O HERÓI NASCE


O Fera foi atropelado!

Esse Fera não passava de um vira-lata, sem pedigree, mas estimado como se fosse o rei da Mesopotâmia.  Tinha afeição ilimitada pelo Marcim, um garoto avançado, com nove anos incompletos, que cuidava dele, com carinho especial, todos os dias da sua vida. Era afeição mútua instalada à primeira vista.  Marcim não tinha irmão e o Fera, com o seu temperamento afetivo, supria as carências do garoto. Era fera, mas, para o seu amo, era guardião.
Foi atropelado na porta de casa, numa manhã sombria. Marcim o acolheu entre os braços. Não havia sangue, mas, certamente, ferimentos internos. Fera gemia baixinho, sem forças, com respiração ofegante.
Marcim ligou imediatamente para o pai, para pedir socorro. O pai, médico, não podia atender ao chamado, naquele momento. Retornaria a ligação, logo depois, informou a secretária.. E o pai esqueceu. Marcim, ou melhor, o Fera, não podia esperar.
Avisou à mãe que iria tomar as providências e levar o Fera imediatamente a uma clínica veterinária.
- Você não pode ir sozinho!
- Eu chamo um táxi. Tenho dinheiro guardado e posso ir agora mesmo.
Sem que a mãe pudesse imaginar a alternativa, Marcim já tinha chamado o taxi que estava já esperando à porta.  Colocou o Fera numa cesta grande, forrada com uma toalha azul e saiu em disparada, sem que a mãe pudesse imaginar para qual clínica ele pudesse ir. Saiu sem endereços, mas saiu. O taxista devia saber.
Não foi difícil localizar uma clínica veterinária nas imediações. Pagou o taxista e saiu carregando o Fera, agora imóvel e respirando muito suavemente. Não gemia mais. Entrou alucinado na clínica e ficou desesperado porque tinha os procedimentos de registro de entrada. O tempo ia passando. Finalmente, o veterinário veio em seu socorro e logo os dois, ou melhor, os três, entraram numa sala toda equipada de instrumentos cirúrgicos. O veterinário examinou com cuidado, mas o Fera não respondia e estava já exalando os últimos suspiros. E o veterinário deu a palavra inesperada e indesejada.
- Nada mais a fazer!
- Não pode! Precisa fazer alguma coisa! Isso não pode ficar assim! Tem que tentar alguma coisa!
- Não há mais jeito. Sinto muito. Pode voltar com ele pra casa, mas se quiser, podemos providenciar a cremação dele aqui mesmo.
- Cremação? Isso nunca!
Enquanto vinham as imagens de tristeza e separação, de perda e abandono, eis que o pai chega à clínica.
- Que aconteceu?
- Um desastre, pai. Nada pude fazer. Ele morreu nos meus braços.
- Sem problemas... Nós arranjamos outro cachorro pra você.
- Sem problemas? Então o senhor pensa que o Fera morto pode ser trocado por um Fera vivo? Nunca. Quero levar para casa e ficar com ele mais algum tempo.
- Você tem que compreender que o Ferra, infelizmente, morreu. Temos que tomar as providências necessárias para o final. Você já está com quase dez anos e precisa compreender.
- Eu compreendo, mas não concordo. Quero levar o Fera para casa.
- Nosso apartamento é pequeno, você tem seus deveres ainda hoje por cumprir. Como ficar com o cachorro morto dentro de casa?
- Cachorro morto dentro de casa? Ele é meu amigo! Eu posso deixar na área de serviço e depois, de noite, podemos decidir o que fazer.
- Ainda de noite?
- Compreenda, pai... eu estou triste demais.  Não quero ficar chorando nesta clínica, pois nem lenço eu trouxe.  Quero ir pra casa levando o Fera comigo, pela última vez.
- Não deixa de ser complicado. Vou respeitar o seu pedido.  Certo. Concordo. Então vamos
Chegaram em casa e Marcim carregando o Fera numa cesta grande. Pesava bem uns seis quilos. Ele fez questão de não permitir que ninguém o ajudasse. Procurou um lugar para depositar a cesta. Uma mesa? A mãe, Dulcina, achou melhor colocar numa cadeira. Todos foram ver a cara ou melhor o focinho do Fera morto.
Lavaram-se as mãos. Tomaram-se banhos. Almoçaram em silêncio. A vida parecia correr como de costume, mas tudo estava tenso demais. À tarde não ficou ninguém em casa. Todos cuidando das suas obrigações.
A noite chegou e as pessoas retornaram a casa, apreensivas quanto às providências que deveriam tomar para se livrarem daquele cachorro morto dentro de casa.
Em assembleia improvisada, ficou decidido que o enterro seria no jardim, num canto mais afastado do muro. Seria realizado naquela mesma noite e combinaram com o jardineiro para fazer os procedimentos, depois das vinte e três horas, quando o silêncio fosse total..
Ninguém pôde ligar televisão, naquela noite de vigília. O telefone tocou. Uma amiga da mãe do Marcim queria falar com ela. Já passava das nove horas.
- Dulcina, estamos esperando você para o meu aniversário. Os convidados estão perguntando por você. Você se esqueceu de mim, querida?
- Oh! Desculpe, Cidinha. Aconteceu um imprevisto, um desastre, um atropelamento.
- Quê? Você me assusta. Que aconteceu?
- Fale baixo porque estamos em orações no velório, na sala..
- Velório? Pelo amor de Deus, o que aconteceu?
- Acenderam as velas em torno do corpo e apagaram-se todas as luzes da sala. Marcim, coitado, não tem irmão, mas as duas irmãs estão dando todo conforto a ele. Estão em orações e em meditação profunda..
- Não posso imaginar o que esteja acontecendo. Você está bem?
- Felizmente, eu estou bem, mas o Marcim e as meninas estão em prantos.
- Só pode ser brincadeira! Você está me passando um trote? Uma pegadinha?
- Não! Não! Às vinte e três horas vai sair o enterro.
- Você me deixa alucinada! Quem morreu? Nunca vi enterro às vinte e três horas. Onde vai ser esse enterro?
- Vai ser no quintal, bem perto do muro. Bem afastado. O jardineiro já preparou tudo.
- No quintal? Não suporto mais nada. Penso que você não está bem! Vou dispensar os meus convidados rapidamente e vou pra aí. Preciso verificar isso tudo bem de perto.
- Venha mesmo porque o Marcim vai ficar muito sensibilizado com a sua presença. Será um conforto para nós. Aguardamos você. Um beijo!
- Espere. Não saia de casa enquanto eu não chegar. Vou levar o meu filho que é médico e pode articular com o Dino, seu marido, para as providências. Fique calma porque tudo vai ficar bem. Pode ter certeza. Beijos.
Dona Cidinha sentiu o drama e relatou para as amigas na sua festinha. Depois, cada uma das amigas deu apenas um telefonema. E cada uma das outras, outro telefonema e assim, a rede estava formada. A amiga Dulcina estava com desconforto mental. Claro, só podia mesmo estar.
Meia hora depois, dona Cidinha já estava fazendo parte dos garotos em orações e cânticos fúnebres. Cinco minutos depois, chega uma vizinha que tinha ficado sabendo. E assim, foram chegando as amigas, todas empenhadas em dar assistência imediata a dona Dulcina.
O pobre Fera, exposto no meio do salão, não ouvia nem via mais nada. Não latia. Dormia eternamente.
Dona Dulcina teve que preparar cafezinho para as amigas e o vira-lata Fera jamais teria pensado que o seu enterro fosse tão concorrido. A sala estava cheia de amigos e amigas. Marcim agradeceu a todos os presentes e sentiu-se mais confortável quando retornou a casa, deixando o Fera num lugar tranquilo e rodeado de flores.         
            
      

Comentários

  1. Amado Rogério, estou aqui em lágrimas, não me pergunte porque, com certeza não é pela morte do fera, apesar de eu ter me afeiçoado por ele, claro, nem pelo Marcim, que já está confortado. Bem, após estas análises eu já sei por que: porque a sua sensibilidade transborda e nos contagia. Obrigado pela lembrança meu amigo. Seu amigo Romero Bittar.,

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