eu ter perdido tantos amigos. Também me desfaço desses momentos
cruciais da minha vida.
E
Passou a residir no Brasil?
SD
Adquiri um terreno na cidade de
Petrópolis e lá construí a minha casa, com os requintes de conforto e
originalidade que pude imaginar. Era a minha “Encantada”.
E
Foi agraciado com Medalha de Ouro?
SD
O presidente do Brasil, Campos
Sales, concedeu-me essa honra. Além da Medalha de Ouro, recebi também o prêmio
de 100.000$00 (cem mil réis) em dinheiro. Lembro-me também que muito me
sensibilizou uma medalha em ouro de São Bento que recebi da Princesa Isabel, em
1903. São Bento me protegeu contra possíveis acidentes.
E
Eleito para a Academia Brasileira
de Letras?
SD
Sim, fui eleito, na cadeira de
Graça Aranha, em 1931. Na verdade, nunca ocupei essa cadeira. Foi uma honra e
uma consideração muito grande.
E
E a Medalha Santos-Dumont?
SD
Foi instituída pelo Governo do
Estado de Minas Gerais, em meu nome, tendo em vista o disposto na Lei nº 1.493
de 16 de outubro de 1.956, conferindo-a anualmente, na cidade mineira de Santos
Dumont, em Cabangu, onde nasci, a personalidades que se destacam na vida
pública nacional.
E
Hoje, Marechal do Ar?
SD
Sim! Em 1956, o então presidente
da República, doutor Juscelino Kubitschek de Oliveira enviou essa proposta ao
Congresso Nacional, me concedendo esse posto honorífico. Foi aprovado em 23 de
setembro de 1959, sob o título de Marechal do Ar da Força Aérea Brasileira. Não
recebi esse título em vida, porque, no dia 23 de julho de 1932, achei por bem,
deixar essa vida. Tive sofrimentos profundos com a Guerra Civil Brasileira de
1932, vendo irmãos destruírem irmãos brasileiros. A guerra não é solução para
nada. Foi uma decisão, foi a melhor decisão para mim naquele momento. Se me
permite, devo me retirar. Estou realmente muito cansado e triste. Meu mundo
está em desespero também e eu me encontro sozinho dentro dele. Mais tempo
tivera para voar e sentir-me pairando sobre todas as criaturas. Estou me
afastando simplesmente por tristeza. Deixo para a humanidade tudo o que fiz e
tudo que realizei. Sei que, depois dos meus inventos, tudo será diferente no
mundo. Não posso dizer adeus, porque a minha morte será silenciosa e
profundamente triste.
E
O senhor estava hospedado no
Grande Hotel La Plage, em Guarujá, no apartamento nº 152, não é verdade?
SD
É verdade. E o meu sobrinho Jorge
Dumont Villares estava também hospedado nesse hotel, no apartamento nº 151. Mas
ele não estava presente na hora da minha despedida.
E
E o seu sepultamento?
SD
Minha certidão de óbito ficou
desaparecida por 23 anos e a “causa mortis” que consta nessa certidão é de
“colapso cardíaco”. Meu corpo foi embalsamado e transladado para o Cemitério
São João Batista no Rio de Janeiro e sepultado no dia 17 de dezembro de 1932.
Nesse local, estavam sepultados meus pais. Em tempos anteriores, mandei erigir
um monumento semelhante ao que me dedicaram na França, em Saint Cloud, com uma
estátua de Ícaro, com os braços erguidos.
Mandei trazer os restos mortais de meus pais para aí. Agora, estamos
juntos. Meu pai me compreendia e conhecia o que eu podia fazer pela humanidade.
Ele me proporcionou todos os meios para que isso se concretizasse. Meu pai tem a sua parcela de benemérito da
humanidade. Henrique Dumont, mineiro de Diamantina. Brasileiro do mundo!
E
Suas palavras finais!
SD
Cumpri o meu destino. O que vale,
senhores, viver e não interferir na vivência das pessoas? O que adianta
passarmos por esta vida como uma flecha rápida e imperceptível? Assim passei
pela vida. Deixei o que pude de mim. Entreguei tudo que tive para o bem da
humanidade. É simplesmente o que pude fazer! O homem se faz homem na relação
com o próximo. O alicerce nas relações é a confiança recíproca. E, às vezes,
somos iludidos pela confiança, mas a desconfiança faz com que sejamos enganados
por nós mesmos. Nada mais posso dizer, além disso!
E
Senhores! “Santos-Dumont era a
própria generosidade, a elegância inata, a bondade e a retidão. Trabalhou
visando unicamente o bem da humanidade, com intensa obsessão. Sem ele, tudo teria
sido diferente neste mundo. Deixou como herança, também, o seu nome gravado nos
corações das gerações vindouras. Os que compreendem os benefícios que ele
prestou ao desenvolvimento da humanidade hão de reverenciá-lo eternamente, com
carinho e gratidão.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBOSA, Waldemar de Almeida. O
centenário de Santos Dumont. Belo Horizonte: Suplemento pedagógico especial nº
10, Minas Gerais, 1973.
BARROS, Henrique Lins de. Santos
Dumont e a invenção do voo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2003.
MOURÃO, Paulo Kruger Correa.
Santos Dumont em Minas Gerais, Belo Horizonte: Suplemento pedagógico especial
nº 10, Minas Gerais, Belo Horizonte, 1973.
LAGAZ, Guto. O gênio fértil de
nosso maior designer, São Paulo: Revista
Caros amigos – suplemento, ano X, n.28, julho, 2006.
PIMENTA, Demerval José.
Santos-Dumont e Minas Gerais, Belo Horizonte: revista do Instituto Histórico e
Geográfico de MG, n. XVII, 1963.
SANTOS-DUMONT, Alberto. Os meus
balões, tradução e adaptação de A de Miranda Bastos. Rio de Janeiro: editora
Brasil-América, Grandes figuras, nº 20, em quadrinhos, 1971
VILLARES, Henrique Dumont. Quem
deu asas ao homem.Rio de Janeiro: MEC – Instituto Nacional do Livro, 1957
é uma briga entre os americanos e brasileiros.. quem inventou o avião?
ResponderExcluirNão adianta chorar. O avião é tupiniquim. Aceita q dói menos.
ResponderExcluirGostei muito do texto. Enviei para amigos nos USA.
ajudou muito no trabalho da escola
ResponderExcluirAprendi muito sobre Santos D. lendo esta entrevista. Não sabia que ele era mineiro sempre achei que fosse carioca ou paulista
ResponderExcluirSantos Dumont x Irmãos Wright: afinal, quem inventou o avião ? O fato é que Dumont foi o primeiro a conquistar o reconhecimento oficial e homologado sobre a criação das aeronaves. Porém, anos mais tarde, os resultados obtidos pelos Irmãos Wright, ainda que controversos, foram reconhecidos pela Fédération Aéronautique Internationale. Por antecederem os feitos de Santos Dumont, os irmãos Wright ganharam a fama mundial de inventores dos aviões. Ao nosso herói nacional, restou o eterno reconhecimento de brasileiros e franceses, por quem até hoje é cultuado como pai da aviação.
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