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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

EU SOU UMA IGREJINHA


Belo Horizonte, a Capital V 

Igreja da Pampulha - São Fracnisco de Assis


Depoimento da Igreja São Francisco de Assis

Eu sou uma igrejinha. Fui rejeitada tão logo nasci. Sou igrejinha, mas não sou capela. Digo sem petulância: sou esteticamente inovadora, digna representante da vanguarda modernista. Paguei caro por isso. Digo mais: sou bonita. Posso dizer meu nome?
Eu sou a Igrejinha da Pampulha, a Igrejinha de São Francisco de Assis da cidade de Belo Horizonte. Revelo meus traços biográficos, pois me considero hoje, integrante da Mitra Arquidiocesana da cidade.
Fui concebida pelo então prefeito, Juscelino Kubitschek de Oliveira, na década de 1940, e projetada por um tal de Oscar Niemeyer, jovem e ousado arquiteto que ninguém conhecia na época.
Pois esse arquiteto, com sua gangue de profissionais, fez surgir um arrojado projeto arquitetônico para ser implantado na região da Pampulha. Éramos quatro irmãos que viriam a nascer na região. Meu irmão mais velho, o Cassino, foi festejado logo ao nascer e jogava dinheiro a rodo nas suas roletas. Em seguida, surgiu o Iate Golfe Clube que foi logo apossado pela alta sociedade. Em terceiro lugar, veio a Casa do Baile, majestosa e irreverente. Finalmente, eu, a caçula. Pequena e humilde, mas arrojada, me instalei frente à grande represa de 18 km de perímetro. Grande e silenciosa é essa lagoa. Toda lagoa é silenciosa. Não como os rios que são cavalos em fúria, disparados para o mar. Fiquei em paz com essa lagoa.
Ainda informo que um jovem artista plástico, de nome Cândido Portinari,  veio e me cobriu com azulejos de cor azul e branca, cheios de aves e peixinhos do mar. Lancei moda, claro. Entretanto, no meu interior, ele pegou seu pincel e foi me decorando. Pintou um mural atrás do altar em homenagem ao meu patrono, um tal de São Francisco de Assis, santo pobretão, protetor de gente pobre e de animais. Fiquei nessa de ser protegida por santo pobre. Minha sina. Ainda por cima, ele desenhou um santo de olhos muito arregalados, mãos rudes, num tom marrom, meio apagado. Ainda, em vez dos lobos de São Francisco, resolveu desenhar um cachorro amarelo, sentado, em transe de escuta total, admirando a figura do santo. Foi minha sina.
O prefeito, todo contente comigo, convidou o arcebispo da cidade para combinar o meu batismo.
Mural de Portinari na parte posterior externa 

Estava me esquecendo de contar que o tal de Portinari ainda pintou os quadros da Via Sacra, quer dizer, o caminho de Jesus até a sua crucificação, e todos esses quadros dentro do modelo modernista avançado. Também o prefeito encomendou ao escultor Ceschiatti o batistério em bronze pra mim. Se não houvesse batistério, como é que eu poderia ser batizada?
Pois assim foi. O arcebispo gostou de tudo que via à minha volta. Sorria e o prefeito ficava cada vez mais empolgado comigo. Ele gostava muito de mim e sempre me prestigiou demais. Entretanto, quando o arcebispo entrou no interior, foi logo sentindo um baque emocional. O rosto dele crispou. Seu sorriso apagou quando viu a cara e os braços de São Francisco. Não foi só. Concentrou sua visão no tal cachorro amarelo, no fundo do altar, no grande painel maravilhoso. Quase caiu pra trás. Repudiou tudo e disse palavras horrorosas para o prefeito. Despediu grosseiramente e tirou o time de campo. Agora, quem estava desolado era o meu querido protetor, o prefeito.
Com isso, não fui batizada. Fiquei 17 anos condenada. O arcebispo foi claro e categórico: “Nunca, nada, nessa caixa do Juscelino.” Foi um gol contra!
Foi o meu desastre.
Agora digo que o prefeito esperou esses 17 anos silenciosamente. Quando faltava um ano para terminar o seu mandato como presidente da República, articulou-se como o novo arcebispo, dom João de Resende Costa, para me salvar das garras da condenação e alcançar o meu batismo efetivo, dentro da santa madre Igreja. Dom João foi claro. Vou consultar e dou resposta. Tudo certo.
O presidente tinha prometido a minha doação à Mitra Arquidiocesana. Seria a minha salvação, a minha glória. Eu estava ficando velha, sem fazer nada nesta vida. Marcaram o dia do meu batismo com inauguração solene, marcada para o dia 11 de abril de 1959. Eu me enfeitei toda, arrogante e maravilhada, como sempre. Essa doação foi aprovada pela Câmara de Belo Horizonte, mediante proposta do vereador Celso Melo de Azevedo, por unanimidade. O atual prefeito, Amintas de Barros, sancionou a lei de doação, imediatamente. Agora, senti firmeza.
Chegou a hora do meu batismo. A população de Belo Horizonte compareceu e fez-se uma multidão ao redor de mim. Perdi o fôlego. Eu sou pequena, e a entrada teve que ser restringida a autoridades civis, religiosas e militares. Todas as bancadas estavam cheias de gente de alto gabarito.
O presidente estava no primeiro banco. Dom João de Resende Costa iria celebrar uma missa no meu altar, pela primeira vez da minha vida. Coral e cantores escolhidos.
Sim... Tudo elegantemente dimensionado.  Algumas palavras de entusiasmo do presidente e dom João iniciou a celebração da missa. Silêncio, concentração, meditação, louvor a Deus, a Jesus, ao meu patrono São Francisco de Assis. Tudo certinho e emocionante.
Eis senão quando, no momento mais efusivo da santa missa, entra pela nave principal um cachorro, vindo não se sabe de onde. Penetrou na igreja e, atravessando a pequena nave, foi postar-se bem em frente ao altar, justamente onde estava o presidente, ladeado pelas altas autoridades do estado.
Era um velho cachorro amarelo, vira-lata, com uma ferida no dorso. Cachorro de rua mesmo. Sem dono, perdido. Esse cachorro ficou imóvel, ao lado do meu protetor, Juscelino. Ergueu a cabeça, observando o ambiente. Em seguida, extasiado pela música do órgão, assentou-se no chão, com a cabeça sobre as patas dianteiras. Deve ter achado tudo muito bonito e bem organizado. Assim ficou quieto durante algum tempo. Mesmo nessa posição, percebia-se que tinha os olhos postos no seu irmão de raça, que se destacava na parede, ao lado da imagem de São Francisco de Assis. Eu fiquei pasma. Como isso poderia acontecer nesse momento tão solene? Quebrar o brilho da minha consagração? Salve-me, São Francisco!!! Nessa hora, pedi proteção ao meu patrono.
Tudo isso constituiu uma cena patética, emocionante. O pobre animal, perdido no meio da multidão, observava com interesse a figura do seu semelhante, pintado por Portinari.

Painel do altar mor - pintado por Portinari

Ele, esse cachorro velho e amarelo se identificava com o outro, da mesma cor, da mesma conformação física, dos mesmos olhos grandes e compassivos. O cão do painel não era diferente dos demais cães. Dava a impressão de que flutuava, já que seus pés não tocavam o chão. O cachorro visitante assistia a parte da cerimônia religiosa e, quando achou melhor, foi saindo silenciosamente, como tinha entrado. Nenhum ruído. O silêncio era total. Como um nobre, ele foi se afastando, até a porta de saída.
O ex-prefeito de Belo Horizonte sentiu a cena e reviveu momentos de dificuldades na sua vida administrativa. “Pobre igrejinha!” Teria ele dito. “Meu pensamento sempre esteve aqui.” Por que isso teria acontecido? Por que esse cachorro foi postar-se logo ao lado do Presidente?     
Fiquei imaginando como os olhos de Juscelino foram buscar tantas lágrimas ao recordar o primeiro contato com o arcebispo. Agora, havia uma mensagem misteriosa, presenciada por todos. Juscelino, muito emocionado, agradeceu a São Francisco de Assis. Lembrou-se, ainda, do templo desse mesmo santo em Diamantina, onde seu pai foi enterrado. Memórias que voltaram à sua mente. Mensagem de carinho, de conforto e de perdão.  
Eu, no meu canto, gritava de alegria porque estava agora, e para sempre, a serviço das almas de todos os que me procurarem. Depois de 17 anos, chegou o meu dia festivo.
Lembro-me de que meu patrono sempre foi um pobretão, protetor também dos animais e lembro-me ainda de que esse velho cachorro vira-lata também devia ser devoto de São Francisco. Ele teria vindo como emissário de agradecimento e de amizade, para pedir proteção. Ou deve ter vindo em missão!!!

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

AS IGREJAS CATÓLICAS

Belo Horizonte, a Capital IV 

Os templos da religião católica, erigidos na Cidade de Minas, em estilos diversificados foram inaugurados na década de 20. Foi a década do renascimento da fé católica na Capital, mesmo sem os cuidados arquitetônicos da CCNC. (Comissão de Construção da Nova Capital) .


A nova Capital, Belo Horizonte, manteve a sua tradição de religiosidade, trazida de Ouro Preto. Nessa antiga capital foram erigidos vários templos da religião católica, em estilo barroco em todo o seu esplendor. Na antiga vila de Curral del-Rei existiam templos religiosos de construção precária e não condizentes com a nobreza arquitetônica imposta pela CCNC (Comissão de Construção da Nova Capital). Foi tomada a decisão condenatória: demolir todos os templos existentes. Isso foi feito de modo adequado, mas algumas vezes sofrendo reação popular.

Igreja da Boa viagem 
Antiga Matriz da Boa Viagem do Arraial do Curral del Rey - Largo da Matriz em 1894. Fonte: APCBH Acervo CCNC

A matriz da Boa Viagem, ou melhor, Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem de Curral del-Rei, foi construída pela população, por etapas, mas com muita devoção e carinho. Era antes uma capela de taipa, de capim, tosca. Com o tempo, foi passando por reformas improvisadas, sem um plano disponível, mas obedecendo às necessidades imediatas de adaptações constantes.  Tornou-se um templo de maiores dimensões, frequentemente utilizado para atos religiosos, satisfazendo às demandas da população que crescia e se envolvia em atividades do comércio e da agropecuária. 
Isso mesmo! A antiga capela de Nossa Senhora da Boa Viagem trazia consigo uma história bem fundamentada de um piloto da nau de Dom João V (1689 – 1750) que naufragou nas cercanias da ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, em 1709. Era o piloto da nau o senhor Francisco Homem del-Rei, que conseguiu retirar o nicho com uma imagem de Nossa Senhora da Boa Morte e guardou-a, trazendo-a sempre consigo. 
Mais tarde, chegando ao povoado de Curral del-Rei, iniciou a construção de uma capela para abrigá-la, tendo essa imagem como guia e padroeira. Tanto tempo passou, tendo a decisão de tornar essa capela em confortável templo de orações. Trabalho continuado e persistente. Assim, a matriz teve a provável conclusão, apontada para os anos de 1775/1776. Já não era uma simples capela, mas a matriz da freguesia de Curral del-Rei. Teve pois a sua missão de abrigar as almas religiosas por mais de um século. 
Agora, chegou a Comissão Construtora da Nova Capital com o objetivo definido quanto à estrutura arquitetônica da Cidade de Minas que não admitia a permanência de edificações em estilo colonial nem barroco. Assim, a matriz foi condenada à demolição, juntamente com todas as outras edificações religiosas existentes. De onde partiu essa decisão? Na primeira tentativa de demolição, as demais edificações religiosas católicas tombaram e a matriz da Nossa Senhora da Boa Viagem permaneceu por mais alguns anos, mediante a intervenção popular e a diocese de Mariana. 
Mesmo assim, estava condenada e a sua parte frontal foi demolida em 1911. Para substituí-la, foi iniciada a construção de uma catedral, estilo neogótico, em 1912. Ainda inacabada, em 1923, ela foi inaugurada, disponibilizando-se para atos religiosos, substituindo a velha matriz. 
Era pensamento firmado da Comissão Construtora da Nova Capital não deixar vestígios de Curral del-Rei, numa obstinação compulsiva contra o estilo colonial barroco. De quem partiu essa decisão? Com isso, nada ficou desse povoado, iniciado por João Leite da Silva Ortiz. Restou apenas a fazenda do Leitão, ou fazenda do Cercado. Cruel reminiscência, ou esquecimento, para as decisões da CCNC. Poderiam ainda não se perdoar por esse esquecimento, por esse lapso, deixando de pé essa gloriosa edificação memorial. Hoje tornou-se o monumental Museu Histórico Abílio Barreto, com centenas de documentos que confirmam o passado do velho povoado. Esta fazenda do Cercado, hoje museu, é uma edificação que fala por si mesma, assombrando as demais edificações em estilo moderno que a rodeiam. Pressente-se que o espaço interno desse museu deva ficar livre e desimpedido para permitir a passagem dos visitantes no roteiro interno das edificações coloniais. O varandão, as salas, os corredores devem estar livres de outros objetos que não pertençam à época. O museu fala por si. 
Outros templos erigidos na Cidade de Minas, em estilos diversificados foram inaugurados na década de 20. Foi a década do renascimento da fé católica na Capital, mesmo sem os cuidados arquitetônicos da CCNC. 

Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, em estilo neogótico, foi inaugurada em 1923. 

Igreja São José, iniciada em 1902, foi inaugurada em 1913, estilo neomanoelino, padres redentoristas holandeses. 

Basílica de Lourdes, inaugurada em 1923, mesmo inacabada. 

Igreja de São Sebastião, inaugurada em 1923. 

Igreja Nossa Senhora das Dores, bairro da Floresta, inaugurada em 1927. 

Igreja de Santa Teresa e Santa Teresinha, no bairro de Santa Teresa, foi inaugurada em 1930.

Igreja de são Francisco das Chagas, no bairro Carlos Prates, foi inaugurada em 1936.

Igreja de Santa Efigênia dos Militares foi inaugurada em 1923. 

Igreja de Santo Antônio, inaugurada em 1936. 

Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na av. Carandaí, 1010, foi inaugurada em 1925. 

Foram mantidos os critérios firmemente impostos, tanto que os templos religiosos surgidos mantiveram-se longe do estilo barroco. Os templos religiosos católicos de Belo Horizonte acompanharam os ideais republicanos da época.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

VIADUTO SANTA TERESA


Belo Horizonte, a Capital, III


O Viaduto Santa Teresa, projetado e construído pelo engenheiro, Emílio Baumgart, em 1929, é obra arquitetônica de arte que vai romper os séculos pela sua beleza e pela sua rigidez estrutural. Belo Horizonte tornou-se uma capital que não cultiva velharias. Não foi construída nenhuma obra que se aproximasse do estilo barroco ou colonial, que eram do gosto da época. Belo Horizonte não tem velharias, não tem cheiro de mofo e nem tem teias de aranha. Mesmo com a economia em dificuldades pela construção de uma nova Capital, e com as despesas da transferência de todos os funcionários públicos de Ouro Preto, antiga capital, mesmo assim, foram sendo realizadas obras fundamentais. E esta cidade-capital iria exigir muito mais em finanças e obstinação, para a concretização de um plano arrojado e excessivamente ousado para a época. As pessoas têm que entender que não foi fácil construir esta cidade-capital, Belo Horizonte, num período estipulado em quatro anos.

Pois nesse ano de 1929, o então presidente do estado, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada (1870 – 1946) inaugurou um viaduto monumental, na cidade de Belo Horizonte, denominado VIADUTO DOS VIAJANTES e posteriormente, VIADUTO SANTA TERESA. Cristiano Machado (1893 – 1953) era o prefeito nessa época. Não se trata apenas de um simples viaduto urbano. Trata-se, como disse antes, de um monumento arquitetônico de arte, adequado aos interesses da população. Imaginar que esta nova cidade, com apenas 32 anos de fundação, já construiu, com recursos do estado, uma obra desse porte. Ele passa por cima do rio Arrudas, da Avenida do Contorno e das linhas da estrada de ferro da Central do Brasil (EFCB), de uma só vez, além de fazer a ligação do centro da cidade com os bairros Santa Teresa e Floresta, muito habitados.Tem a extensão de 400 metros de comprimento, com dois arcos laterais de 14 metros de altura. Tudo em cimento armado. Torna-se, pois, o maior vão de cimento armado da América Latina, para essa época. Tecnicamente perfeito. Elegante, majestoso, imponente. Além do seu valor utilitário, representa um marco para a autoestima dos novos moradores da cidade. 

Emílio Henrique Baumgart, (1889 – 1943), natural de Blumenau (SC)
Filho do imigrante alemão Gustav Baumgart e de Mathilde Odebrecht, também filha de imigrante alemão. Pois o engenheiro projetista, devidamente graduado, montou no Rio de Janeiro, no ano de 1925, o primeiro escritório de engenharia, especializado em estruturas de concreto armado do Brasil. E teve sucesso como inovador e como competente profissional. Pois esse Viaduto Santa Teresa, projetado e construído por ele, é obra de arte que vai romper os séculos pela sua beleza e pela sua rigidez estrutural.

Viaduto Santa Tereza - 1930

Num passeio por ele, à tardinha, olhando lá de cima, vêm-se a praça da estação, a Serraria Souza Pinto, a Avenida dos Andradas, o Parque Municipal, a Avenida Assis Chateaubriand. Perde-se a memória em imagens do tempo, nas lembranças mais profundas. Nele se fazia o footing (passeio) nas belas tardes fagueiras. As moças desciam do bairro da Floresta e de Santa Teresa para um passeio, um desfile de ida e volta, ao longo do viaduto, vendo os rapazes que se punham a admirar cada uma delas. O sol ia se pondo, as luzes elétricas se acendiam e a modernidade chegava num estalar de dedos. Tempos gloriosos vividos nessa jovem cidade, inaugurada em 12 de dezembro de 1897, bela e realmente moderna. Penso até que o seu projetista Aarão Reis (1853 – 1936) teve algum mérito ao decidir a demolição, sem dó nem piedade, das choupanas de Curral del-Rei, como ele dizia, para fazer surgir das cinzas uma cidade realmente moderna e majestosa. Este aspecto caracteriza bem a capital, Belo Horizonte. Nenhuma obra nela foi construída que se aproximasse do estilo barroco ou colonial, que eram do gosto da época. Belo Horizonte não tem velharias, não tem cheiro de mofo e nem tem teias de aranha.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

OS GRUPOS ESCOLARES


BELO HORIZONTE, A CAPITAL II

Com essa iniciativa, foi dada a partida para a oficialização do ensino público no estado. E o que representou tal iniciativa para a época? Uma revolução educacional!


João Pinheiro da Silva (1860 – 1908) 

Foi o primeiro presidente do estado de Minas Gerais, eleito pelo povo, em 1906, após o governo instalar-se na nova Capital, Belo Horizonte, e no Palácio da Liberdade. Ele substituiu o doutor Crispim Jacques Bias Fortes, (1847 – 1917), o governador-presidente que efetuou a mudança da Capital. João Pinheiro levantou a bandeira da educação, como meta de seu governo. A educação era um dos ideais e princípios republicanos. Na sua obstinação, criou os GRUPOS ESCOLARES, um modelo de ensino fundamental, com proposta para ser realizada num curso em quatro anos letivos. Com essa iniciativa, deu a partida inicial para a oficialização do ensino público no estado. E o que representou tal iniciativa para a época? Uma revolução educacional. Esta meta vingou. Os seus Grupos Escolares se espalharam pelos municípios do estado. João Pinheiro da Silva é considerado, pois, como o governador que introduziu o ensino público em Minas Gerais, ao instituir esses Grupos Escolares. Com isso, implantou o modelo de responsabilidade do Estado pela educação. O primeiro estabelecimento – GRUPO ESCOLAR – foi implantado na cidade de Diamantina, no ano de 1906. (Decreto n. 2.091, de 20 de setembro de 1907). ) Dona Júlia Kubitschek, mãe do ex-presidente, Juscelino, era uma das professoras do município e seu filho, na época, tinha quatro anos de idade. João Pinheiro teve o cuidado de projetar até os modelos dos bancos das escolas, as carteiras, como eram chamadas.
O governador-presidente teve morte repentina no Palácio da Liberdade, em 25 de outubro de 1908, vítima de câncer linfático, aos 48 anos de idade, consequentemente, não concluiu o seu mandato. Ficou o Palácio da Liberdade com o sentimento de perda total. O povo do estado de Minas Gerais ficou órfão, juntamente com a sua família, seus 12 filhos. Todos ficaram órfãos, também, da sua ousadia administrativa, da sua visão do grande futuro do estado e, sobretudo, da sua fraternidade republicana. Deixou amigos como herança para a sua família, que cotizaram para adquirir uma casa para a viúva e os filhos. Um deles, Israel Pinheiro, estudou de favor, e tornou-se mais tarde, em governador do estado de Minas Gerais.

O primeiro grupo escolar de Diamantina iniciou seus trabalhos em um prédio adaptado, situado à praça Conselheiro Matta, n. 11, onde funcionou a Escola Normal Oficial até 1906 e atualmente sedia a Câmara Municipal de Diamantina.



terça-feira, 5 de novembro de 2019

BELO HORIZONTE, A CAPITAL

“Olhando para vocês, vi um belo horizonte!” - exclamou o papa João Paulo II, (1920 – 2005), no dia 1º. de junho de 1980, na praça Israel Pinheiro, Belo Horizonte, por ocasião da celebração de missa campal para cerca de um milhão de pessoas. A partir desse dia, o povo adotou esse local com o cognome de Praça do Papa, tal a emoção que essa manifestação espontânea e justa emoldurou a autoestima dos belo-horizontinos. Em retribuição imediata, o povo, em coro improvisado, respondeu: “Rei! Rei! Rei! – o Papa é nosso Rei!” E assim, nesse ato memorável, configurou-se um amor à primeira vista. 



Vista aérea de Belo Horizonte - ao fundo Serra do Curral- 2019


Lembrei-me de comentar sobre o primeiro habitante civil destas plagas: JOÃO LEITE DA SILVA ORTIZ. 

Ele chegou a esta região em 1701, vindo não sei de qual região do estado de São Paulo, para fazer não sei o quê. Claro está que ele procurava ouro. O certo é que esse bandeirante aconchegou-se às serras das Congonhas, hoje, serra do Curral e aqui permaneceu durante quase trinta anos.  Os bandeirantes são andarilhos por excelência, mas João Leite da Silva Ortiz achou graça neste local e resolveu permanecer e explorar a região. Assim, seus amigos e companheiros de bandeira procuraram produzir alguma coisa de subsistência, dentro dos padrões mais primitivos de sobrevivência: plantar, colher e comer. Não encontrou ouro na região e resolveu aprofundar sua expedição para o interior do estado de Goiás. Mais tarde, chegou a notícia que ele tinha falecido em 1730, na cidade do Recife. 
Imagine-se que há trezentos anos, neste local, foi iniciada a construção do povoado de Curral del-Rei, que progrediu rudimentarmente também na criação de gado, vindo da Bahia, na plantação de cereais e, posteriormente, até de algodão. Em Contagem das Abóboras, nas proximidades de Curral del-Rei, havia o posto de fiscalização para cobrança de impostos e registro do gado, de modo que corria muito dinheiro na praça. 
Edificaram-se casas muito simples, mas adequadas para as condições sociais e econômicas dos seus moradores da época. Posteriormente, Aarão Reis, 1853 – 1936) o projetista e primeiro construtor da Nova Capital, chamou essas construções de “choupanas”. Mas o povoado tinha crescido e desenvolvido. Foram instaladas fábricas de tecidos em Sabará. Até mesmo iniciativas de fundição de ferro e bronze. A usina ficava nas imediações da lagoa Maria Dias, atualmente entre a Avenida Paraná e Rua dos Carijós. 
Mas, em continuidade, construiu a Fazenda do Cercado. Era a sua sede administrativa, sua residência. Ela ficou. Informo que essa bela fazenda é o único vestígio arquitetônico da passagem dele por esta região. Encontra-se primorosamente conservada e transformada como museu. Hoje, Museu Histórico Abílio Barreto. É um retrato vivo da história da Cidade de Minas, ou melhor, do povoado de Curral del-Rei. Esse museu é uma relíquia que aos tempos confirmará a nossa origem. 

Mudar por mudar - sempre para subir mais um degrau no aperfeiçoamento humano. O que move a humanidade é o inconformismo. 

Foi o presidente Afonso Pena (1847 – 1909), então presidente Conselho do estado, que decidiu que seria construída uma nova capital, pois Ouro Preto, que era a capital, não tinha mais condições de suportar as dimensões de capital do estado. Daí por diante, o sol nunca brilhou tão intensamente na ardente mensagem de coragem para o povo mineiro. Não havia mais passagem de volta. Assim, Augusto de Lima (1859 – 1936) já tinha sugerido o local, em 1891. 
A primeira mensagem foi enviada ao Congresso Estadual em 17 de abril de 1891, propondo a mudança. Os ouro-pretanos achavam impossível esse empreendimento. 
Mas, onde seria mesmo plantada essa nova capital? Havia várias indicações bem fortes para definição do local, principalmente a várzea do Marçal, vizinha a São João Del-Rei.  A região do vale do rio das Velhas, na decisão final, venceu e foi publicada a mensagem do Congresso Legislativo a Lei de mudança da capital. 
Uma decisão política, mas, antes de tudo, centrada em estudos técnicos para a plena viabilidade. E esta região, no povoado denominado Curral del-Rei, por apenas uma pequena margem de vantagens técnicas, foi considerada a região escolhida pelo destino para ser a Belo Horizonte. 
Nessa época, não havia tratores e, consequentemente, os trabalhadores tiveram que empregar esforços mais do que dobrados. Houve grande movimentação de terra, abrindo ruas, avenidas e praças. Havia trabalhadores estrangeiros especializados na construção dos palácios administrativos. Outra coisa a comentar seria a atuação dos opositores à mudança da capital de Ouro Preto para outro lugar qualquer que fosse, mesmo ainda não definido. Para toda ideia que surja e que implique em mudança, existem opositores, sempre bem armados de argumentos fortes. Os ouro-pretanos se armaram de argumentos, reunindo forças contrárias à mudança, forças políticas desafiadoras. Arregaçaram-se as mangas da camisa e saíram em defesa da permanência da capital em Ouro Preto, cidade muito amada. 
Na verdade, um dos fortes argumentos criados pela oposição era a constatação de que grande número dos moradores do povoado de Curral del-Rei, local escolhido para a construção da capital, sofria de bócio. Seria o clima, ou a água da região? Não havia estudos comprobatórios. Pois não é que havia mesmo na região alguma coisa que parecia uma epidemia de papudos, isto é, de pessoas que tinham um tipo de deformação física denominada de bócio?  Diziam que era causado pelo clima. Talvez que o ar ou a água da região contaminava os moradores, e coisa e tal. 
Por outro lado, havia outras regiões, além desta do Vale do rio das Velhas, que pleiteavam a instalação da nova capital. Formaram-se os grupos que defendiam essas regiões. Eram grupos de mudancistas. Pleiteavam mudanças para a sua região. Uma dessas facções de mudancistas, uma delas, a mais forte, era a região próxima a São João del-Rei, que relembrava o imaginário dos inconfidentes.  Assim, nas decisões finais, tendo como grande defensor Augusto de Lima, Curral del-Rei venceu por dois votos apenas, considerando-se a sua localização como um ponto equidistante de todas as regiões do estado. Não seria totalmente equidistante, mas o ponto geográfico que facilitaria a comunicação com todas as regiões do estado. Argumento muito forte.
Afonso Pena (1847 – 1909) não perdeu tempo. Criou logo a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) pela Lei n.3, art. 2º., adicional à Constituição do estado, em 7 de dezembro de 1893.  Confiou a coordenação da construção ao engenheiro Aarão Reis (1853 – 1936). Prazo para a construção da nova capital? Quatro anos.  Quando essa Comissão Construtora da Nova Capital arranchou no povoado de Curral del-Rei, encontrou uma região com moradores tradicionais por assim dizer, habitada desde 1701. Propriedades urbanas e rurais. Havia na época, no povoado, 172 casas residenciais, 4.000 habitantes, 8 ruas, 16 pontos comerciais, 31 fazendas, 1 farmácia, 2 pontos de escolas, 2 largos ou praças. Vários engenhos. Era um povoado já com mais de cem anos de existência.  Houve a decisão do chefe da Comissão Construtora: destruir tudo para começar tudo de novo. Porquê? Eis a questão. Ideais republicanos de construir uma capital dentro dos padrões estéticos da modernidade. Mas, prejuízos generalizados. A quem recorrer? Acontece que grande extensão de terras da região já pertencia ao estado. Os moradores passaram, então, a serem admitidos como operários da Comissão Construtora, numa forma de suavizar prejuízos. 
Na ocasião, chegou a 6.000 operários na construção da Nova Capital. E grandes problemas para a gerência das obras. Conflitos. Derrubar até os templos religiosos tradicionais da vila. Aarão Reis não resistiu até o final da obra e pediu exoneração. Foi substituído pelo engenheiro Francisco Bicalho que gerenciou a obra até o dia de sua inauguração, dentro do prazo estabelecido.  Imagine, como era o regime de trabalho da época, após a abolição da escravatura. Alimentação para esses trabalhadores, habitação, saúde, nesse planalto vazio de recursos? Com muito sofrimento humano, sofrimento incalculável, como sempre, nesse curto espaço de tempo, a cidade floresceu. Veja que Brasília foi construída em três anos e oito meses. 

Meu pensamento vagueia pelos idos de 1890
Imagine que os engenheiros e arquitetos projetaram esses palácios monumentais, com toda a papelada em plantas com detalhes técnicos, dentro dos padrões de uma arquitetura avançada, num estilo condizente com a filosofia e gosto da época, estilo neoclássico, meio art-nouveau. E tinham ainda que projetar as plantas das conexões hidráulicas e elétricas. Novidade para o mundo moderno. Água encanada. Eletricidade. Criar e equalizar um estilo arquitetônico em contraste total ao colonial e barroco. Nada que traduzisse influência de Ouro Preto. Tudo novo e moderno. Entusiasmo e petulância. 
A nova república, instalada em 1889, impunha avanço tecnológico para elevar a qualidade de vida, sempre procurando um grau a mais, um degrau avançado no desenvolvimento humano, da ordem e do progresso. Uma república, uma recente república, numa visão positivista, inspirada e configurada nos ideais dos governantes da época, atraídos pela filosofia de Augusto Comte (1798 – 1857). Afonso Pena era presidente do estado, entre o período de 1892 a 1894. Lembramos que Afonso Pena foi o primeiro governador/presidente do estado eleito por voto direto. 
Imprimia-se agilidade memorável nas decisões e na efetivação dessas decisões. Empolgação total. Assim, para confrontar essas mudanças, vou fazer algumas referências à capacidade de adaptação do povo mineiro. Tantas mudanças ocorreram muito rapidamente, que não havia tempo nem para pensar duas vezes. Logo depois da saída de Afonso Pena do governo do estado, foi substituído por Crispim Jacques Bias Fortes (1847 – 1917). E o presidente Bias Fortes administrou o impossível, na opinião dos céticos. Uma cidade saída do papel e em quatro anos resplandecia ao alvorecer do século XX. Como isso foi conseguido? Mudanças, já.  Doutor João Pinheiro, não achava que tal iniciativa era grande demais para um estado, sozinho, enfrentar e chegar vitorioso no novo século. Não se tinha apego a tradições inúteis. O século XX estava batendo às portas. Mudanças! A Cidade de Minas, a Capital do estado de Minas Gerais foi solenemente inaugurada em 12 de dezembro do ano de 1897. Brilhantes festividades. Hoje, infelizmente, não se comemora a sua data de inauguração.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

IMPLANTAÇÃO DA FACULDADE DE MEDICINA EM BELO HORIZONTE

O principal propulsor da ideia de implantação da Faculdade de Medicina em Belo Horizonte, a nova Capital do estado de Minas Gerais, foi o dr. Cícero Ferreira. É considerado o primeiro médico que atuou profissionalmente na nova Capital, mesmo antes de sua inauguração oficial em 1897.


Denominações: Faculdade de Medicina de Belo Horizonte (1911); Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (1927); Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (1965) 

Nesse período de construção da nova Capital de Minas Gerais, dr. Cícero Ferreira assumiu vários cargos isoladamente, enfrentando problemas sanitários, na Prefeitura de Belo Horizonte, com população de operários imigrantes, italianos, portugueses e espanhóis principalmente. Também operários, sem a devida qualificação, chegavam à Capital todos os dias, aumentando desproporcionadamente a população que vivia sem as condições adequadas de higiene e saúde pública.
Não havia registros de óbitos e o enterro de pessoas mortas era em qualquer lugar. Preferencialmente num local que hoje ocupa o Banco do Brasil, rua Rio de Janeiro com rua Tupis. Covas rasas e mal-cuidadas.
A fagulha da criação da Faculdade de Medicina foi lançada em 1902, quando se criou uma Sociedade de Medicina, Cirurgia e Farmácia. Foi levantada essa bandeira, quando o médico e senador, dr. José Pedro Drummond, juntamente com dr. Silviano Brandão (1828 – 1902) deram apoio a essa iniciativa. Dr. Silviano Brandão tomaria posse como Vice-Presidente da República. Com tais recomendações, dr. Cícero Ferreira, aliado a outras personalidades, tomou a frente desse projeto. Entretanto, dr. Silviano Brandão veio a falecer antes mesmo de sua posse. Essa sociedade, acolhida com tanta efervescência, foi lentamente perdendo força, até que foi extinta algum tempo depois.
Em 1906, assume a Presidência da República o mineiro, Afonso Augusto Moreira Pena (1847 – 1909), quando foi autorizada a criação da Faculdade de Odontologia em 1907. Tal iniciativa recriou uma expectativa da criação também da Faculdade de Medicina.
Entretanto, houve muitos opositores à criação da Faculdade de Medicina, principalmente, pelo próprio diretor da recém-criada, faculdade de Odontologia, Fernando de Carvalho Soares Brandão e pelo jurista, ex-ministro do Presidente Prudente de Morais e ex-presidente do Estado do Rio de Janeiro. Este último veio armado de fortes argumentos contra essa implantação, considerando uma execrável ideia a criação de uma faculdade de Medicina em Belo Horizonte. (Diário de Notícias, 23 março de 2011). Para o debate pela mídia, era forte a presença de Aurélio Pires.
Na ocasião, havia no país 5 faculdades de engenharia, 8 de direito, 3 de medicina. (RJ, Bahia e Porto Alegre). Esta última tinha sido inaugurada em 1898. Durante 18 anos de vida republicana, apenas uma faculdade de medicina tinha sido implantada no país. A fundamentação básica dessa criação foi o projeto elaborado pelo dr Cícero Ferreira, “Vantagens e inconveniências da implantação de uma Faculdade de Medicina em Belo Horizonte”, encaminhando-o a uma comissão de médicos da capital, dr. Cornélio Vaz de Melo, dr. Hugo Werneck e dr. Zoroastro Alvarenga. O parecer dessa comissão foi imediato. Não existem inconveniências e sim uma necessidade urgente. Daí pra frente, novos colaboradores se reuniram em apoio à criação da faculdade. Cícero Ferreira foi eleito o primeiro diretor encarregado de elaborar os estatutos e as providências decorrentes.
Em 1911, na ocasião da inauguração da Faculdade, havia em BH 38.000 habitantes e 40 médicos. 91 pequenas indústrias, instaladas na região da rua da Bahia até Cristóvão Colombo e no Barro Preto, até av. Barbacena e na Praça da Estação. Os bondes elétricos, com várias linhas, inaugurados em 7 de setembro de 1902, faziam conexão em frente ao Bar do Ponto, (av. Afonso Pena com rua Tupis, onde fica o hotel Othon Palace), e atraiam os passageiros em aglomerações naquele local. Além disso, ali acontecia a vida cultural, com o teatro Soucasseaux em plena atividade, Ao lado o teatro de Variedades e o teatrinho Paris. Era a efervescência cultural da nova Capital. Ainda o famoso relógio público. A população exigia o acompanhar da tecnologia. Com pouco tempo, instalaram-se 30 linhas de bondes.
Onde funcionaria a Faculdade de Medicina inicialmente? No edifício Thibau, que ainda está lá, firme, na rua Espírito Santo com av. Afonso Pena, ao lado da igreja São José

O Corpo Docente da Faculdade era composto de:
  • Cornélio Vaz de Melo, Anatomia Médica e Cirurgia 
  • Eduardo Borges Ribeiro da Costa, Clínica Cirúrgica
  • Cícero Ribeiro Ferreira Rodrigues, Medicina Legal
  • Olyntho Deodato dos Reis Meireles, Farmacologia
  • Honorato Alves, Oftalmologia e Otorrinolaringologista
  • Hugo Furquim Werneck, Ginecologia e Obstetrícia
  • Zoroastro Rodrigues Alvarenga, Higiene 
  • Antônio Aleixo, Clínica Dermatológica e Sifilográfíca
  • Samuel Libânio, Clínica Médica, 2ª.Cadeira 
  • Ezequiel Caetano Dias, Microbiologia 
  • Alfredo Balena, Clínica Médica 
  • Otávio Machado, Clínica Pediátrica e Cirúrgica, Ortopedia e Higiene Infantil
  • Aurélio Pires, com justificada ausência.
A Faculdade iniciou o funcionamento efetivo em fevereiro de 1912, pagando aluguel de 300 mil reis mensais, com 113 alunos sendo 104 de Medicina, 6 de Farmácia, e 3 de Odontologia. A aula inaugural foi proferida pelo dr. Zoroastro Rodrigues de Alvarenga, no dia 8 de abril.
O presidente do estado, Julio Bueno Brandão (1858 – 1931) fez a doação de uma área de 24.972m², destinada à construção do prédio da nova Faculdade, desmembrada do Parque Municipal, dando frente para a antiga avenida, Mantiqueira. Foi registrada no cartório Tabelião Ferraz, em 7 de abril de 1913. A pedra fundamental foi batida pelo professor dr. Miguel Couto, que esteve presente em todo o cerimonial de inauguração, no dia 20 de julho de 1911. A construção do prédio foi orçado em 2 contos e oitocentos mil reis, sob a responsabilidade do arquiteto, Francisco Izidro Monteiro, cujo projeto foi inspirado na escola de medicina de Paris.
A ata da 1ª. Reunião dos membros fundadores da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte foi datada aos 26 de março de 1911.
Para as solenidades, estavam presentes, além do Presidente do Estado, Júlio Bueno Brandão, o prefeito de Capital, dr. Olyntho Meireles, presentes o médico, dr. Miguel Couto e o pesquisador, médico, dr. Carlos Chagas, além personalidades da população da capital.

Fonte
Lara, Mário. Cícero Ferreira - O legado – vida e obra do grande empreendedor. Imperial Novo Milênio, Rj, 2017

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

ENTREVISTA VIRTUAL COM PADRE EUSTÁQUIO


É o missionário holandês que dedicou sua vida a aliviar o sofrimento dos seus semelhantes, em fervorosas súplicas à Divina Providência. Faleceu em Belo Horizonte, em 1943 e, pelas suas virtudes e pela sua dedicação, deu natural nome a uma região da cidade, onde foi glorificado e sepultado.  Santo Padre Eustáquio foi beatificado pelo papa Bento XVI, em 2005. Seu sepultamento foi trasladado para a Igreja dos Sagrados Corações, que ele iniciou a construir.




Entrevistador -Venerável Padre Eustáquio! Pelos Sagrados Corações, peço, antes de tudo, a sua bênção e a sua proteção.
Padre Eustáquio – Em nome de  Deus, e pela minha Congregação dos Sagrados Corações, será abençoado e protegido.
E – Graças a Deus! Amém!
PE – Graças a Deus!
E – Padre Eustáquio! Sua vida foi uma missão? A entrega de uma vida?
PE – Verdadeiramente, assim é. Quando um sacerdote decide entregar-se por uma causa a favor da humanidade, significa que ele tomou uma decisão para toda a sua vida. É a predominância da fé nos seus objetivos de vida.
E – E o senhor decidiu entregar a sua vida por uma causa de Deus e da humanidade!
PE – Isso mesmo! Eu, por minha vez, decidi a minha missão. O que eu iria prestar em serviços aos meus semelhantes? Foi uma decisão muito pensada e sofrida. Ter que abandonar a minha pátria, meus pais, meus familiares, todos e meus amigos fraternos. Sou de uma família de onze filhos. Eu era o oitavo. Nós nos amávamos muito.
E – E pesou mais a sua vontade de servir a Deus?
PE – Antevi a minha missão, entregando minhas mãos, meu corpo inteiro e, além disso, a minha própria alma, para ajudar pessoas em conflito, onde quer que estivessem.
E – E como surgiu essa força, essa convicção?
PE – Quando jovem estudante na minha pátria, Holanda, caiu em minhas mãos um livro sobre a biografia de um missionário belga da nossa Congregação, Padre Damião Veuster.
E – Sim! E o que tinha de especial esse padre Damião Veuster?
PE – Quando li os relatos do trabalho dele, da abnegação e entrega total â sua missão, houve um abalo no meu peito e eu me curvei fervorosamente.
E – E o que tinha feito o Padre Damião?
PE – Tão pouco aos olhos de muitos, ajudando pobres miseráveis, sem destino, que talvez não tivessem nenhum valor, sob o ponto de vista dos poderosos.  Tinha para Deus. Padre Damião seguiu por um caminho que o levaria à santidade. O missionário belga se entrega em ajudar uma população enferma na ilha do Havaí. Na época, um reinado carente, com alto índice de enfermidades, desde gripe à sífilis contraída ou hereditária, até a lepra.
E – E padre Damião entrou como voluntário?
PE – Nesse reinado, por comando das autoridades, os leprosos foram isolados numa ilha afastada, ilha de Molokai. Mais de 600 pessoas em estado de desespero. E famintas. Ilha de Molokai. O Havaí é hoje uma unidade incorporada aos EUA mas, na época, predominavam as enfermidades e o abandono.
E – Foram isolados, numa ilha afastada?
PE – A Royal Board of Health fornecia alimentos, mas não tinha condições de fornecer também medicamentos. Uma infelicidade generalizada. Todos condenados.
E – E Padre Damião? 
PE – Em 1865, foi colocado em missão na ilha do Havaí. O Monsenhor Louis Maigret, vigário apostólico, que protegia os leprosos, designou Padre Damião para assistir esses leprosos com os sagrados sacramentos e com os atos religiosos. Uma população segregada. Damião sabia que tal designação seria uma sentença de morte para ele.  Depois de muito pensar, Damião solicitou a sua designação para servir a Deus nessa ilha de Molokai.
E – E Padre Damião seguiu para Molokai?
PE – Damião chegou à ilha em 1873 e foi apresentado pelo Monsenhor Maigret como um pai para todos os moradores - “viverá e morrerá com vocês”. Isso foi. Damião assumiu essa paternidade total. Trabalhar sem saber por onde começar. Abriu tantas frentes de trabalho que nem imaginava resultados. Passou a construir um pequeno hospital, com a colaboração de um médico que tinha contraído a doença e se refugiou na ilha. Logo depois, uma capela, com a ajuda das mãos feridas dos leprosos. Uma  população revoltada. Nada podia ser diferente. Era uma população agressiva que matava por um punhado de arroz. Paz, apaziguar e manter clima de harmonia em princípio. Assim, incorporou a figura de pai, amigo, confidente, professor e representante de Deus. Foi realmente um pai para todos. Tornou-se mesmo mais que um pai e um irmão, procurando amenizar o sofrimento tanto quanto possível.
E – E aí morreu?
PE – Sim... mas antes disso, recebeu do Rei Kalakaua, do reino do Havaí, o título honorífico de Cavaleiro Comandante da Real Ordem. E, no dia que a Princesa Lydia Lili´uckalarti visitou a ilha para entrega da comenda, ela se comoveu tanto que não conseguiu ler o seu discurso. Padre Damião nunca usou essa medalha recebida.
E – Houve reconhecimento quanto ao seu trabalho?
PE – Sim... Nos EUA e na Europa – Hoje tem o título de Patrono Espiritual dos Leprosos do mundo inteiro. Era Jozef de Veuster, da Congregação dos Sagrados Corações, nascido em Tremelo, Bélgica, em 1840.
E – Um santo?
PE – Sim... Um santo. Dez anos depois de chegar a Molokai, num dia, colocou os pés numa bacia de água fervente. Nada percebeu. Foi constatada a contaminação da lepra. Ainda viveu por mais algum tempo sem abandonar a sua missão... Faleceu em 1889, nessa mesma ilha de Molokai. Era um missionário da minha Congregação, que tanto me emocionou e inspirou.   
E – Padre Damião foi assim admirado pelo senhor?
PE – Tornou-se meu ídolo inspirador. Tomei a decisão na minha vida, aliviar enfermidades e propor paz e harmonia entre as pessoas. Meu lema seria SAÚDE E PAZ. Vi que eu também poderia prestar algum serviço à humanidade. Qualquer pequena ajuda. Vi quão pequeno eu era diante do Padre Damião, diante da sua força e diante da sua convicção. Eu não era nada.
E – E o senhor era um jovem estudante na Holanda, nessa época.
PE – Eu era Humberto Lieshout, nascido em 1890, em Aarle Rixtel, Holanda. Iniciei o noviciado canônico em Tremelo, na Bélgica. Nessa época, adotei o nome de Eustáquio. Fiz votos de pobreza, castidade e obediência, como religioso da Congregação dos Sagrados Corações. Fiz votos perpétuos em 1919, após cursar Filosofia e Teologia na congregação e fui ordenado sacerdote.
E – Aí começa a sua vida sacerdotal?
PE – Sim. Inicialmente, comecei a prestar serviços em pequenas comunidades na região de Roterdam. Depois, atendendo refugiados belgas, vítimas do final da Primeira Grande Guerra de 1914/1918, até que fui designado para trabalhos na América do Sul.
E – E finalmente, o Brasil?
PE – Em 1925, chegamos ao Brasil. Éramos três sacerdotes, eu e os Padres Gil van den Boorgart e Padre Matias van Rooy. Dirigimo-nos a cidade de Uberaba, em Minas Gerais, a convite do Bispo Dom Antônio de Almeida Lustosa. Assumimos a pastoral do santuário episcopal e das paróquias de Nossa Senhora da Abadia, na cidade de Romaria da paróquia de São Miguel de Nova Ponte e Santana de Indianópolis, todas da Arquidiocese de Uberaba. Fiquei como vigário paroquial com prioridade para os serviços de atendimento às comunidades da região.
E – Uma comunidade rural de modestas aspirações?
PE – Uma comunidade afetiva e acolhedora. Aprendi muito e tive que me adaptar às circunstâncias. A atividade pastoral em Romaria, no início foi muito difícil. Pouco a pouco fomos nos acertando. Talvez uma descrença generalizada. Visitava os enfermos e pessoas que podiam me acolher com simpatia. Distribuímos fé e amor a Deus. Se as pessoas não vinham a mim eu iria a elas. Consegui mais do que esperava e reuni esforços em várias comunidades distantes. Montava a cavalo e viajava por todos os lados. Tive sucesso. Prestei alivio a pessoas em conflito físico e espiritual. Tudo era distante e as comunicações eram precárias.
E – Consta que o senhor era ágil, dinâmico e acolhedor. Atendia até mordida de cobra?
PE – Isto aconteceu. Comunidade rural, sem médicos ou medicamentos. Estava eu, cavando um local a procura de areia especial para algum aproveitamento a dores, quando fui chamado para dar os últimos sacramentos a um rapaz da região que tinha sido mordido por uma cobra e estava em estado terminal. Peguei o cavalo e fui disparado para o local. Manoel estava sem ar, perna roxa, suando frio, praticamente sem consciência. Lembro-me bem! Pedi que todos se afastassem do quarto. Tirei um bisturi da minha bolsa de couro e fiz um incisão no local da marca dos dentes da cobra. Perna roxa e inchada. Jorrou um sangue preto. Limpamos tudo. Coloquei minha boca nesse local e aspirei uma boa quantidade de sangue. Manoel, um belo rapaz, foi salvo, graças à vontade de Deus.
E – Mas o senhor já tinha dado bênçãos milagrosas a outros paroquianos em dificuldades e doenças.
PE – Sempre procurei atender e pedir a Deus por eles. Muitas vezes fui atendido.
E – Mesmo assim, depois de tanto trabalho, a Congregação aceitou a sua transferência para a cidade de Poá, em São Paulo.
PE – Meu voto de obediência exigia esse caminho diferenciado. Mas a população de Romaria não permitiu. Tudo fez para impedir a minha saída. Até o bloqueio de estrada de acesso. Finalmente, uma festa de despedida. E o caso de um crime abalou a cidade. Saí discretamente mas deixando a população entristecida, sei disso.
E – E o que encontrou em Poá?
PE – Tudo diferente. Uma paróquia nova, grande e confortável. Comunicação rápida. Tudo diferente em termos, pois a população era sofrida pelo trabalho nas indústrias e como hortigranjeiros. Atendia de forma diferenciada. Comecei a visitar enfermos e pessoas em dificuldades. Houve, em pouco tempo, uma procura desproporcional às minhas possibilidades de atendimento, principalmente pela água milagrosa que eu trouxera da cidade de Lourdes - França. Depois, pela fonte construída em homenagem a Lourdes. Houve curas a meu pedido. Houve distúrbio e pessoas de outras regiões acorriam às minhas bênçãos e ao meu atendimento. As autoridades eclesiásticas não queriam isso. Obrigaram-me ao recolhimento. Impediram que eu aparecesse para os paroquianos. Tudo tão estranho e desconfortável para mim. Isso fez com que pedissem meu afastamento. Passei um tempo de desconforto e de humilhação. Estava mesmo em desespero. Por que Deus me daria esse castigo? Meditei, viajei, sofri em desamparo. Talvez me afastar do país? Portugal me acolheria? Finalmente, fiz uma carta a meu amigo, Dom José Gaspar de Affonseca e Silva, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, relatando meu estado de desespero e humilhação e disposto a continuar o exercício paroquial em qualquer outra comunidade do estado de modo como ele julgasse apropriado. Dom Gaspar respondeu que seria inviável a minha permanência no estado, para evitar aglomerações e atividades que poderiam ocasionar até advertências do Sumo Pontífice e coisas assim. Estaria eu livre para ir para onde quisesse.
E – Era manifestação das autoridades eclesiásticas e não as do povo.
PE – Sim, mas o povo era a causa. Pensei que pudesse ser até uma contradição entre as autoridades que buscam o povo e depois, tenta afastá-lo.
E – E o senhor?
PE – Meu voto de obediência foi preservado. Procurei caminhos. Todos se fecharam. Eu era então um sacerdote rejeitado. Que fazer da minha vida? Por que Deus me deu um poder e ao mesmo tempo me tolhe e me angustia? Chegou finalmente a ordem para que eu me afastasse imediatamente, mesmo considerando que era tarde da noite quando recebi a comunicação. Obediência mesmo sem ter tempo de acabar de ler o meu breviário. Assim mesmo.
E – Que decisão?
PE – Que decisão? A quem recorrer? Não podia também prejudicar a imagem da minha Congregação. E meus amigos? Apareceu o Padre Gil. Confabulamos e traçamos planos em várias tentativas de acerto. Mais erros e decepções. Finalmente, uma luz. Padre Gil articulou-se com o Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral e me foi oferecida uma paróquia de subúrbio da cidade, ao redor de um hospital de tuberculosos, o Sanatório Alberto Cavalcanti.  Uma capela distante, de difícil acesso num bairro despovoado. Além de tudo com uma lista de recomendações. Aceitei tudo de pleno coração. Encontrei-me em casa.
E – Nova vida?
PE – Assim foi. Iniciei minhas atividades em Belo Horizonte, em 9 de abril de 1942,  e agi de acordo com as circunstâncias. Aos poucos fui crescendo e a comunidade foi chegando a mim. E foi chegando tão inesperadamente que alguns meses depois, Dom Cabral me pediu que esquecesse daquelas recomendações que tinha feito.
E – O povo acolhia as suas bênçãos!
PE – Sim... Vinham pessoas de várias regiões, inclusive de São Paulo mesmo. Assim foi, até que o atual prefeito da cidade, doutor Juscelino Kubitschek de Oliveira doou um terreno para a construção da Igreja dos Sagrados Corações. A pedra fundamental foi abençoada pelo próprio Dom Cabral, em 16 de maio de 1943.
E – Missão interminável?
PE – Percorria as ruas a pé, pelas trilhas e pelas montanhas da cidade, onde quer que os enfermos se encontrassem, até que em meados do mês de agosto, o enfermo fui eu mesmo. Não havia medicamentos para a febre tifo que tinha contraído e esperei com ansiedade o meu fim. Queria tanto despedir-me do meu amigo e confrade, padre Gil. Ele custou a aparecer. Quando ele surgiu na minha porta, em 30 de agosto de 1943, disse-lhe apenas – “Padre Gil, como demorou a chegar!”. E me despedi. Finalmente, me despedi.
E – Uma vida inteira, uma bandeira de Saúde e Paz! Não foram termos abstratos mas traduzidos em ações imediatas e contínuas. Mais ações e menos palavras.
PE – Padre Damião, Santo Padre Damião do Molokai, foi meu conselheiro em todas as horas. Tão pequena e leve foi a minha missão, mas dediquei todo meu esforço em interceder com a Divina Providência, para aliviar o sofrimento físico e espiritual dos meus semelhantes. Nada mais.
E – Novamente, peço a sua bênção, Venerável e Santo Padre Eustáquio! Reafirmo, perante a humanidade, que o senhor teve o dom de trazer alívio e tranquilidade para tantas pessoas que o procuraram, mediante a sua santidade,  e que tantos e silenciosos milagres realizou. O senhor não se referiu nem uma vez, nesta entrevista, a qualquer feito glorioso que tivesse realizado. Tudo guardado no seu coração, como se nada tivesse acontecido. Pelos Sagrados Corações, descanse em paz.


Referências Bibliográficas
Andrade, José Vicente. Venerável Padre Eustáquio. Congregação dos Sagrados Corações. Belo Horizonte, 2004
http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20060615_eustaquio_po.html
http://evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT&module=saintfeast&id=12527&fd=0
http://padreeustaquio.org.br/

domingo, 29 de julho de 2012

DAS MONTANHAS A CAPITAL


ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE
MINAS GERAIS - BRASIL

Autor: Rogério de Alvarenga

“Olhando para vocês, vi um belo horizonte!” - exclamou o papa João Paulo II, (1920 – 2005), no dia 1º. de junho de 1980, na praça Israel Pinheiro, Belo Horizonte, por ocasião da celebração de missa campal para cerca de um milhão de pessoas. A partir desse dia, o povo adotou esse local com o cognome de Praça do Papa, tal a emoção que essa manifestação espontânea e justa emoldurou a autoestima dos belo-horizontinos. Em retribuição imediata, o povo, em coro  improvisado, respondeu:  “Rei! Rei! Rei! – o Papa é nosso Rei!  E assim, nesse ato memorável, configurou-se um amor à primeira vista.       

MENSAGENS VIRTUAIS
DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA
MUITO DIGNO EX-PRESIDENTE DO ESTADO DE MINAS GERAIS

            Hoje já é dia 15 novembro de 2011. Estamos comemorando 122 anos de república. Parabéns para o senhor, um batalhador incansável. Achei por bem enviar-lhe mensagens virtuais por cartas, colocando-o em sintonia com alguns acontecimentos ocorridos na cidade de Belo Horizonte, onde o senhor esteve até os últimos dias de sua vida. Sei e sabemos todos do seu interesse pelo pleno desenvolvimento, pelo crescimento deste estado que o senhor presidiu.. Desculpe-me importuná-lo. Desde que o senhor nos deixou, em 25 de outubro de 1908, ficou o Palácio da Liberdade com o sentimento de perda total. O povo do estado de Minas Gerais ficou órfão, juntamente com a sua família, seus 12 filhos. Todos ficaram órfãos, também, da sua ousadia administrativa, da sua visão do grande futuro do nosso estado e, sobretudo, da sua fraternidade republicana.
            Hoje, resolvi invocar a sua paz, o seu repouso eterno. Tantas coisas aconteceram na nossa nova cidade-capital, depois de sua partida e outras tantas vêm acontecendo a cada dia que passa, que eu me lembrei de fazer uma crônica, reportando para o senhor essas novidades.  Sabemos que a sua atuação como gerente, um grande gerente-governador-presidente, com a sua larga visão, sempre foi republicano incansável na configuração dos destinos do estado e, em particular, na confirmação do desenvolvimento da nova capital.
            Sabemos das suas dificuldades encontradas na época como presidente, pois este estado tinha investido todos os seus recursos na construção da nova capital, na sua construção e na sua instalação. Também na transferência de todos os funcionários. E esta cidade-capital iria exigir muito mais em finanças e obstinação, para a concretização de um plano arrojado e excessivamente ousado para a época. As pessoas têm que entender que não foi fácil construir esta cidade-capital, num período estipulado em quatro anos.
            E o senhor, como presidente do estado de Minas Gerais, primeiro presidente do estado eleito pelo povo, após o governo instalar-se no Palácio da Liberdade, em 1906, substituindo o doutor Crispim Jacques Bias Fortes, (1847 – 1917) teve como meta fundamental o desenvolvimento, de maneira ampla. Reconheço hoje com aplausos a sua meta proposta também para a educação, um dos princípios republicanos, na sua obstinação quanto à criação dos GRUPOS ESCOLARES, dando a partida para a oficialização do ensino público.
            Vou recolher mais informações sobre essa meta dentro do plano educacional, para transmitir informações em outras oportunidades. Saiba que a sua meta vingou mesmo. Os seus Grupos Escolares se espalharam pelo nosso estado. E também as escolas rurais e as colônias agrícolas, pela implantação de novos métodos e técnicas para a agricultura e pecuária. O senhor foi obstinado, radical e entusiasmado. Não podia ser diferente. Seu trabalho foi recompensado e frutificou.  Mas, hoje, tenho algo a relatar, com a certeza de que será uma surpresa que irá lhe causar uma grande alegria.
            Nesse ano de 1929, seu amigo e contemporâneo da Escola de Direito de São Paulo, então presidente do estado, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada (1870 – 1946)  inaugurou um viaduto monumental, na cidade de Belo Horizonte, denominado VIADUTO DOS VIAJANTES e posteriormente, VIADUTO SANTA TERESA. Não se trata de um simples viaduto urbano. Trata-se, como disse antes, de um monumento de arte, adequado aos interesses da população. Imaginar que esta nova cidade, com apenas 32 anos de fundação, já construiu, com recursos do estado, uma obra que passa sobre o rio Arrudas, a Avenida do Contorno e as linhas da estrada de ferro da Central do Brasil (EFCB), de uma só vez, além de fazer a ligação do centro da cidade a um dos bairros mais habitados. Pois o espírito republicano, tão defendido pelo senhor, sobrevive nesta obra. Tem a extensão de 400 metros de comprimento, com dois arcos laterais de 14 metros de altura. Tudo em cimento armado. Torna-se, pois, o maior vão de cimento armado da América Latina, para essa época. Tecnicamente perfeito. Elegante, majestoso, imponente. Além do seu valor utilitário, representa um marco para a autoestima dos novos moradores da cidade.
            Darei outras notícias, principalmente sobre o seu projetista, o engenheiro responsável pela construção, em outra oportunidade. São tantas notícias que nem sei bem por qual ponto devo começar. Sei, entretanto, que tudo é novidade para o senhor. Apenas, mais uma informação: esta cidade de Belo Horizonte, neste início de século XXI, cresceu tanto que entornou, transbordou pela Avenida do Contorno, que foi projetada para ser o seu limite urbano. Extravasou,  extrapolou, expandiu. Inacreditável, dirá o senhor, não é verdade?
        Aqui me despeço, prometendo dar continuidade a estes relatos amanhã bem cedo, para poder trazer informações complementares sobre a Cidade de Minas, hoje, Belo Horizonte.

P.S.
            Achei melhor dar uma pequena informação sobre o engenheiro Emílio Baumgart, projetista e construtor do Viaduto Santa Teresa. Era Emílio Henrique Baumgart, (1889 – 1843), natural de Blumenau (SC), filho do imigrante alemão Gustav Baumgart e de Mathilde Odebrecht, também filha de imigrante alemão. Isso mesmo. Pois o engenheiro-projetista, devidamente graduado, montou no Rio de Janeiro, no ano de 1925, o primeiro escritório de engenharia, especializado em estruturas de concreto armado do Brasil. E teve sucesso como inovador e como competente profissional. Pois esse Viaduto Santa Teresa,  projetado e construído por ele, é obra de arte que vai romper os séculos pela sua beleza e pela sua rigidez estrutural.
            Estive fazendo um passeio por ele, à tardinha, olhando lá de cima a praça da estação, a Serraria Souza Pinto, a Avenida dos Andradas, o Parque Municipal, a Avenida Assis Chateaubriand e me perdi no tempo e nas lembranças mais profundas do meu ser. Lembrei-me que nele se fazia o footing nas belas tardes fagueiras. As moças desciam do bairro da Floresta e de Santa Teresa para um passeio, um desfile de ida e volta, ao longo do viaduto, vendo os rapazes que se punham a admirar cada uma delas. O sol ia se pondo, as luzes elétricas se acendiam e a modernidade chegava num estalar de dedos. Tempos gloriosos vividos nessa jovem cidade, inaugurada em 12 de dezembro de 1897, bela e realmente moderna. Penso até que o seu projetista Aarão Reis (1853 – 1936)  teve algum mérito ao decidir a demolição, sem dó nem piedade, dos casebres de Curral del-Rei, para surgir das cinzas uma cidade realmente nova.
            Divaguei demais. O Viaduto Santa Teresa, hoje com 82 anos, não apresenta nenhum sinal de envelhecimento. Digo isso, considerando os aspectos tanto estruturais  quanto estéticos. Como é que pode? Nem uma rachadurazinha, uma quebra de canto, um ponto de desequilíbrio. Mas, indo além, é obra de embelezamento, de configuração de imagem da nova capital. No ponto culminante, é obra utilitária, até hoje fundamental para o tráfego da região. Finalmente, digo para o senhor que as tantas pessoas que trafegam diariamente por esse viaduto nem pensam no seu construtor, no seu projetista, nem no governador da época que teve a ousadia de ordenar uma obra desse vulto.

Saudações respeitosas do seu amigo,

Belo Horizonte, 16 de novembro de 2011
DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA
RESPEITOSAS SAUDAÇÕES      

            Cumprimento-o, mais uma vez, nesta manhã de sol, de ventos suaves como são as brisas das montanhas.
            Lembrei-me de comentar com o senhor sobre o primeiro habitante civilizado destas plagas: JOÃO LEITE DA SILVA ORTIZ.  Ele chegou a esta região em 1701, vindo não sei de qual região do estado de São Paulo, para fazer não sei o quê. Claro está que ele procurava ouro. O certo é que esse bandeirante aconchegou-se às serras das Congonhas, hoje, serra do Curral e aqui permaneceu durante quase trinta anos.
            Os bandeirantes são andarilhos por excelência, mas  João Leite da Silva Ortiz achou graça neste local e resolveu permanecer e explorar a região. Assim, seus amigos e companheiros de bandeira procuraram produzir alguma coisa de subsistência, dentro dos padrões mais primitivos de sobrevivência: plantar, colher e comer.  Não encontrou ouro na região e  resolveu aprofundar sua expedição para o interior do estado de Goiás. Mais tarde, chegou a notícia que ele tinha falecido em 1730, na cidade do Recife.
            Imagine-se que há 310 anos, neste local, foi iniciada a construção do povoado de Curral del-Rei, que progrediu rudimentarmente também na criação de gado, vindo da Bahia, na plantação de cereais e, posteriormente, até de algodão. Em Contagem das Abóboras, nas proximidades de Curral del-Rei, havia o posto de fiscalização para cobrança de impostos e registro do gado, de modo que corria muito dinheiro na praça.  Edificaram-se casas muito simples, mas adequadas para as condições sociais e econômicas dos seus moradores da época. Posteriormente, Aarão Reis, o construtor da Nova Capital, como o senhor sabe, chamou essas construções de “choupanas”. O povoado cresceu e desenvolveu. Chegou a serem instaladas fábricas de tecidos em Sabará. Até mesmo iniciativas de fundição de ferro e bronze. A usina ficava nas imediações da lagoa Maria Dias, atualmente entre a avenida
 Paraná e rua dos Carijós.
            Mas, em continuidade, construiu a Fazenda do Cercado. Era a sua sede administrativa, sua residência. Ela ficou. Informo ao senhor que essa bela fazenda é o único vestígio arquitetônico da sua passagem  por esta região. Encontra-se primorosamente conservada e transformada como museu. É um retrato vivo da história da Cidade de Minas, ou melhor, do povoado de Curral del-Rei. Esse museu é uma relíquia que aos tempos confirmará a nossa origem. Outra coisa que gostaria de comentar com o senhor seria a atuação dos opositores à mudança da capital de Ouro Preto para outro lugar qualquer que fosse, mesmo ainda não definido. Como o senhor sabe, para toda ideia que surja e que implique em mudança, existem opositores, sempre bem armados de argumentos fortes. Os ouro-pretanos se armaram de argumentos, reunindo forças contrárias à mudança, forças políticas desafiadoras. Arregaçaram-se as mangas da camisa e saíram em defesa da permanência da capital em Ouro Preto, cidade muito amada.
            Na verdade, um dos fortes argumentos criados  pela oposição era a constatação de que grande número dos moradores do povoado de Curral del-Rei, local escolhido para a construção da capital, sofria de bócio. Seria o clima, ou a água da região? Não havia estudos comprobatórios. Pois não é que havia mesmo na região alguma coisa que parecia uma epidemia de papudos, isto é, de pessoas que tinham um tipo de deformação física denominada de bócio? Diziam que era causado pelo clima. Talvez que o ar ou a água da região contaminava os moradores, e coisa e tal.  Por outro lado, havia outras regiões, além desta do Vale do rio das Velhas, que pleiteavam a instalação da nova capital. Formaram-se os grupos que defendiam essas regiões. Eram grupos de mudancistas. Pleiteavam mudanças para a sua região. Uma dessas facções de mudancistas, uma delas, a mais forte, era a região próxima a São João del-Rei, que relembrava o imaginário do inconfidentes.  Assim, nas decisões finais, tendo como grande defensor Augusto de Lima (1859 – 1934), Curral del-Rei venceu por dois votos apenas, considerando-se a sua localização como um ponto equidistante de todas as regiões do estado. Não seria totalmente equidistante, mas o ponto geográfico que facilitaria a comunicação com todas as regiões do estado. Argumento muito forte, não é verdade?
            Afonso Pena (1847 – 1909) não perdeu tempo. Criou logo a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) pela Lei n.3, art. 2º., adicional à Constituição do estado, em 7 de dezembro de 1893.  Confiou a coordenação ao engenheiro Aarão Reis (1853 – 1936). Prazo para a construção da nova capital? Quatro anos. Quando essa Comissão Construtora da Nova Capital arranchou no povoado de Curral del-Rei, encontrou uma região com moradores tradicionais por assim dizer, habitada desde 1701. Propriedades urbanas e rurais. Havia na época, no povoado, 172 casas residenciais, 4.000 habitantes, 8 ruas, 16 pontos comerciais, 31 fazendas, 1 farmácia, 2 pontos de escolas, 2 largos ou praças. Vários engenhos. Era um povoado já com mais de cem anos de existência.    Houve a decisão do chefe da Comissão Construtora: destruir tudo para começar tudo de novo. Eis a questão. Prejuízos generalizados. A quem recorrer?  Acontece que grande extensão de terras da região já pertencia ao estado. Os moradores passaram, então, a serem admitidos como operários da Comissão Construtora, numa forma de suavizar prejuízos. Na ocasião, havia 6.000 operários na construção da Nova Capital. E grandes problemas para a gerência das obras. Aarão Reis não resistiu até o final da obra e pediu exoneração. Foi substituído pelo engenheiro Francisco Bicalho que gerenciou a obra até o dia de sua inauguração, dentro do prazo estabelecido. Imagine senhor presidente do estado, como era o regime de trabalho da época, após a abolição da escravatura. Alimentação para esses trabalhadores, habitação, saúde, nesse planalto vazio de recursos? Com muito sofrimento humano, sofrimento incalculável, como sempre, nesse curto espaço de tempo, a cidade floresceu. Veja que Brasília foi construída em três anos e oito meses.
            Meu pensamento vagueia pelos idos de 1890, tempos que o senhor teve oportunidade de presenciar, de participar e de comandar. Fui longe demais nesse passeio no tempo e peço desculpas se não tiver sido totalmente exato nestas informações. Voltarei ao assunto, mas ainda vou tentar identificar a questão da mudança. Mudar por mudar - sempre para subir mais um degrau no aperfeiçoamento humano. O que move a humanidade é o inconformismo.  O presidente Afonso Pena (1847 – 1909), então presidente Conselho do estado, decidiu que seria construída uma nova capital, pois Ouro Preto não tinha mais condições de suportar as dimensões de capital do estado. Daí por diante, o sol nunca brilhou tão intensamente na ardente mensagem de coragem para o povo mineiro. Não havia mais passagem de volta. Assim, Augusto de Lima já tinha sugerido o local,  em 1891.
            A primeira mensagem foi enviada ao Congresso Estadual em 17 de abril de 1891, propondo a mudança. Os ouro-pretanos achavam impossível esse empreendimento.  Mas, onde seria mesmo plantada essa nova capital? Havia várias indicações bem fortes para definição do local, principalmente a várzea do Marçal, vizinha a São João Del-Rei. A região do vale do rio das Velhas, na decisão final, venceu e foi publicada a mensagem do Congresso Legislativo a Lei de mudança da capital.  O senhor conviveu com esse dilema, com esse grande problema. Uma decisão política, mas, antes de tudo, centrada em estudos técnicos para a plena viabilidade. E esta região, no povoado denominado Curral del-Rei, por apenas uma pequena margem de vantagens técnicas foi considerada a região escolhida pelo destino para ser a Belo Horizonte, não é verdade? O senhor sabe que nessa época não havia tratores e, consequentemente, os trabalhadores tiveram que empregar esforços mais do que dobrados. Houve grande movimentação de terra, abrindo ruas, avenidas e praças. Havia trabalhadores estrangeiros especializados na construção dos palácios administrativos. Imagine que os engenheiros e arquitetos projetaram esses palácios monumentais, com toda a papelada em plantas com detalhes técnicos, dentro dos padrões de uma arquitetura avançada, num estilo condizente com a filosofia e gosto da época, estilo neoclássico, meio art-nouveau. E tinham ainda que projetar as plantas das conexões hidráulicas e elétricas. Novidade para o mundo moderno. Água encanada. Eletricidade. Criar e equalizar um estilo arquitetônico em contraste total ao colonial e barroco. Nada que traduzisse influência de Ouro Preto. Tudo novo e moderno. Entusiasmo e petulância.
            A nova república, instalada em 1889, impunha avanço tecnológico para elevar a qualidade de vida, sempre procurando um grau a mais, um degrau avançado no desenvolvimento humano, da ordem e do progresso. Uma república, uma recente república, numa visão positivista, inspirada e configurada nos ideais dos governantes da época, atraídos pela filosofia de Augusto Comte (1798 – 1857).  Afonso Pena era presidente do estado, entre o período de 1892 a 1894. Lembramos que Afonso Pena foi o primeiro governador/presidente do estado eleito por voto direto.  Imprimia-se agilidade memorável nas decisões e na efetivação dessas decisões. Empolgação total. Assim, para confrontar essas mudanças, vou fazer algumas referências à capacidade de adaptação do povo mineiro. Tantas mudanças ocorreram muito rapidamente, que não havia tempo nem para pensar duas vezes. Logo depois da saída de Afonso Pena do governo do estado, foi substituído por Crispim Jacques Bias Fortes (1847 – 1917). E o presidente Bias Fortes administrou o impossível, na opinião dos céticos. Uma cidade saída do papel e em quatro anos  resplandecia ao alvorecer do século XX. Como isso foi conseguido? Mudanças, já. Doutor João Pinheiro, não achava que tal iniciativa era grande demais para um estado, sozinho, enfrentar e chegar vitorioso no novo século? Sei e sabemos todos que o senhor não tinha apego a tradições inúteis. O século XX estava batendo às portas. Mudanças!

Agora me despeço, respeitosamente.

Belo Horizonte, 17 de novembro de 2011
EXCELENTÍSSIMO SENHOR
JOÃO PINHEIRO DA SILVA
   
            Hoje, os mudancistas progressistas estiveram pairando sobre o imaginário dos mineiros. Mudar a capital foi um ato de coragem. Mas, nesta vida não há escapatória. Mudar é uma lei do universo. No dia que uma pessoa nasce,  casa-se com a mudança. Pode não ter sido um casamento formal, mas irá passar o resto da vida juntos.
            A velha capital, Ouro Preto, teve que adaptar-se para não desaparecer. Sofreu o baque da depressão total, reagiu e hoje é transformada em cidade monumento. O desenvolvimento causa desequilíbrio. Quem quer que seja que provar do desenvolvimento, sentirá na pele a necessidade de se adaptar às novas emergências. Assim, em 1830, um cavalo apostou uma corrida com a locomotiva e perdeu. Pela primeira vez no mundo, um ser humano viajava mais rápido que um cavalo e, em 1906, Santos-Dumont levantou um aparelho mais pesado que o ar, transportando uma pessoa. Hoje, um avião a jato transporta centenas de passageiros confortavelmente, a preços disponíveis para todas as classes sociais e econômicas.
            Doutor João Pinheiro, veja a diferença de tecnologia entre o rei Salomão e Dom Pedro I. Estiveram separados por mais de 3.000 anos, mas ambos viveram em condições semelhantes. Nenhum teve o sistema de água encanada, aquecimento ou refrigeração e iluminação. Dominavam pelo poder escravo. E o sistema de transporte e comunicação? Tudo feito pelo cavalo. Muito pouca coisa aconteceu entre a vida de um e do outro. Pois bem, veja as transformações que ocorreram no mundo, nestes últimos 141 anos? Não ficou pedra sobre pedra.
            Para finalizar, veja que, se uma pessoa disser que está fazendo uma determinada coisa da mesma maneira que costumava fazer, ele estará, provavelmente, fazendo-a por um método ultrapassado. Alguém estará fazendo melhor. Veja, pois, no alto desses anos de 2011, os mudancistas da nova capital tinham razão. Imagine se estivéssemos subindo e descendo as velhas ladeiras de Ouro Preto, ainda hoje. Imagine, agora, o senhor, no alto do século 21, se a capital do Brasil ainda rondasse praias e favelas. Mudança é uma constante ameaça. Se alguém deseja permanecer no seu negócio por alguns anos a mais, é melhor que esteja disposto a fazer mudanças propositalmente.
            Peço me desculpar por essas divagações. Achei-as oportunas porque o senhor derrubou princípios e crenças, inovou, criou, estimulou. Devemos nós, eu sei e sabemos todos, que sua compulsão pela educação deu frutos e hoje, apesar de o estado de Minas Gerais contar apenas 300 anos, consegue, em muitas frentes de trabalho e de conhecimento, superar ou acompanhar outros estados com 500 anos de vida civilizada.  Esta divagação tornou-se importante para reconhecer a capacidade de decisão dos nossos governantes mineiros do final do século XIX. Assim justifico.
            Por hoje, me despeço. Devo continuar ainda em outras cartas.

Saudações respeitosas.

Saudações neste dia 18 de novembro de 2011
MEU CARO GOVERNADOR/PRESIDENTE,
JOÃO PINHEIRO

            Sabemos que a sua intenção era o desenvolvimento da educação como meta, fator primordial.  Quero ressaltar um fato para seu agrado imediato. Todos os governadores/presidentes que o sucederam tinham por meta a educação, mas no ano de 1926, tomou posse o presidente-governador Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (1870 – 1946), também obstinado pela educação. Não media esforços na continuidade do seu aperfeiçoamento, pois o estado já contava com centenas de grupos escolares. Entretanto, era notado um desconcerto na programação escolar e era urgente o aperfeiçoamento dos professores e dinamização dos métodos de ensino. A mudança de métodos exigia, pois, recursos intelectuais oriundos dos países mais avançados. Por isso, saiu atrás de cérebros na psicopedagogia da Europa. Contratou Léon Walter, um psicólogo por um período de um ano. Vencido o contrato, enviou emissários à Suíça, principalmente ao recente Instituto Jean Jacques Rousseau, onde contratou a psicóloga russa Helena Antipoff, (1892 – 1974). O contrato de um ano que ela firmou com o estado foi reformado sucessivamente e Helena Antipoff aqui permaneceu até a sua morte. Tal fato merece uma consideração especial, pois, naquela época, Antônio Carlos pressentia a necessidade de modernização dos métodos de ensino. Não mediu esforços e foi em busca das novidades tecnológicas.
            Informo que hoje a educação fundamental no estado e mesmo no país está em fase de expectativa por mudanças. Veja bem!  Qual é a base da revolução da China? A educação. A verdadeira salvação da humanidade! Cumpre despertar as autoridades! Como o senhor disse: “Não há democracia sem educação.” E a educação no Brasil está em crise.
            Pressente-se a necessidade de transformação de métodos de ensino, para o enfrentamento dos desafios da teconologia. Visão 360 graus. Como acompanhar o avanço surpreendentemente rápido dessa tecnologia em todos os campos do conhecimento? Tudo mudou nestes últimos anos. E o que mudou ontem?  E o que está sendo mudado hoje? Esperemos um novo João Pinheiro da Silva? Ou esperemos um novo Antônio Carlos Ribeiro de Andrada?   Até quando?      
            Aqui me despeço por hoje. Avancei um pouco nestas observações. Peço me desculpar pela ousadia.

Respeitosas saudações

Belo Horizonte, 2 de dezembro de 2011
CARO E PREZADO JOÃO PINHEIRO!
SAUDAÇÕES RESPEITOSAS
Os que sempre mudam são os ciganos e os bandeirantes. O destino deles é viajar. Hoje, também os astronautas.

Mudando um pouco a convergência dos nossos assuntos, lembrei-me de comentar alguma coisa que é também do seu conhecimento. É sobre a matriz da Boa Viagem. Aliás, Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem. Ela foi construída pelo povo de Curral del-Rei, com muita devoção e carinho. Era antes uma capela de taipa, de capim, tosca. Com o tempo, com as reformas e adaptações constantes, tornou-se um templo de maiores dimensões, artisticamente posto para os atos religiosos da população que crescia e se envolvia em atividades do comércio e da agropecuária. Isso mesmo! A antiga capela de Nossa Senhora da Boa Viagem trazia consigo uma história bem fundamentada de um piloto da nau de Dom João V (1689 – 1750) que naufragou nas cercanias da ilha das Cobras no Rio de Janeiro, em 1709. Era o piloto da nau o senhor Francisco Homem del-Rei, que conseguiu retirar o nicho com essa imagem de Nossa Senhora da Boa Morte e guardou  essa imagem, portando-a consigo. Mais tarde, chegando ao povoado de Curral del-Rei, iniciou a construção de uma capela para abrigá-la, tendo essa imagem como guia e padroeira.  Tanto tempo passou, tendo a decisão de tornar essa capela em confortável templo de orações. Trabalho continuado e persistente. Assim, a matriz teve a provável conclusão apontada para os anos de 1775/1776. Já não era uma simples capela, mas a matriz da freguesia de Curral del-Rei. Teve pois a sua missão de abrigar as almas religiosas por 135 anos. Agora, chegou a Comissão Construtora da Nova Capital com o objetivo formado quanto à estrutura arquitetônica da Cidade de Minas que não admitia a permanência de edificações em estilo colonial nem barroco.  Assim,  a matriz foi condenada à demolição, juntamente com todas as outras edificações religiosas existentes. Na primeira tentativa de demolição, as demais tombaram e a matriz da Nossa Senhora da Boa Viagem permaneceu mais alguns anos, mediante a intervenção popular e da diocese de Mariana. Mesmo assim, estava condenada e a sua  parte frontal foi demolida em 1911. Para substituí-la, foi iniciada a construção de catedral, estilo gótico, em 1912. Ainda inacabada, em 1923, ela foi inaugurada, disponibilizando-se para atos religiosos, substituindo a velha matriz.
            Era pensamento firmado da Comissão Construtora da Nova Capital não deixar vestígios de Curral del-Rei, numa obstinação compulsiva contra o estilo colonial barroco. Com isso, nada configura esse povoado erguido por João Leite da Silva Ortiz, a não ser a fazenda do Leitão, ou fazenda do Cercado. Cruel reminiscência para as decisões da CCNC. Poderiam ainda não se perdoar por esse esquecimento, por esse lapso, deixando de pé essa gloriosa edificação memorial.  Hoje tornou-se o monumental Museu Histórico Abílio Barreto, com centenas de documentos que confirmam o passado do velho povoado.
            Outros templos erigidos na Cidade de Minas, em estilo eogótico foram inaugurados na década de 20. A igreja de Lourdes (1922), de fino acabamento e sólida estrutura. Outros já seriam inaugurados como a igreja de São José e a Sagrado Coração de Jesus. Mas ainda são da década de 20 os monumentos da igreja de São Sebastião no Barro Preto e Nossa Senhora das Dores, na Floresta (1921).  Não se poderia deixar de informar sobre a presença do majestoso edifício do Automóvel Clube, estilo neoclássico, com projeto de Luiz Signorelli, inaugurado em dezembro de 1929 e da sede do Banco do Brasil, 1926, (Avenida Afonso Pena, ao lado do Café Nice). Relembrando e confirmando que a inauguração do monumental Viaduto Santa Teresa, em 1929, tinha como governador-presidente, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e prefeito da capital Belo Horizonte, doutor Cristiano Machado.  
            Doutor João Pinheiro! Quem somos nós para discutir princípios e metas dessa Comissão Construtora da Nova Capital, sobre a demolição total e radical da velha freguesia de Curral del-Rei?  Eles imaginavam uma cidade inteiramente moderna, sem nenhum vestígio do estilo colonial barroco de Ouro Preto. Nisso, nesse particular, foram determinados e realmente surgiu uma cidade com aspectos angulares do século XX. Foi uma decisão corajosa porque o povoado já contava quase 200 anos. Limpar a área, devastar o campo e fazer um amplo e belo horizonte. Foi realmente o que fizeram e obraram muito bem.
            Por hoje, me despeço.

            RESPEITOSAS SAUDAÇÕES
                                  
Belo Horizonte, 6 de dezembro de 2011
PREZADO JOÃO PINHEIRO!
RESPEITOSAS SAUDAÇÕES

            Como tinha previsto na minha carta anterior, o desenvolvimento do ensino público no estado deve tudo e principalmente à sua iniciativa. Lembra-se da inauguração do Grupo Escolar de Diamantina? Lembra-se de que dona Júlia Kubistchek (1873 – 1971) era uma professora de uma das pequenas escolas particulares?  Lembra-se de que nas pequenas salas reuniam os alunos de todos os níveis de desenvolvimento? O professor ou professora ensinava a todos na mesma classe, ou melhor, havia apenas uma classe. Esse Grupo Escolar de Diamantina foi inaugurado em 1906, com a sua presença, claro. O filho de dona Júlia, Juscelino Kubistchek (1902 -1976) também estava presente e contava quatro anos de idade. Depois, imediatamente o senhor se dirigiu para a sua cidade natal, Serro, para a inauguração também do primeiro Grupo Escolar da cidade. Com isso, os professores seriam remunerados pelo estado e haveria classes separadas para os alunos em seus diversos níveis. Assim surgiu este termo: Grupo Escolar no estado de Minas Gerais.    Em Belo Horizonte, outras iniciativas do mesmo sentido foram realizadas e o Grupo Escolar Barão do Rio Branco teve montagem especial e o senhor fazia questão de verificar a qualidade até do mobiliário, além das instalações, de modo geral, para conforto dos alunos e dos professores.
            Imagine que o presidente do estado, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada  criou a Universidade de Minas  Gerais e, em 7 de setembro de 1927, reuniu num só bloco os estabelecimentos de ensino superior do estado. Foi nomeado, como primeiro reitor, o professor Francisco Mendes Pimentel. Todas as escolas funcionariam nos seus respectivos prédios, tendo a Universidade como sede provisória o edifício Stecket, à rua Guajajaras. A federalização ocorreu em 1949, sendo que a sismatização da Universidade Federal de Minas Gerais ocorreu em 1965, como ainda permanece nos dias atuais.
            Foram criadas no início do século XX, as seguintes faculdades:
- Faculdade Livre de Direito, implantada em Ouro Preto e transferida para a capital em 10 de dezembro de 1908
- Faculdade de Medicina, em 5 de março de 1911
- Faculdade Livre de Odontologia e Farmácia, criada em 8 de março de 1911
- Faculdade de Engenharia, em 21 de março de 1911

Respeitosas saudações, com um forte abraço.

Belo Horizonte, 11 de dezembro de 2011
EXCELENTÍSSIMO EX-PRESIDENTE DO ESTADO
DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA
           
Achei oportuno, hoje, revendo o mapa da literatura do século XX, com relação aos autores que compõem o imaginário do povo do nosso estado, fazer um relato sobre alguns deles. Tivemos muitos autores bem situados pela crítica e pela opinião pública.
            Entretanto, não só os bandeirantes e os ciganos gostam de mudar. Pois bem, vou procurar dimensionar, em resumo, a reviravolta e a turbulência intelectual, após a Semana da Arte Moderna de 1922, pois nessa mesma década de vinte, surgiram  quatro dos nossos autores literários que se projetaram no cenário nacional. São eles: Hélio Pellegrino  1924 – 1988, Fernando Sabino (1923 – 2004, Paulo Mendes Campos (1922 – 1991), Otto Lara Resende (1922 – 1992), nascido em São João del-Rei. A cidade de Belo Horizonte contava 200.000 habitantes, na década de vinte. Era uma grande família, colegas, amigos, parentes, todos conhecidos. Realmente, era amplo o conhecimento dos moradores.  Pois bem! Estes jovens contemporâneos, cada um na sua pequena burguesia, carregavam nas costas e na cabeça, aspirações semelhantes, força intelectual e convicções firmes. Foram chamados de “Cavaleiros do Apocalipse”. Beberam juntos de água da mesma fonte. Vidas cruzadas, emaranhadas, embora independentes entre si.  
O primeiro, envolvido pela medicina, pela psiquiatria, na luta pela vida, nos anseios de viver a vida afetiva com intensidade. A filosofia, construída na adolescência fez um poeta, um articulista. O outro, um escritor de bem com a vida, com humor contagiante, pesquisador do comportamento humano, simples como água cristalina! Para quem escrevia? Qual era o seu público? Para o povo. Não escrevia somente para a classe intelectualizada e culta. Produziu arroubas de palavras. E os leitores sempre chegavam à última pagina de cada um de seus livros.Já o terceiro cavaleiro foi envolvido na administração pública, em cargos de relevância diplomática e se projetou como jornalista em órgãos da imprensa nacional. Articulista, imprimiu um pensamento eivado de tradições de sua cidade natal.      Por fim, este último cavaleiro, diziam com irreverência que era dado à galhofa. Verdade? Claro que sim. Dizia verdades contundentes em frases curtas, encaixadas nas brechas oportunas da vida política e social. “Minas está onde sempre esteve!” Ou “em cima do muro!” Ainda, atribuída a ele: “O mineiro só é solidário no câncer!”! Por isso, Nélson Rodrigues dizia que era necessário ter um taquígrafo atrás dele para anotar as suas imprevisíveis e oportunas locuções. Estes quatro mineiros fizeram época e dominavam o cenário literário do Brasil, nas décadas de quarenta a oitenta. Chegaram à vida e se foram dela em tempos semelhantes. Entretanto, cumpre-nos preservar a passagem deles por este planeta Terra. Não é justo?    
            Prezado Presidente do estado! Devemos especial atenção a Fernando Sabino, nascido no bairro dos Funcionários, que conseguiu dobrar a serra para o mar com seu romance Encontro Marcado. Curtia uma angústia com seus amigos, nos bares e nas praças da nossa bela capital. Com ele, isto é, com esse romance, vivenciado em Belo Horizonte, Fernando Sabino atingiu as alturas literárias, pela simplicidade e pela sinceridade de uma possível autobiografia. É a descrição de uma adolescência aburguesada e deslumbrada, superando tendências machistas de transpor o arco do Viaduto Santa Teresa e de fazer malabarismos na praça da Liberdade. Namoricos com a filha de um misterioso político emolduram o romantismo enrustido no período de sua adolescência. O Encontro Marcado marcou realmente um ponto significativo da vida literária nacional.
Agora me despeço com um fraternal abraço.

Belo Horizonte, 12 de dezembro de 2011            
PREZADO AMIGO JOÃO PINHEIRO

            Esta é a minha última carta. Aqui me despeço, sempre muito respeitosamente. Estamos comemorando hoje, dia 12 de dezembro, os 114 anos da nossa cidade: Belo Horizonte. Jovem, majestosa, altaneira. Tantos poetas já se encantaram com ela, a partir de Mário de Andrade que, numa visita, chamou-a de “cidade jardim”, “cidade vergel”. Não é feriado municipal. Uma injustiça! É uma cidade que não comemora o seu aniversário. Muitas razões, nenhuma verdadeira.
            Ronda-nos, ainda, o poeta Emílio Moura (1902 – 1971), natural de Dores do Indaiá, mas que aqui tem seus pés fincados, e seu cérebro rondando as coisas de Minas Gerais, pelo seu sentimento de fino trato e sua introspecção própria de um montanhês. Confirma-se o seu talento poético: “Sozinho, sozinho, perdido na bruma/ há vozes aflitas que sobem, que sobem,/ mas, sob a rajada ainda há barcos com velas/ e há faróis que ninguém sabe de que terras são.” (Interrogação). Ou ainda: “Viver não dói. O que dói/ é a vida que se não vive/ Tanto mais bela sonhada,/ quanto mais triste perdida.”/
            Senhor Presidente, João Pinheiro!  Procurei me fixar na sua proposta republicana, na sua imagem pessoal, tanto quanto pude.
Obrigado! Adeus!   


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