DAS MONTANHAS A CAPITAL


ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE
MINAS GERAIS - BRASIL

Autor: Rogério de Alvarenga

“Olhando para vocês, vi um belo horizonte!” - exclamou o papa João Paulo II, (1920 – 2005), no dia 1º. de junho de 1980, na praça Israel Pinheiro, Belo Horizonte, por ocasião da celebração de missa campal para cerca de um milhão de pessoas. A partir desse dia, o povo adotou esse local com o cognome de Praça do Papa, tal a emoção que essa manifestação espontânea e justa emoldurou a autoestima dos belo-horizontinos. Em retribuição imediata, o povo, em coro  improvisado, respondeu:  “Rei! Rei! Rei! – o Papa é nosso Rei!  E assim, nesse ato memorável, configurou-se um amor à primeira vista.       

MENSAGENS VIRTUAIS
DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA
MUITO DIGNO EX-PRESIDENTE DO ESTADO DE MINAS GERAIS

            Hoje já é dia 15 novembro de 2011. Estamos comemorando 122 anos de república. Parabéns para o senhor, um batalhador incansável. Achei por bem enviar-lhe mensagens virtuais por cartas, colocando-o em sintonia com alguns acontecimentos ocorridos na cidade de Belo Horizonte, onde o senhor esteve até os últimos dias de sua vida. Sei e sabemos todos do seu interesse pelo pleno desenvolvimento, pelo crescimento deste estado que o senhor presidiu.. Desculpe-me importuná-lo. Desde que o senhor nos deixou, em 25 de outubro de 1908, ficou o Palácio da Liberdade com o sentimento de perda total. O povo do estado de Minas Gerais ficou órfão, juntamente com a sua família, seus 12 filhos. Todos ficaram órfãos, também, da sua ousadia administrativa, da sua visão do grande futuro do nosso estado e, sobretudo, da sua fraternidade republicana.
            Hoje, resolvi invocar a sua paz, o seu repouso eterno. Tantas coisas aconteceram na nossa nova cidade-capital, depois de sua partida e outras tantas vêm acontecendo a cada dia que passa, que eu me lembrei de fazer uma crônica, reportando para o senhor essas novidades.  Sabemos que a sua atuação como gerente, um grande gerente-governador-presidente, com a sua larga visão, sempre foi republicano incansável na configuração dos destinos do estado e, em particular, na confirmação do desenvolvimento da nova capital.
            Sabemos das suas dificuldades encontradas na época como presidente, pois este estado tinha investido todos os seus recursos na construção da nova capital, na sua construção e na sua instalação. Também na transferência de todos os funcionários. E esta cidade-capital iria exigir muito mais em finanças e obstinação, para a concretização de um plano arrojado e excessivamente ousado para a época. As pessoas têm que entender que não foi fácil construir esta cidade-capital, num período estipulado em quatro anos.
            E o senhor, como presidente do estado de Minas Gerais, primeiro presidente do estado eleito pelo povo, após o governo instalar-se no Palácio da Liberdade, em 1906, substituindo o doutor Crispim Jacques Bias Fortes, (1847 – 1917) teve como meta fundamental o desenvolvimento, de maneira ampla. Reconheço hoje com aplausos a sua meta proposta também para a educação, um dos princípios republicanos, na sua obstinação quanto à criação dos GRUPOS ESCOLARES, dando a partida para a oficialização do ensino público.
            Vou recolher mais informações sobre essa meta dentro do plano educacional, para transmitir informações em outras oportunidades. Saiba que a sua meta vingou mesmo. Os seus Grupos Escolares se espalharam pelo nosso estado. E também as escolas rurais e as colônias agrícolas, pela implantação de novos métodos e técnicas para a agricultura e pecuária. O senhor foi obstinado, radical e entusiasmado. Não podia ser diferente. Seu trabalho foi recompensado e frutificou.  Mas, hoje, tenho algo a relatar, com a certeza de que será uma surpresa que irá lhe causar uma grande alegria.
            Nesse ano de 1929, seu amigo e contemporâneo da Escola de Direito de São Paulo, então presidente do estado, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada (1870 – 1946)  inaugurou um viaduto monumental, na cidade de Belo Horizonte, denominado VIADUTO DOS VIAJANTES e posteriormente, VIADUTO SANTA TERESA. Não se trata de um simples viaduto urbano. Trata-se, como disse antes, de um monumento de arte, adequado aos interesses da população. Imaginar que esta nova cidade, com apenas 32 anos de fundação, já construiu, com recursos do estado, uma obra que passa sobre o rio Arrudas, a Avenida do Contorno e as linhas da estrada de ferro da Central do Brasil (EFCB), de uma só vez, além de fazer a ligação do centro da cidade a um dos bairros mais habitados. Pois o espírito republicano, tão defendido pelo senhor, sobrevive nesta obra. Tem a extensão de 400 metros de comprimento, com dois arcos laterais de 14 metros de altura. Tudo em cimento armado. Torna-se, pois, o maior vão de cimento armado da América Latina, para essa época. Tecnicamente perfeito. Elegante, majestoso, imponente. Além do seu valor utilitário, representa um marco para a autoestima dos novos moradores da cidade.
            Darei outras notícias, principalmente sobre o seu projetista, o engenheiro responsável pela construção, em outra oportunidade. São tantas notícias que nem sei bem por qual ponto devo começar. Sei, entretanto, que tudo é novidade para o senhor. Apenas, mais uma informação: esta cidade de Belo Horizonte, neste início de século XXI, cresceu tanto que entornou, transbordou pela Avenida do Contorno, que foi projetada para ser o seu limite urbano. Extravasou,  extrapolou, expandiu. Inacreditável, dirá o senhor, não é verdade?
        Aqui me despeço, prometendo dar continuidade a estes relatos amanhã bem cedo, para poder trazer informações complementares sobre a Cidade de Minas, hoje, Belo Horizonte.

P.S.
            Achei melhor dar uma pequena informação sobre o engenheiro Emílio Baumgart, projetista e construtor do Viaduto Santa Teresa. Era Emílio Henrique Baumgart, (1889 – 1843), natural de Blumenau (SC), filho do imigrante alemão Gustav Baumgart e de Mathilde Odebrecht, também filha de imigrante alemão. Isso mesmo. Pois o engenheiro-projetista, devidamente graduado, montou no Rio de Janeiro, no ano de 1925, o primeiro escritório de engenharia, especializado em estruturas de concreto armado do Brasil. E teve sucesso como inovador e como competente profissional. Pois esse Viaduto Santa Teresa,  projetado e construído por ele, é obra de arte que vai romper os séculos pela sua beleza e pela sua rigidez estrutural.
            Estive fazendo um passeio por ele, à tardinha, olhando lá de cima a praça da estação, a Serraria Souza Pinto, a Avenida dos Andradas, o Parque Municipal, a Avenida Assis Chateaubriand e me perdi no tempo e nas lembranças mais profundas do meu ser. Lembrei-me que nele se fazia o footing nas belas tardes fagueiras. As moças desciam do bairro da Floresta e de Santa Teresa para um passeio, um desfile de ida e volta, ao longo do viaduto, vendo os rapazes que se punham a admirar cada uma delas. O sol ia se pondo, as luzes elétricas se acendiam e a modernidade chegava num estalar de dedos. Tempos gloriosos vividos nessa jovem cidade, inaugurada em 12 de dezembro de 1897, bela e realmente moderna. Penso até que o seu projetista Aarão Reis (1853 – 1936)  teve algum mérito ao decidir a demolição, sem dó nem piedade, dos casebres de Curral del-Rei, para surgir das cinzas uma cidade realmente nova.
            Divaguei demais. O Viaduto Santa Teresa, hoje com 82 anos, não apresenta nenhum sinal de envelhecimento. Digo isso, considerando os aspectos tanto estruturais  quanto estéticos. Como é que pode? Nem uma rachadurazinha, uma quebra de canto, um ponto de desequilíbrio. Mas, indo além, é obra de embelezamento, de configuração de imagem da nova capital. No ponto culminante, é obra utilitária, até hoje fundamental para o tráfego da região. Finalmente, digo para o senhor que as tantas pessoas que trafegam diariamente por esse viaduto nem pensam no seu construtor, no seu projetista, nem no governador da época que teve a ousadia de ordenar uma obra desse vulto.

Saudações respeitosas do seu amigo,

Belo Horizonte, 16 de novembro de 2011
DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA
RESPEITOSAS SAUDAÇÕES      

            Cumprimento-o, mais uma vez, nesta manhã de sol, de ventos suaves como são as brisas das montanhas.
            Lembrei-me de comentar com o senhor sobre o primeiro habitante civilizado destas plagas: JOÃO LEITE DA SILVA ORTIZ.  Ele chegou a esta região em 1701, vindo não sei de qual região do estado de São Paulo, para fazer não sei o quê. Claro está que ele procurava ouro. O certo é que esse bandeirante aconchegou-se às serras das Congonhas, hoje, serra do Curral e aqui permaneceu durante quase trinta anos.
            Os bandeirantes são andarilhos por excelência, mas  João Leite da Silva Ortiz achou graça neste local e resolveu permanecer e explorar a região. Assim, seus amigos e companheiros de bandeira procuraram produzir alguma coisa de subsistência, dentro dos padrões mais primitivos de sobrevivência: plantar, colher e comer.  Não encontrou ouro na região e  resolveu aprofundar sua expedição para o interior do estado de Goiás. Mais tarde, chegou a notícia que ele tinha falecido em 1730, na cidade do Recife.
            Imagine-se que há 310 anos, neste local, foi iniciada a construção do povoado de Curral del-Rei, que progrediu rudimentarmente também na criação de gado, vindo da Bahia, na plantação de cereais e, posteriormente, até de algodão. Em Contagem das Abóboras, nas proximidades de Curral del-Rei, havia o posto de fiscalização para cobrança de impostos e registro do gado, de modo que corria muito dinheiro na praça.  Edificaram-se casas muito simples, mas adequadas para as condições sociais e econômicas dos seus moradores da época. Posteriormente, Aarão Reis, o construtor da Nova Capital, como o senhor sabe, chamou essas construções de “choupanas”. O povoado cresceu e desenvolveu. Chegou a serem instaladas fábricas de tecidos em Sabará. Até mesmo iniciativas de fundição de ferro e bronze. A usina ficava nas imediações da lagoa Maria Dias, atualmente entre a avenida
 Paraná e rua dos Carijós.
            Mas, em continuidade, construiu a Fazenda do Cercado. Era a sua sede administrativa, sua residência. Ela ficou. Informo ao senhor que essa bela fazenda é o único vestígio arquitetônico da sua passagem  por esta região. Encontra-se primorosamente conservada e transformada como museu. É um retrato vivo da história da Cidade de Minas, ou melhor, do povoado de Curral del-Rei. Esse museu é uma relíquia que aos tempos confirmará a nossa origem. Outra coisa que gostaria de comentar com o senhor seria a atuação dos opositores à mudança da capital de Ouro Preto para outro lugar qualquer que fosse, mesmo ainda não definido. Como o senhor sabe, para toda ideia que surja e que implique em mudança, existem opositores, sempre bem armados de argumentos fortes. Os ouro-pretanos se armaram de argumentos, reunindo forças contrárias à mudança, forças políticas desafiadoras. Arregaçaram-se as mangas da camisa e saíram em defesa da permanência da capital em Ouro Preto, cidade muito amada.
            Na verdade, um dos fortes argumentos criados  pela oposição era a constatação de que grande número dos moradores do povoado de Curral del-Rei, local escolhido para a construção da capital, sofria de bócio. Seria o clima, ou a água da região? Não havia estudos comprobatórios. Pois não é que havia mesmo na região alguma coisa que parecia uma epidemia de papudos, isto é, de pessoas que tinham um tipo de deformação física denominada de bócio? Diziam que era causado pelo clima. Talvez que o ar ou a água da região contaminava os moradores, e coisa e tal.  Por outro lado, havia outras regiões, além desta do Vale do rio das Velhas, que pleiteavam a instalação da nova capital. Formaram-se os grupos que defendiam essas regiões. Eram grupos de mudancistas. Pleiteavam mudanças para a sua região. Uma dessas facções de mudancistas, uma delas, a mais forte, era a região próxima a São João del-Rei, que relembrava o imaginário do inconfidentes.  Assim, nas decisões finais, tendo como grande defensor Augusto de Lima (1859 – 1934), Curral del-Rei venceu por dois votos apenas, considerando-se a sua localização como um ponto equidistante de todas as regiões do estado. Não seria totalmente equidistante, mas o ponto geográfico que facilitaria a comunicação com todas as regiões do estado. Argumento muito forte, não é verdade?
            Afonso Pena (1847 – 1909) não perdeu tempo. Criou logo a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) pela Lei n.3, art. 2º., adicional à Constituição do estado, em 7 de dezembro de 1893.  Confiou a coordenação ao engenheiro Aarão Reis (1853 – 1936). Prazo para a construção da nova capital? Quatro anos. Quando essa Comissão Construtora da Nova Capital arranchou no povoado de Curral del-Rei, encontrou uma região com moradores tradicionais por assim dizer, habitada desde 1701. Propriedades urbanas e rurais. Havia na época, no povoado, 172 casas residenciais, 4.000 habitantes, 8 ruas, 16 pontos comerciais, 31 fazendas, 1 farmácia, 2 pontos de escolas, 2 largos ou praças. Vários engenhos. Era um povoado já com mais de cem anos de existência.    Houve a decisão do chefe da Comissão Construtora: destruir tudo para começar tudo de novo. Eis a questão. Prejuízos generalizados. A quem recorrer?  Acontece que grande extensão de terras da região já pertencia ao estado. Os moradores passaram, então, a serem admitidos como operários da Comissão Construtora, numa forma de suavizar prejuízos. Na ocasião, havia 6.000 operários na construção da Nova Capital. E grandes problemas para a gerência das obras. Aarão Reis não resistiu até o final da obra e pediu exoneração. Foi substituído pelo engenheiro Francisco Bicalho que gerenciou a obra até o dia de sua inauguração, dentro do prazo estabelecido. Imagine senhor presidente do estado, como era o regime de trabalho da época, após a abolição da escravatura. Alimentação para esses trabalhadores, habitação, saúde, nesse planalto vazio de recursos? Com muito sofrimento humano, sofrimento incalculável, como sempre, nesse curto espaço de tempo, a cidade floresceu. Veja que Brasília foi construída em três anos e oito meses.
            Meu pensamento vagueia pelos idos de 1890, tempos que o senhor teve oportunidade de presenciar, de participar e de comandar. Fui longe demais nesse passeio no tempo e peço desculpas se não tiver sido totalmente exato nestas informações. Voltarei ao assunto, mas ainda vou tentar identificar a questão da mudança. Mudar por mudar - sempre para subir mais um degrau no aperfeiçoamento humano. O que move a humanidade é o inconformismo.  O presidente Afonso Pena (1847 – 1909), então presidente Conselho do estado, decidiu que seria construída uma nova capital, pois Ouro Preto não tinha mais condições de suportar as dimensões de capital do estado. Daí por diante, o sol nunca brilhou tão intensamente na ardente mensagem de coragem para o povo mineiro. Não havia mais passagem de volta. Assim, Augusto de Lima já tinha sugerido o local,  em 1891.
            A primeira mensagem foi enviada ao Congresso Estadual em 17 de abril de 1891, propondo a mudança. Os ouro-pretanos achavam impossível esse empreendimento.  Mas, onde seria mesmo plantada essa nova capital? Havia várias indicações bem fortes para definição do local, principalmente a várzea do Marçal, vizinha a São João Del-Rei. A região do vale do rio das Velhas, na decisão final, venceu e foi publicada a mensagem do Congresso Legislativo a Lei de mudança da capital.  O senhor conviveu com esse dilema, com esse grande problema. Uma decisão política, mas, antes de tudo, centrada em estudos técnicos para a plena viabilidade. E esta região, no povoado denominado Curral del-Rei, por apenas uma pequena margem de vantagens técnicas foi considerada a região escolhida pelo destino para ser a Belo Horizonte, não é verdade? O senhor sabe que nessa época não havia tratores e, consequentemente, os trabalhadores tiveram que empregar esforços mais do que dobrados. Houve grande movimentação de terra, abrindo ruas, avenidas e praças. Havia trabalhadores estrangeiros especializados na construção dos palácios administrativos. Imagine que os engenheiros e arquitetos projetaram esses palácios monumentais, com toda a papelada em plantas com detalhes técnicos, dentro dos padrões de uma arquitetura avançada, num estilo condizente com a filosofia e gosto da época, estilo neoclássico, meio art-nouveau. E tinham ainda que projetar as plantas das conexões hidráulicas e elétricas. Novidade para o mundo moderno. Água encanada. Eletricidade. Criar e equalizar um estilo arquitetônico em contraste total ao colonial e barroco. Nada que traduzisse influência de Ouro Preto. Tudo novo e moderno. Entusiasmo e petulância.
            A nova república, instalada em 1889, impunha avanço tecnológico para elevar a qualidade de vida, sempre procurando um grau a mais, um degrau avançado no desenvolvimento humano, da ordem e do progresso. Uma república, uma recente república, numa visão positivista, inspirada e configurada nos ideais dos governantes da época, atraídos pela filosofia de Augusto Comte (1798 – 1857).  Afonso Pena era presidente do estado, entre o período de 1892 a 1894. Lembramos que Afonso Pena foi o primeiro governador/presidente do estado eleito por voto direto.  Imprimia-se agilidade memorável nas decisões e na efetivação dessas decisões. Empolgação total. Assim, para confrontar essas mudanças, vou fazer algumas referências à capacidade de adaptação do povo mineiro. Tantas mudanças ocorreram muito rapidamente, que não havia tempo nem para pensar duas vezes. Logo depois da saída de Afonso Pena do governo do estado, foi substituído por Crispim Jacques Bias Fortes (1847 – 1917). E o presidente Bias Fortes administrou o impossível, na opinião dos céticos. Uma cidade saída do papel e em quatro anos  resplandecia ao alvorecer do século XX. Como isso foi conseguido? Mudanças, já. Doutor João Pinheiro, não achava que tal iniciativa era grande demais para um estado, sozinho, enfrentar e chegar vitorioso no novo século? Sei e sabemos todos que o senhor não tinha apego a tradições inúteis. O século XX estava batendo às portas. Mudanças!

Agora me despeço, respeitosamente.

Belo Horizonte, 17 de novembro de 2011
EXCELENTÍSSIMO SENHOR
JOÃO PINHEIRO DA SILVA
   
            Hoje, os mudancistas progressistas estiveram pairando sobre o imaginário dos mineiros. Mudar a capital foi um ato de coragem. Mas, nesta vida não há escapatória. Mudar é uma lei do universo. No dia que uma pessoa nasce,  casa-se com a mudança. Pode não ter sido um casamento formal, mas irá passar o resto da vida juntos.
            A velha capital, Ouro Preto, teve que adaptar-se para não desaparecer. Sofreu o baque da depressão total, reagiu e hoje é transformada em cidade monumento. O desenvolvimento causa desequilíbrio. Quem quer que seja que provar do desenvolvimento, sentirá na pele a necessidade de se adaptar às novas emergências. Assim, em 1830, um cavalo apostou uma corrida com a locomotiva e perdeu. Pela primeira vez no mundo, um ser humano viajava mais rápido que um cavalo e, em 1906, Santos-Dumont levantou um aparelho mais pesado que o ar, transportando uma pessoa. Hoje, um avião a jato transporta centenas de passageiros confortavelmente, a preços disponíveis para todas as classes sociais e econômicas.
            Doutor João Pinheiro, veja a diferença de tecnologia entre o rei Salomão e Dom Pedro I. Estiveram separados por mais de 3.000 anos, mas ambos viveram em condições semelhantes. Nenhum teve o sistema de água encanada, aquecimento ou refrigeração e iluminação. Dominavam pelo poder escravo. E o sistema de transporte e comunicação? Tudo feito pelo cavalo. Muito pouca coisa aconteceu entre a vida de um e do outro. Pois bem, veja as transformações que ocorreram no mundo, nestes últimos 141 anos? Não ficou pedra sobre pedra.
            Para finalizar, veja que, se uma pessoa disser que está fazendo uma determinada coisa da mesma maneira que costumava fazer, ele estará, provavelmente, fazendo-a por um método ultrapassado. Alguém estará fazendo melhor. Veja, pois, no alto desses anos de 2011, os mudancistas da nova capital tinham razão. Imagine se estivéssemos subindo e descendo as velhas ladeiras de Ouro Preto, ainda hoje. Imagine, agora, o senhor, no alto do século 21, se a capital do Brasil ainda rondasse praias e favelas. Mudança é uma constante ameaça. Se alguém deseja permanecer no seu negócio por alguns anos a mais, é melhor que esteja disposto a fazer mudanças propositalmente.
            Peço me desculpar por essas divagações. Achei-as oportunas porque o senhor derrubou princípios e crenças, inovou, criou, estimulou. Devemos nós, eu sei e sabemos todos, que sua compulsão pela educação deu frutos e hoje, apesar de o estado de Minas Gerais contar apenas 300 anos, consegue, em muitas frentes de trabalho e de conhecimento, superar ou acompanhar outros estados com 500 anos de vida civilizada.  Esta divagação tornou-se importante para reconhecer a capacidade de decisão dos nossos governantes mineiros do final do século XIX. Assim justifico.
            Por hoje, me despeço. Devo continuar ainda em outras cartas.

Saudações respeitosas.

Saudações neste dia 18 de novembro de 2011
MEU CARO GOVERNADOR/PRESIDENTE,
JOÃO PINHEIRO

            Sabemos que a sua intenção era o desenvolvimento da educação como meta, fator primordial.  Quero ressaltar um fato para seu agrado imediato. Todos os governadores/presidentes que o sucederam tinham por meta a educação, mas no ano de 1926, tomou posse o presidente-governador Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (1870 – 1946), também obstinado pela educação. Não media esforços na continuidade do seu aperfeiçoamento, pois o estado já contava com centenas de grupos escolares. Entretanto, era notado um desconcerto na programação escolar e era urgente o aperfeiçoamento dos professores e dinamização dos métodos de ensino. A mudança de métodos exigia, pois, recursos intelectuais oriundos dos países mais avançados. Por isso, saiu atrás de cérebros na psicopedagogia da Europa. Contratou Léon Walter, um psicólogo por um período de um ano. Vencido o contrato, enviou emissários à Suíça, principalmente ao recente Instituto Jean Jacques Rousseau, onde contratou a psicóloga russa Helena Antipoff, (1892 – 1974). O contrato de um ano que ela firmou com o estado foi reformado sucessivamente e Helena Antipoff aqui permaneceu até a sua morte. Tal fato merece uma consideração especial, pois, naquela época, Antônio Carlos pressentia a necessidade de modernização dos métodos de ensino. Não mediu esforços e foi em busca das novidades tecnológicas.
            Informo que hoje a educação fundamental no estado e mesmo no país está em fase de expectativa por mudanças. Veja bem!  Qual é a base da revolução da China? A educação. A verdadeira salvação da humanidade! Cumpre despertar as autoridades! Como o senhor disse: “Não há democracia sem educação.” E a educação no Brasil está em crise.
            Pressente-se a necessidade de transformação de métodos de ensino, para o enfrentamento dos desafios da teconologia. Visão 360 graus. Como acompanhar o avanço surpreendentemente rápido dessa tecnologia em todos os campos do conhecimento? Tudo mudou nestes últimos anos. E o que mudou ontem?  E o que está sendo mudado hoje? Esperemos um novo João Pinheiro da Silva? Ou esperemos um novo Antônio Carlos Ribeiro de Andrada?   Até quando?      
            Aqui me despeço por hoje. Avancei um pouco nestas observações. Peço me desculpar pela ousadia.

Respeitosas saudações

Belo Horizonte, 2 de dezembro de 2011
CARO E PREZADO JOÃO PINHEIRO!
SAUDAÇÕES RESPEITOSAS
Os que sempre mudam são os ciganos e os bandeirantes. O destino deles é viajar. Hoje, também os astronautas.

Mudando um pouco a convergência dos nossos assuntos, lembrei-me de comentar alguma coisa que é também do seu conhecimento. É sobre a matriz da Boa Viagem. Aliás, Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem. Ela foi construída pelo povo de Curral del-Rei, com muita devoção e carinho. Era antes uma capela de taipa, de capim, tosca. Com o tempo, com as reformas e adaptações constantes, tornou-se um templo de maiores dimensões, artisticamente posto para os atos religiosos da população que crescia e se envolvia em atividades do comércio e da agropecuária. Isso mesmo! A antiga capela de Nossa Senhora da Boa Viagem trazia consigo uma história bem fundamentada de um piloto da nau de Dom João V (1689 – 1750) que naufragou nas cercanias da ilha das Cobras no Rio de Janeiro, em 1709. Era o piloto da nau o senhor Francisco Homem del-Rei, que conseguiu retirar o nicho com essa imagem de Nossa Senhora da Boa Morte e guardou  essa imagem, portando-a consigo. Mais tarde, chegando ao povoado de Curral del-Rei, iniciou a construção de uma capela para abrigá-la, tendo essa imagem como guia e padroeira.  Tanto tempo passou, tendo a decisão de tornar essa capela em confortável templo de orações. Trabalho continuado e persistente. Assim, a matriz teve a provável conclusão apontada para os anos de 1775/1776. Já não era uma simples capela, mas a matriz da freguesia de Curral del-Rei. Teve pois a sua missão de abrigar as almas religiosas por 135 anos. Agora, chegou a Comissão Construtora da Nova Capital com o objetivo formado quanto à estrutura arquitetônica da Cidade de Minas que não admitia a permanência de edificações em estilo colonial nem barroco.  Assim,  a matriz foi condenada à demolição, juntamente com todas as outras edificações religiosas existentes. Na primeira tentativa de demolição, as demais tombaram e a matriz da Nossa Senhora da Boa Viagem permaneceu mais alguns anos, mediante a intervenção popular e da diocese de Mariana. Mesmo assim, estava condenada e a sua  parte frontal foi demolida em 1911. Para substituí-la, foi iniciada a construção de catedral, estilo gótico, em 1912. Ainda inacabada, em 1923, ela foi inaugurada, disponibilizando-se para atos religiosos, substituindo a velha matriz.
            Era pensamento firmado da Comissão Construtora da Nova Capital não deixar vestígios de Curral del-Rei, numa obstinação compulsiva contra o estilo colonial barroco. Com isso, nada configura esse povoado erguido por João Leite da Silva Ortiz, a não ser a fazenda do Leitão, ou fazenda do Cercado. Cruel reminiscência para as decisões da CCNC. Poderiam ainda não se perdoar por esse esquecimento, por esse lapso, deixando de pé essa gloriosa edificação memorial.  Hoje tornou-se o monumental Museu Histórico Abílio Barreto, com centenas de documentos que confirmam o passado do velho povoado.
            Outros templos erigidos na Cidade de Minas, em estilo eogótico foram inaugurados na década de 20. A igreja de Lourdes (1922), de fino acabamento e sólida estrutura. Outros já seriam inaugurados como a igreja de São José e a Sagrado Coração de Jesus. Mas ainda são da década de 20 os monumentos da igreja de São Sebastião no Barro Preto e Nossa Senhora das Dores, na Floresta (1921).  Não se poderia deixar de informar sobre a presença do majestoso edifício do Automóvel Clube, estilo neoclássico, com projeto de Luiz Signorelli, inaugurado em dezembro de 1929 e da sede do Banco do Brasil, 1926, (Avenida Afonso Pena, ao lado do Café Nice). Relembrando e confirmando que a inauguração do monumental Viaduto Santa Teresa, em 1929, tinha como governador-presidente, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e prefeito da capital Belo Horizonte, doutor Cristiano Machado.  
            Doutor João Pinheiro! Quem somos nós para discutir princípios e metas dessa Comissão Construtora da Nova Capital, sobre a demolição total e radical da velha freguesia de Curral del-Rei?  Eles imaginavam uma cidade inteiramente moderna, sem nenhum vestígio do estilo colonial barroco de Ouro Preto. Nisso, nesse particular, foram determinados e realmente surgiu uma cidade com aspectos angulares do século XX. Foi uma decisão corajosa porque o povoado já contava quase 200 anos. Limpar a área, devastar o campo e fazer um amplo e belo horizonte. Foi realmente o que fizeram e obraram muito bem.
            Por hoje, me despeço.

            RESPEITOSAS SAUDAÇÕES
                                  
Belo Horizonte, 6 de dezembro de 2011
PREZADO JOÃO PINHEIRO!
RESPEITOSAS SAUDAÇÕES

            Como tinha previsto na minha carta anterior, o desenvolvimento do ensino público no estado deve tudo e principalmente à sua iniciativa. Lembra-se da inauguração do Grupo Escolar de Diamantina? Lembra-se de que dona Júlia Kubistchek (1873 – 1971) era uma professora de uma das pequenas escolas particulares?  Lembra-se de que nas pequenas salas reuniam os alunos de todos os níveis de desenvolvimento? O professor ou professora ensinava a todos na mesma classe, ou melhor, havia apenas uma classe. Esse Grupo Escolar de Diamantina foi inaugurado em 1906, com a sua presença, claro. O filho de dona Júlia, Juscelino Kubistchek (1902 -1976) também estava presente e contava quatro anos de idade. Depois, imediatamente o senhor se dirigiu para a sua cidade natal, Serro, para a inauguração também do primeiro Grupo Escolar da cidade. Com isso, os professores seriam remunerados pelo estado e haveria classes separadas para os alunos em seus diversos níveis. Assim surgiu este termo: Grupo Escolar no estado de Minas Gerais.    Em Belo Horizonte, outras iniciativas do mesmo sentido foram realizadas e o Grupo Escolar Barão do Rio Branco teve montagem especial e o senhor fazia questão de verificar a qualidade até do mobiliário, além das instalações, de modo geral, para conforto dos alunos e dos professores.
            Imagine que o presidente do estado, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada  criou a Universidade de Minas  Gerais e, em 7 de setembro de 1927, reuniu num só bloco os estabelecimentos de ensino superior do estado. Foi nomeado, como primeiro reitor, o professor Francisco Mendes Pimentel. Todas as escolas funcionariam nos seus respectivos prédios, tendo a Universidade como sede provisória o edifício Stecket, à rua Guajajaras. A federalização ocorreu em 1949, sendo que a sismatização da Universidade Federal de Minas Gerais ocorreu em 1965, como ainda permanece nos dias atuais.
            Foram criadas no início do século XX, as seguintes faculdades:
- Faculdade Livre de Direito, implantada em Ouro Preto e transferida para a capital em 10 de dezembro de 1908
- Faculdade de Medicina, em 5 de março de 1911
- Faculdade Livre de Odontologia e Farmácia, criada em 8 de março de 1911
- Faculdade de Engenharia, em 21 de março de 1911

Respeitosas saudações, com um forte abraço.

Belo Horizonte, 11 de dezembro de 2011
EXCELENTÍSSIMO EX-PRESIDENTE DO ESTADO
DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA
           
Achei oportuno, hoje, revendo o mapa da literatura do século XX, com relação aos autores que compõem o imaginário do povo do nosso estado, fazer um relato sobre alguns deles. Tivemos muitos autores bem situados pela crítica e pela opinião pública.
            Entretanto, não só os bandeirantes e os ciganos gostam de mudar. Pois bem, vou procurar dimensionar, em resumo, a reviravolta e a turbulência intelectual, após a Semana da Arte Moderna de 1922, pois nessa mesma década de vinte, surgiram  quatro dos nossos autores literários que se projetaram no cenário nacional. São eles: Hélio Pellegrino  1924 – 1988, Fernando Sabino (1923 – 2004, Paulo Mendes Campos (1922 – 1991), Otto Lara Resende (1922 – 1992), nascido em São João del-Rei. A cidade de Belo Horizonte contava 200.000 habitantes, na década de vinte. Era uma grande família, colegas, amigos, parentes, todos conhecidos. Realmente, era amplo o conhecimento dos moradores.  Pois bem! Estes jovens contemporâneos, cada um na sua pequena burguesia, carregavam nas costas e na cabeça, aspirações semelhantes, força intelectual e convicções firmes. Foram chamados de “Cavaleiros do Apocalipse”. Beberam juntos de água da mesma fonte. Vidas cruzadas, emaranhadas, embora independentes entre si.  
O primeiro, envolvido pela medicina, pela psiquiatria, na luta pela vida, nos anseios de viver a vida afetiva com intensidade. A filosofia, construída na adolescência fez um poeta, um articulista. O outro, um escritor de bem com a vida, com humor contagiante, pesquisador do comportamento humano, simples como água cristalina! Para quem escrevia? Qual era o seu público? Para o povo. Não escrevia somente para a classe intelectualizada e culta. Produziu arroubas de palavras. E os leitores sempre chegavam à última pagina de cada um de seus livros.Já o terceiro cavaleiro foi envolvido na administração pública, em cargos de relevância diplomática e se projetou como jornalista em órgãos da imprensa nacional. Articulista, imprimiu um pensamento eivado de tradições de sua cidade natal.      Por fim, este último cavaleiro, diziam com irreverência que era dado à galhofa. Verdade? Claro que sim. Dizia verdades contundentes em frases curtas, encaixadas nas brechas oportunas da vida política e social. “Minas está onde sempre esteve!” Ou “em cima do muro!” Ainda, atribuída a ele: “O mineiro só é solidário no câncer!”! Por isso, Nélson Rodrigues dizia que era necessário ter um taquígrafo atrás dele para anotar as suas imprevisíveis e oportunas locuções. Estes quatro mineiros fizeram época e dominavam o cenário literário do Brasil, nas décadas de quarenta a oitenta. Chegaram à vida e se foram dela em tempos semelhantes. Entretanto, cumpre-nos preservar a passagem deles por este planeta Terra. Não é justo?    
            Prezado Presidente do estado! Devemos especial atenção a Fernando Sabino, nascido no bairro dos Funcionários, que conseguiu dobrar a serra para o mar com seu romance Encontro Marcado. Curtia uma angústia com seus amigos, nos bares e nas praças da nossa bela capital. Com ele, isto é, com esse romance, vivenciado em Belo Horizonte, Fernando Sabino atingiu as alturas literárias, pela simplicidade e pela sinceridade de uma possível autobiografia. É a descrição de uma adolescência aburguesada e deslumbrada, superando tendências machistas de transpor o arco do Viaduto Santa Teresa e de fazer malabarismos na praça da Liberdade. Namoricos com a filha de um misterioso político emolduram o romantismo enrustido no período de sua adolescência. O Encontro Marcado marcou realmente um ponto significativo da vida literária nacional.
Agora me despeço com um fraternal abraço.

Belo Horizonte, 12 de dezembro de 2011            
PREZADO AMIGO JOÃO PINHEIRO

            Esta é a minha última carta. Aqui me despeço, sempre muito respeitosamente. Estamos comemorando hoje, dia 12 de dezembro, os 114 anos da nossa cidade: Belo Horizonte. Jovem, majestosa, altaneira. Tantos poetas já se encantaram com ela, a partir de Mário de Andrade que, numa visita, chamou-a de “cidade jardim”, “cidade vergel”. Não é feriado municipal. Uma injustiça! É uma cidade que não comemora o seu aniversário. Muitas razões, nenhuma verdadeira.
            Ronda-nos, ainda, o poeta Emílio Moura (1902 – 1971), natural de Dores do Indaiá, mas que aqui tem seus pés fincados, e seu cérebro rondando as coisas de Minas Gerais, pelo seu sentimento de fino trato e sua introspecção própria de um montanhês. Confirma-se o seu talento poético: “Sozinho, sozinho, perdido na bruma/ há vozes aflitas que sobem, que sobem,/ mas, sob a rajada ainda há barcos com velas/ e há faróis que ninguém sabe de que terras são.” (Interrogação). Ou ainda: “Viver não dói. O que dói/ é a vida que se não vive/ Tanto mais bela sonhada,/ quanto mais triste perdida.”/
            Senhor Presidente, João Pinheiro!  Procurei me fixar na sua proposta republicana, na sua imagem pessoal, tanto quanto pude.
Obrigado! Adeus!   


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