ENTREVISTA VIRTUAL COM O BEATO ANTÔNIO CONSELHEIRO

ANTONIO CONSELHEIRO E SEU MOVIMENTO MESSIÂNICO
A palavra de Deus semeia amor e bondade. Da sua mão decorre o trabalho para a sobrevivência. Nosso povoado sempre procurou obstinadamente a paz e trouxeram-nos a guerra, a destruição, a morte. A alma dos sertanejos, degolados, mortos e insepultos, paira nos céus desta República. 


ENTREVISTADOR – Beato Antônio Conselheiro, louvado seja nosso senhor, Jesus Cristo!
- ANTÔNIO CONSELHEIRO – Para sempre seja louvado, irmão!
E – Senhor Antônio Vicente Mendes Maciel! O senhor chegou a esta aldeia de Canudos, norte do estado da Bahia, portador da desgraça e da destruição?
AC – Prezado amigo! Cheguei a esta comunidade por missão imposta pelo meu Deus, para salvar seu povo, ajudar, trabalhar, ensinar. Tudo para a glória de Deus.
E – E no final, chegou à destruição total do povoado.
AC – Não por minhas mãos, amigo! Nunca saímos como forasteiros a provocar e fazer guerra. A destruição total foi feita, aqui, a Guerra de Canudos, em 1896 e 1897, pelo Exército da República e foi ocasionada pela inveja do nosso desenvolvimento social e econômico. Os pobres famintos chegaram bem perto do paraíso, pelo trabalho e pela organização da comunidade. E pela participação do meu povo.
E – Seu povo?
AC – Passei a considerar a população de Canudos como meu povo, meus amigos, amigos fraternos.
E – Por que essa amizade?
AC – Quando bati às portas desta aldeia, a população me acolheu como um emissário da palavra de Deus.
E – Emissário? O senhor veio de onde?
AC – Vim andando a pé, de pouso em pouso, suportando a fome, a sede, o cansaço, a desesperança. Perdido no espaço e no tempo dos sertões torrados pelo sol e pela seca. Quantos anos tenho andado pelo sertão, levando a palavra de Deus? Nem sei. Talvez tenha sido 10 anos? Talvez, 20? Nunca mais peguei num calendário. Meu guia é o próprio destino.
E – Sim! Mas a sua origem?
AC – Minha terra é Quixeramobim, no Ceará, onde nasci em 1830. Minha família tinha posses, estudei muito. Trabalhei desde jovem. Fui professor e advogado prático, isto é, sem diploma. Atendia meu povo de muitas maneiras. Como professor, ensinava de tudo. De tudo que o povo precisasse. Eu era uma pessoa socialmente ajustada, até que um dia, um desastre, o desmoronamento do meu lar. Meu lar foi desfeito pela traição da minha esposa. Fiquei triste demais, desmoralizado socialmente. Saí pelo mundo, pregando a palavra de Deus, a misericórdia.
E – É um sacerdote?
- AC – Sou um sacerdote de Deus pela liberdade de voluntário, a serviço da salvação da humanidade. Não sou sacerdote de formação. Sempre fiquei ao lado do povo pobre desassistido, abandonado. No sofrimento físico e mental.
E – Voluntário?
AC – Sim, voluntário! Porque não? A palavra de Deus é livre para todos. A mão de Deus está disponível para todos os que veem o caminho do bem, da misericórdia. E mesmo, o caminho da glória na eternidade.
E – E o quê o senhor fazia em Canudos?
AC – Pregava a palavra de Deus, primeiramente. Depois, fazia de tudo. Tudo que fosse preciso. De pedreiro a professor. Ajudava na construção das casas de quem quer que fosse. Na organização da aldeia. Na agricultura, na pecuária. Ensinava nas minhas pregações diárias. Incentivava a preparação para o trabalho. Vim para ajudar a todos e não para pedir ajuda.
E – Ajudava na construção desses casebres, dessas taperas?
AC – Nunca pensamos em construir palácios! Sim, para os pobres tinha que ser uma construção imediata, pequena que fosse. Uma tapera, ou mesmo um esconderijo. Tudo para hoje ou para agora. Um agradecimento à obra de Deus.
E – Mas o senhor mesmo era um pobretão!
AC – Sim! Um pobretão! Isso não significa que fosse um ignorante qualquer. Tinha estudos e sabia alguma coisa sobre organização e orientação do trabalho.
E – E o povoado cresceu?


AC – De forma inesperada! A população aumentou. Além dos forasteiros sem pouso, chegaram milhares de ex-escravos, perdidos e abandonados no sertão, com suas famílias, desalojados das fazendas  dos latifundiários. Libertados da escravidão, mas sem trabalho, sem rumo, sem destino. Tão pobres e miseráveis como todos nós em Canudos. Fugindo da seca. Mas a seca estava em todos os lugares.

E – Seca?
AC - Um período de seca interminável. Canudos estava às margens do rio Vaza Barris e podia sobreviver. Resolvi fundar outro povoado mais produtivo. Dei o nome de Belo Monte, mesmo vendo que estávamos num vale prodigioso. E Canudos não suportava mais tanta gente que todo dia ia chegando.
E – E havia alimentação e moradia para todos esses forasteiros?
AC – Tudo pouco e repartido. Tudo distribuído de mãos abertas. Moradia? Como disse, até mesmo esconderijo do sol e do sereno da noite tinha para todos. E todos agradeciam. Ninguém pedia nada além do que podia existir para ele. Ninguém reclamava ou se lastimava.
E – E assim ficou um grande povoado de pobres famintos ou até miseráveis?
AC – Sim! Por que negar? Pobreza não é doença e não é motivo de vergonha ou desespero. E isso não significava que todos deviam ficar de braços cruzados, aguardando a chegada de mais sofrimento. Lutar todos os momentos da vida. Sobreviver!!
E – E o senhor transformou-se num prefeito?
AC – Nunca agi como comandante ou delegado. Bondade e amor escorre das mãos de Deus. Distribuí tarefas e responsabilidades para as lideranças de acordo com os diversos setores de produção.
E – Seus ministros ou secretários?
AC – Cada responsável por um setor tinha o seu grupo de trabalho. Produção para distribuição para todos. O lucro era a satisfação dos resultados. Nesse ritmo surgiu o entusiasmo. A luta contra a fome era a meta principal.
E – E a população cumpria  as suas determinações?
AC – De certa forma, sim. Não havia uma determinação, mas orientação no trabalho, visando resultados maiores. Povo tão carente que muitas vezes resistia em começar uma tarefa, por julgar-se incapaz ou impossível de ser realizada.
E – Transformou-se assim num comandante?
AC – Comandante é termo militar. Nada do nosso feitio. Distribuir responsabilidades de acordo com a habilidade e interesse de cada um de nós. Desde a higiene, a saúde, a educação. A limpeza o bem-estar.
E – E a população obedecia ao que o senhor pregava?
AC – A princípio, não entendiam as palavras ou essas ideias eram novas para eles. Depois, eu mesmo peguei a executar as tarefas de varrer, limpar, organizar. Acharam então o caminho da ordem e do desempenho. Fui varredor e servente de pedreiro. Aí, começaram a me ajudar, até que tomassem o trabalho para eles mesmos. Dei exemplos de humildade e dedicação.
E – Viram que o pobretão podia fazer alguma coisa. Ajudar!
AC – Viram que eu queria fazer alguma coisa, antes de ficar falando palavras de Deus. Ação correspondente às palavras. Ajudava de porta em porta, ouvia e via a infelicidade geral. Minhas mãos afagavam e incentivavam. Não vou dizer que curavam, porque não tinha esse dom, mas abriam um pequeno sorriso de agradecimento. Eu, na minha simplicidade, ficava satisfeito com esse pagamento. Um pequeno sorriso é uma mensagem de agradecimento, vindo do coração.
E – E esse povoado foi enchendo de gente?
AC – Como disse, chegava gente todo dia. Nosso progresso começou a ser percebido pelos fazendeiros da região. Começaram a ter medo da nossa força. Nossa força? Eles eram os poderosos. Juntaram-se com a Igreja e levantaram histórias de que iríamos tomar as suas terras. Que iríamos marchar até a Capital e restaurar a monarquia. Coisas tão impossíveis, coisas imaginárias para causar a nossa desgraça. Na verdade, os fazendeiros tinham ficado sem os seus escravos, agora libertados. As fazendas ficaram improdutivas.
E – As fazendas ficaram sem empregados?
AC – Empregados? Ficaram sem escravos. Pagar empregados? Nunca pensaram nisso. Uma calamidade pagar alguém pelo trabalho. Eles mesmos, os fazendeiros, não queriam trabalhar. A escravidão era coisa do passado. Os últimos escravos abandonavam seus lares e rodavam perdidos no mundo.
E – E essa revolução propagada pelos fazendeiros e Igreja?
AC – Foi o início da nossa desgraça. De boca em boca, essa história da nossa revolução foi parar nas autoridades constituídas da República. Como podíamos fazer uma revolução? Nunca pensamos nisso. Nem sabíamos o que era isso. Nosso povo só pensava na sobrevivência, em como viver o dia de amanhã. Sempre nos armamos de paz.
E – Como que uma comunidade de miseráveis poderia fazer uma revolução?
AC – Como? A força das injustiças e a força dos poderosos informavam que o povo de Canudos, cá em baixo, sujava a água que eles bebiam lá em cima. Não tínhamos preocupação com a guerra, porque seria totalmente ilusória. Desnecessária. Poderiam arrasar toda nossa comunidade com um sopro mais forte, apenas. Não tínhamos condições de defender, quanto mais de atacar. Nunca iríamos sair do nosso território para qualquer ataque bélico. Uma ideia que nunca passou pela cabeça de nenhum de nós.
E – Fizeram uma revolução pela sobrevivência e pela paz?
AC – Na verdade, fizemos uma revolução branca, no despertar da força de trabalho dessa população que voluntariamente se agregava ao nosso modelo de vida. Essa a nossa força. E ela foi a nossa desgraça.
E – Mas que deu resultados?
AC – Da areia e das pedras surgem as flores e os frutos, plantados e cuidados com abnegação. Estávamos no caminho certo, superando as nossas dificuldades básicas. Passaram a me chamar de Conselheiro, de amigo, de pai. Eu não tinha mais nem um minuto de descanso. Atendia a todos a qualquer hora do dia ou da noite.
E – E os fazendeiros?
AC – Continuaram a nos agredir. Juntaram-se todos à Igreja e nos denunciaram à República, pedindo providências imediatas. Um só pedido: a nossa destruição. Nada mais.
E – E a guerra de Canudos começou?
AC – Quando começou o dia de 24 de novembro de 1896, bem de madrugada ainda, o Exército estava às nossas portas. Bem armados belicamente, fuzis e metralhados, nos acordaram. Nós, sem armamento, sem técnicas de combate, juntamos nossas ferramentas de trabalho, espingardas velhas, revólveres enferrujados, foices, facões, porretes e entramos em guerra. Matar ou morrer? Não. Morrer ou matar. Resistimos. O tempo foi a nosso favor. O sol abrasador chegou e nosso inimigo não ia suportar essa inclemência. Nossos soldados, sem pensar no que fazer, atacaram em retaguarda. No final da batalha, muitas mortes de ambos os lados, e o Exército teve de debandar. Cantamos vitória do povo unido e reunido. O Exército da República diz que apenas abandonou o campo de batalha e que não foi vencido. Então, por que debandaram? Foi a primeira vitória do nosso povo. Que força é essa? Que valentia e que coragem?
E – Sim. Mas o Exército voltou mais bem preparado!!!
AC – Agora, estávamos também mais preparados. Juntamos o armamento abandonado pelos adversários no campo de batalha e nossas forças se recompuseram. Nessa segunda investida do Exército, nossa vitória foi cantada em termos nacionais. O país inteiro comentava as nossas vitórias. Chegou, então, a terceira força, comandada por eminentes generais, vindos da Capital da República e foram rechaçados com violência. Até os generais foram trucidados. Não fomos buscar a guerra. Estávamos nessa guerra apenas para nos defender. Nossas orações eram dirigidas no sentido de pedir paz e que nos deixassem viver a nossa vida de sertanejos perdidos nesse deserto de sofrimento.
E – Mas seu dia chegou! O Exército tinha que lavar sua honra de três derrotas consecutivas.
AC – Foi a carnificina final e acabada. Desta vez, com equipamento de guerra pesado, arrasaram por completo a nossa comunidade. Degolaram mulheres, crianças e velhos. Tudo sem dó nem piedade. Incendiaram todos os nossos casebres. Casebres indefesos. Morte total. Desaparecemos do mapa. Eu mesmo, tive morte nesse dia. Mesmo assim, fui exumado e degolado a faca, para gáudio dos sádicos inimigos. Éramos nessa época, mais de 20.000 flagelados, mortos e degolados, cabeças cortadas. Do Exército, mais de 5.000 soldados perderam a vida. Essa foi a Guerra dos Canudos. Setembro de 1897. Que lucro teve a República? Decisão, decisões desastradas! Esta é historia contada e recontada por tantos quanto tiveram alguma referência desse desastre.
E – Essa guerra foi criminosa?
AC – Antes de tudo, toda guerra é criminosa, mas esta foi considerada como o maior crime, tido e havido, nesta República.
E – E o final dessa Guerra de Canudos?
AC – O conflito de Canudos mobilizou aproximadamente doze mil soldados, oriundos de dezessete estados brasileiros, distribuídos em quatro  expedições militares. Em 1897, na quarta incursão, os militares incendiaram o arraial, mataram grande parte da população e degolaram centenas de prisioneiros. Estima-se que morreram ao todo, cerca de 25.000 pessoas, culminando com a destruição total da povoação.
E – Sei que ao final dessa guerra, foi publicada uma série de obras, escritas por testemunhas oculares, militares, jornalistas, médicos e outros. Destaca-se o livro de Euclides da Cunha, Os sertões, 1902,  jornalista correspondente do jornal Estado de São Paulo. Um dos mais importantes marcos da literatura brasileira.
AC – Bem sei! Sei também e reafirmo que esta Guerra de Canudos constituiu-se num dos maiores crimes já praticados em território brasileiro. Covardia exacerbada. Acabaram com a pobreza do país? Desapareceu a miséria? Reina, agora, o silêncio em Canudos! Dormem em paz os sertanejos insepultos e sonhadores!  Tudo pela glória de Deus!
E – Beato Antônio Conselheiro, louvado seja nosso senhor, Jesus Cristo!!!
AC – Para sempre seja louvado, irmão.        



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