quinta-feira, 27 de outubro de 2016

RETA FINAL

O ocaso do poder e da glória!!! Afastem-se de mim malditos fados, amargos e cruéis sonhos alados, que serão transformados em cinzas ao vento.


Eis a sentença inevitável e universal para os seres vivos: “ou morrer ou ficar velho”. Não há escapatória. A mocidade pode ser cantada ou decantada em prosa ou em verso que a guilhotina do tempo cortará palavras, ações ou intenções.
Festejando a passagem do tempo, aqui estão dois sonetos em lamentações e constatações dessa ventania do tempo.
O soneto é uma composição poética rígida em seu formato e imutável na sua estrutura. A síntese é a sua bandeira fundamental. As palavras ficam enjauladas no seu posto determinado. Assim foi desde os tempos de Petrarca e Dante Alighiere ou Camões. Mais recentemente, com o português Antero de Quental e os brasileiros Olavo Bilac, Raimundo Correia, Augusto dos Anjos. Recentemente, Vinicius de Morais. Os sonetos servem para exprimir paixão ou erotismo, conceitos filosóficos ou emoções, ou ainda, desabafo e choro de apaixonados e “cornuti”
Agora, são apresentados estes dois sonetos dedicados à terceira idade, sem choro nem vela. Eis a constatação da velhice, do antigo tempo de glória e poder. Retratam, sem retoque, imagens do tempo passado, das ilusões perdidas, tão cruéis como a própria fragilidade da vida. Os jovens que se cuidem que o tempo deles  chegará, rápido e trepidante. Amargos e cruéis sonhos alados que serão transformados em cinzas ao vento. Adeus sonhos alados!!! 


LEÃO VELHO
Leão velho vai no fim da manada
Estrepes nos pés, com fome incontida
Ronco rouco e vista turva embaçada
Juba emaranhada, força perdida.

O rei da selva com a extinta coroa
Embalde enfrenta seguir a jornada
Tenta pegar a ratazana à toa
E perde essa luta desesperada.

Os gordos ratos brincam em festival
Pulando  em suas pernas, sorridentes.
Nunca essa vida foi tão desigual.

Velho rei desfila, passos silentes
Quando os lobos aguardam o funeral
E as hienas em gritos estridentes. 



DESPEDIDA
Deixar de bandeja seu território
Seus troféus e tantas poucas medalhas
Conquistas que foram em duras batalhas.
Nada foi além de sonho ilusório.

A vida tornou-se em campos minados
Cada passo um trovão, uma tempestade
De tantos erros nasce esta maldade
Descaminhos, enganos deparados.

Dor silente corrói internamente
Nada resta senão que transportar
Para o corpo tudo que está na mente

E viva o herói sem poder mergulhar
Nessas águas turvas eternamente
Mesmo que esteja a ponto de chorar.

2 comentários:

  1. Rogério prezado,

    um mimo teu par de sonetos. Remetem-me a tempos colegiais, quando, no estudo dos Lusíadas, apareceu a figura do Velho do Restelo, temperando, com prudência a intrepidez dos navegantes lusos.
    abs, Paulo Miranda

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  2. Sou abençoado por ter vivido o suficiente para ter meus cabelos grisalhos e ter os risos da juventude gravados para sempre em sulcos profundos em meu rosto. No mais, vamos tocar o barco dia após dia... E como vc, vamos ter muitas histórias para contar. Continue a escrever esses belíssimos textos.

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