A lenda, o mito, o ícone, o folclore
Chico
Rei, nasceu no Congo como um monarca guerreiro e sumo-sacerdote do
Deus pagão Zambi-Apungo, foi capturado com toda a corte por comerciantes
portugueses de escravos e vendido com o filho Muzinga no Rio de Janeiro, de
onde foi levado assim como tantos outros escravos africanos em 1740, para
trabalhar na mineração de ouro. Sua esposa a rainha Djalô e a filha, a princesa
Itulo, foram jogadas no oceano pelos marujos do navio negreiro Madalena para
aplacar a ira dos Deuses da Tempestade, que quase o afundou.
Apresentação
A história não registra seus dados
biográficos. Também, qual teria sido o seu verdadeiro nome, registrado nos
cartórios? Teria sido batizado? Teria
sido alforriado? Teria sido camuflada a sua identidade por algum motivo?
Por isso mesmo, as brumas do tempo conduzem às dificuldades de provar
que ele tivesse realmente existido. Mesmo assim, sua vida, seus fatos e atos
foram construídos pela imaginação popular, e foram fortemente urdidos que se
consolidaram e, hoje, acredita-se que ele tenha mesmo vivido em Vila Rica do
Ouro Preto como escravo e como rei africano de muita sabedoria e com muita disposição para amar e para servir a seu
povo. Vale a pela conhecer essa história, ou essa lenda, como modelo de
soberano e de escravo, em toda essa dicotomia imaginária.
Entrevistador – Ao receber o nosso herói e
mito Chico-Rei, é necessária uma pergunta: gostaria de ser chamado de Alteza?
Chico-Rei – Estamos num país livre e
democrático. Pode me chamar de você, com muita honra. Fui realmente rei da
nação africana do Congo e hoje me deram o título de Chico-Rei, depois de ter
sido escravo do Major Augusto por mais de dez anos.
E – Você é um imigrante africano para Vila
Rica do Ouro Preto, em busca do ouro?
CR – Não fui um imigrante por livre e
espontânea vontade. Fui sequestrado pelos portugueses no meu próprio reino no
Congo, com toda a minha nobre família, meus auxiliares diretos e minha guarda
militar.
E – Sequestrado? Já havia sequestro nessa
época?
CR – Violentos sequestros. Grandes arrastões. Pegava-se um povo livre e
fazia dele escravo para o resto da vida. Sequestro para a escravidão.
E – Mas os portugueses e espanhóis eram
traficantes apenas de prisioneiros de guerra de países da África.
CR – Inicialmente, talvez, sim. Os próprios
monarcas vendiam também os criminosos comuns. A oferta foi diminuindo e a
demanda aumentando. Os traficantes de negros passaram a sequestrar mesmo, no
melhor sentido da palavra. Havia agentes especializados.
E – Como ocorreu isso? Não tinha guarda o
seu império?
CR – Uma emboscada no Templo do nosso Deus
Zâmbi Apungo. Muito triste. Fomos cercados e surpreendidos. Fomos presos e
amarrados dez em cada vara comprida e ali ficamos sem movimentos. Tudo muito
rápido. A princípio, pensamos que fossem os Zagas. Uma tribo de canibais que estava
ameaçando invadir o nosso território. Por isso, refugiamos no templo. Essa
tribo podia estar invadindo o nosso país. Pensávamos que eram os Zagas. Depois,
ouvimos palavras na língua portuguesa e percebemos que o mal seria muito maior.
E – Foi uma infelicidade! Quantos foram
aprisionados.
CR – Quase quatrocentas pessoas. Mas, liberaram
os velhos imprestáveis e as crianças muito pequenas. Eu era rei do Congo e
estava prisioneiro, junto com a rainha, com minha filha Itúlu e com meu filho,
Musinga, que tinha 15 anos.
E – Eram os traficantes de negros?
CH – Sim. Ficamos sabendo que eram
traficantes portugueses e que nosso destino era a viagem de despedida de nossa
terra. Despedida para nunca mais, isso tínhamos a certeza.
CR – O nosso traficante formou um grupo de
191 pessoas. Fomos marcados com ferro em brasa e tivemos que ser batizados
primeiro, antes do embarque. Era proibido pelo rei de Portugal traficar negros
sem batismo. O papa já tinha descoberto e decidido que os negros também tinham
alma.
E – E como foi esse batismo?
CR – Chamaram um padre, às pressas. Ele
jogou um punhado de sal na multidão e, depois, um balde de água benta, dizendo:
“todo homem vai chamar Francisco e toda
mulher vai chamar Maria”!
E – Havia muita gente no navio?
CR – Quase seiscentas pessoas, pertencentes
a vários outros traficantes. Cada um deles cuidava do lote dos seus prisioneiros.
Acorrentados a uma vara de madeira, como se fosse uma fieira de peixes. Cada
fieira com dez prisioneiros. Cada um cuidava do seu grupo.
E – Cada um cuidava do seu grupo? E como
era a alimentação e a higiene dentro da embarcação?
CR – A comida era milho cozido. Higiene nas
fileiras? Que higiene?
E – E quantos dias de viagem?
CR – Nem sei. Uns vinte. Pra mim, uma
eternidade.
E – Chegaram todos ao destino?
CR – Todo dia morria muita gente. Uma
tempestade obrigou ainda o comandante a descarregar muita gente no mar, para
aliviar a carga. Mulheres e crianças tinham menor valor e foram descarregadas
no mar bravio. A rainha e a minha filha se foram. Fiquei com Muzinga.
E – Vocês sabiam para onde estavam indo?
CR – Nunca pude entender. Para o mar, para
a morte, para o inferno. Nada podia ser pior. Só os mais fortes não morreram.
Nosso grupo mesmo ficou pequeno.
CR – Dizem que na cidade do Rio de Janeiro.
Mas nosso barco ficou ao largo. Por causa da fedentina não podia chegar ao cais.
Um bote de aluguel ia buscando os negros, aprisionados por lotes, de acordo com
a posse de cada traficante.
E – Levados para onde?
CR – Para o mercado de escravos, no cais do
porto. Os negros eram lavados e esfregados. Todos nus, trabalhados por outros
escravos que faziam esse serviço. Chegavam compradores e os negros tinham que
ficar fortes e bonitos, para atrair compradores. Era uma feira pra venda de
negros. Uma festa para muitos curiosos que assistiam ao espetáculo.
E – Esses negros lavadores falavam a sua
língua do Congo?

E – Você, quer dizer, o grupo do Congo, foi
vendido para um minerador de Vila Rica, o Major Augusto.
CR – Não sabia o nome dele ainda. Eleutério
era escravo do Major Augusto e gostou de nós. Separou um lote dos nossos
companheiros do Congo, nos separou e fechou negócio. Eleutério e o filho do Major Augusto passaram
a cuidar das nossas feridas.
E – Aí vocês foram para Vila Rica?
CR – Não naquele dia. Fomos dormir num
depósito de escravos, no meio de umas palhas de milho. Foi a primeira noite de
sono. Sono intranquilo. Cheio de preocupação. Musinga, felizmente, ficou no meu
grupo. Imagina se tivesse que me separar da única pessoa no mundo mais querida!
Musinga dormiu do meu lado, um sono profundo. Outros grupos, de outros
traficantes dormiam no mesmo local.
E – Viajaram na manhã seguinte?
CR – Na hora da partida, separamos dos
amigos e companheiros. Era uma manhã de sol assim. Mas ninguém tinha olhos para
ver o sol e o esplendor da manhã, para ver a natureza, perdidos que estávamos
na noite do nosso destino.
E – E aí?
CR – Prontos para a viagem, saímos do
armazém de escravos, vendo os companheiros que ainda ficavam para ser
comercializados. Lancei um olhar de despedida definitiva.
E – E se separaram?
CR – Eu, o rei do Congo, vendo meus súditos
algemados, infelizes e famintos em suas fieiras, humilhados e subjugados, feios
e fedorentos, mas eles eram, sobretudo amigos inesquecíveis, não pude deixar de
chorar sem controle.
CR – Olhei soberanamente e me despedi,
abençoando: “Até nunca mais, irmãos! Para vocês, meus companheiros, as minhas
lágrimas. Para eles, o meu ódio!”
E – Você falou isso na língua Conga?
CR – Sim! Ninguém mais deve ter entendido.
Só mesmo meus companheiros e alguns prisioneiros presentes puderam registrar
esse momento cruciante.
E – Mais alguma coisa, nesse momento de
despedida?
CR – A fragilidade das palavras não permite
invadir mais profundamente os corações humanos. Mas quem tem a clareza e o
brilho no pensamento pode, no seu íntimo mais profundo, dar o devido valor a
uma despedida como essa. Milhares de negros sentiram esse momento em suas
vidas, nesse indescritível calvário.
E – E viajaram a pé, sem destino conhecido.
CR - Viajamos a pé uns cinco dias e
chegamos a um lugar numa noite de chuva fria e de muito frio. Dormimos num
grande salão e tivemos um grande couro no chão. Aí, amontoadas as vinte e nove
rezes do nosso lote. Noite longa e sofrida.
E – Vocês sabiam que estavam em Vila Rica,
a cidade que mais produzia ouro do mundo?
CR – Quando acordamos de madrugada, eu
pensava que tinha morrido e estava no inferno mesmo. Mas inferno frio. Depois,
vi que estava vivo. Melhor ou pior? Nem sei mesmo. O que eles querem da gente? Eu
não sabia onde estava. Que terra é essa de frio e neblina? Perdi tudo, perdemos
tudo. Ainda bem que não perdi meu filho Musinga. Nada existe de pior, mas não
perdemos a vida. Sobreviver mais um dia. Ainda temos alguma coisa que é nosso.
Não perder a vida. A luta só acaba com a morte. Fazer tudo para não perder a
vida. Sofro junto com meu povo. Um dia, ainda saio dessa, Musinga. Nenhum Deus
deseja mal a ninguém.

CR – Fomos trabalhar na mina da
Encardideira do Major Augusto. Arrancar barro do chão. Falei pro meu pessoal:
eles querem barro, vamos arrancar barro pra eles. Muito barro. Nada de ficar
pensando. O escravo Eleutério acompanhando, dando ordens.
E – A tropa era boa de serviço?
CR – Eu tinha 36 anos e meus companheiros
mais ou menos a mesma idade. Só o Musinga era menino. Tropa nova e
valente. Não passou uma semana, Major
Augusto estava rindo à toa. O ouro apareceu outra vez.
E – Apareceu muito ouro? Major Augusto
reconheceu?
CR – Major Augusto ficou pensando que a
tropa nova sabia achar ouro de qualquer lugar. Eleutério me disse que nunca
tinha aparecido tanto barro e tanto ouro. Os negros cavavam até com as unhas,
mas o barro saía. Na hora de lavar, o ouro brilhava no fundo da bateia. Major
Augusto ria.
E – Major Augusto estava quebrado. Toda a
cidade ficou sabendo que a tropa nova era mesmo de sorte. Pagou as dívidas e
esbanjou riqueza em pouco tempo.
CR – O tempo foi passando. Eles querem o
barrão? Vamos dar o barro pra eles. Ninguém precisa revoltar ou chorar. Ficar
firme no trabalho. Um rei cavando terra com os súditos. Amigos e companheiros.
Mas, um dia o major Augusto até tentou falar comigo. Eu já sabia umas palavras.
Ouro, bateia, trabalho, barro. Ele
gostou. Eleutério gostou de mim. Major Augusto gostou de mim, gostou da tropa
nova.
E – O que é que vocês no seu grupo
conversavam sobre isso?
CR – Eu disse para os meus companheiros que
a vida tinha recomeçado. O pior já tinha passado. O caminho agora é outro. Eles
querem é barro. Vamos tirar barro pra eles. Ninguém vai contra. Revolta é
besteira. Barro por comida.
E – Major Augusto queria trabalho e
obediência. Ele dizia que os negros aprendem pela pedagogia da panela e do
chicote. E muito rapidamente.
CR – Os castigos eram dados pra outros
escravos. A tropa nova não carecia. Só a panela chegava pra nós. Tivemos o direito de batear pra nós mesmos aos
domingos. Começamos a juntar um pouco. Entregava tudo pro Guima, que era nosso
ministro das finanças do Congo. Guardava nosso ouro em separado. Não pensava
pra quê. Um dia vamos precisar. Juntar os pouquinhos.
E – E o ouro apareceu mesmo em outras minas
do Major Augusto?

E – Quer dizer que a tropa nova foi
dividida e subdividida?
CR – Com o tempo correndo, nem sei quanto.
Dividir pra dar sorte. Não era sorte, era trabalho pesado e continuado. Mas deu
resultado mesmo. Onde os negros da tropa nova apareciam o ouro vinha atrás. Depois
de mais de ano de trabalho nas minas, Major Augusto ficou doente. Eleutério me
chamou pra visitar o major Augusto que estava com costela quebrada por causa de
briga com escravos na horta dele. Pela primeira vez, conversei direto com ele.
Major Augusto agradeceu e pediu mais. Pedi ao Eleutério pra trazer Musinga pra
perto de mim. No dia seguinte, ele veio. Quase chorei de alegria. Fiz um pedido
e o pedido foi concedido. Vi que estava no caminho certo.
E – Você voltou outras vezes à casa do
Major Augusto?
CR – Tudo que ele precisava, Eleutério me
levava lá pra falar com ele. Eu entrava muito respeitoso. Ele me pediu pra pegar
uns escravos angolanos que tinham fugido. Eu fui atrás deles nas matas e nas
montanhas. Depois de três dias estava com os negros de volta. Trouxe de volta.
Falei com eles que não adiantava nada. Iam morrer da mesma forma. Fugir era
besteira, era a morte. Major Augusto deu umas chibatadas e perdoou a dívida
deles.
E – Havia negros de várias tribos africanas
em Vila Rica?
CR – Tribos demais, com línguas diferentes
que eu nem conhecia. Velhos, mulheres e crianças.
CR – Os velhos trabalhavam do mesmo jeito,
Depois de muito tempo, um ano ou dois, o Guima chegou dizendo que tinha visto
um negro velho bateando sem aguentar nem o peso da bateia. Quase morrendo de
velho. Mandei ele comprar esse velho. O
Guima disse que o senhor dele ia pedir cinco mil réis. Mandei ele oferecer
dois. Se o senhor não quisesse, falasse na língua dele para o negro desmaiar e
cair no chão. Meia hora depois, chegou o Guima com o negro Quilamba puxado pela
mão. Vinha agradecer. Era o Quilamba que já foi comandante de exército no Congo
e agora, velho demais pra trabalhar nas minas. Quilamba agradeceu e sorriu.
Tinha ainda uns dentes bonitos esse velho Quilamba.
E – Quer dizer que agora vocês tinham
comprado um escravo? Entraram no comércio de compra e venda da mercadoria
humana?
CR – Guima ainda tinha muito dinheiro
ajuntado. Mas agora eu tinha que dar comida e cama pro velho Quilamba. Aluguei
um quartinho pra ele e comida todo dia. Mas não parou aí. Mais um velho todo
dia. Um velho imprestável. Pra nós, prestava. Nossa despesa aumentou.
E – E foi comprando negro velho? E
alforriava?
CR – Mais do que a alforria. Pensão pro
resto da vida.
E – E você?
CR – Meu ideal era a alforria tanto minha,
do Musinga e de toda a nossa tropa nova do Congo.
E – E o Major Augusto?
CR – Ficou doente demais, pronto pra
morrer. As minas secaram, as dívidas apareceram outra vez. O tempo passando. Eleutério
era escravo de confiança.
E – Você comprou a sua alforria?
CR – Um dia, na bateia de domingo, achei
uma pepita de outro de 300 quilates. Com ela, podia comprar a minha alforria.
Major Augusto não queria ceder. Precisava de mim. Padre Figueiredo intercedeu e
o Major me alforriou. Fiz promessa pra ele de continuar trabalhando pra ele
também. Major Augusto tinha confiança total em mim. Acabou sendo mesmo meu
amigo e eu passei a ser feitor dele, também.
E – Alforriou outros companheiros?
CR – Alforriei Musinga e todos os
companheiros, um a um, mas continuamos trabalhando, até que um dia Major
Augusto mandou me chamar com urgência. Tremi, pensando que era algum roubo ou
desgraça de algum dos companheiros. E ele foi logo me dizendo: “queria vender a
mina da Encardideira pra você!”. Fiquei tonto. Como? Nem era possível! Comprar
uma mina de ouro? Sabia que essa mina não dava mais ouro, mas era um sítio bom
pra morar e local para os velhos. Tinha impostos atrasados. Mina abandonada há
muito tempo. Com quê eu pago? Não tenho nada! Ele disse que eu pagava quando
pudesse. Fiquei tonto. Disse que se o Major quisesse, eu ficava com ela. Pagar
aos pouquinhos. Estava carregada de impostos antigos, eu sabia. Mas era uma
mina de ouro.
E – Ficou tonto?

E – Tudo mudou desse dia em diante?
CR – Nem sei mais. Meus companheiros juntos
rezaram e choraram de alegria. Guima providenciou a forma de pagamento. Mas
chegou a notícia de que o companheiro Guimiú, ex-oficial da guarda do Congo não
tinha podido vir. Estava doente na cama. Guimiú era valente e forte demais pra
ficar deitado na cama, deixando de comparecer a uma reunião do seu chefe
Galanga Musinga, seu atual Chico.
E – Que fez então? Guimiú não compareceu?
Revoltado?
CR – Doente. Fui ao quarto dele, depois. Vi
como estava magro com diarréia constante e nenhum remédio do boticário
resolvia. Era um trapo, deitado sobre uns panos sujos na senzala. Hoje não pode
levantar, não pode comer, não pode sorrir, sem motivos e sem vontade. E ele me
disse: “tudo acabado, meu rei! Estou meio morto”. Respondi que não somos nada e
que tudo podia voltar e ele ficar bom de novo. Ele disse: “minha vida está
cumprida, meu rei. Entrego as armas.”
Disse pra ele que todos os irmãos do Congo estavam fazendo de tudo por
ele. Estavam juntos. Guima comprou de tudo pra você. Não vai faltar remédio,
temos dinheiro.
E – Estava com maculo? Aquela disenteria
incurável pela falta de higiene e de alimentação adequada. Estava deitado?
CR – Não conseguia levantar o braço. Chorou
por isso. Disse ainda: “não consigo levantar a mão para uma saudação ao meu
rei. Tenho vergonha por isso. Terra má, que acaba com um oficial do meu rei
estimado”. Eu disse para ele que o rei estava aqui, com ele. Não pude impedir a
queda de minhas lágrimas de despedida. Ele disse: “digo adeus para o meu rei
generoso.” Eu me senti um rei fraco, deixando cair lágrimas frente ao meu
oficial. Estava ainda com a cabeça cheia de tristeza, num momento final. Os
amigos escravos da tropa nova desfilaram a sua frente. Ele disse que tinha
vergonha de permanecer deitado, diante do seu rei. Foi a sua despedida. Em
seguida, ele fechou os olhos. Do lado de fora, 27 companheiros começaram a
entoar um hino da nossa terra, iluminando a sua despedida. Ficamos sentados,
agachados na porta da senzala a noite inteira. Meu oficial, o oficial Guimiú!
E – E tudo acabou! Mas você freqüentava
igrejas? Pertenceu a irmandades
religiosas?
CR – Negro escravo nem forro podia nem
entrar nas igrejas hora nenhuma. Irmandades eram só dos brancos. Mesmo assim,
consegui amizade com o velho Canuto, sacristão. Por ele, visitei igrejas todas
nas horas vagas. Ele me contou muitas histórias de santos, principalmente de
Santa Ifigênia. Eu ficava horas ouvindo Canuto me contar histórias de santos.
E – E festas dos negros?
CR – Havia muitas festas, batuques, com
cantorias e tambores. Eu ouvia de longe. Nunca frequentei. Ouvia e ficava
triste, matutando. Meu negócio era conseguir dinheiro para a alforria dos meus
amigos. E isso foi feito. Alforria, uma por uma. Musinga foi o primeiro.
E – Foi alforriando os companheiros da
tropa nova?
CR – Um por um. O Guima pagava e o negro
escravo vinha me agradecer, mostrando os braços fortes para o trabalho. Fazia
continência e alguns tentavam beijar meus pés. Nunca aceitei. Levantava o amigo
e batia meu peito no peito dele, num abraço de irmão total. Renascemos juntos
na desgraça, na humilhação e na tristeza. Vamos continuar juntos agora, mais
uma vez, na procura de um lugar menos infeliz.
E – Mas agora você era um minerador livre e
alforriado? Como ia a extração do ouro na mina Encardideira?
CR – Primeiro, levamos nossos velhos
alforriados todos para morar nos ranchos da mina. Eles mesmos queriam ainda
produzir e botaram a mão no barro. A tropa nova, os companheiros trabalhavam
dia e noite. Foi uma festa tirar o entulho de mina velha, cheia de mato, cobras
e lagartos.
E – E o ouro apareceu?
CR – Três dias depois, entramos direto na
mina. Arrancamos muito barro em amontoado perto das bicas. E o ouro começou a
aparecer pra nós.
E – Muito ouro?
CR – Musinga veio correndo para me mostrar.
Não tinha mais pote pra guardar o ouro em pó. Tivemos que providenciar. Tivemos
que reunir nosso grupo e pedir silêncio. Nada de ficar gritando, festejando
quando o ouro aparecia. Podia dar alarme e os roubos eram certos. Além disso,
as autoridades não acreditavam em negros de qualquer tribo. Nossa vida
melhorou. Fizemos do nosso grupo uma nação independente. Um por todos.
E – Ficaram ricos?
CR – Ricos não posso dizer. Tinha os potes
cheios de ouro, tinha vida melhor e livre. Comecei a agradecer os santos que o
Canuto trazia pra nós nas suas histórias. Fiquei amigo de Santa Ifigênia e da
irmandade dos negros. A igreja de Santa Ifigênia era nosso trabalho de hoje em
diante nos dias de folga.
E – E os negros velhos que ainda
trabalhavam por toda parte. Os negros também envelheciam.
CR – Nossa tropa nova, todos os
companheiros decidiram alforriar qualquer velho de qualquer nação africana.
Depois, cada um dos velhos ajudava os outros. Tudo aumentou muito depressa
demais. Nosso trabalho era arrancar ouro, alforriar velhos e construir a igreja
de Santa Ifigênia, na capela de Nossa Senhora do Rosário. Muita luta dia e
noite.
E – Dizem que o Governador Gomes Freire
quis conhecer você?
CR – Major Augusto, muito debilitado na
cama, mandou me chamar urgente. Fui correndo e tremendo. Cheguei lá na casa
dele, no quarto dele, estava Dom Manuel da Cruz, bispo de Mariana. Estavam
conversando. Quando eu cheguei, tomei a bênção ao Major e ao bispo. Tudo
conversado. Fiquei tremendo. Fiquei ouvindo e observando. Falaram da comunidade
negra e do meu rancho de negros velhos. Por final, me disseram que o Governador
Gomes Freire tinha mandado me chamar no Palácio, no dia seguinte. Agora eu
tremi mesmo. Tremi todo. O ar que eu respirava desapareceu de uma vez por
todas. Agachei num canto, esperando um ventinho chegar. O Governador? Vi meus
anos de trabalho duro irem por água abaixo. Vi meu povo, agora meu pequeno povo
de meu pequeno e humilde país, sofrer nova derrota. Tudo seria arrasado
novamente. Sabia que esse chamado seria
uma desgraça para meu povo. Tive a visão completa da nossa desgraça, da
destruição do nosso trabalho. Era a infelicidade. Eu previa que nós não
podíamos alcançar nada, porque seria destruído. Fiquei triste e apreensivo
demais.
CR – Era meu conhecido porque rezou missa
na Encardideira para meu povo, no primeiro dia de nosso trabalho. Viu nossos
velhos, viu meu povo, abençoou cada um e batizou muitos dos nossos
companheiros.
Conversou com alguns dos nossos velhos,
amparados por nós. Admirou tudo que viu e nos abençoou.
E – E o que ficou combinado na casa do
Major Augusto?
CR – O Governador Gomes Freire tinha
mandado me chamar, urgente. Marcou audiência para amanhã, às 14 horas. O bispo
falou que iria comigo. Fiquei mais aliviado. O que queria o Governador com esse
pobre africano alforriado?
E – Mas você foi à audiência?
CR – Tive que ir.
E – Como foi?
CR – Comprei um paletó branco de algodão,
uma calça de brim amarelo e uma sandália nova. Fui lá com dom Manuel da Cruz. O
palácio bonito demais. Me vi outra vez no Congo, onde tudo era meu. O
Governador queria saber sobre esses velhos pretos. Queria me colocar como
membro da guarda de cavalaria e autorizou a minha festa de senhora do Rosário.
O bispo tinha pedido a minha coroação como o rei do Congo no Brasil. Cheguei
muito humilde e ele estava querendo conversar comigo. A guarda ficou de longe e
o bispo teve que se afastar depois. Fiquei sozinho com o Governador Gomes
Freire. Comecei a falar sobre o meu reinado no Congo. Ele pediu mais. Queria
saber de tudo. Contei da viagem. Ele pediu mais. Me chamou para um canto. Pediu
pra falar da minha filha Itulu, que na minha língua significa flor. Falei da
rainha jogada no mar. Falei de tudo. Falei tudo. Ele queria saber tudo. Ele
botou a mão no meu ombro e me abençoou. Disse que podia fazer a festa do Congo
na igreja de Santa Ifigênia, pra nossa senhora do Rosário, podia fazer o
Congado e podia fazer a coroação. Dom
Manuel ficou abismado. Nunca pensou que tivesse tanto apoio do Governador.
E – E seus companheiros estavam
preocupados?
CR – Demais. Nem pode imaginar. Preocupados
demais. Pensavam que seria o nosso fim. O nosso destino estava por um triz. Se
eu falasse uma palavra errada, tudo estava perdido. Perdido sem retorno. Nosso
trabalho perdido, enterrado na mina outra vez. A gente tinha coragem de
recomeçar? Teria sido a nossa última desgraça dessa vida de sofrimento sem fim.
Quando eu cheguei de volta ao salão da mina, ela estava cheia de gente.
Vizinhos e amigos. Os companheiros apreensivos com essa audiência do
Governador. Nem brancos ele recebia, agora um negro forro! Coisa boa não podia
de ser. Vi os olhos de todos me perguntando: “Que aconteceu?” Que aconteceu? Eu
respondi: “Estamos salvos. Zâmbi Apungo nos acompanha nossa senhora do Rosário
guia nossos passos”. Aí, todo mundo se acalmou e eu pude contar tudo que
aconteceu. O bispo estava presente pra confirmar tudo com um sorriso de
aprovação. Aí, marcaram o dia da festa da coroação.
E – Festa da Coroação?
CR – Chico Rei foi autorizado pelo
Governador de fazer uma festa para coroar o Rei do Congo em Vila Rica. A nossa
festa como devia ser. Tudo do nosso jeito, junto com nossa senhora do Rosário e
Santa Ifigênia.
E – Aí, passaram a combinar as providências
para a festa da coroação?
E – E seu povo entrou nos preparativos da
grande festa da coroação?
CR – O bispo formou as comissões. Guima
ficou fazendo contas e disse que o dinheiro ia acabar. Como fazer? Disse eu
então pro Guima: “dinheiro a gente ganha outro. Os negros nunca tiveram nada
pra festejar. Vamos gastar o que for preciso para os negros ver a felicidade e
a alegria pelo menos uma vez na vida.”
E – E a festa foi um sucesso?
CR – No dia marcado, na hora marcada. Todo
mundo de branco espalhado no morro da igreja santa Ifigênia, o bispo celebrando
e me coroando rei do Congo no Brasil. Os grandes marujos tocavam e dançavam.
Houve comida, bebida, dança e cantoria a noite toda. Os grandes grupos, as
mulheres e crianças, dançando e cantando ao redor do templo. Festa
interminável. Sentados no chão, descansavam pra depois recomeçar a cantar e
gritar. Aí, Formei meu ministério com os companheiros da tropa nova, que já
eram empossados no antigo reinado do Congo.
E – A vida passa, as alegrias e as glórias
também passam. Mas, por isso mesmo, temos que aproveitar os pequenos momentos
de felicidade.
CR – Nunca imaginei de ter um dia de tanta
felicidade. Se eu tivesse morrido naquela hora mesmo, minha vida não teria sido
em vão. Os negros escravos e forros, mulatos e crioulos se juntaram em volta de
mim pedindo a bênção. Não reneguei ninguém. No final, o bispo dom Manoel da
Cruz, ajoelhou aos meus pés sujos de poeira, e beijou minhas mãos, dizendo pra
mim: “Vossa Alteza é um rei muito querido de seu povo. Eu também, de hoje em
diante, faço parte do seu povo.” Não pude deixar de desarmar meu coração. Um
santo homem branco, livre e independente, me fustigar assim, cara a cara, uma
gratidão que eu nunca poderia imaginar. Meu coração ficou despedaçado. Esse ato
de dom Manoel da Cruz, assim de improviso, me arrasou. Foi covardia dele, penso
agora. Meu coração ficou despedaçado. Minha voz desapareceu. Minha vista
escureceu. Foi um momento de escuridão no meu pensamento que quase me derrubou
no chão.
CR – Posso dizer agora, apesar de tudo, que
nunca fui tão afortunado em meus dias de vida quanto o tempo que passei nessa
terra de Vila Rica. Sem querer, sem imaginar, sem procurar, Zâmbi Apungo, Santa
Ifigênia e nossa senhora do Rosário puseram meus pés nessa terra abençoada que
é o Brasil, do meu respeito e admiração.
E – Nós agradecemos as suas palavras. Nosso
país teve o privilégio de acolher você e a tropa nova, para o seu próprio
engrandecimento. Tanto a tropa nova como todos os amigos da África que
aportaram nesse Brasil, para trabalhar e produzir a troco de sofrimento e dor.
Tantos morreram de tanto trabalho e de tanta humilhação. Hoje, são brasileiros.
Brasileiros que honram o nosso povo. Mais alguma palavra de despedida para o
povo brasileiro?
CR – Meu povo do Congo é agora povo do
Brasil, sem escravidão. Tinha a certeza de que qualquer povo nasce livre e tem
pés e mãos sem cordas e sem amarras. Tem a cabeça livre e o pensamento solto
como o vento. Ninguém é dono de ninguém. Somos livres pelo mundo afora. A nação
do Congo agradece. A nação do Congo tem o que agradecer.
Referência bibliográfica
ALVARENGA, Rogério de. Rei do Congo em Vila
Rica. Contagem/Minas Gerais: ed. Santa Clara, 2001.
[Essa obra obteve o primeiro PRÊMIO
VERÍSSIMO DE MELO (ensaio folclórico), concedido pela UNIÃO DE ESCRITORES
BRASILEIROS – UBE – Rio de Janeiro, em agosto de 2002, concorrendo com mais de
dois mil outros trabalhos, em nível nacional].
Eparre^ Sabia muito pouco sobre Chico Rei agora sei um pouco, obrigado.
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