quinta-feira, 31 de outubro de 2013

VANDALISMO E TERRORISMO – SEMIÓTICA VIII

São ações que falam por si – e falam alto – utilizando formas agressivas de expressão.

Vandalismo e terrorismo são formas de expressão e estão enfileiradas no poderio da comunicação, no domínio da Semiótica. Por que não acolhê-las e incluí-las no rol de suas formas e maneiras violentas de expressão?
Os vândalos andam livremente soltos pela sociedade afora. Identificá-los todos? Seria jogar combustível no fogo.
Por outro lado, esses vagabundos que não trabalham, não produzem e nem querem se educar estão também livres pela sociedade afora. Há de se questionar as fontes do vandalismo implícito. Cada povo analisa as pressões inculcadas na sociedade e procura se manifestar. O povo quer ir ao paraíso e procura saber de tudo. Os tempos mudaram, os tempos são outros. Esse povo, hoje, pela mídia, fica por dentro de tudo que se passa, mesmo nas altas esferas. E reage. Cada pessoa tem o poder de julgar e até mesmo de condenar, ações das próprias autoridades constituídas. “Não julgueis para não serdes julgados!” – Expressão perdida no tempo e no espaço pela sua inconsistência psicológica diante do poder do ser humano. Julgam-se, hora a hora, qualquer pessoa pelo seu modo de andar, pelo penteado, pelas suas expressões faciais, pelo olhar, pelo sorriso, pelos gestos das mãos e, principalmente, pelas ações, num átimo. Surgem aplausos, surgem reações nos protestos.
Essas expressões violentas de protesto são criminosas, sob o ponto de vista do Estado, guardião dos interesses do povo.
Cuidado com o erro de diagnóstico na interpretação dessas ações porque elas são de revide. As reações em cascata podem ser mais violentas ainda, em pleno vandalismo explícito e consciente.
Ah! Vandalismo explícito? Ele não tem pudor por não esconder a sua cara. Torna-se, também, elemento provocador, como adversário em times opostos, jogando o mesmo jogo. De um lado, pedras, pau, estilingue, martelo, quebra-quebra, bolas de gude e a turba insana. Do outro, cassetetes, tiros com balas de borracha, de efeito moral e mesmo, tiros reais e mortíferos. Contendores em desigualdade de condições. Sim! Mas qual é o elemento provocador? O Estado ausente, a corrupção, a desonestidade, a disparidade de salários de máximo e mínimo, a dura legislação em cima do povo, os impostos, as multas. Ah! As multas! Nem Jesus Cristo aguentou e reagiu.
Essas interpretações e esse julgamento ficam arquivados e se escondem no inconsciente de cada um, para brotar, repentinamente, em situações e lugares impensáveis, nas mais diversas formas de expressão.
Essa memória reservada não tem forma definida, daí, a imprevisibilidade da sua manifestação. São forças acumuladas que podem despencar como cachoeiras indomáveis. E cachoeira que não faz barulho não é notada. Daí, a violência como forma de expressão imediata. Transgredir é a meta. Derrubar, arrastar, quebrar, destruir. Transferência objetal! Eis o nome: transferência objetal. O time perdeu, quebra-se o rádio, quebra-se o televisor. Destruir uma coisa por outra, para pagar o pato. Surge a violência teatral, o verdadeiro vandalismo. Abaixo a tirania, para isso deve-se incendiar um carro qualquer. Resolveu o problema da ausência do Estado ou apenas teve uma satisfação íntima do dever cumprido na manifestação do seu sentimento? Encontrou o seu verdadeiro inimigo? Conseguiu derrubá-lo? O vândalo e o terrorista são permanentemente frustrados em suas metas, por não atingir diretamente os seus inimigos, pois são  inatingíveis. Continuam procurando, na sua luta de cobrança. Assim, são.
E cada um desses vândalos ou desses terroristas pensa de forma diversa e se expressa, não com palavras, mas com ações de violência, porque é o recurso que dispõe. Entretanto, existem outras tantas maneiras de protestar e de se comunicar.     

sábado, 12 de outubro de 2013

O MAGO - COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO

DE FERNANDO MORAIS E DE PAULO COELHO

 

Paulo Coelho tornou-se o autor vivo mais traduzido do planeta, pondo a salvo a literatura brasileira, cujos autores não vão além das quatro linhas, apesar dos ministérios, das medalhas, dos fardões e dos chás das cinco. Muita ornamentação, muita esnobação, pouca produção, nenhuma repercussão.

 

O MAGO – MORAIS, Fernando. Editora Planeta do Brasil: São Paulo, 2008 – Além de editado no Brasil, está sendo publicado em 30 países. São 630 páginas, 30 capítulos, 101 entrevistas, com guia onomástico de 846 referências pessoais. 
Não é a primeira vez que Fernando Morais enfrenta uma pedreira dessa natureza. Esse livro foi iniciado em fevereiro de 2005 e concluído em fevereiro de 2008.

Não é, pois, a primeira vez que Fernando Morais, membro da Academia Marianense de Letras (MG), ocupando a cadeira número 13, antes ocupada por Tancredo Neves, enfrenta uma barreira dessa magnitude, tendo pela frente a figura controvertida do escritor Paulo Coelho. Controvertida mas que, nas duas últimas décadas, tornou-se fenômeno literário da humanidade. Paulo Coelho, místico, misterioso, fabulista, persignado, cheio de mandalas e crenças, rodando pelo mundo afora, ergue sua aura aos deuses e pede proteção. Agora, Paulo Coelho, autor de 22 livros, com vendagem mundial de mais de cem milhões de cópias, com 455 traduções publicadas em 66 idiomas e 160 países, excluídas as edições piratas. Paulo Coelho, o autor vivo mais traduzido do planeta.

Fernando Morais vem contribuindo decisivamente para fundar a biografia como modelo literário no Brasil, tendo já obras traduzidas em 19 países. Esta é a sua oitava investida no campo dos grandes desafios.

Desta vez, Paulo Coelho foi dissecado nos mais recônditos esconderijos de seu íntimo, sem dó nem piedade. Assim, pode-se dizer que um dos grandes méritos da obra seria a honestidade intelectual demonstrada com o biografado. Não escondeu, não inventou eufemismos, não mistificou e não crucificou. Nem o biografado nem o leitor.  Quando se disseca uma biografia, a primeira impressão que ressalta é a de que o biografado vai ser enaltecido até as raias das inverdades. Principalmente quando ele ainda vive. Neste caso, não. Apresentou um trabalho de fôlego, árduo, longo, pesado e de grande responsabilidade, principalmente porque o biografado está vivo e depois de publicada a biografia, pode estar cara a cara com ele.

É, antes de tudo, à primeira vista, um trabalho braçal – apesar de intelectual. O bastidor tinha que trabalhar como uma oficina industrial, com equipe montada para estabelecer contatos, selecionar textos e fotografias, discutir os rumos da obra, contestar, digitar, contabilizar despesas, disponibilizar recursos para viagens e entrevistas, bem como outros procedimentos assemelhados. Para tanto, relacionou em primeiro lugar o seu amigo Wagner Homem, craque da informática. Depois, seus dois irmãos, Ricardo Setti e o outro,  Reinaldo Morais, em disponibilidade de tempo integral.

Resta uma pergunta que fica no ar, mas que vale a pena emitir: Quem é o fenômeno nesta obra? Paulo Coelho ou Fernando Morais? O autor sempre aproveita um pouco da fama ou do prestígio do biografado, contaminando-se em suas glórias e vitorias. Juntos, de agora em diante, estarão constituídos numa dupla Coelho e Morais, enfrentando as falanges dos dragões. Não há barreiras para eles, alcançando horizontes cada vez mais largos. Paulo Coelho continua em ação, rodando o mundo, pesquisando, enveredando-se no misticismo e alardeando mistérios insondáveis. Fernando Morais continua com a oficina aberta, dando vazão a biografias de vultos memoriais e contribuindo para fixar o modelo de biografias como formato literário sempre ao paladar dos leitores.  (Agosto 2008)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ONDE SE ESCONDEM OS ESCRITORES?

Goethe não se suicida em Werther. Guimarães Rosa não é Riobaldo, Castro Alves não é África, em Vozes da África. Machado de Assis não é Braz Cubas defunto.

Quem lê pode logo ficar pensando em identificar o lugar onde os escritores se escondem, onde eles se posicionam para conseguir relatar acontecimentos, reunindo palavras, formando um conteúdo, constituindo uma história, um romance, uma crônica, um conto, uma reportagem, relatório, um poema.
Pois bem! Os autores devem estar em algum lugar estratégico, vendo e ouvindo tudo para poder narrar os acontecimentos, dando-lhes vida e ação.
Em princípio, os autores escolhem posições confortáveis, para poder narrar com fidelidade e coerência. Estão mesmo escondidos, entrincheirados. Somente depois disso é que definem os formatos e escolhem os estilos narrativos.
Nada melhor do que surpreendê-los em pleno trabalho. Pode-se descobrir quatro esconderijos principais. Vamos surpreendê-los? Eles estão sempre disfarçados, mascarados e ficam na espreita com olho vivo. Alguns saem despreparados e podem ser descobertos e flechados. Assim, pode-se descobri-los em flagrantes nesses principais esconderijos:

1ª. Posição: o escritor está em cena num palco imaginário, relatando as suas próprias experiências e emoções, seus sentimentos, sua vida espontaneamente. É claro que é uma narrativa subjetiva, introspectivamente declarada e assumida integralmente. Tal é o caso de Gonçalves Dias, em Canção do exílio:
“Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas/ nossas várzeas tem mais flores/ nosso campo tem mais vida/ nossa vida mais amores. De cismar sozinho à noite/ mais prazer encontro eu lá/ minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá.”...
Verifica-se, pois, a predominância dos sentimentos do autor-narrador. Vive ele em constante relacionamento íntimo na exaltação dos seus sentimentos, das suas mágoas, das suas dores. São os poetas os grandes usuários deste modelo. Também os cronistas se apresentam em suas crônicas com as referências e vivências. Narrar é preciso. Delatar, denunciar, testemunhar. Dá a impressão de que as personagens escrevem mesmo com o próprio punho.
No romance e no conto também surgem autores escrevendo na 1ª. pessoa do singular. Recentemente, surgiu “O tigre branco” de Aravinda Adiga, indiano de Madras, vencedor do Man Booker  Prize 2008, publicado nesse formato. Contou uma grande história como se ele fosse a personagem principal. O autor-ator.Essa posição pressupõe que o autor estivesse num palco de um teatro, representando um texto de sua própria autoria.    

2ª. Posição: o autor entra em cena, participa da narrativa, tenta conversar com as suas personagens e até mesmo com o próprio leitor. Torna-se caso frequente em Machado de Assis e constante em W.Sommerset Maughan, como em “O fio da navalha”. Imagina-se, nesta segunda posição, que um autor estivesse no palco de um teatro, acompanhando o desenrolar do espetáculo e interferindo em algumas cenas, tentando melhorar ou explicar o texto.

3ª. Posição: o autor se coloca em cima do muro ou numa janela aberta, ou no buraco da fechadura de uma porta, visualizando todos os acontecimentos e narrando-os a seu modo, a seu gosto, a seu estilo. É sabedor do pensamento das suas personagens e faz delas o que bem entende. O autor dirige e narra. Não entra nas brigas, não recebe farpas ou saraivadas. É um criador, um deus, senhor de tudo. Faz chover e até pode matar sem piedade. Fica no seu posto de observador imparcial. Imparcial? Nem sempre. A maioria dos autores assume essa posição. É a mais confortável e, assim, torna-se dono da história. Assim, também, se coloca a maioria dos autores de romances e contos. Veja Jorge Amado, José de Alencar e Khaled Hosseine, em “A cidade do sol”. Os autores têm o poder de tudo ver e de tudo fazer acontecer. Assim, o autor se coloca numa plateia, assistindo ao espetáculo, dinamizado como ele estabeleceu ou determinou.

4ª. Posição: O autor faz de conta que é a personagem e narra como se fosse ele quem estivesse vivendo os acontecimentos. Usa uma técnica mais apurada, sofisticada, para narrar e produzir emoções que supostamente parecem ser do próprio autor.”Memórias póstumas de Braz Cubas” de Machado de Assis. Ou “Vozes da África” de Castro Alves, “Grande sertão e veredas” de Guimarães Rosa, “Werther” de Goethe. Machado de Assis não é Braz Cubas, um autor-defunto, nem Castro Alves é a África, mas se coloca na figura da África, (há dois mil anos te mandei meu grito!...), nem Guimarães Rosa é Riobaldo e nem Goethe suicidou-se em Werther. O autor coloca-se na pele da sua personagem. Assim, nesta posição, o autor está no alto da cabine de um teatro, administrando o espetáculo. Supostamente, seu texto está na 1ª.pessoa. Isto é verdade, mas por uma técnica especialmente em suposição. Envolve o leitor a acreditar que ele, autor, está sendo o ator principal.  

Não há outros esconderijos ou outras posições estratégicas, onde possam os escritores se esconder. Esta devastação não representa uma grande teoria literária, pois abandona os procedimentos acadêmicos, mas é fundamental na análise de qualquer obra literária. Assim, os leitores terão um dispositivo elucidado para flechar qualquer escritor que se apresente à sua frente. E pode analisar e descobrir a posição estratégica que ele tenha assumido na obra.  Como tudo na vida pode ser alterado, muitos escritores conseguem misturar seus formatos literários, colocando-se em diversas posições na mesma obra. Mesmo assim, estes são os seus esconderijos. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

INDÍCIOS – SEMIÓTICA VII

O mito das provas. Elas representam indícios e podem ser construídas para aprovar ou reprovar. Em jogo a intencionalidade.



Semiótica envolve o estudo dos signos. Os signos envolvem símbolos, ícones e indícios.

Os indícios estão disponíveis à decodificação ou à interpretação de qualquer pessoa. Cada qual interpreta como pode, de acordo com seu nível cultural. Ou como lhe convém? Dependem, entretanto da acuidade perceptiva de cada ser humano. Assim, a visão, a audição, o olfato, a gustação e, finalmente, a cinestesia (peso, textura, etc.) ficam alertas. Cada qual no seu posto de observação e de vigilância. 
Uma nuvem que se torna escura e um relâmpago são indícios de chuva por perto. Pode não chover. Entretanto, os indícios estavam disponíveis e podiam prever chuva por perto. Houve indícios.
Uma febre que surge inesperadamente não é uma doença em si. É um aviso de que há alguma coisa que não está indo bem no corpo humano. É um indício. 
Onde há fumaça há fogo. É uma crença. Entretanto, pode não ser verdadeira, mas é um indício.

Uma radiografia e uma análise clínica revelam em seus resultados uma possibilidade, um indício. O diagnóstico médico torna-se evidente. Centenas e centenas de vezes esses métodos de análises clínicas foram feitos, repetidos, analisadas, testados e comprovados para depois poderem chegar a uma conclusão num formato ideal, que traga segurança na tomada de decisão, partindo de um indício, de uma suposição, de uma hipótese. Assim, qualquer medicamento ao ser colocado em uso passou por esse crivo, sendo cientificamente testado, experimentado e comprovado, a partir de um indício. O próprio diagnóstico é um parecer passível de comprovação e torna-se um indício.
As provas pedagógicas ou provas de seleção apresentam indícios de conhecimento, inteligência, capacidade profissional ou personalidade. Usam-se instrumentos indiretos que proporcionam alguma fidedignidade. Não deixam de serem indícios. Seus resultados, entretanto, tornam-se passíveis de interpretações diferenciadas. A fidedignidade será fruto de aplicações repetidas, a público assemelhado e delimitado, e em condições idênticas, para padronização e garantia de credibilidade nos seus resultados, como são feitos os testes psicológicos.
Em continuidade, também o olfato revela outro mundo de sensação e de percepções. Transportam indícios de fácil tradução, vindos pelo vento, pela natureza, pelos perfumes e por tantos outros odores, catalogados internamente. O olfato entrou em decadência quando o ser humano foi se transformando em bípede. Entretanto, forte ainda, é capaz de provocar as mais divergentes reações. O despertar do sexo, da volúpia, da libido. Ou da náusea e da rejeição. Representam indícios seguros para interpretação imediata.
E o paladar, pelo poder gustativo, representa outros poderosos indícios? A percepção de sal, de doce, de azedo, de amargo traz sensações agradáveis ou repulsivas. Há a sensação de alerta pela porta de entrada, a boca e a língua. Traz um indício poderoso, um vigilante atento e incorruptível, responsável que é pela administração e pelo bem-estar do corpo. Um descuido pode ser fatal. Cumpre examinar constantemente os indícios representados pelos variados sabores e aprovar ou reprovar sem piedade e sem cumplicidade. 
Em continuidade, ainda, há os futurólogos que são capazes de fazerem previsões. São pessoas cultas e estudiosas que estão analisando e prevendo acontecimentos, até mesmo o destino da humanidade. Suas teorias são indícios.
Há os meteorologistas que interpretam dados para o clima em qualquer parte do mundo.
Há os astrônomos que utilizam equipamentos sofisticados para alcançar as grandes distâncias do espaço e calcularem os fenômenos da natureza, a vida dos astros. Embora haja equipamentos que calculam com precisão, suas teses podem ser consideradas, algumas vezes, como indícios. 
A grafologia e a quiromancia especulam traços de personalidade, comportamento e previsões.

Horóscopo, cartas, tarôs, búzios? E os videntes? E as cartas jamais mentem? Seriam indícios? Tudo isso fala alguma coisa para alguém. Comunica e influencia.
Não há argumentos contra os indícios. Se houver um indício, existe uma possibilidade. Por outras vezes, mesmo sem indícios, as coisas acontecem. Entretanto, os indícios são inumeráveis e não catalogáveis.

Ah! E os sonhos? Trazem algum indício? Freud foi também um explicador de sonhos.
Assim, os indícios estão disponíveis. Cada qual tira as suas conclusões, dentro das possíveis controvérsias. E a discussão reforça as teses. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

ENTREVISTA – SEMIÓTICA VI

Deve-se respeitar o entrevistado, pois ele é, para o entrevistador, a pessoa mais importante do mundo, naquele momento.

Entrevista é, antes de tudo, uma conversa profissional.
Ela pode ser realizada entre duas pessoas, entrevistador e entrevistado. Pode, também, ser uma entrevista coletiva. Mesmo assim, pressupõe-se um objetivo definido. Por que ou para que a entrevista está sendo realizada? Os motivos da entrevista são definidos entre as partes, antes de ela ser iniciada. Sem isso, sem essa combinação preliminar, terá resultados prejudicados, por assim dizer. Numa reunião bem-sucedida, entrevistador e entrevistado estão entrelaçados por uma linha invisível que os prende durante todo o tempo da entrevista. Trata-se de um transe hipnótico leve. Tanto um como o outro ficam inteiramente concentrados nas perguntas e nas respostas.
Outro fator importante que deve ocorrer para uma entrevista bem-sucedida, é a atitude do entrevistador. Ele é responsável pelo “rapport”, para evitar um possível aviltamento da sensibilidade do entrevistado. Esse “rapport” – palavra de origem francesa que significa uma conversa inicial, informal - antecede a qualquer relacionamento interpessoal. Pode parecer uma conversa inútil. Sim. Pode parecer uma conversa inútil, mas sem ela não configuram a confiança e disponibilidade do entrevistado. Rapport é fundamental na vida, em qualquer situação. Numa entrevista, principalmente. Não é chegar e ir logo ao assunto, sem saber quem é quem. Esse rapport não pode ser longo demais, porque, nesse caso, passa a ser uma conversa infindável e perde-se o objetivo do trabalho, já que a entrevista tem uma finalidade profissional e um objetivo predeterminado. Assim, inicia-se o transe hipnótico. Acomodam-se as partes, acertam-se os tons de voz, esclarecem-se os objetivos e, talvez, até a duração da entrevista.  Iniciada a entrevista propriamente dita, há algumas recomendações para o entrevistador que podem ser ressaltadas. Para o entrevistado não existem maneiras a serem recomendadas, porque ele deve ser espontâneo e será analisado em todas as suas atitudes. Claro que ele deve seguir alguns princípios para obter o sucesso que ele pretende alcançar. Entretanto, nesta oportunidade, o assunto se prende às maneiras adequadas que o entrevistador deve assumir, para obter uma entrevista bem-sucedida.
Algumas recomendações:
RAPPORT – como já foi explicitado, o entrevistador é responsável pelo comando do rapport, conversa inicial, preparatória, mas fora do contexto da entrevista.
TRANSE HIPNÓTICO – Muitos pensam que o entrevistado é que deve incorporar um transe hipnótico leve. Entretanto, o entrevistador deve estar, também, em transe hipnótico completo, estar ligado profundamente ao entrevistado, sem perder qualquer palavra ou gesto desse entrevistado. Deve ficar em plena prontidão.
AS PERGUNTAS – O entrevistador comanda a entrevista e tem as perguntas chaves a serem colocadas para o entrevistado. Deve, portanto, manter um tom de voz adequado ou calibrado com o entrevistado. Seguir o tom de voz do entrevistado. Copiar dele. Manter a mesma posição física que o entrevistado. Procurar espelhar, isto é, procurar fazer os mesmos gestos que ele fizer. Claro que deve fazer perguntas curtas, com palavras que o entrevistado possa entender. O entrevistador já captou o nível social e cultural do entrevistado, durante o rapport. Rapport não é uma ação inútil. Assim, perguntas longas podem ocasionar respostas curtas. Melhor seria se fossem perguntas curtas e para respostas longas.
REAÇÃO DO ENTREVISTADOR – O entrevistador deve estar consciente de que poderá ouvir qualquer tipo de resposta, desde as mais incoerentes e inadequadas, sem se assustar ou manifestar abertamente sua admiração. Acompanhar espelhando o entrevistado. As expressões faciais acompanham o desenrolar da entrevista, sem manifestação exagerada de aprovação ou recriminação. Agora, o entrevistador pode ter um momento de querer contradizer o entrevistado. Nada disso. Não é permitida a opinião do entrevistador. Ele não deve se intrometer na opinião do entrevistado, por mais diferente que seja a resposta da sua opinião. O entrevistador não é dono da verdade, nem tão pouco, precisa demonstrar sua sabedoria e seus conhecimentos. Isso ocorre com frequência. Técnica falha. Mesmo seguindo a lógica: se está perguntando é porque quer saber a opinião ou parecer do outro. Não discutir nada. Não responder pelo entrevistado. Isso é irritante para o entrevistado.
QUEBRA DO TRANSE HIPNÓTICO – Como foi dito, o entrevistador está em transe hipnótico e procura manter sua posição junto ao entrevistado, que também incorpora esse transe. Entretanto, se o entrevistador se descuidar, por um motivo pessoal qualquer ou, simplesmente, olhar pelo seu relógio de pulso, o entrevistado decodifica e escapa do transe. Quebra o transe. O entrevistador é o comandante da entrevista e, ao final, comunica que a entrevista está no final. Agradece. Isso é fundamental. Entretanto a quebra do transe, no auge da entrevista é considerada uma falha técnica. Ah! O telefone celular. Claro que uma chamada do telefone celular nem é uma quebra de transe, mas uma ruptura agressiva e decepcionante para o entrevistado. Imperdoável e falta de consideração.
PERGUNTAS COM RESPOSTAS – Há perguntas que possuem respostas implícitas. No caso, não é mais um questionamento e sim a busca de uma concordância. É uma pergunta mal-formulada, baseada na vontade do entrevistador para aceitação de suas concepções. Em princípio, numa entrevista bem-sucedida, o entrevistador não deve demonstrar a sua sabedoria, não deve ter nenhuma ideia fixa sobre o assunto e deve manter-se neutro. Casos há em que o entrevistado rebate a pergunta e, assim, passa a entrevistado do entrevistador. Reversão de procedimentos. Isso ocorre e é um caso de se pensar mais profundamente. O entrevistado envolve o entrevistador. Exemplificação: o médico, Hely Bonini, foi preso no período da ditadura e foi ouvido por um delegado. Pergunta vai, resposta vem. Até que o médico passou a discorrer com relação a um fato da medicina e o delegado distorceu o assunto e quis saber mais. Com pouco tempo, o médico estava perguntando ao entrevistador o que ele estava sentindo e acabou passando a entrevistador, dando uma consulta médica e uma receita para o entrevistador. Eis o fato. Reversão de procedimentos. O entrevistador é o comandante da entrevista. Não pode perder esse comando.
PERGUNTAS REPETIDAS 
– Outra vez? – pensa o entrevistado. Além disso, ele tira a conclusão de que está pregando no deserto e suas palavras estão sendo perdidas. Não está sendo ouvido com atenção. Além disso, pode haver perguntas indiretamente já respondidas. “Moro em Santo Antônio do Rio Abaixo”. Sim... Depois, passado algum tempo, o entrevistador pode perguntar: “Há quanto tempo você reside em Belo Horizonte?” – Demonstrou que o roteiro das perguntas está furado. E seguir um roteiro?
SEGUIR UM ROTEIRO – Quase sempre deve haver um roteiro discreto. Se for um roteiro por escrito, pior. Uma entrevista é única e corre livremente como um regato no seu leito natural, apesar de a entrevista ser sempre comandada. Finalmente, pergunta mal- formulada gera resposta mal-respondida.             
ANOTAÇÕES DURANTE A ENTREVISTA – Nas entrevistas de caráter psicológico ou médico são aceitáveis as anotações. Nas demais, torna-se motivo de desconfiança por parte do entrevistado. Também é motivo de quebra do transe.
ENTREVISTA DE  COMPRA E VENDA – Para a realização de uma transação comercial, verifica-se também um transe hipnótico. Muitas vezes, esse transe pode permanecer por maior tempo, até dias, enquanto se procura uma decisão final. Interessante é que a linha invisível que envolve as partes, esse transe, continua em pleno vigor. O rapport está preservado e pode ser reavivado muito rapidamente. Trata-se da continuação de uma entrevista e que se estende por mais tempo, até a sua conclusão ou fechamento.
OBSERVAÇÃO: Centenas de pessoas reclamam que foram mal-atendidas por recepcionistas incompetentes, por profissionais apressados ou atendentes mal-preparados. Os entrevistados, clientes, são, muitas vezes, invisíveis diante deles. Muitas empresas não percebem que o atendente e o recepcionista abrem ou fecham as portas da organização.   
Uma entrevista bem-sucedida faz amigos e confidentes.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...