ENTREVISTA – SEMIÓTICA VI

Deve-se respeitar o entrevistado, pois ele é, para o entrevistador, a pessoa mais importante do mundo, naquele momento.

Entrevista é, antes de tudo, uma conversa profissional.
Ela pode ser realizada entre duas pessoas, entrevistador e entrevistado. Pode, também, ser uma entrevista coletiva. Mesmo assim, pressupõe-se um objetivo definido. Por que ou para que a entrevista está sendo realizada? Os motivos da entrevista são definidos entre as partes, antes de ela ser iniciada. Sem isso, sem essa combinação preliminar, terá resultados prejudicados, por assim dizer. Numa reunião bem-sucedida, entrevistador e entrevistado estão entrelaçados por uma linha invisível que os prende durante todo o tempo da entrevista. Trata-se de um transe hipnótico leve. Tanto um como o outro ficam inteiramente concentrados nas perguntas e nas respostas.
Outro fator importante que deve ocorrer para uma entrevista bem-sucedida, é a atitude do entrevistador. Ele é responsável pelo “rapport”, para evitar um possível aviltamento da sensibilidade do entrevistado. Esse “rapport” – palavra de origem francesa que significa uma conversa inicial, informal - antecede a qualquer relacionamento interpessoal. Pode parecer uma conversa inútil. Sim. Pode parecer uma conversa inútil, mas sem ela não configuram a confiança e disponibilidade do entrevistado. Rapport é fundamental na vida, em qualquer situação. Numa entrevista, principalmente. Não é chegar e ir logo ao assunto, sem saber quem é quem. Esse rapport não pode ser longo demais, porque, nesse caso, passa a ser uma conversa infindável e perde-se o objetivo do trabalho, já que a entrevista tem uma finalidade profissional e um objetivo predeterminado. Assim, inicia-se o transe hipnótico. Acomodam-se as partes, acertam-se os tons de voz, esclarecem-se os objetivos e, talvez, até a duração da entrevista.  Iniciada a entrevista propriamente dita, há algumas recomendações para o entrevistador que podem ser ressaltadas. Para o entrevistado não existem maneiras a serem recomendadas, porque ele deve ser espontâneo e será analisado em todas as suas atitudes. Claro que ele deve seguir alguns princípios para obter o sucesso que ele pretende alcançar. Entretanto, nesta oportunidade, o assunto se prende às maneiras adequadas que o entrevistador deve assumir, para obter uma entrevista bem-sucedida.
Algumas recomendações:
RAPPORT – como já foi explicitado, o entrevistador é responsável pelo comando do rapport, conversa inicial, preparatória, mas fora do contexto da entrevista.
TRANSE HIPNÓTICO – Muitos pensam que o entrevistado é que deve incorporar um transe hipnótico leve. Entretanto, o entrevistador deve estar, também, em transe hipnótico completo, estar ligado profundamente ao entrevistado, sem perder qualquer palavra ou gesto desse entrevistado. Deve ficar em plena prontidão.
AS PERGUNTAS – O entrevistador comanda a entrevista e tem as perguntas chaves a serem colocadas para o entrevistado. Deve, portanto, manter um tom de voz adequado ou calibrado com o entrevistado. Seguir o tom de voz do entrevistado. Copiar dele. Manter a mesma posição física que o entrevistado. Procurar espelhar, isto é, procurar fazer os mesmos gestos que ele fizer. Claro que deve fazer perguntas curtas, com palavras que o entrevistado possa entender. O entrevistador já captou o nível social e cultural do entrevistado, durante o rapport. Rapport não é uma ação inútil. Assim, perguntas longas podem ocasionar respostas curtas. Melhor seria se fossem perguntas curtas e para respostas longas.
REAÇÃO DO ENTREVISTADOR – O entrevistador deve estar consciente de que poderá ouvir qualquer tipo de resposta, desde as mais incoerentes e inadequadas, sem se assustar ou manifestar abertamente sua admiração. Acompanhar espelhando o entrevistado. As expressões faciais acompanham o desenrolar da entrevista, sem manifestação exagerada de aprovação ou recriminação. Agora, o entrevistador pode ter um momento de querer contradizer o entrevistado. Nada disso. Não é permitida a opinião do entrevistador. Ele não deve se intrometer na opinião do entrevistado, por mais diferente que seja a resposta da sua opinião. O entrevistador não é dono da verdade, nem tão pouco, precisa demonstrar sua sabedoria e seus conhecimentos. Isso ocorre com frequência. Técnica falha. Mesmo seguindo a lógica: se está perguntando é porque quer saber a opinião ou parecer do outro. Não discutir nada. Não responder pelo entrevistado. Isso é irritante para o entrevistado.
QUEBRA DO TRANSE HIPNÓTICO – Como foi dito, o entrevistador está em transe hipnótico e procura manter sua posição junto ao entrevistado, que também incorpora esse transe. Entretanto, se o entrevistador se descuidar, por um motivo pessoal qualquer ou, simplesmente, olhar pelo seu relógio de pulso, o entrevistado decodifica e escapa do transe. Quebra o transe. O entrevistador é o comandante da entrevista e, ao final, comunica que a entrevista está no final. Agradece. Isso é fundamental. Entretanto a quebra do transe, no auge da entrevista é considerada uma falha técnica. Ah! O telefone celular. Claro que uma chamada do telefone celular nem é uma quebra de transe, mas uma ruptura agressiva e decepcionante para o entrevistado. Imperdoável e falta de consideração.
PERGUNTAS COM RESPOSTAS – Há perguntas que possuem respostas implícitas. No caso, não é mais um questionamento e sim a busca de uma concordância. É uma pergunta mal-formulada, baseada na vontade do entrevistador para aceitação de suas concepções. Em princípio, numa entrevista bem-sucedida, o entrevistador não deve demonstrar a sua sabedoria, não deve ter nenhuma ideia fixa sobre o assunto e deve manter-se neutro. Casos há em que o entrevistado rebate a pergunta e, assim, passa a entrevistado do entrevistador. Reversão de procedimentos. Isso ocorre e é um caso de se pensar mais profundamente. O entrevistado envolve o entrevistador. Exemplificação: o médico, Hely Bonini, foi preso no período da ditadura e foi ouvido por um delegado. Pergunta vai, resposta vem. Até que o médico passou a discorrer com relação a um fato da medicina e o delegado distorceu o assunto e quis saber mais. Com pouco tempo, o médico estava perguntando ao entrevistador o que ele estava sentindo e acabou passando a entrevistador, dando uma consulta médica e uma receita para o entrevistador. Eis o fato. Reversão de procedimentos. O entrevistador é o comandante da entrevista. Não pode perder esse comando.
PERGUNTAS REPETIDAS 
– Outra vez? – pensa o entrevistado. Além disso, ele tira a conclusão de que está pregando no deserto e suas palavras estão sendo perdidas. Não está sendo ouvido com atenção. Além disso, pode haver perguntas indiretamente já respondidas. “Moro em Santo Antônio do Rio Abaixo”. Sim... Depois, passado algum tempo, o entrevistador pode perguntar: “Há quanto tempo você reside em Belo Horizonte?” – Demonstrou que o roteiro das perguntas está furado. E seguir um roteiro?
SEGUIR UM ROTEIRO – Quase sempre deve haver um roteiro discreto. Se for um roteiro por escrito, pior. Uma entrevista é única e corre livremente como um regato no seu leito natural, apesar de a entrevista ser sempre comandada. Finalmente, pergunta mal- formulada gera resposta mal-respondida.             
ANOTAÇÕES DURANTE A ENTREVISTA – Nas entrevistas de caráter psicológico ou médico são aceitáveis as anotações. Nas demais, torna-se motivo de desconfiança por parte do entrevistado. Também é motivo de quebra do transe.
ENTREVISTA DE  COMPRA E VENDA – Para a realização de uma transação comercial, verifica-se também um transe hipnótico. Muitas vezes, esse transe pode permanecer por maior tempo, até dias, enquanto se procura uma decisão final. Interessante é que a linha invisível que envolve as partes, esse transe, continua em pleno vigor. O rapport está preservado e pode ser reavivado muito rapidamente. Trata-se da continuação de uma entrevista e que se estende por mais tempo, até a sua conclusão ou fechamento.
OBSERVAÇÃO: Centenas de pessoas reclamam que foram mal-atendidas por recepcionistas incompetentes, por profissionais apressados ou atendentes mal-preparados. Os entrevistados, clientes, são, muitas vezes, invisíveis diante deles. Muitas empresas não percebem que o atendente e o recepcionista abrem ou fecham as portas da organização.   
Uma entrevista bem-sucedida faz amigos e confidentes.


Comentários

  1. seus posts sobre semiótica muito me auxiliaram no trabalho de neurolinguística. compreendi os conceitos de forma mais fácil e simples. Parabéns

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