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sábado, 22 de fevereiro de 2020

JUSCELINO KUBITSCHEK - O ESTADISTA DO SÉCULO XX

Tornou-se incontestável pela história contemporânea o reconhecimento de que JK representa, com segurança e unanimidade, o título de cidadão do século, no Brasil.


A confirmação foi feita pela revista, Isto é, de dezembro de 1999, mediante opinião de 30 personalidades da vida pública brasileira, tendo sido editada no número 1574, em separado. O júri indicou 30 nomes e foram classificados 20 deles. Jk foi escolhido como o primeiro e maior estadista do século. Não há especificação da metodologia utilizada, mas ficaram também classificados, por ordem de escolha, Getúlio Vargas, em segundo lugar, Ulisses Guimarães, em terceiro e Tancredo Neves em quarto. Seguem-se, por ordem de escolha, as seguintes personalidades: Luiz Carlos Prestes, Betinho, Marechal Cândido Rondon, Barão do Rio Branco, Jânio Quadros, João Goulart, Fernando Henrique Cardoso, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Castelo Branco, Teotônio Vilela, Brig. Eduardo Gomes, Luiz Inácio Lula da Silva, Oswaldo Aranha, Campos Sales e Rodrigues Alves.
Juscelino foi, sem dúvida, uma personalidade de alto nível de habilidade no tratamento interpessoal e desenvolvimentista por natureza. Disse ele, uma vez, que “não tenho vocação para obras pequenas”. Um episódio, muito simples, pode confirmar esta característica do estadista. Quando era governador do estado de Minas Gerais, foi convidado pelo secretário de Estado da Agricultura para um evento onde se distribuiriam 40 mil enxadas. JK, ao fazer um comentário, disse ao secretário: “Pensei que fossem distribuir 40 mil tratores”.
E quando era prefeito de Belo Horizonte, na década de 40, contratou mais de mil carroceiros, com seus respectivos burros, para abrir as avenidas Amazonas e Antônio Carlos. Projetou essas avenidas com 50m de largura. Agora, 50 anos depois, num grande esforço, o governo estadual conseguiu o alargamento da av. Antônio Carlos para 25m de largura. Eis a visão de futuro.


Av. Amazonas com destaque da Praça Raul Soares- BH anos 40. fonte curraldelrei.blogspot

JK sabia ouvir. E ouviu o jovem Tuniquinho, em Jataí, no estado de Goiás, quando fazia um discurso político em 1955. Tuniquinho perguntou: “É possível seguir a Constituição do país, transferindo a Capital da República para o planalto central? O senhor prometeria fazer isso?” JK tomou um susto e num átimo de decisão, não teve alternativa e prometeu e cumpriu. Para a inauguração de Brasília, Tuniquinho não foi esquecido.
Juscelino conhecia os operários, construtores de Brasília, os candangos, pelo nome. Conversava e aplaudia cada um deles.
Juscelino chorou a morte do engenheiro Bernardo Sayao, bravo sertanista, fiel pioneiro, ex-vice-governador do estado de Goiás, encarregado da construção da estrada Belém/Brasília, tolhido por ocasião da derrubada de uma árvore.
Mais tarde, JK teve a permissão de comparecer ao velório de sua irmã, Naná, única e amada irmã, quando estava em exílio político e não poderia voltar ao país, sem ser preso. Chegou, o mais camuflado possível, para que ninguém o reconhecesse. Era impossível. Por onde passava, recebia abraços e cumprimentos de tantos que o admiravam. Com dificuldade, chegou ao lado da irmã, falecida. Meditou e conseguiu um minuto de silêncio. Houve um momento de silêncio total, de respeito ao ambiente. JK meditou a sua vida, seu sofrimento, sua amargura. Pensou na sua vida de criança pobre ao lado da irmã e não suportou. Teve uma primeira lágrima caída. Depois outra. Enfim, não suportou e teve um choro convulsivo que não terminava. Por fim, chorou mesmo tudo que tinha que chorar. Foi um desabafo.
Cumpria a sua missão de vida. Fazia a sua parte. Nunca teve como meta o reconhecimento de sua obra. Sua vida foi uma missão. Cumpriu-a. Era um ser humano que sentia e respirava o respeito e a amizade, acima de tudo.



quarta-feira, 17 de abril de 2019

21 DE ABRIL DE 1792 – TIRADENTES, O HERÓI

Capa do livro Tiradentes- Coleção 
Coletânea de Entrevistas Virtuais Minas Gerais Gente Que Fez a História do Brasil.
Joaquim José da Silva Xavier, ou simplesmente Tiradentes, o Mártir da Inconfidência Mineira
Lutou pela liberdade e contra exploração.


Tiradentes envolveu-se, juntamente com personalidades civis, militares e religiosas de Ouro Preto, no sentido de libertar o Brasil do jugo do colonizador português. Foi denunciado, preso durante três anos no Rio de Janeiro, julgado por uma corte de juízes portugueses e condenado a morte pela rainha D. Maria I de Portugal. Para tanto, seus companheiros foram condenados ao exílio perpétuo. Tiradentes foi enforcado em praça pública no Rio de Janeiro e esquartejado a machado, no local, em 5 partes que foram fincadas em postes altos nas estradas do estado de Minas Gerais. O dia do seu enforcamento, 21 de abril, é o feriado nacional. 

Mas, finalmente teve que confessar!
Eis uma versão imaginária de um depoimento de Tiradentes, frente a um juiz inquisidor, na busca de sua possível confissão como chefe da conspiração de Vila Rica:
“Não fale essa palavra confessar! Nada tinha a confessar. Poderia relatar as ocorrências, mas nunca em forma de confissão policial. Não cometi um deslize sequer que acusasse a minha consciência, o meu foro íntimo. Tudo em plena convicção em louvor à minha pátria. Mas o tribunal me pressionou mais uma vez. “Você é o cabeça do motim da capitania de Minas Gerais! Você é o louco da sedição! Você convocou e convenceu até estrangeiros! Você é um covarde, alferes traidor de sua Majestade! Todos os seus companheiros, padres, juristas, militares, mineradores, empresários são unânimes em confirmar que suas palavras inflamadas levaram todos à desgraça, ao infortúnio, ao sofrimento sem limites! Confesse, traidor!.” Prosseguiram mais acusando do que perguntando. Na minha vez, respondi: “Projetei, sim, o levante para criar uma pátria livre e rica! Sempre neguei, mas não foi por covardia. Não queria implicar meus amigos e companheiros justamente para preservar a integridade de cada um deles. Todos me ouviam, me incentivavam e me acompanhavam. Tudo neguei por eles! Pelos meus amigos! Digo, agora, diante destas circunstâncias, com a clareza das minhas convicções – sim, é verdade que eu premeditava esse levante. É minha a ideia. Planejei tudo sozinho! Tenho a fronte erguida para os meus ideais de uma pátria livre e independente do jugo português! E queiram os senhores juízes deste tribunal ou não, mais hoje, mais amanhã as sementes germinarão e o Brasil será uma das maiores nações livres do mundo! Livre do jugo de quem quer que seja! Esta é a minha convicção inabalável. Nunca uma confissão! Não ocultarei a mais leve coisa da verdade. Faltar a ela seria me desculpar, o que não o faço e nunca farei!” 

O povo brasileiro reverencia o alferes Tiradentes como, de fato e de direito, o PATRONO CÍVICO DA NAÇÃO BRASILEIRA, PATRONO DA POLÍCIA MILITAR E CIVIL DO BRASIL E PROTOMÁRTIR DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE - V



5ª Carta virtual ao doutor João Pinheiro da Silva (1860 – 1908)


ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE,
Capital do estado de MINAS GERAIS, inaugurada em 12  de dezembro de 1897 - BRASIL


 Belo Horizonte, 12 de dezembro de 2011


PREZADO AMIGO EX-GOVERNADOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA!

Esta é a minha última carta. Aqui me despeço, sempre muito respeitosamente. Estamos comemorando hoje, dia 12 de dezembro, os 114 anos da nossa cidade: Belo Horizonte. Jovem, majestosa, altaneira. Moderna. Totalmente moderna. Tantos poetas já se encantaram com ela, a partir de Mário de Andrade que, numa visita, chamou-a de “cidade jardim”, “cidade vergel”.

Não é feriado municipal. Uma injustiça! É uma cidade que não comemora o seu aniversário. Muitas razões, nenhuma verdadeira. Acredita? Os vereadores da cidade tiveram ousadia de eliminar o feriado comemorativo do aniversário de nossa BH, por causa do feriado religioso de 8 de dezembro, quatro dias antes. Foi justo? Foi correto? Foi sem maldade no coração? Transferimos, por acaso, as datas do aniversário de nossos filhos e ou de nosso pai, ou de nossa mãe para outro dia qualquer?   Uma capital, corajosamente idealizada, construída e implantada na região central do seu estado, corajosamente implantada, com muitos sacrifícios, nas cercanias da serra do Curral, com o objetivo de representar os sonhos e as esperanças de todos os mineiros, pode ser relegada a um mau olhado qualquer? O desrespeito às nossas tradições, aos nossos valores, à nossa dignidade faz com que a nossa autoestima venha sendo carcomida e desgastada.
Vereadores da capital do estado de Minas Gerais! Restabeleçam as adequadas e merecidas homenagens à bela cidade de Belo Horizonte, no dia de sua inauguração, 12 de dezembro de 1897. Cumpre ser declarado feriado municipal para a comemoração festiva dessa data.


Aqui me despeço respeitosamente agradecido. 




segunda-feira, 15 de abril de 2013

ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE - IV


4ª Carta virtual ao doutor João Pinheiro da Silva (1860 – 1908)

ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE,
Capital do estado de MINAS GERAIS, inaugurada em 12  de dezembro de 1897 - BRASIL



Belo Horizonte, 2 de dezembro de 2011


CARO E PREZADO JOÃO PINHEIRO!
SAUDAÇÕES RESPEITOSAS

Os que sempre mudam são os ciganos e os bandeirantes. O destino deles é viajar. Hoje, também os astronautas.
Mudando um pouco a convergência dos nossos assuntos, lembrei-me de comentar alguma coisa que é também do seu conhecimento. É sobre a matriz da Boa Viagem. Aliás, Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem. Ela foi construída pelo povo de Curral del-Rei, com muita devoção e carinho. Era antes uma capela de taipa, de capim, tosca.        Com o tempo, com as reformas e adaptações constantes, tornou-se um templo de maiores dimensões, artisticamente posto para os atos religiosos da população que crescia e se envolvia em atividades do comércio e da agropecuária. Isso mesmo! A antiga capela de Nossa Senhora da Boa Viagem trazia consigo uma história bem fundamentada de um piloto da nau de Dom João V (1689 – 1750) que naufragou nas cercanias da ilha das Cobras no Rio de Janeiro, em 1709. Era o piloto da nau o senhor Francisco Homem del-Rei, que conseguiu retirar o nicho com essa imagem de Nossa Senhora da Boa Morte e guardou  essa imagem, portando-a consigo.
Mais tarde, chegando ao povoado de Curral del-Rei, iniciou a construção de uma capela para abrigá-la, tendo essa imagem como guia e padroeira.  Tanto tempo passou, tendo a decisão de tornar essa capela em confortável templo de orações. Trabalho continuado e persistente. Assim, a matriz teve a provável conclusão apontada para os anos de 1775/1776. Já não era uma simples capela, mas a matriz da freguesia de Curral del-Rei. Teve pois a sua missão de abrigar as almas religiosas por 135 anos. Agora, chegou a Comissão Construtora da Nova Capital com o objetivo formado quanto à estrutura arquitetônica da Cidade de Minas que não admitia a permanência de edificações em estilo colonial nem barroco.  Assim,  a matriz foi condenada à demolição, juntamente com todas as outras edificações religiosas existentes. 
Na primeira tentativa de demolição, as demais tombaram e a matriz da Nossa Senhora da Boa Viagem permaneceu mais alguns anos, mediante a intervenção popular e da diocese de Mariana. Mesmo assim, estava condenada e a sua  parte frontal foi demolida em 1911. Para substituí-la, foi iniciada a construção de catedral, estilo gótico, em 1912. Ainda inacabada, em 1923, ela foi inaugurada, disponibilizando-se para atos religiosos, substituindo a velha matriz.
Era pensamento firmado da Comissão Construtora da Nova Capital não deixar vestígios de Curral del-Rei, numa obstinação compulsiva contra o estilo colonial barroco. Com isso, nada configura esse povoado erguido por João Leite da Silva Ortiz, a não ser a fazenda do Leitão, ou fazenda do Cercado. Cruel reminiscência para as decisões da CCNC. Poderiam ainda não se perdoar por esse esquecimento, por esse lapso, deixando de pé essa gloriosa edificação memorial.  Hoje tornou-se o monumental Museu Histórico Abílio Barreto, com centenas de documentos que confirmam o passado do velho povoado. Esta fazenda do Cercado, hoje museu, é uma edificação que fala por si mesma, assombrando as demais edificações em estilo moderno que a rodeiam. Pressente-se que o espaço interno desse museu deva ficar livre e desimpedido para permitir a passagem dos visitantes no roteiro interno das edificações coloniais. O varandão, as salas, os corredores devem estar livres de outros objetos que não pertençam à época. A edificação, o museu fala por si.
Outros templos erigidos na Cidade de Minas, em estilo neogótico foram inaugurados na década de 20. A igreja de Lourdes (1922), de fino acabamento e sólida estrutura. Outros já seriam inaugurados como a igreja de São José e a Sagrado Coração de Jesus. Mas ainda são da década de 20 os monumentos da igreja de São Sebastião no Barro Preto e Nossa Senhora das Dores, na Floresta (1921).
Não se poderia deixar de informar sobre a presença do majestoso edifício do Automóvel Clube, estilo neoclássico, com projeto de Luiz Signorelli, inaugurado em dezembro de 1929 e da sede do Banco do Brasil, 1926, (Avenida Afonso Pena, ao lado do Café Nice).
Relembrando e confirmando que a inauguração do monumental Viaduto Santa Teresa, em 1929, tinha como governador-presidente, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e prefeito da capital Belo Horizonte, doutor Cristiano Machado. 
Doutor João Pinheiro! Quem somos nós para discutir princípios e metas dessa Comissão Construtora da Nova Capital, sobre a demolição total e radical da velha freguesia de Curral del-Rei?  Eles imaginavam uma cidade inteiramente moderna, sem nenhum vestígio do estilo colonial barroco de Ouro Preto. Nisso, nesse particular, foram determinados e realmente surgiu uma cidade com aspectos angulares do século XX. Foi uma decisão corajosa porque o povoado já contava quase 200 anos. Limpar a área, devastar o campo e fazer um amplo e belo horizonte. Foi realmente o que fizeram e obraram muito bem.
Como tinha previsto na minha carta anterior, o desenvolvimento do ensino público no estado deve tudo e principalmente à sua iniciativa. Lembra-se da inauguração do Grupo Escolar de Diamantina? Lembra-se de que dona Júlia Kubitschek, (1873 – 1971) mãe do ex-presidente Juscelino Kubitschek,  era  professora de uma das pequenas escolas particulares?  Lembra-se de que nas pequenas salas reuniam os alunos de todos os níveis de desenvolvimento? O professor ou professora ensinava a todos na mesma classe, ou melhor, havia apenas uma classe. Esse Grupo Escolar de Diamantina foi inaugurado em 1906, com a sua presença, claro. O filho de dona Júlia, Juscelino Kubistchek (1902 -1976) também estava presente e contava quatro anos de idade. Depois, imediatamente, o senhor se dirigiu para a sua cidade natal, Serro, para a inauguração também do primeiro Grupo Escolar da cidade. Com isso, os professores seriam remunerados pelo estado e haveria classes separadas para os alunos em seus diversos níveis. Assim surgiu este termo: Grupo Escolar no estado de Minas Gerais.
Em Belo Horizonte, outras iniciativas do mesmo sentido foram realizadas e o Grupo Escolar Barão do Rio Branco teve montagem especial e o senhor fazia questão de verificar a qualidade até do mobiliário, além das instalações, de modo geral, para conforto dos alunos e dos professores.
Imagine que o presidente do estado, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada  criou a Universidade de Minas  Gerais e, em 7 de setembro de 1927, reuniu num só bloco os estabelecimentos de ensino superior do estado. Foi nomeado, como primeiro reitor, o professor Francisco Mendes Pimentel. Todas as escolas funcionariam nos seus respectivos prédios, tendo a Universidade como sede provisória o edifício Stecket, à Rua Guajajaras. A federalização ocorreu em 1949, sendo que a criação da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, ocorreu em 1965, como ainda permanece nos dias atuais.
Foram criadas no início do século XX, as seguintes faculdades:
- Faculdade Livre de Direito, implantada em Ouro Preto e transferida para a capital em 10 de dezembro de 1908.
- Faculdade de Medicina, em 5 de março de 1911.
- Faculdade Livre de Odontologia e Farmácia, criada em 8 de março de 1911.
- Faculdade de Engenharia, em 21 de março de 1911.

Respeitosas saudações.

quarta-feira, 27 de março de 2013

ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE - III


3ª Carta virtual ao DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA (1860 – 1908)


ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE,
Capital do estado de MINAS GERAIS, inaugurada em 12  de dezembro de 1897 - BRASIL


Belo Horizonte, 17 de novembro de 2011

EXCELENTÍSSIMO SENHOR
JOÃO PINHEIRO DA SILVA
  
Hoje, os mudancistas progressistas estiveram pairando sobre o imaginário dos mineiros. Mudar a capital foi um ato de coragem. Mas, nesta vida não há escapatória. Mudar é uma lei do universo. No dia que uma pessoa nasce,  casa-se com a mudança. Pode não ter sido um casamento formal, mas irá passar o resto da vida juntos.
A velha capital do estado de Minas Gerais, Ouro Preto, teve que adaptar-se para não desaparecer. Sofreu o baque da depressão total, reagiu e hoje é transformada em cidade monumento, patrimônio da humanidade. A capital do estado foi transferida para Belo Horizonte. Ouro Preto teve que adaptar-se.
O desenvolvimento, também, causa desequilíbrio. Quem quer que seja que provar do desenvolvimento, sentirá na pele a necessidade de se adaptar às novas emergências.
Assim, em 1830, um cavalo apostou uma corrida com a locomotiva e perdeu. Pela primeira vez no mundo, um ser humano viajava mais rápido que um cavalo e, em 1906, Santos-Dumont levantou um aparelho mais pesado que o ar, transportando uma pessoa. Hoje, um avião a jato transporta centenas de passageiros confortavelmente, a preços disponíveis para todas as classes sociais e econômicas.
Doutor João Pinheiro, veja a diferença de tecnologia entre o rei Salomão e Dom Pedro I. Estiveram separados por mais de 3.000 anos, mas ambos viveram em condições semelhantes. Nenhum teve o sistema de água encanada, aquecimento ou refrigeração e iluminação. Dominavam pelo poder escravo. E o sistema de transporte e comunicação? Tudo feito pelo cavalo. Até as guerras. Muito pouca coisa aconteceu entre a vida de um e do outro. Pois bem, veja as transformações que ocorreram no mundo, nestes últimos 141 anos? Não ficou pedra sobre pedra.
Para finalizar, veja que, se uma pessoa disser, hoje, que está fazendo uma determinada coisa da mesma maneira que costumava fazer, ele estará, provavelmente, fazendo-a por um método ultrapassado. Alguém estará fazendo melhor. Veja, pois, no alto desses anos de 2011, os mudancistas da nova capital tinham razão. Imagine se estivéssemos subindo e descendo as velhas ladeiras de Ouro Preto, ainda hoje. Imagine, agora, o senhor, no alto do século 21, se a capital do Brasil ainda rondasse praias e favelas. Mudança é uma constante ameaça. Se alguém deseja permanecer no seu negócio por alguns anos a mais, é melhor que esteja disposto a fazer mudanças propositalmente.
Peço me desculpar por essas divagações. Achei-as oportunas porque o senhor derrubou princípios e crenças, inovou, criou, estimulou. Devemos nós, eu sei e sabemos todos, que sua compulsão pela educação deu frutos e hoje, apesar de o estado de Minas Gerais contar apenas 300 anos, consegue, em muitas frentes de trabalho e de conhecimento, superar ou acompanhar outros estados com 500 anos de vida civilizada.
Esta divagação tornou-se importante para reconhecer a capacidade de decisão dos nossos governantes mineiros do final do século XIX. Assim justifico.
Sabemos que a sua intenção era o desenvolvimento da educação como meta, fator primordial.
Quero ressaltar um fato para seu agrado imediato. Todos os governadores/presidentes que o sucederam tinham por meta a educação, mas no ano de 1926, tomou posse o presidente-governador, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (1870 – 1946), também obstinado pela educação. Não media esforços na continuidade do seu aperfeiçoamento, pois o estado já contava com centenas de grupos escolares. Entretanto, era notado um desconcerto na programação escolar e era urgente o aperfeiçoamento dos professores e dinamização dos métodos de ensino. A mudança de métodos exigia, pois, recursos intelectuais oriundos dos países mais avançados. Por isso, saiu atrás de cérebros na psicopedagogia da Europa. Contratou Léon Walter, psicólogo, por um período de um ano. Vencido o contrato, enviou emissários à Suíça, principalmente ao recente Instituto Jean Jacques Rousseau, em Genebra, onde contratou a psicóloga russa, Helena Antipoff, (1892 – 1974). O contrato de um ano, 1929, que ela firmou com o estado foi reformado sucessivamente e Helena Antipoff aqui permaneceu até a sua morte.  Tal fato merece uma consideração especial, pois, naquela época, Antônio Carlos pressentia a necessidade de modernização dos métodos de ensino. Não mediu esforços e foi em busca das novidades tecnológicas.
Informo que hoje a educação fundamental no estado e mesmo no país está em fase de expectativa por mudanças. Veja bem!  Qual é a base da revolução da China? A educação. A verdadeira salvação da humanidade! Cumpre despertar as autoridades! Como o senhor disse: “Não há democracia sem educação.” E a educação no Brasil está em crise. Pressente-se a necessidade de transformação de métodos de ensino, para o enfrentamento dos desafios da tecnologia  Visão 360 graus. Como acompanhar o avanço surpreendentemente rápido dessa tecnologia em todos os campos do conhecimento? Tudo mudou nestes últimos anos. E o que mudou ontem?  E o que está sendo mudado hoje?
Esperemos um novo João Pinheiro da Silva? Ou esperemos um novo Antônio Carlos Ribeiro de Andrada? Esperemos uma nova Helena Antipoff?
Até quando?     
                        

terça-feira, 19 de março de 2013

ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE - II



2ª Carta virtual ao DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA (1860 – 1908)


ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE,
Capital do estado de MINAS GERAIS, inaugurada em 12  de dezembro de 1897 - BRASIL


Belo Horizonte, 16 de novembro de 2011

DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA
Ex-Presidente do Estado de Minas Gerais

RESPEITOSAS SAUDAÇÕES 
Cumprimento-o, mais uma vez, nesta manhã de sol, de ventos suaves como são as brisas das montanhas.
Lembrei-me de comentar com o senhor sobre o primeiro habitante civilizado destas plagas: JOÃO LEITE DA SILVA ORTIZ.
Ele chegou a esta região em 1701, vindo não sei de qual região do estado de São Paulo, para fazer não sei o quê. Claro está que ele procurava ouro. O certo é que esse bandeirante aconchegou-se às serras das Congonhas, hoje, serra do Curral e aqui permaneceu durante quase trinta anos.
Os bandeirantes são andarilhos por excelência, mas  João Leite da Silva Ortiz achou graça neste local e resolveu permanecer e explorar a região. Assim, seus amigos e companheiros de bandeira procuraram produzir alguma coisa de subsistência, dentro dos padrões mais primitivos de sobrevivência: plantar, colher e comer.  Não encontrou ouro na região e resolveu aprofundar sua expedição para o interior do estado de Goiás. Mais tarde, chegou a notícia que ele tinha falecido em 1730, na cidade do Recife.
Imagine-se que há 310 anos, neste local, foi iniciada a construção do povoado de Curral del-Rei, que progrediu rudimentarmente também na criação de gado, vindo da Bahia, na plantação de cereais e, posteriormente, até de algodão. Em Contagem das Abóboras, nas proximidades de Curral del-Rei, havia o posto de fiscalização para cobrança de impostos e registro do gado, de modo que corria muito dinheiro na praça.
Edificaram-se casas muito simples, mas adequadas para as condições sociais e econômicas dos seus moradores da época.    Posteriormente, Aarão Reis, o construtor da Nova Capital, como o senhor sabe, chamou essas construções de “choupanas”. O povoado cresceu e desenvolveu. Foram instaladas fábricas de tecidos em Sabará. Até mesmo iniciativas de fundição de ferro e bronze. A usina ficava nas imediações da lagoa Maria Dias, atualmente entre a Avenida Paraná e Rua dos Carijós.
Mas, em continuidade, construiu a Fazenda do Cercado. Era a sua sede administrativa, sua residência. Ela ficou. Informo ao senhor que essa bela fazenda é o único vestígio arquitetônico da passagem dele por esta região. Encontra-se primorosamente conservada e transformada como museu. Hoje, Museu Histórico Abílio Barreto. É um retrato vivo da história da Cidade de Minas, ou melhor, do povoado de Curral del-Rei. Esse museu é uma relíquia que aos tempos confirmará a nossa origem.
Outra coisa que gostaria de comentar com o senhor seria a atuação dos opositores à mudança da capital de Ouro Preto para outro lugar qualquer que fosse, mesmo ainda não definido. Como o senhor sabe, para toda ideia que surja e que implique em mudança, existem opositores, sempre bem armados de argumentos fortes. Os ouro-pretanos se armaram de argumentos, reunindo forças contrárias à mudança, forças políticas desafiadoras. Arregaçaram-se as mangas da camisa e saíram em defesa da permanência da capital em Ouro Preto, cidade muito amada.
Na verdade, um dos fortes argumentos criados  pela oposição era a constatação de que grande número dos moradores do povoado de Curral del-Rei, local escolhido para a construção da capital, sofria de bócio. Seria o clima, ou a água da região? Não havia estudos comprobatórios. Pois não é que havia mesmo na região alguma coisa que parecia uma epidemia de papudos, isto é, de pessoas que tinham um tipo de deformação física denominada de bócio? Diziam que era causado pelo clima. Talvez que o ar ou a água da região contaminava os moradores, e coisa e tal.
Por outro lado, havia outras regiões, além desta do Vale do rio das Velhas, que pleiteavam a instalação da nova capital. Formaram-se os grupos que defendiam essas regiões. Eram grupos de mudancistas. Pleiteavam mudanças para a sua região. Uma dessas facções de mudancistas, uma delas, a mais forte, era a região próxima a São João del-Rei, que relembrava o imaginário dos inconfidentes.
Assim, nas decisões finais, tendo como grande defensor Augusto de Lima (1859 – 1934), Curral del-Rei venceu por dois votos apenas, considerando-se a sua localização como um ponto equidistante de todas as regiões do estado. Não seria totalmente equidistante, mas o ponto geográfico que facilitaria a comunicação com todas as regiões do estado. Argumento muito forte, não é verdade?
Afonso Pena (1847 – 1909) não perdeu tempo. Criou logo a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) pela Lei n.3, art. 2º., adicional à Constituição do estado, em 7 de dezembro de 1893.     Confiou a coordenação ao engenheiro Aarão Reis (1853 – 1936). Prazo para a construção da nova capital? Quatro anos.
Quando essa Comissão Construtora da Nova Capital arranchou no povoado de Curral del-Rei, encontrou uma região com moradores tradicionais por assim dizer, habitada desde 1701. Propriedades urbanas e rurais. Havia na época, no povoado, 172 casas residenciais, 4.000 habitantes, 8 ruas, 16 pontos comerciais, 31 fazendas, 1 farmácia, 2 pontos de escolas, 2 largos ou praças. Vários engenhos. Era um povoado já com mais de cem anos de existência.
Houve a decisão do chefe da Comissão Construtora: destruir tudo para começar tudo de novo. Eis a questão. Prejuízos generalizados. A quem recorrer?  Acontece que grande extensão de terras da região já pertencia ao estado. Os moradores passaram, então, a serem admitidos como operários da Comissão Construtora, numa forma de suavizar prejuízos.
Na ocasião, havia 6.000 operários na construção da Nova Capital. E grandes problemas para a gerência das obras. Aarão Reis não resistiu até o final da obra e pediu exoneração. Foi substituído pelo engenheiro Francisco Bicalho que gerenciou a obra até o dia de sua inauguração, dentro do prazo estabelecido.
Imagine, senhor presidente do estado, como era o regime de trabalho da época, após a abolição da escravatura. Alimentação para esses trabalhadores, habitação, saúde, nesse planalto vazio de recursos?
Com muito sofrimento humano, sofrimento incalculável, como sempre, nesse curto espaço de tempo, a cidade floresceu. Veja que Brasília foi construída em três anos e oito meses.
Meu pensamento vagueia pelos idos de 1890, tempos que o senhor teve oportunidade de presenciar, de participar e de comandar.
Fui longe demais nesse passeio no tempo e peço desculpas se não tiver sido totalmente exato nestas informações.
Voltarei ao assunto, mas ainda vou tentar identificar a questão da mudança. Mudar por mudar - sempre para subir mais um degrau no aperfeiçoamento humano. O que move a humanidade é o inconformismo.
O presidente Afonso Pena (1847 – 1909), então presidente Conselho do estado, decidiu que seria construída uma nova capital, pois Ouro Preto não tinha mais condições de suportar as dimensões de capital do estado. Daí por diante, o sol nunca brilhou tão intensamente na ardente mensagem de coragem para o povo mineiro. Não havia mais passagem de volta. Assim, Augusto de Lima já tinha sugerido o local,  em 1891.
A primeira mensagem foi enviada ao Congresso Estadual em 17 de abril de 1891, propondo a mudança. Os ouro-pretanos achavam impossível esse empreendimento.
Mas, onde seria mesmo plantada essa nova capital? Havia várias indicações bem fortes para definição do local, principalmente a várzea do Marçal, vizinha a São João Del-Rei, como já foi comentado.
A região do vale do rio das Velhas, na decisão final, venceu e foi publicada a mensagem do Congresso Legislativo a Lei de mudança da capital.
O senhor conviveu com esse dilema, com esse grande problema. Uma decisão política, mas, antes de tudo, centrada em estudos técnicos para a plena viabilidade. E esta região, no povoado denominado Curral del-Rei, por apenas uma pequena margem de vantagens técnicas foi considerada a região escolhida pelo destino para ser a Belo Horizonte, não é verdade?
O senhor sabe que nessa época não havia tratores e, consequentemente, os trabalhadores tiveram que empregar esforços mais do que dobrados. Houve grande movimentação de terra, abrindo ruas, avenidas e praças. Havia trabalhadores estrangeiros especializados na construção dos palácios administrativos.
Imagine que os engenheiros e arquitetos projetaram esses palácios monumentais, com toda a papelada em plantas com detalhes técnicos, dentro dos padrões de uma arquitetura avançada, num estilo condizente com a filosofia e gosto da época, estilo neoclássico, meio art-nouveau. E tinham ainda que projetar as plantas das conexões hidráulicas e elétricas. Novidade para o mundo moderno. Água encanada. Eletricidade. Criar e equalizar um estilo arquitetônico em contraste total ao colonial e barroco. Nada que traduzisse influência de Ouro Preto. Tudo novo e moderno. Entusiasmo e petulância.
A nova república, instalada em 1889, impunha avanço tecnológico para elevar a qualidade de vida, sempre procurando um grau a mais, um degrau avançado no desenvolvimento humano, da ordem e do progresso. Uma república, uma recente república, numa visão positivista, inspirada e configurada nos ideais dos governantes da época, atraídos pela filosofia de Augusto Comte (1798 – 1857).
Afonso Pena era presidente do estado, entre o período de 1892 a 1894. Lembramos que Afonso Pena foi o primeiro governador/presidente do estado eleito por voto direto.
Imprimia-se agilidade memorável nas decisões e na efetivação dessas decisões. Empolgação total. Assim, para confrontar essas mudanças, vou fazer algumas referências à capacidade de adaptação do povo mineiro. Tantas mudanças ocorreram muito rapidamente, que não havia tempo nem para pensar duas vezes. Logo depois da saída de Afonso Pena do governo do estado, foi substituído por Crispim Jacques Bias Fortes (1847 – 1917). E o presidente Bias Fortes administrou o impossível, na opinião dos céticos. Uma cidade saída do papel e em quatro anos  resplandecia ao alvorecer do século XX. Como isso foi conseguido? Mudanças, já.
Doutor João Pinheiro, não achava que tal iniciativa era grande demais para um estado, sozinho, enfrentar e chegar vitorioso no novo século? Sei e sabemos todos que o senhor não tinha apego a tradições inúteis. O século XX estava batendo às portas. Mudanças!

Agora me despeço, respeitosamente.


quarta-feira, 13 de março de 2013

ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE I



1ª Carta virtual ao DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA (1860 – 1908)


ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE,
Capital do estado de MINAS GERAIS, inaugurada em 12  de dezembro de 1897 - BRASIL



 “Olhando para vocês, vi um belo horizonte!” - exclamou o papa João Paulo II, (1920 – 2005), no dia 1º. de junho de 1980, na praça Israel Pinheiro, Belo Horizonte, por ocasião da celebração de missa campal para cerca de um milhão de pessoas. A partir desse dia, o povo adotou esse local com o cognome de Praça do Papa, tal a emoção que essa manifestação espontânea e justa emoldurou a autoestima dos belo-horizontinos. Em retribuição imediata, o povo, em coro  improvisado, respondeu:  “Rei! Rei! Rei! – o Papa é nosso Rei!”  E assim, nesse ato memorável, configurou-se um amor à primeira vista.      


1ª.Carta virtual ao DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA (1860 – 1908)

MUITO DIGNO EX-PRESIDENTE DO ESTADO DE MINAS GERAIS

                                     
Belo Horizonte, 15 de novembro de 2011


Hoje já é dia 15 novembro de 2011. Estamos comemorando 122 anos de república. Parabéns para o senhor, um batalhador incansável. Achei por bem enviar-lhe mensagens virtuais por cartas, colocando-o em sintonia com alguns acontecimentos ocorridos na cidade de Belo Horizonte, onde o senhor esteve até os últimos dias de sua vida. Sei e sabemos todos do seu interesse pelo pleno desenvolvimento, pelo crescimento deste estado que o senhor presidiu.      
Desculpe-me importuná-lo.
Desde que o senhor nos deixou, em 25 de outubro de 1908, ficou o Palácio da Liberdade com o sentimento de perda total. O povo do estado de Minas Gerais ficou órfão, juntamente com a sua família, seus 12 filhos. Todos ficaram órfãos, também, da sua ousadia administrativa, da sua visão do grande futuro do nosso estado e, sobretudo, da sua fraternidade republicana.
Hoje, resolvi invocar a sua paz, o seu repouso eterno. Tantas coisas aconteceram na nossa nova cidade-capital, depois de sua partida e outras tantas vêm acontecendo a cada dia que passa que eu me lembrei de fazer uma crônica, reportando para o senhor essas novidades.
Sabemos que a sua atuação como gerente, um grande gerente-governador-presidente, com a sua larga visão, sempre foi republicano incansável na configuração dos destinos do estado e, em particular, na confirmação do  desenvolvimento da nova capital.

Sabemos das suas dificuldades encontradas na época como presidente, pois este estado tinha investido todos os seus recursos na construção da nova capital, na sua construção e na sua instalação. Também na transferência de todos os funcionários. E esta cidade-capital iria exigir muito mais em finanças e obstinação, para a concretização de um plano arrojado e excessivamente ousado para a época. As pessoas têm que entender que não foi fácil construir esta cidade-capital, Belo Horizonte, num período estipulado em quatro anos.
       
E o senhor, como presidente do estado de Minas Gerais, primeiro presidente do estado eleito pelo povo, em 1906, após o governo instalar-se no Palácio da Liberdade, substituindo o doutor Crispim Jacques Bias Fortes, (1847 – 1917) teve como meta fundamental o desenvolvimento, de maneira ampla. Reconheço hoje com aplausos a sua meta proposta também para a educação, um dos princípios republicanos, na sua obstinação quanto à criação dos GRUPOS ESCOLARES, dando a partida para a oficialização do ensino público.
Vou recolher mais informações sobre essa meta dentro do plano educacional, para transmitir informações em outras oportunidades. Saiba que a sua meta vingou mesmo. Os seus Grupos Escolares se espalharam pelo nosso estado. E também as escolas rurais e as colônias agrícolas, pela implantação de novos métodos e técnicas para a agricultura e pecuária. O senhor foi obstinado, radical e entusiasmado. Não podia ser diferente. Seu trabalho foi recompensado e frutificou. 
Mas, hoje, tenho algo a relatar, com a certeza de que será uma surpresa que irá lhe causar uma grande alegria.
Nesse ano de 1929, seu amigo e contemporâneo da Escola de Direito de São Paulo, então presidente do estado, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada (1870 – 1946)  inaugurou um viaduto monumental, na cidade de Belo Horizonte, denominado VIADUTO DOS VIAJANTES e posteriormente, VIADUTO SANTA TERESA.
        
Não se trata de um simples viaduto urbano. Trata-se, como disse antes, de um monumento de arte, adequado aos interesses da população. Imaginar que esta nova cidade, com apenas 32 anos de fundação, já construiu, com recursos do estado, uma obra que passa sobre o rio Arrudas, a Avenida do Contorno e as linhas da estrada de ferro da Central do Brasil (EFCB), de uma só vez, além de fazer a ligação do centro da cidade a um dos bairros mais habitados. Pois o espírito republicano, tão defendido pelo senhor, sobrevive nesta obra. Tem a extensão de 400 metros de comprimento, com dois arcos laterais de 14 metros de altura. Tudo em cimento armado. Torna-se, pois, o maior vão de cimento armado da América Latina, para essa época. Tecnicamente perfeito. Elegante, majestoso, imponente. Além do seu valor utilitário, representa um marco para a autoestima dos novos moradores da cidade.
Darei outras notícias, principalmente sobre o seu projetista, o engenheiro responsável pela construção, em outra oportunidade. São tantas notícias que nem sei bem por qual ponto devo começar. Sei, entretanto, que tudo é novidade para o senhor. Apenas, mais uma informação: esta cidade de Belo Horizonte, neste início de século XXI, cresceu tanto que entornou, transbordou pela Avenida do Contorno, que foi projetada para ser o seu limite urbano. Extravasou,  extrapolou, expandiu. Inacreditável, dirá o senhor, não é verdade?
Aqui me despeço, prometendo dar continuidade a estes relatos amanhã bem cedo, para poder trazer informações complementares sobre a Cidade de Minas, hoje, Belo Horizonte.

P.S.

Achei melhor dar uma pequena informação sobre o engenheiro Emílio Baumgart, projetista e construtor do Viaduto Santa Teresa. Era Emílio Henrique Baumgart, (1889 – 1943), natural de Blumenau (SC), filho do imigrante alemão Gustav Baumgart e de Mathilde Odebrecht, também filha de imigrante alemão. Isso mesmo. Pois o engenheiro-projetista, devidamente graduado, montou no Rio de Janeiro, no ano de 1925, o primeiro escritório de engenharia, especializado em estruturas de concreto armado do Brasil. E teve sucesso como inovador e como competente profissional. Pois esse Viaduto Santa Teresa,  projetado e construído por ele, é obra de arte que vai romper os séculos pela sua beleza e pela sua rigidez estrutural.
Estive fazendo um passeio por ele, à tardinha, olhando lá de cima a praça da estação, a Serraria Souza Pinto, a Avenida dos Andradas, o Parque Municipal, a Avenida Assis Chateaubriand e me perdi no tempo e nas lembranças mais profundas do meu ser. Lembrei-me que nele se fazia o footing nas belas tardes fagueiras. As moças desciam do bairro da Floresta e de Santa Teresa para um passeio, um desfile de ida e volta, ao longo do viaduto, vendo os rapazes que se punham a admirar cada uma delas. O sol ia se pondo, as luzes elétricas se acendiam e a modernidade chegava num estalar de dedos. Tempos gloriosos vividos nessa jovem cidade, inaugurada em 12 de dezembro de 1897, bela e realmente moderna. Penso até que o seu projetista Aarão Reis (1853 – 1936)  teve algum mérito ao decidir a demolição, sem dó nem piedade, dos casebres de Curral del-Rei, para surgir das cinzas uma cidade realmente nova.
Divaguei demais. O Viaduto Santa Teresa, hoje com 82 anos, não apresenta nenhum sinal de envelhecimento. Digo isso, considerando os aspectos tanto estruturais  quanto estéticos. Como é que pode? Nem uma rachadurazinha, uma quebra de canto, um ponto de desequilíbrio. Mas, indo além, é obra de embelezamento, de configuração de imagem da nova capital. No ponto culminante, é obra utilitária, até hoje fundamental para o tráfego da região.       Finalmente, digo para o senhor que as tantas pessoas que trafegam diariamente por esse viaduto nem pensam no seu construtor, no seu projetista, nem no governador da época que teve a ousadia de ordenar uma obra desse vulto.

Saudações respeitosas do seu amigo,


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

JOÃO PINHEIRO DA SILVA - ENTREVISTA VIRTUAL

Governador que implantou os Grupos Escolares e o ensino público no estado de Minas Gerais. Referência nacional como republicano e como governador que seria indicado para presidência do Brasil, não tivesse falecido em 1908, no Palácio da Liberdade – Belo Horizonte.  
AUTOR: Rogério Alvarenga 

Apresentação
Esta entrevista virtual com João Pinheiro da Silva nos traz à memória fatos ocorridos no final do século XIX e no alvorecer do século XX.
João Pinheiro ocupou o cargo de Presidente do estado de Minas Gerais por duas vezes. Uma, na antiga Capital, Ouro Preto e a segunda, na nova Belo Horizonte, apos 9 anos da sua implantação, ocorrida em 1897. João Pinheiro cuidou das coisas do estado e deixou como herança para a sua esposa, um nome respeitado, 12 filhos jovens, dívidas da Cerâmica de Caeté, e inúmeros amigos leais.

ENTREVISTADOR:
Senhor Presidente do estado de Minas Gerais! Cumprimento-o solenemente, no momento em que a República, tão almejada pelos jovens políticos, nesse final do século XIX, encontra-se implantada e em pleno exercício!
JOÃO PINHEIRO
Cumprimento-o também, com muito afeto e consideração! Lutamos por ela, pela república, desde o tempo do meu curso jurídico na Faculdade de Direito de São Paulo. Tive colegas brilhantes e todos nós, unidos, nos empenhamos em consolidar o regime republicano no Brasil.
Entrevistador - Presidente ou governador do estado de Minas Gerais?
JP - Na época, o cargo era de presidente, mas com as funções correspondentes a governador.
Entrevistador - Lutando pela república, isto é, contra a monarquia, contra dom Pedro II?
JP - Exatamente. Sempre inspirados no positivismo de Augusto Comte, no sentido da realidade concreta e na negação às teorias e ao debate estéril, sem objetividade. O poder do povo.
Entrevistador - Mas esse mesmo positivismo não confrontava princípios da religião católica da época?
JP - É verdade. Entretanto, não entrávamos em conflito religioso. Minha formação cristã era muito forte, pois sempre acompanhei os preceitos da igreja católica, Recebi instruções do meu professor, Padre João de Santo Antônio. 
Entrevistador - Mas o senhor é filho de imigrante?
JP - Sim! Meu pai, Giuseppe Pignataro, era imigrante italiano, funileiro. Pobre! Naturalizou-se brasileiro com o nome de José Pinheiro da Silva. Ele fez a tradução livre do seu nome para o português e ainda queria ter um sobrenome bastante divulgado no Brasil...Acrescentou “Silva”, para ser realmente brasileiro.
Entrevistador - E casou-se com brasileira?
JP - Casou-se com Carolina Augusta de Morais, natural de Caeté. O casamento foi realizado em 1854, na capital Ouro Preto. Em seguida, fixou residência na cidade do Serro.
Entrevistador - O senhor é o filho mais velho?
JP - Meus pais tiveram três filhos homens. José, nascido em 1856, João, em 1859, falecido antes dos 12 meses. E, finalmente, eu, João, nascido em 16 de dezembro de 1860. Todos nós nascemos na cidade do Serro.
Entrevistador - E como era a vida na cidade do Serro, nessa época?
JP - Muitas dificuldades. Meu pai faleceu em 1870, portanto eu tinha apenas 10 anos de idade. Meu irmão, José, entrou para o seminário, tornou-se padre, em 1879. Minha mãe retornou à sua cidade natal, Caeté. Eu também estive no seminário de Mariana, estudando gratuitamente, sob os cuidados do padre João de Santo Antônio, mas até a época em que pude prestar exames na Escola de Minas de Ouro Preto.
Entrevistador - A família não tinha bens?
JP - Minha mãe, depois de viúva, passou por grandes dificuldades, socorrida por parentes e amigos, vivendo em Ouro Preto, Guanhães e finalmente na sua cidade de Caeté.
Entrevistador - O senhor não quis tornar-se padre, mesmo estudando no Seminário de Mariana?
JP - Tinha outros itinerários para a minha vida. Estudei muito e fiz os exames, logo que me julguei capaz, para ingressar na Escola Engenharia de Minas de Ouro Preto. Aprendi na História a incessante luta dos oprimidos contra os opressores, até mesmo no cenário de Ouro Preto. Eu era um plebeu atrevido, disposto a lutar contra o patriarcado e a monarquia.
Entrevistador - Formou-se em engenharia?
JP - Abandonei o curso no terceiro ano. Vi que não era isso que queria para a minha vida. Eu sou obstinado e sei o que quero desde a minha infância. Meu pai e minha mãe moldaram minha personalidade para uma vida de liberdade e de vontade própria. Sempre soube traçar o meu destino. Sei o rumo do meu barco.
Entrevistador - E para que rumo foi o seu barco?
JP - Para a Faculdade de Direito de São Paulo! Como fui? Nem posso imaginar as dificuldades que passei e nem imaginar o desespero de minha mãe e de meu irmão, vendo-me partir tão desprotegido pela sorte. Tinha que lutar. O meu pai, Giuseppe, não veio de muito mais distante? A minha viagem, em comparação, era muito menor e muito menos perigosa. Mariana e Ouro Preto impuseram obstinação nas minhas vontades e força no meu coração
Entrevistador - Em São Paulo? Na mais famosa Faculdade de Direito do país!
JP - Sobrevivi! Lutei muito! Minha força de vontade, entretanto, era maior do que as dificuldades. Não tinha passagem de volta! Consegui me matricular no ano de 1883. Fui um aluno de mérito e de destaque entre tantos outros exponenciais da época. Lá estavam, como colegas, Washington Luiz, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, Afonso Arinos, Mendes Pimentel, Raul Pompéia, entre outros.
Entrevistador - Como sobreviveu?
JP - Trabalhei como revisor de jornais e lecionava para me manter. Por concurso, tornei-se Preparador de Física da Escola Normal da República.
Entrevistador - Conseguiu formar-se na Faculdade de Direito?
JP - Claro que sim! Terminei o curso jurídico, recebendo o diploma em 18 de novembro de 1887. Tinha então 27 anos de idade. 
Entrevistador - Com o diploma na mão, que rumo tomou?
JP - Abri uma banca de advocacia em Ouro Preto, então capital de Minas Gerais, onde me dediquei a trabalho intenso. Precisava ganhar dinheiro e continuar a minha luta pelos meus ideais republicanos.
Entrevistador - Continuou também o seu engajamento político, iniciado na Faculdade de Direito?
JP - Inevitavelmente!  A par do meu trabalho no campo jurídico, comecei a me entrosar com os simpatizantes do movimento republicano da capital Ouro Preto. Participei da fundação do Partido Republicano, fundado em 4 de junho. Fundamos o Clube Republicano em 1888. Fundamos também um jornal “O Movimento”, com pregação da abolição da escravatura e dos ideais republicanos. 
Entrevistador - E continuou republicano?
JP -  Sou republicano desde moço. Minha conduta é republicana. Minha formação! Meus ideais! Meus princípios dentro do positivismo de Augusto Comte, o filósofo francês que deixou marcas até na nossa bandeira: “ordem e progresso”! Sempre preocupado com o progresso.
Entrevistador - Já era casado, nessa época?
JP - Casei-me com a linda Helena de Barros, em 25 de janeiro de 1890, portanto, quando já tinha 30 anos de idade. Tivemos a felicidade sempre perto de nós, numa união que nos proporcionou a alegria e a vontade de viver. Sempre estávamos juntos nos nossos ideais e na nossa disposição para enfrentar as intempéries desta vida.
Entrevistador - Logo foi chamado a integrar-se ao governo do estado?
JP - Sim. Fui convidado para Secretário, por nomeação do Governo Provisório e, mais tarde, para Vice-Governador.
Entrevistador - E depois, a governador?
JP - Quando da indicação do governador Cesário Alvim para o alto cargo de Ministro do Interior, fui conduzido conseqüentemente ao governo do estado. Esclareço que sempre fui amigo e fiel companheiro do governador Cesário Alvim. Seguia-lhe os passos e nunca deixei de dedicar todo o meu reconhecimento e a minha amizade a ele.
Entrevistador - E assim, assumiu, tão repentinamente, o governo do estado!
JP - O governador Cesário Alvim passou-me o cargo, pois eu era o primeiro Vice-Governador. Uma consequência natural. Nesse cargo fiquei no período de 11 de fevereiro a 24 de agosto de 1890, quando fui substituído por Chrispim Jacques Bias Fortes.
Entrevistador - Foi o ponto inicial de sua brilhante carreira política?   
JP - Candidatei-me ao Congresso Constituinte Federal e fui eleito em 15 de setembro de 1890, como representante de Minas Gerais, na comissão composta de 21 membros, um de cada estado da Federação.
Entrevistador - Mas o senhor, algum tempo depois, tomou uma medida drástica!
JP - Acontecimentos inesperados na vida de um político! Meu amigo e correligionário, Cesário Alvim, estadista republicano, em 17 de fevereiro de 1892, renuncia ao seu segundo período como governador de Minas Gerais. Em ato contínuo, eu, como amigo e companheiro, me afastei da política imediatamente, como gesto de solidariedade.
Entrevistador - Um gesto de fidalguia, de gratidão a um amigo e correligionário republicano, mas uma carreira política alvissareira transformada em pó!
JP - Mesmo que fosse transformada em pó, contanto que a amizade e a fidelidade partidária fossem mantidas. Meus valores mais íntimos teriam me obrigado a atos muito mais audaciosos do que esse. Nunca me arrependi.  Minha vitória é a voz da minha consciência partidária.
Entrevistador - Um brilhante republicano, de formação jurídica assegurada, sem rumos para o seu barco, novamente!
JP - Meu barco nunca esteve sem rumo. Adquiri a Chácara do Tinoco em Caeté, com o objetivo de instalar uma indústria de cerâmica em louças finas e porcelana. Iniciar a era da industrialização na cidade de minha mãe e de meus familiares maternos. Era a Cerâmica de Caeté! .
Entrevistador - Um ex-governador comandar uma pequena e incipiente indústria de louças? Parece, a meus olhos, uma queda vertical, sem desmerecer os ideais de industrialização que apossaram dos jovens da época.
JP - Realmente pode parecer que assim ficou na imaginação dos companheiros e amigos. Foi, sem dúvida, uma retirada estratégica. Entretanto, pude armazenar forças, viver com a minha família, com meus filhos... Sentir a vida chegar e a vida passar, na construção de um lar.
Entrevistador - Na Chácara do Tinoco?
JP - Esta Chácara do Tinoco foi adquirida por mim em 14 de abril de 1892, por quatro contos e quinhentos. Ela servia de residência ao Barão de Cocais. Agora abriga a família do Oleiro de Caeté! Esta é a terra da minha mãe, Carolina, que nos abriga e nos faz unidos e felizes,
Entrevistador - E o novo jurista industrial transferiu sua residência para a cidade mineira de Caeté!
JP - Deixamos Ouro Preto, a nossa capital, em 1894, com muito pesar pelas amizades conquistadas, mas certo de que estava trilhando outros ideais. Nunca perdi meu rumo e meu objetivo de vida. .Se eu tomei uma decisão é porque havia uma força maior me impulsionando isso. O ser humano tem todas as condições para tomar qualquer decisão em sua vida.
Entrevistador - E fez a mudança dos seus bens e de sua família!
JP - Com as dificuldades naturais, fizemos nossa viagem até Caeté, com Helena e nossos três filhos.
Entrevistador - Compreendo essas dificuldades da época. Mas a indústria teve sucesso?
JP - Muito trabalho. Tivemos que importar máquinas e contratar trabalhadores estrangeiros. Trabalhamos com afinco e tivemos ainda que construir modelos para melhor desempenho e produtividade. Inventamos o mono-rail, isto é, um carro sobre um só trilho para transportar o barro, nossa matéria prima.  E tivemos que introduzir outros modelos ao processo de produção, para facilitar o trabalho humano, aumentar a capacidade das máquinas, diminuindo custos e aumentando resultados.
Entrevistador - Na nova vida na cidade de Caeté, conseguiu, afinal, dedicar-se exclusivamente à sua indústria, abandonando suas aspirações políticas!
JP - Inicialmente, parece que sim. Mas as contingências humanas são fatores que nos obrigam a despertar nossas paixões, por mais recalcadas que elas estiverem no nosso inconsciente.
Entrevistador - Novos amigos, novas contingências, novo envolvimento político?
JP - Acredite! Como num passo de mágica, me envolvi novamente no meio político municipal, E, dessa vez, fui conduzido a presidente da Câmara Municipal e Agente Executivo de Caeté, em 1o. de janeiro de 1899. Nessa época, Ouro Preto já não era mais a capital do estado de Minas Gerais.
Entrevistador - A capital do estado de Minas Gerais foi transferida para Belo Horizonte!
JP - Exatamente! Em 1897! O presidente do Congresso Mineiro, Chrispim Jacques Bias Fortes, no dia 12 de dezembro de 1897, instalou a nova capital, edificada numa região central do estado, equidistante, na medida do possível, de todos os seus municípios.
Entrevistador - E o novo Partido Republicano Mineiro, o famoso PRM?
JP - Na nova capital do estado, Belo Horizonte, foi realizada a convenção do Partido Republicano Mineiro, com a finalidade de indicar um candidato próprio à presidência do estado, nas eleições do ano próximo.
Entrevistador - E o senhor foi o indicado pelo PRM como candidato à presidência do estado?
JP - E fui eleito também presidente do estado de Minas Gerais nas eleições realizadas no dia 7 de março de 1906, para o quadriênio 1906/ 1910, tendo como companheiro de chapa Júlio Bueno Brandão.
Entrevistador - E para a Presidência da República?
JP - Foi eleito Afonso Pena, também representante do PRM.
Entrevistador - Senhor Presidente do estado de Minas Gerais, ou melhor, Governador! Quais as metas?
JP - Duas metas básicas: agricultura e educação. E mais: restauração do sistema econômico do estado, reforma do ensino e reorganização da justiça pública.
Entrevistador - E quais foram as principais ações para atingir os resultados propostos?
JP - Na agricultura, implantar novos métodos de trabalho, com a utilização de máquinas e implementos agrícolas, com a busca incessante de experiências conquistadas pelos povos mais desenvolvidos. Acompanhei de perto a implantação, organização e desenvolvimento de núcleos agrícolas, para disseminar conhecimentos e técnicas.
Entrevistador - Acompanhava de perto esse trabalho?
JP - Com todas as dificuldades de transporte da época, estava sempre presente, verificando a implantação de novos métodos de trabalho nos núcleos agrícolas.
Entrevistador - Mas quanto à educação e ao ensino?
JP - Instituí o sistema dos GRUPOS ESCOLARES, no estado. Uma ideia antiga, uma lacuna que o sistema republicano não podia suportar. Eu mesmo, antes da morte do meu pai, com as nossas dificuldades financeiras, tive que ser alfabetizado por esmola. Sempre tive meu coração amargurado por isso. Só havia escolas isoladas, com um professor que atendia a um grupo de alunos com formação heterogênea, isto é, em diversos níveis de desenvolvimento no processo de alfabetização, de escrita, de leitura e de contas.
Entrevistador - E como foi?
 JP - Tive a sorte de ter nomeado como Secretário de Estado do Interior o grande e valoroso amigo, Manoel Tomás de Carvalho Brito. Era um ousado intelectual, com ampla visão de futuro. Nós, Juntos,  elaboramos o projeto de desenvolvimento do ensino mineiro e implantamos sem mais delongas.
Entrevistador - Em que consistia esse projeto?
JP - Administração pública responsável pela manutenção do ensino primário, realizado em locais adequadamente preparados, com professores remunerados pelo estado, gratuidade total por parte dos alunos e obrigatoriedade de os jovens frequentarem as escolas, então organizadas. No artigo 22 do Decreto, previa a construção de prédios escolares, aquisição de equipamentos. O mobiliário seria de escolha e adoção do governo.  
Entrevistador - Ensino público, gratuito e obrigatório!
JP - Isso mesmo. Assinei a Lei no. 439 de 28 de setembro de 1906 e fizemos, não uma reforma no ensino, mas a sua implantação definitiva, a bem da cultura mineira. Envolvia o ato normas de funcionamento do ensino primário, normal e superior. Essa lei foi regulamentada pelo Decreto 1969 de 3 de janeiro de 1907.
Entrevistador - E o senhor acompanhou o processo de criação dos Grupos Escolares?
JP - Pessoalmente, quando podia. Fui à inauguração do Grupo Escolar em Diamantina. Dona Julia Kubitschek era uma das professoras de uma das escolas isoladas. Os professores tinham exaustivo trabalho, em redobrado esforço, pois ensinavam alunos de quatro classes ao mesmo tempo. Nunca aceitei esse procedimento. Agora, cada professora cuidava de apenas uma classe. Fomos pessoalmente à inauguração do Grupo Escolar de Diamantina. Juscelino Kubitschek tinha na época 4 anos de idade e acompanhava a sua mãe, à nossa chegada na cidade.
Entrevistador - Houve uma grande recepção!
JP - Com justiça, foi uma grande participação da população a esse acontecimento. Depois, seguimos para a minha cidade do Serro, onde fizemos também outra inauguração de Grupo Escolar.
Entrevistador - Uma revolução social e uma conquista do povo mineiro!
JP - Uma conquista do povo mineiro, acompanhando os povos mais civilizados do mundo. Hoje, talvez, muitas pessoas não estejam seguras quanto ao valor do nosso empreendimento. Mas, confesso que, para mim, naquele momento, foi uma das maiores e, talvez, a mais significativa e gratificante ação do meu governo.
Entrevistador - Seu filho, Israel Pinheiro da Silva, construiu uma capital, o senhor construiu um estado, pelo desenvolvimento cultural sem limites de tempo, de espaço, na formação dos valores e princípios de um povo.
 JP - Tinha convicção inabalável do que estava fazendo. Nunca, ninguém, me tiraria o entusiasmo desse empreendimento.
Entrevistador - O senhor  também criou o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais! 
JP - Juntamente com centenas de outros companheiros, intelectuais e historiadores,  fundamos esse centro de cultura e de documentação da história de nossa terra.
Entrevistador - É uma instituição que agora completou o seu primeiro centenário e foi erigida pela sua orientação e sua fé.
JP - Realmente, não posso negar. A ata de instalação do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais foi lavrada pelo suplente do 2o. secretário, Luiz Peçanha e assinada por mim, no dia 15 de agosto de 1907, às 3 horas da tarde, no salão da Câmara dos Deputados. Como fundador, assumi também o cargo de seu primeiro presidente, o que muito me honra.
Entrevistador - Decisões superiores  interromperam o seu mandato, embora houvesse uma corrente política que acreditava que o senhor seria o novo presidente do país, na sucessão natural de Afonso Pena. Seria por certo, o novo presidente da república.
JP - Inevitavelmente, foram decisões superiores que interromperam a minha jornada política. Minha energia vital foi se esvaindo por moléstia incurável e avassaladora.  Tive que me curvar diante dessas decisões superiores que se me enlaçaram para o final da minha vida. Um câncer na laringe me atacou irremediavelmente.
Entrevistador - Um desastre!
JP - Um desastre! O padre João de Santo Antônio, que me acompanhou e me orientou pela vida afora, que me trouxe o batismo quando era criança na cidade do Serro, também trouxe para mim a sua presença com os derradeiros sacramentos e suas benditas mãos fecharam os meus olhos para sempre.  
Entrevistador - Morria assim o grande estadista mineiro!
JP - Nada mais a discutir com relação a ordens superiores. Deixei a presidência do estado de Minas Gerais no dia 25 de outubro de 1908, com 48 anos de idade.
Entrevistador - E a sua família?
JP - Quando revejo o dia da minha despedida, me converto em lágrimas. A minha querida Helena, minha esposa e companheira, teve que enfrentar muitas dificuldades na criação dos nossos filhos. Sempre me preocupei com a economia do estado e me esqueci de formar um patrimônio para a minha própria família. Helena, hoje, por onde começar? Me perdoe!  Que fazer? Não posso me erguer e nem meus pensamentos voariam para solucionar questões insolúveis. Deixei-lhe o legado de um nome respeitado, uma família de doze filhos, além das dívidas da Cerâmica de Caeté, muitos amigos leais e um grande problema: não possuir nem casa para morar. Meu filho mais velho, Paulo, tinha 16 anos e a filha mais nova, Ruth, apenas, seis meses. Antevi, minutos antes das minhas despedidas, que a herança maior que poderia ter deixado mesmo, seriam as minhas palavras, por tantas cartas que escrevi a meus filhos, o meu exemplo, exemplo de lealdade para os meus amigos e correligionários, e a minha vida de ação. 
Entrevistador - E o seu filho Israel foi o construtor de Brasília!
JP - Um poder místico de sua firmeza de caráter e de sua coragem. Ele sempre relia as minhas cartas e mantinha contato comigo em planos de meditação constante. As palavras simples e contundentes traziam para Israel uma mensagem de poder e de obsessão. Essas cartas foram o instrumento de nossas conversas em meditação profunda. Via que ele sempre saía com os olhos marejados de lágrimas e me abraçava e me beijava nas minhas cartas. Simples cartas de palavras de proteção, vindas do além. Ele seguiu meus passos.
Entrevistador - Depois de tantos momentos de recordação, gostaria de deixar uma mensagem?
JP - Agradeço assim à minha família, aos meus amigos, dizendo que sempre fiz o que pude por eles, por isso mesmo, me esqueci de mim!
Entrevistador - Comovido, eu me despeço de Vossa Excelência, na convicção de que suas palavras hão de pairar sobre o ideário do povo mineiro.


  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA
VAZ, Alisson Mascarenhas, Israel, uma vida para a história, Cia. Vale do Rio Doce, Rio de Janeiro, 1996
LINS, Ivan, A formação filosófica de João Pinheiro e seus ideais humanos, políticos e sociais, revista VII, IHGMG, pág.29/46, Belo Horizonte, 1960
PINHEIRO, Israel, Discurso de agradecimento, revista VII, IHGMG, pág. 47, Belo Horizonte, 1960
FILHO, Israel Pinheiro, Discurso de agradecimento, revista VII, IHGMG, pág. 53, Belo Horizonte, 1960
FILHO, Israel Pinheiro, Reconhecimento da família Israel Pinheiro, revista XXII, tomo II, pág. 812, elo Horizonte, 1992/1998
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