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sábado, 19 de julho de 2014

PROCURANDO NAMORADA


Se alguém resolver encontrar namorada, entre no bate-papo pela internet. Mas, cuidado! Poderá encontrar piranhas, ciladas, armadilhas. É fácil entrar numa gelada. Difícil é sair dela. (Texto do livro “Em nome do filho”)

Nicácio Göebel, um jovem de dezesseis anos, quase dezessete, como gostava de dizer, chegou à Capital para um fim de semana, a convite de um primo.
Numa tarde, sozinho em casa, pegou um computador que lá estava e começou a fuçar, até que caiu num bate-papo sem limites. Foi bom demais e encontrou uma garota que queria conversa comprida. Adotou o nick de Gatossério e ela era a tal de Sissi.
Ele abriu a sala de bate-papo e escreveu que procurava uma garota alegre e desimpedida para uma conversa séria com um gato sério. E, sem imaginar a velocidade da comunicação, uma pessoa respondeu, dando uma cantada logo de cara: Ei, gatinho! Curte um papo firme com uma garota independente? Claro que topo. Que está procurando? Estou procurando um gatinho malvado. Então encontrou. Sou gato cheio de unhas e dentes. E eu sou uma garota cheia de laços e fitas pra te amarrar. Amarrar no meu pescoço? Sim, amarrar vc todo, pés, braços e coração. Vai ser difícil porque eu sou um gato muito arisco. Mas eu sou garota levada e tenho armadilhas pra te prender. Eu mio muito, sou gato selvagem. Eu gosto. Já peguei um na minha armadilha e agora estou treinada. Onde você prendeu? Debaixo da saia? Lugar quente? Quente e aconchegante. Nestes lugares eu me enrosco também e não tenho medo da sua armadilha. Pode me prender como vc quiser. Mas vc gosta de uma garotinha levada? Gosto das levadas e das trazidas. Quantos anos vc tem? Eu tenho quase dezessete.
E vc? Eu tenho quase vinte e sete. Nossa! Do jeito de gato que eu procuro. E eu fico pensando nessa garota levada me trazendo um pouco do seu cheirinho gostoso. Como é vc, garota? Sou morena clara, olhos pretos e corpinho em forma. Não sou modelo magrinha, não. Sou cheinha. Com muito amor pra dar. Mas e vc, gato? Como é vc? Sou garoto comum, de 1,75m, branco, muito branco, neto de alemães. E vc gosta de morenas? Não é o meu forte. Que tipo vc gosta? Gosto de louras. Que pena! Sou morena. Mas vc deve ter outras qualidades. Vc se apaixonaria por uma morena? Acho que não. Tudo depende do carinho. Estou decepcionada. Queria tanto me apaixonar por vc. Pode apaixonar, isso não é problema. Mas vc disse que gosta de louras branquelas. Sim... isso é um pensamento, uma ideia de sonho de garoto. Isso já me dá mais tranquilidade. Vc mora onde? Estou no centro da cidade, a serviço. Não moro aqui. E vc onde está? Estou no bairro Planalto. Conhece? Não, não conheço nenhum bairro da capital. Quer vir a minha casa? Fazer o quê? Me conhecer. Impossível. Não conheço bairros, como te disse. Se conhecesse, vc viria? Não sei. Tenho que pensar muito. Sou gato sério e tenho medo da sua armadilha. Ficou com medo de mim, bobinho? Medo, não. Fiquei analisando. Analisando o quê? O que vc tem para oferecer. Tenho muitas coisas. Que coisas? Docinhos. Só isso? Carinhos, beijinhos. Só isso? Que vc quer mais? Quero deitar na cama com vc. Tenho namorado. Pode ter um a mais. Além disso, não preciso ser seu namorado. A conversa está ficando muito perigosa. Sem problemas. Então, vou sair e trabalhar. Não sai agora. Gostei de vc. Vc disse que tem namorado, então não vai querer nada comigo. Quero sim. Vc vai trair o pobre coitado? Não. Meu namoro é sem compromisso. Vc já transou com ele? Pergunta mais indecente. Não vou responder. Se não responder é porque já transou com ele. Vc é muito indiscreto. Perguntar não ofende, como dizem. Não quero responder essa pergunta. Tudo bem, então vou sair e trabalhar um pouco. Sabe que é hora de trabalho? Eu não trabalho, eu estudo o dia inteiro. Ok. Se quiser amanhã podemos conversar novamente. Pode ser. Que hora? Às quatro da tarde. Tudo bem, amanhã então fico te esperando na net.  Bjinho.Bjinho... Bjão. Bjão. 

No dia seguinte, Nicácio estava despreocupado no seu repouso em casa, e só se lembrou da Sissi às 5 horas da tarde. Como ele estava sozinho, resolveu brincar um pouco e abriu o computador. Logo que entrou na net, ela entrou rachando: tem mais de uma hora que eu estou te esperando. Estava trabalhando. E esse tal de trabalho é mais importante do que eu? Claro que sim. Grosseiro que vc é. Então vou sair. Não, espere que eu tenho outras coisas pra complementar o que vc precisa ouvir. Sim... pode falar. Não sei por que estou conversando ainda com vc. Fiquei esperando, procurando vc em todas as salas. Por que vc fez isso? Porque me comprometi de chegar à net às 4 horas. Lembra? Lembro. Então? Então o quê? Vc ainda tem coragem de perguntar? E se eu estivesse na rua te esperando? Ia arranjar um novo namorado pra conversar. Eu já tenho namorado. Então, tudo fica na mesma. Vc pensa assim? Posso fazer uma pergunta? Pode. Vc quer namorar comigo? Não. Vc é muito grosseiro. Não, sou franco. Só por que eu sou morena? Não é somente por isso, eu não moro nesta cidade, estou indo embora na segunda-feira. Está indo embora para o fim do mundo? Não, minha cidade fica aqui perto. Então? Que desculpa ainda quer dar? Eu trabalho demais na minha cidade e não tenho tempo. Vc é um gato muito bobinho. Trabalhar não mata ninguém. Mas eu estudo e trabalho com meu pai. Mentira. Verdade. 
Então vc já é um homenzinho? Responsável e trabalhador? Claro que sou. Eu não te falei que era menor de idade, pois já tenho 28 anos. Então eu fiquei mais ligada a vc. Não gosto de garoto que fica na rua, com fone no ouvido o dia inteiro. Trabalhar é minha vida. Gostei de vc, quer casar comigo? Eu não vou casar. Não vou casar com ninguém. Pensa que eu não sei que vc está procurando uma loura branquela? Só porque eu sou morena. Na verdade eu gosto de louras. Eu sou morena, mas sou bonita e gostosa. Não provei isso ainda, portanto, não sei. Não prova porque não quer. De longe, como é que eu vou provar? Vem à minha casa. Nunca. Nunca? Não sei onde é esse tal de bairro Planalto. E se soubesse? Se soubesse teria que pensar. Vc é um garoto sem iniciativa. Pode ser que seja. Eu sou mais ousada do que vc. Pode ser. As mulheres têm que ser ousadas. Melhor assim. Os homens ficam parados, indecisos. Alguns. Alguns, não. Todos. Eu também? Vc principalmente. Que andar vc mora? 15º. E qual o número do apartamento? 1516. Amanhã de tarde eu vou aí. Isso é loucura. Quando eu gosto de alguma coisa eu gosto mesmo e assumo. Eu não posso receber visitas. Por que não pode? O ap. não é meu. Mas vc está tomando conta. Está pensando que eu vou roubar alguma coisa de vc? Não, não é isso. Tem medo das minhas armadilhas? Não. Gosto da sua armadilha e dos seus laços e fitas, mas deixe para a outra vez que eu vier aqui. Não, amanhã ou nunca. Então, nunca. Enganador. Diz que gosta da minha armadilha e agora cai fora. Não, não é isso. Ou vc não gosta de mulher? Não, não é isso. Gosto das armadilhas das mulheres e sempre entrei de cara. Gosta de garotas? Claro que gosto. Já teve uma garota na cama? Pergunta indiscreta. Já? Responda. Claro que já. Não tenho dezesseis anos. Já disse que tenho 26. Tem 26 ou 28? Já disse. 
Já transou com garotas? Claro. Sim, por que esse espanto? Vc também não transou com seu namorado? Quem te disse isso? Vc me contou ontem. Eu contei? Contou e disse que seu namorado não tinha compromisso com vc. Sei que vc é fofoqueiro demais. Fica perguntando e anota tudo. Nada disso, presto atenção nas suas palavras. Vc está interessado em mim? Claro que estou. Se não estivesse não estaria conversando com vc esse tempo todo. Será que vc vai gostar de mim? Sei que vc é morena. Assim pode não estar nos meus planos. Vc é racista? Por que vc quer saber? Pergunto. Não respondo. Então é verdade. Não é verdade, não me importo com essas coisas, sou superior a essas questões, tenho a minha ideia da vida e quero continuar. Por isso, gosta de louras branquelas? Não sei por que, mas isso é questão de preferência apenas, não quer dizer nada. Então vc não transaria com uma negra? Depende. Depende de quê? Depende da hora e do lugar. Minha mãe é negra. Sim... e o que tem isso? Tem que eu não sou loura, que eu gostaria de ser pra poder namorar vc. Só pra isso? Não, tem outras coisas. Que coisas? Tenho vergonha da minha mãe. Então vc é que é racista. Minha mãe é muito inteligente. Então, não precisa ter vergonha. Ela trabalha muito. Onde ela trabalha? Ela é curadora do Palácio. Que palácio? Palácio da Liberdade, bobinho, aqui só tem um. E o que é curadora? Ela é a gerente-geral administrativa. Deve ganhar uma nota. Nada, vivo sempre precisando de coisas e ela, miserável, não me dá. Vc deve ser muito exigente. Sou pobre, pobre. É mais rica do que eu que não tenho nada. 
Não tem porque não quer, se quisesse ia me ter nos seus braços. Calma, menina, eu sou um touro na cama, vc vai se assustar comigo. Oba! Está melhorando. Vou aí, se a minha mãe for trabalhar cedo. Aqui eu não posso te receber, não tem nem cadeira, só tem cama. Melhor assim. Acho que a minha mãe não vai trabalhar amanhã, assim, depois de amanhã, sexta-feira eu vou te visitar. Não faça isso. Eu não posso ser responsabilizado por nada, como disse, eu sou um touro e fico bufando à toa. Isso mesmo. Vou sair. Meus amigos estão chegando. Que pena, amanhã, às quatro horas? Talvez. Talvez, não, com certeza, preciso de vc. Ok, adeus. Adeus, não, bjim, bjim. Bjão, bjão. Fui.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

JK AO VIVO

 TEATRO - MONÓLOGO
Personagem: JK (Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902 – 1976)
Autor: Rogério de Alvarenga
Revisão: Omar Fürst



Cenário: sala de estar. O ex-presidente recebe amigos convidados, (Pequeno coral, in off, canta suavemente, um trecho da modinha Elvira, Escuta, de José Marcelo de Andrade e Luís Cláudio: “Elvira, escuta/ os meus gemidos,/ que a teus ouvidos,/ irão chegar// Não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma/ que te sabe amar.” Segue cantando mais suavemente a modinha em boca fechada, até desaparecer.)

(Entra o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira e, em tom coloquial, vai desenvolvendo um relacionamento afetivo com a plateia.) 
1. (A numeração dos itens da fala foi colocada para facilitar a memorização do ator e, também, para definir a sequência natural das ideias.) 
JK - Boa noite! Boa noite a todos! Impossível perder esta oportunidade de vir conversar com os meus amigos, principalmente com os amigos desta cidade que me fez para vida política.  Todos me conhecem de nome e de ação. Relatórios de minha vida? Todos conhecem. Vim por minha própria alegria de encontrar amigos. Amigos? Sempre tive dos melhores. Sempre fui fiel aos meus amigos. E os meus amigos me acompanharam até o meu final, ao final da minha vida, abraçados a mim, me conduziram ao meu descanso eterno. Tantos choraram por mim. Eu chorei por todos. Chorei copiosamente porque poderia ter feito ainda tantas coisas para o meu país e para o meu povo. Isto mesmo. Tive vergonha de morrer e deixar tantas coisas por fazer em tantos projetos arquitetados. Vim agora confirmar que meu pensamento sempre foi o caminho do progresso e tantas coisas que existem hoje em nosso país são fruto de uma disposição para o trabalho e para a realização de grandes obras. Não pensem que foi fácil romper tantas barreiras, ditas intransponíveis, para chegar ao topo, com a mesma coragem e o mesmo desprendimento que me caracterizam. Infelizmente, construí patamares nunca dantes imaginados para o povo brasileiro e recebi, em troca, por alguns, farpas inacreditáveis, denúncias, incompreensões e, finalmente, a própria morte.
2. Perdoar? Perdoar? Passei a minha vida inteira perdoando a centenas de algozes inesperados, que me atropelavam por infundadas razões, construídas por obsessão à inveja, à maldade, ao ódio ou ao medo. Agora, neste ponto final da linha da minha vida em que me encontro, que farei? Terei o mesmo senso de humildade ou de bondade para colocar o meu rancor em estado de pausa, para demonstrar o mesmo sorriso de complacência diante da arrogância, da petulância, da ousadia, da irreverência? Serei, assim, incompreendido pelos meus amigos, companheiros e até mesmo pelos meus eleitores. Se eu for arrancar palavras do fundo de um coração aviltado e coagido, não posso exprimir aquelas mesmas palavras, com sorriso de tranquilidade e segurança. Pensando melhor, neste momento, volto meus olhos para a minha vida, toda completa, de princípio, meio e fim, dizendo apenas que estou acima de todos os meus detratores, superior em filosofia de vida, em comportamento interior e soberania de princípios e ideais. Meus olhos não se convergem para as ações inferiores que habitam mentes também inferiores. Cada um pagará pelo que tenha feito. Esta lei não foi proposta por mim. É a lei do universo. O dia fatal chegará para todos, na sua grande justiça final. Com maior ou menor dose de sofrimento. Então, ironicamente, perdoo a todos, sem piedade. E não se fala mais nisso.      
3. Este comentário não está condizente com a amizade e o respeito que dedico às novas e brilhantes gerações de brasileirinhos, crescidos e desenvolvidos no respeito e na dignidade.
4. Falo para todos os que lutam para conseguir melhor qualidade de vida, segurança no trabalho e imaginar uma longínqua velhice digna. No meu caso, tantas forças da natureza colaboraram com a minha formação. Tive a sorte de nascer de família simples e digna. Meu pai, João César de Oliveira, era minerador na cidade de Diamantina, alegre, bem humorado, mas com pouca sorte na mineração. Ele faleceu jovem, deixando uma viúva de 23 anos, e dois filhos menores. Eu tinha dois anos e Naná era um pouco mais velha. Não me lembro de meu pai. Construí uma imagem dele pelas palavras amáveis e saudosas de minha mãe, professora Júlia Kubitschek. Meu pai, João César de Oliveira está sempre lembrado numa das principais avenidas da cidade de Contagem. Assim, minha mãe passou a dedicar a sua vida à educação dos seus filhos Nonô e Naná, como ela carinhosamente nos chamava. Não tínhamos nada que pudesse garantir uma vida de fartura e felicidade, se não fosse a dedicação da minha mãe e de alguns familiares mais próximos. Que estrela poderia nos oferecer uma oportunidade de brilho na sua constelação? Que futuro? Mas dona Júlia acreditava e sua fé era inabalável. Teve que vender tudo de valor que possuía, tão empenhada estava na educação dos filhos. Nada para si e tudo para os filhos. A vida da jovem Júlia estava planejada e sonhada. A sua riqueza eram essas duas crianças mais lindas do mundo, como são as palavras de todas as mães.
5. Em Diamantina, em 1906, foi criado o primeiro Grupo Escolar do Estado, pelo então governador João Pinheiro da Silva e minha mãe passou a ser remunerada pelo estado de Minas Gerais. Fui matriculado nesse grupo quando completei sete anos de idade. Terminado o curso no Grupo Escolar, que fazer? Minha mãe articulou com o diretor do seminário de Diamantina e conseguiu me matricular para o curso de padre. Correspondia ao curso ginasial ou primeiro grau. Se o aluno demonstrasse interesse de seguir a carreira eclesiástica, ele passaria para o curso mais avançado. Estudei muito, li muito, aprendi muito, mas a vocação para padre não apareceu. Fui franco com a direção do seminário e com minha mãe. Fiquei sem nova oportunidade pela frente.
6.Matriculei-me, então, num curso livre para telegrafista. Não havia outras oportunidades. Foi a minha salvação. Sem pensar em resultados imediatos, fui em frente como se a luz me aparecesse de repente. Fui firme, como todas as coisas que fiz na minha vida. Parece que sempre fui obsessivo demais. Quando pego, não largo e não entro em nenhuma atividade para perder. Por sorte, mais tarde, apareceu um concurso para telegrafista em Belo Horizonte. Fiz a minha inscrição e fui aprovado no concurso. Mesmo aprovado nesse concurso, tive que desenvolver algumas ações para ser nomeado. O meu primeiro dia de trabalho significou a minha independência financeira, estava rico. Assim, me senti mesmo rico e nem precisava de tanto. Minha mãe ficou mais aliviada. Continuei os meus estudos, trabalhava à noite inteira e, de manhã, estava firme na Escola de Medicina. Terminei o curso em 1927. Eu estava, portanto com 25 anos de idade.
7. Simples, não? Quando volto o meu olhar para esse tempo, vejo que fui bem sucedido e que estava no caminho certo, dentro do meu objetivo. Agora, trabalhar em benefício das pessoas carentes com assistência médica. Trabalhei em consultório particular e depois, por concurso, entrei para Polícia Militar do estado de Minas Gerais, como médico urologista. Participei da Guerra Civil Brasileira de 1932 e fui promovido a Capitão Médico.
8 A minha vida pública teve início com o convite que recebi do governador Benedito Valadares para o cargo de chefe de gabinete e logo, em seguida, fui nomeado prefeito da cidade de Belo Horizonte. Os prefeitos eram nomeados no tempo da ditadura Vargas. Não havia eleições. Belo Horizonte caiu nos meus braços. Não tive tempo nem de pensar, porque havia muitas coisas a fazer. Era o meu primeiro desafio.
9. Imaginem uma cidade idealizada e inaugurada em 1897, inacabada, mas caprichosamente bem traçada, com um plano diretor a ser seguido. Já imaginaram Belo Horizonte sem a Avenida Amazonas e sem a Avenida Antônio Carlos? Tudo por fazer. Uma cidade de 40 anos, construída pelo estado. Construída em quatro anos, apenas e inaugurada no dia 12 de dezembro de 1897. Não é feriado municipal comemorativo. Todas as cidades comemoram seu dia. BH, não! Há razões várias, nenhuma verdadeira. Mas, como ia dizendo, essas avenidas radiais deveriam ter 50m de largura. O atual bairro da Barroca era realmente uma barroca, um pântano. A Avenida Amazonas tinha que passar por cima. Grande movimentação de terra ou de barro. Não havia tratores, claro! Como abrir grandes avenidas de mais de seis quilômetros de extensão cada uma? Toda a terra era trasladada em carroças. A prefeitura monopolizou mais de um mil burros. Era a movimentação intensa de carroças, de poeira, de gritos e de problemas. Uma vitória. Com essas atividades, com essa movimentação de terra, me apelidaram de “prefeito furacão.” Sempre gostei desse apelido, que me acompanhou ao longo da minha vida. Não parece verdade? Sempre fui prefeito furacão. Não quero ficar fazendo relatório desse tal de “prefeito furacão. Mas não posso deixar de falar na represa da Pampulha. Depois desse lago artificial pela barragem construída, a urbanização. Em seguida um plano arrojado. Arrojado demais para a época.
9. O conjunto arquitetônico da Pampulha! Convidei a equipe do jovem e brilhante arquiteto Oscar Niemeyer para um projeto grandioso. Assim, surgiu o Cassino da Pampulha, com a efervescência do jogo, dos shows, do dinheiro rolando fácil. E o Iate Golfe Clube, a Casa do Baile e a igrejinha de São Francisco de Assis. Todo esse conjunto arquitetônico, edificado em linhas de vanguarda modernista, foi inaugurado por mim e pelo governador do estado Benedito Valadares, na década de quarenta. Os que viram na época, não acreditavam. E a lagoa da Pampulha com 18 quilômetros de perímetro! Foi a minha primeira loucura. Vivo de sonhos! Vivo de obras grandiosas. Não nasci para obras pequenas. Meu mal? Muitos pensam que sim, e ficam com o microscópio e os termômetros dependurados no pescoço, vendo o tempo passar. Nada melhor do que vislumbrar sempre, em sonhos, em planejamento e em ação, um belo e grandioso horizonte. Horizonte, minha grande meta.
Grandes obras, grandes voos! Foi um assombro para o nosso estado e para a nossa Belo Horizonte da época e elevou a autoestima dos mineiros. Era o início das minhas grandes realizações. Este conjunto arquitetônico representava ousadia, beleza e grandiosidade pela arquitetura de plena vanguarda modernista. Sempre me orgulho de ter vivido esses momentos de grandes realizações em Belo Horizonte.   
10. Uma polêmica: O bispo, Dom Cabral condenou a igrejinha de São Francisco. Tão simples, tão moderna, tão bonita! “Nada de rezas nessa caixa do Juscelino.” Foi condenada e, por quase vinte anos foram proibidas ações religiosas e permaneceu firme em pleno ostracismo. Somente em 1959, quando eu era presidente da República, consegui a sua liberação, seu “habeas-corpus”, em negociações com Dom João de Rezende Costa.
11.Ainda a igrejinha de São Francisco, que é protetor também dos animais. O painel do grande pintor Portinari, localizado na parte interior frontal, entre as figuras místicas representadas, havia um cachorro ao lado, que, atento, observava os acontecimentos. Esse cachorro foi um dos pontos de referência para a condenação. A Cúria Metropolitana venceu e a pena foi impiedosa. Entretanto, não posso me esquecer desse fato. Depois da liberação da igrejinha para atos religiosos, promovi uma missa solene de inauguração, com autoridades civis, militares e religiosas. Um solene acontecimento. Eis senão quando, no momento mais efusivo da celebração, entra pelo hall central, um velho cão, bem vira-lata, sem jamais saber o que seja “pedigree”, e avança tranquilamente, triunfantemente, até o altar e ali permanece sem se importar com nada. Ficou bem perto de mim alguns momentos e as minhas lágrimas desceram sorrateiramente. Depois, saiu porque não tinha mais nada a fazer senão demonstrar que era também devoto de São Francisco.
12. Depois disso, fui eleito deputado federal em 1947, pelo PSD – Partido Social Democrático, já me preparando para as eleições de governador do estado, quando fui eleito Governador em 3 de outubro de 1950.
13. Sabe quem foi meu adversário nessas eleições? Meu concunhado Gabriel Passos, pela UDN – União Democrática Nacional. O estado, nessa época, tinha 300 municípios e eu fiz 168 comícios com a meta Energia e Transporte. A população brasileira era de 52 milhões de habitantes, sem estradas, sem comunicações, sem energia elétrica.
14. O estado de Minas Gerais tinha 1.330 milhões de eleitores e o país, 8.254 milhões de eleitores. Eu fui eleito com 53% dos votos. A minha posse no governo do estado ocorreu no dia 31 de janeiro de 1951.
15, Imediatamente o trabalho. Mas, antes, era preciso mudar a postura e os métodos. Nada de ficar despachando com chefes políticos em gabinetes fechados. Mudança de comportamento e de atitudes para recuperar o atraso e a sonolência que dominavam o estado por tantos anos, desde a fuga das minerações e do ouro. Abri estradas. Eram 16 estradas-troncos para cortar diametralmente o estado. Belo Horizonte a Salto da Divisa, com 902 quilômetros! Criei a CEMIG – CENTRAIS ELÉTRICAS DE MINAS GERAIS – hoje, Companhia Energética de Minas Gerais, empresa modelo. Construí barragens de FURNAS e de TRÊS MARIAS, produzindo energia elétrica. Articulei para a implantação da Companhia Siderúrgica Mannesmann, inaugurada em 1954.
16. Uma vez, quando eu era governador, meu Secretário da Agricultura me confidenciou a compra de 40.000 enxadas. Respondi-lhe imediatamente que esperava a aquisição de 40 mil tratores. Não tenho vocação para obras pequenas. Nunca tive. Estou saudosista, Me desculpem!
17. Nunca me esqueci da minha Diamantina. Era o meu lado esquerdo do coração, do sentimento mais puro e profundo. Serestas, serenatas!!! Festejava com serenatas, lembrando sempre do meu pai, João César de Oliveira. Tive os irmãos que nunca tive. César Prates, Dilermando Reis, Ataulfo Alves, Sílvio Caldas e tantos outros. Sempre foram meus irmãos, companheiros, fieis e solidários. Meu coração se abria de canto a canto. Guardo-os a sete chaves, dentro do coração.

18. (Musical. Jk relembra suas músicas – O coral entra em cena, cantando. Elvira, escuta!
LETRA DE ELVIRA, ESCUTA – José Marcelo de Andrade/Luis Cláudio
Elvira, escuta os meus gemidos/ que aos teus ouvidos irão chegar/ Não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma, que te sabe amar.
Se tu me amas/ como eu te amo/ eu te prometo/ não te desprezar/ não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma que te sabe amar/
Teu coração é um rochedo/ e este rochedo/ é o meu penar/ não sejas traidora, tem dó de mim, tem dó dest´alma que te sabe amar.
Sobe a escada bem devagar/ Elvira dorme/ pode acordar/ não sejas traidora, tem dó de mim/ tem dó dest´alma/ que te sabe amar.
Ainda como depois de morta/ a tua face irei beijar/ não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma/ que te sabe amar. 

Em seguida, o coral canta a canção folclórica: PEIXE VIVO, com movimentação e alegria.
Zum, zum, zum – lá no meio do mar – bis / é o vento que nos atrasa/ é o mar que nos atrapalha/ para no porto chegar/
 Zum, zum, zum lá no meio do mar /bis / como pode o peixe vivo viver fora d´água fria –bis/
Como poderei viver/ como poderei viver/ sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia/ bis.
Os pastores desta aldeia/ já me fazem zombaria/ bis/ Por viver assim chorando/bis - sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia O rio de São Francisco/ corre de noite e de dia/ bis Só o tempo é que não corre/bis - sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia/ Zum, zum, zum lá no meio do mar/ bis.

Logo após, entra uma grande valsa vienense, orquestrada, em off. JK dança com cada uma das personagens do coral, com elegância e distinção.
Em seguida, o coral canta para encerramento:
Oh! Minas Gerais!  Quem te conhece não esquece jamais!/ Oh! Minas Gerais...
– adaptação musical da canção italiana: Vieni sul mar

19. Não posso deixar passar uma valsa. Sempre gostei de dançar e não perdia tempo. Depois, algumas pessoas passaram a pensar que a minha obsessão pelas dançarinas era uma questão patológica. Rio demais desse diagnóstico. Realmente, aproveitava todas as oportunidades e procurava agradar sempre às mulheres. Sarah não era assim tão ciumenta. Agora vou fazer uma revelação, uma confissão: não era essa a minha obsessão. E eu tinha obsessão era mesmo pela realização de obras grandiosas. E tudo pelo trabalho e pela minha família. Tudo o mais eram lendas. E por que não gostar de dançar com as belas mulheres brasileiras?
20. E agora, a meta pela presidência da República! Não foi fácil a aprovação do meu nome como candidato pelo PSD, Partido Social Democrático, mas finalmente, o meu nome foi aprovado em 1955. O país vivia um clima de tensão. Tensão política envolvendo o presidente Getúlio Vargas e o jornalista Carlos Lacerda, brilhante orador. O presidente estava numa roda sem saída. Eu, pessoalmente, e mesmo o governo de Minas nunca tivemos problemas com o presidente Getúlio Vargas, embora ele fosse de outro partido. Relações de amizade, de consideração e de respeito.
21.Tive sempre pelo presidente Getúlio Vargas a maior consideração e respeito. Assim, mesmo nesse período de turbulência política, o estado de Minas Gerais teve a honra de recebê-lo no dia 12 de agosto de 1954, por ocasião da inauguração da Companhia Siderúrgica Mannesmann. Esta inauguração foi a sua última aparição em público.
22. Não posso me esquecer desse dia. Ficaram marcados pelas contingências que posso explicar. Após a inauguração, ofereci-lhe um almoço nos jardins do Palácio da Liberdade, ao som de melodias bem suaves. O presidente se mostrava triste, arredio, sempre procurando o isolamento. À tarde, fomos para o Palácio das Mangabeiras, no alto da serra do Curral, local acolhedor e de pleno silêncio. Visão ampla e descortinada da cidade de Belo Horizonte, ao longe. Era um local adequado ao repouso e à meditação. O jantar foi servido para 30 pessoas, em caráter íntimo, apenas alguns sindicalistas, diretores da Mannesmann e alguns deputados. Houve, após, uma pequena serenata com César Prates e Dilermando Reis, terminando por volta da meia-noite. Deixei-o a sós e desci a serra do Curral, recomendando ao mordomo que não se afastasse dele um só instante. Ele, o presidente, mais tarde, desceu até à biblioteca, pegou um livro de Eça de Queirós. No dia seguinte, notei que ele estava muito abatido. Levei-o ao aeroporto. Na despedida, abraçou-me de forma inusitada. Pude sentir, pela firmeza de seus gestos que era um abraço fraternal. Ele queria falar alguma coisa e não conseguiu. Com esse abraço, entretanto, percebi que ele manifestava um forte impulso de agradecimento e de amizade. Tentou outra vez dizer alguma palavra, mas não conseguiu. Não precisava de palavras. Ele talvez quisesse agradecer aqueles momentos de paz e de solidariedade. Eu, de minha parte, comovi-me intensamente, porque sabia do clima de hostilidade generalizada que fermentava no Rio de Janeiro, capital do país, naquela época. A imprensa e os militares! Amigos?  Quais? Sei, com certeza que, nesse momento de despedida de Belo Horizonte, ele tinha podido sentir que eu estava do seu lado, mesmo sem dizer uma só palavra.
23. Getúlio Vargas despediu-se de mim na manhã do dia 13 de agosto de 1954 e suicidou-se no dia 24.
24. Foi um ato de plena decisão. Premeditado, arquitetado por vários dias. Foi um golpe final e fatal que terminou imediatamente com a farra da UDN e dos militares.
25. A UDN – União Democrática Nacional – tinha investido todas as suas forças contra Getúlio Vargas, sempre na tentativa de sua deposição, de seu afastamento ou de sua renúncia sem retorno programado. E ele respondia: “Só saio daqui morto! Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho razões para temer a morte!”
26. Getúlio Vargas resistiu o quanto pôde para evitar a sua deposição. Finalmente, nesse dia 24 de agosto de 1954, às 8h30, deu um tiro no próprio coração. E o povo brasileiro chorou e foi para as ruas, com a sua carta de despedida. Foi isso que aconteceu. Os opositores ficaram em pânico, atônitos com o povo nas ruas
27. Às 11h30 parti para o Rio de Janeiro, completamente aturdido pelos acontecimentos, pela amizade e pelo respeito que tinha pelo presidente. Estava comovido e chocado. Minha esposa, Sarah e eu acompanhamos o velório, procurando dar conforto aos familiares. Ainda mais, eu fui o único governador de estado que compareceu ao velório do presidente Vargas.
28. Depois desses acontecimentos, eu poderia pensar nas eleições para presidente, no ano seguinte? As eleições seriam realizadas no dia 3 de outubro de 1955. O ambiente político ficou conturbado. Era prudente aguardar. Esperar o momento certo. Finalmente tive a ventura de ver o PSD, meu partido, em forte aliança com o PTB – Partido Trabalhista Brasileiro – partido do presidente Vargas. Tive João Goulart como companheiro de chapa. Enfrentamos a candidatura à presidência da República.  Nas eleições, obtivemos 36% de votos. Eram quatro candidatos e não obtivemos a maioria absoluta, uma nova arma secreta da UDN e dos militares, contra a minha posse.  
29. Reviravolta de 360 graus. O Marechal Henrique Teixeira Lott, em 11 de novembro de 1955 restabeleceu a ordem política, assegurando a minha posse no dia 31 de janeiro de 1956. A faixa presidencial me foi passada pelo senador, digo, presidente, Nereu Ramos.
30. Assumi a presidência com um plano de metas e uma meta síntese, a construção de Brasília, um sonho impossível.
31. Não preciso fazer relatório sobre minha ação na presidência da República, mas digo, com orgulho, tive a honra de desbravar o interior desse gigante adormecido. Tirar o país da síndrome do caranguejo, deslumbrado pelo litoral Atlântico.  A estrada Belém-Brasília foi um marco nacional. E digo mais, a transferência da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960 foi um marco histórico irreversível. Brasília, um sonho tão sonhado por tantos e concretizado por mim. Brasília foi construída no planalto central em três anos e oito meses. Inacreditável até para os meus companheiros. Meus adversários aprovaram a construção de Brasília porque tinham a certeza de que ela seria um retumbante fracasso político. Sei que paguei caro por essa ousadia, e tantos e tantos não me perdoaram. Falei antes sobre perdoar. Isso ainda retumba na minha cabeça e rompe a minha consciência. Fico aturdido com a meta do perdão que sempre usei e abusei. Agora, que fazer?
32. Brasília, uma miragem! Uma paixão desenfreada! André Malraux, ministro da Cultura da França, quando avistou esse monumento não deixou de exclamar? “Esta é a capital da esperança!”
33. Após o término do meu mandato, passei a faixa presidencial ao meu sucessor, presidente Jânio Quadros. Democraticamente eleito. E o meu amigo, menestrel Juca Chaves, me fez uma homenagem comovente na sua canção, Presidente bossa nova: “Bossa nova é mesmo ser presidente/ desta terra descoberta por Cabral/ para tanto, basta ser tão simplesmente,/ simpático, risonho, original! ...”    
(Entra um cantor com o violão e canta a canção do Juca Chaves. JK procura fazer dueto. Cumprimentos e agradecimentos)

34. Tive a honra de ser eleito ainda Senador pelo estado de Goiás que representei com brilhantismo até o dia da cassação dos meus direitos políticos.
35. Depois de tudo isso, acontecimentos terríveis! Em 31 de março de 1964, os militares depuseram o presidente João Goulart e assumiram o poder do país.
36. Pronunciei um discurso no Senado afirmando a minha revolta. Foi o bastante. Foi o suficiente! No dia 8 de junho de 1964 foi decretada a cassação dos meus direitos políticos por dez anos, juntamente com nove deputados e 39 outros cidadãos.
37. Esse decreto teve apenas duas assinaturas: do então presidente, Marechal Castelo Branco e do Ministro da Justiça, Milton Soares Campos.
38. Todo mundo pensava que eu era um homem rico. Na verdade, fiquei praticamente indigente, sem receitas. Sem aposentadoria, sem emprego. Desesperado, sem amigos, fui para o exílio, com a ajuda financeira de amigos. Podia isso acontecer? Um político pobre, vivendo a custa de amigos? Estava na França e se voltasse, seria preso.
39. Vivi na França alguns anos. Anos de tristeza, de abatimento, de solidão. Vivi com grandes dificuldades financeiras, tanto tempo quanto pude. Não podia retornar. Neste período de exilado, faleceu a minha irmã, Naná. Minha única e amada irmã. Que fazer? Obtiveram para mim a permissão de acompanhar o velório e retornei, com todas as precauções. No aeroporto, um oficial militar me confidenciou que eu iria ser preso. Ele era grato a mim por um processo que eu tinha liberado a seu favor. Ele foi ao aeroporto somente para me proteger. Eu poderia acompanhar o velório, mas não poderia dirigir nenhuma palavra a meu povo. Foi cruel. Cheguei ao velório da minha irmã, Maria da Conceição, Naná.

40       Em Belo Horizonte, por onde passava, o povo me aplaudia e gritava meu nome. Eu não podia ouvir nem ver essas manifestações. Segui calado e triste. Nem cumprimentar o meu povo. Sempre estive de cabeça baixa. Finalmente, cheguei a frente ao corpo da minha irmã. Chorei copiosamente. Queria interromper meus soluços e não conseguia. Depois, percebendo que nada estancava meu pranto, passei a chorar sem repressão. Tinha que desabafar tanta dor incontida. Nem sei como derramei tantas lágrimas. Não me continha. Decidi deixar extravasar todos os meus ressentimentos. Ela compreenderia isso. Do lado de fora, aplausos. Que fazer? Foi uma cena patética. Nem gosto de me lembrar. O povo aplaudindo e eu chorando copiosamente. Tudo isso me fazia mais convulsivo. Era o dia 4 de junho de 1966.    
41. Indiquei Israel Pinheiro para governador do estado de Minas Gerais, nas vésperas da eleição, contrariando a expectativa dos políticos militares. Ele venceu e pôde se sentar na mesma cadeira onde seu pai, João Pinheiro assentou, em 1906 e morreu, em 1908, como governador do estado.         
42. E continuaram as perseguições à minha pessoa de todas as formas.   Tinha decidido voltar para o Brasil, disposto a enfrentar qualquer situação. Fui convocado a depor em várias oportunidades e recebia ameaças diariamente, até que surgiu a notícia da minha morte, anunciada por um jornal irresponsável. Ainda não era verdade. Mesmo assim, nunca me tocaram fisicamente.
43. Queriam, agora o sei, a minha morte, sem ressurreição. Sei, agora, que sempre fui um fantasma aterrador para eles. Sei, agora, que sempre me temeram, que temeram a minha sombra que passava por eles como qualquer fresta de luz. Temiam. Eu era o inimigo e eles vivem durante toda a vida profissional à procura do inimigo. E eu estava onde? Na memória do povo e nas minhas obras. Em tudo que tocavam a minha imagem fantasmagórica estava preservada. Eu tinha retornado definitivamente ao meu país e iria viver aqui, do jeito que pudesse. “Agora, só saio morto!”
44. Fui convidado para uma serenata em Diamantina e encontrei poucos amigos. “Parece que tenho uma doença contagiosa”. Mesmo assim, eu passava por cima dessas humilhações.
45. Sei que se me fosse permitido, eu seria eleito presidente, novamente. Minha meta principal: “Cinco anos de agricultura para cinquenta de fartura.”     
46. O boato da minha morte foi apenas um aviso. Na ocasião, eu me diverti muito com jornalistas e amigos na minha fazenda em Luziânia. Era a morte anunciada.
47. Candidatei-me a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Uma grande frustração. Fui vendido pelo presidente da casa, Austregésilo de Athayde, por um saco de cimento. Perdi a eleição, mas compareci à posse do meu concorrente para cumprimentá-lo.
48. Logo após, Vivaldi Moreira, presidente da Academia Mineira de Letras, inscreveu meu nome como candidato a uma vaga. Fui eleito por unanimidade. Tomei posse no dia 3 de maio de 1975. Das oportunidades, a mais honesta e mais significativa para mim.
49. Como é natural, a morte encerra todas as histórias. Numa tarde de domingo, dia 22 de agosto de 1976, vindo de carro de São Paulo, com o meu motorista e amigo, Geraldo Ribeiro, fui vítima de um acidente, provocado por uma “fechada” de um ônibus da Viação Cometa, no quilômetro 165 da via Dutra. Tal fato obrigou o motorista a desviar para a outra pista e colidiu com uma carreta que vinha em sentido contrário. Não tivemos salvação. Nada mais sei. Morte imediata. Faltavam 20 dias para eu completar 74 anos de idade. Meu corpo foi exposto numa mesa de bar da rodovia, sem nenhuma marca de perfuração por arma de fogo. Entretanto, o corpo de Geraldo Ribeiro foi imediatamente colocado num caixão de alumínio, trancado hermeticamente.
50. Fui transportado para o Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro e, em seguida, fui removido para o saguão do Edifício Manchete. Meu amigo Adolfo Bloch chorava convulsivamente. Sarah e as nossas filhas Márcia e Maristela chegaram ao amanhecer. Os meus amigos também começaram a chegar logo após. O povo, ousada e agressivamente, cantava a canção do “Peixe Vivo”. Ao meio-dia de 23 de agosto, o cortejo seguiu a pé até o aeroporto Santos-Dumont. O meu caixão estava coberto com a bandeira do Brasil. Fui transportado, como sempre, nos ombros do meu povo, num percurso que durou mais de uma hora. Ao chegar ao aeroporto, o povo aglomerado, me aplaudia emocionado. Brasília, meu destino! Às 16h chegava à minha nova morada. O povo, emudecido, viu abrirem-se as portas do avião. Silêncio total. Mais de 30 mil pessoas aguardavam a minha chegada. Meu novo itinerário: a Catedral. Uma “kombi”, coberta com a bandeira do Brasil, chegou-se ao avião, As portas se abriram e apareceu um funcionário da empresa. Fez o sinal-da-cruz. Fui transportado por uma Kombi! Tantos amigos corajosos ali presentes. Não posso citar nomes. Amigos ousados e corajosos. O povo aplaudia sem cessar. Sem cessar cantavam a canção do Peixe Vivo, desde a parte da manhã, quando começaram a se aglomerar no aeroporto, aguardando a minha chegada. Grupos informais se formavam, cantavam e choravam em movimentos de desespero. Corais emocionantes.
(O coral, em surdina, entoa a canção do Peixe Vivo. O ex-presidente aguarda um pouco e depois, continua.)
O cortejo seguiu com quatro mil automóveis em carreata. Fila interminável até a Catedral, distante 20 quilômetros. Quarenta jovens motociclistas, com blusões pretos, portavam faixas. O esquife entrou na Catedral, carregado pelo povo. A Catedral estava cheia de candangos. Eles construíram e agora, entraram. Por mais estranho que pareça, estavam felizes perto de mim. Havia centenas e centenas de coroas. Flores e flores chegavam. Depois, os candangos, que não tinham dinheiro para comprar flores, foram arrancando das coroas as flores mais bonitas e jogando-as sobre o meu caixão. Os cordões de isolamento eram enormes. Uma senhora disse para um militar:“Os senhores estão isolando o quê? Tem alguma coisa aqui para ser isolada? Nós viemos buscar o nosso presidente no maior respeito que ele merece! Já não chega esse isolamento de tantos anos? Vamos! Tirem essa corda que eu vou passar!” Os taxistas não cobravam as corridas e baixaram os taxímetros. Não cobravam de nenhum passageiro. A missa foi celebrada pelo Arcebispo dom José Newton, pelo Núncio apostólico, dom Cármine Rocco e mais 25 padres, tendo iniciado às 17h15. Quase não houve missa. Ela foi interrompida várias vezes por palmas, hinos, lamentações e choro. O celebrante acolhia essas manifestações, aguardava um momento para continuar a missa. Novamente, outra manifestação de desespero e dor profunda. Nada impedia manifestações. Nunca se viu uma interferência tão perturbadora numa missa como essa. Participação e integração nos atos religiosos. Do lado de fora, o povo se comprimia com os gritos de JK! JK! JK! Sarah, com voz trêmula, conseguiu pedir calma ao povo amigo. Todos se calaram, imediatamente. O povo atendeu por alguns instantes. O silêncio era cruel demais. Impossível suportá-lo. Logo depois, o desespero retornou em brados e lamentações. Um grupo de índios xavantes de Mato Grosso conseguiu chegar perto do meu caixão, colocado bem em baixo dos anjos de Ceschiatti. Uma oração na língua primitiva e pura ecoou na catedral. De mãos dadas, em coro, lançaram seus gritos tribais. Levantavam e desciam os braços, por várias vezes, com as mãos fechadas. Um candango, de alma pura, perguntou: “Ele vai ser enterrado?” Fazia sentido essa pergunta? Um ser sobrenatural? Eram seis horas da tarde quando o meu caixão foi retirado da Catedral. Seria colocado num carro vermelho do Corpo de Bombeiros, estacionado em frente. Aí, o povo, os candangos não permitiram e me carregariam nos ombros calejados, para onde quer que fosse. O caminho é longo. Vários quilômetros até o Campo da Esperança que me aguardava. Mas ninguém pensava nisso. Tinha o meu destino: “deitar-me para dormir em paz.” O percurso foi longo e sofrido. Era um cortejo fúnebre, mas apareciam corais improvisados que me saudavam a cada momento. Finalmente, já de madrugada do dia 24 de agosto, fui sepultado perto do meu amigo Bernardo Sayão e a alguns metros do Candango Desconhecido. O povo, com as mão vazias, retornavam às suas casas, para recuperar o grande esforço pela caminhada. Alma lavada! Foi isso. Foi assim. Assim me contaram por cartas. Nada mais penso, agora. Nenhuma emissora de televisão registrou esses acontecimentos, por falta de coragem ou por imposição política, dita legal e, se foram registrados, continuam mofando nos arquivos esquecidos. Finalmente, depois de alguns anos, por iniciativa de Sarah, com a participação de Sílvio Caldas e do presidente João Batista Figueiredo, foi edificado o Memorial JK, na minha cidade, em monumento projetado pelo mesmo arquiteto, Oscar Niemeyer. Simplesmente, faço parte da história. Sou grato ao meu povo que me compreendeu e me incentivou. Sei que as gerações futuras hão de prosseguir estudos e pesquisas para elucidar fatos que passaram encobertos.

(Grandes e continuadas reverências de agradecimento)
(No final, Hino Nacional em surdina, com o texto com locutor em off):                          
 “DESTE PLANALTO CENTRAL/ DESTA SOLIDÃO QUE EM BREVE SE TRANSFORMARÁ/ NO CÉREBRO DAS ALTAS DECISÕES NACIONAIS,/ LANÇO OS OLHOS,/ MAIS UMA VEZ,/ SOBRE O AMANHÃ DO MEU PAÍS/ E ANTEVEJO ESTA ALVORADA/ COM FÉ INQUEBRANTÁVEL E UMA CONFIANÇA SEM LIMITES/ NO SEU GRANDE DESTINO.
(O coral se apresenta com entusiasmo, cantando a canção Peixe Vivo, incentivando a participação da platéia.)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ONDE SE ESCONDEM OS ESCRITORES?

Goethe não se suicida em Werther. Guimarães Rosa não é Riobaldo, Castro Alves não é África, em Vozes da África. Machado de Assis não é Braz Cubas defunto.

Quem lê pode logo ficar pensando em identificar o lugar onde os escritores se escondem, onde eles se posicionam para conseguir relatar acontecimentos, reunindo palavras, formando um conteúdo, constituindo uma história, um romance, uma crônica, um conto, uma reportagem, relatório, um poema.
Pois bem! Os autores devem estar em algum lugar estratégico, vendo e ouvindo tudo para poder narrar os acontecimentos, dando-lhes vida e ação.
Em princípio, os autores escolhem posições confortáveis, para poder narrar com fidelidade e coerência. Estão mesmo escondidos, entrincheirados. Somente depois disso é que definem os formatos e escolhem os estilos narrativos.
Nada melhor do que surpreendê-los em pleno trabalho. Pode-se descobrir quatro esconderijos principais. Vamos surpreendê-los? Eles estão sempre disfarçados, mascarados e ficam na espreita com olho vivo. Alguns saem despreparados e podem ser descobertos e flechados. Assim, pode-se descobri-los em flagrantes nesses principais esconderijos:

1ª. Posição: o escritor está em cena num palco imaginário, relatando as suas próprias experiências e emoções, seus sentimentos, sua vida espontaneamente. É claro que é uma narrativa subjetiva, introspectivamente declarada e assumida integralmente. Tal é o caso de Gonçalves Dias, em Canção do exílio:
“Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas/ nossas várzeas tem mais flores/ nosso campo tem mais vida/ nossa vida mais amores. De cismar sozinho à noite/ mais prazer encontro eu lá/ minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá.”...
Verifica-se, pois, a predominância dos sentimentos do autor-narrador. Vive ele em constante relacionamento íntimo na exaltação dos seus sentimentos, das suas mágoas, das suas dores. São os poetas os grandes usuários deste modelo. Também os cronistas se apresentam em suas crônicas com as referências e vivências. Narrar é preciso. Delatar, denunciar, testemunhar. Dá a impressão de que as personagens escrevem mesmo com o próprio punho.
No romance e no conto também surgem autores escrevendo na 1ª. pessoa do singular. Recentemente, surgiu “O tigre branco” de Aravinda Adiga, indiano de Madras, vencedor do Man Booker  Prize 2008, publicado nesse formato. Contou uma grande história como se ele fosse a personagem principal. O autor-ator.Essa posição pressupõe que o autor estivesse num palco de um teatro, representando um texto de sua própria autoria.    

2ª. Posição: o autor entra em cena, participa da narrativa, tenta conversar com as suas personagens e até mesmo com o próprio leitor. Torna-se caso frequente em Machado de Assis e constante em W.Sommerset Maughan, como em “O fio da navalha”. Imagina-se, nesta segunda posição, que um autor estivesse no palco de um teatro, acompanhando o desenrolar do espetáculo e interferindo em algumas cenas, tentando melhorar ou explicar o texto.

3ª. Posição: o autor se coloca em cima do muro ou numa janela aberta, ou no buraco da fechadura de uma porta, visualizando todos os acontecimentos e narrando-os a seu modo, a seu gosto, a seu estilo. É sabedor do pensamento das suas personagens e faz delas o que bem entende. O autor dirige e narra. Não entra nas brigas, não recebe farpas ou saraivadas. É um criador, um deus, senhor de tudo. Faz chover e até pode matar sem piedade. Fica no seu posto de observador imparcial. Imparcial? Nem sempre. A maioria dos autores assume essa posição. É a mais confortável e, assim, torna-se dono da história. Assim, também, se coloca a maioria dos autores de romances e contos. Veja Jorge Amado, José de Alencar e Khaled Hosseine, em “A cidade do sol”. Os autores têm o poder de tudo ver e de tudo fazer acontecer. Assim, o autor se coloca numa plateia, assistindo ao espetáculo, dinamizado como ele estabeleceu ou determinou.

4ª. Posição: O autor faz de conta que é a personagem e narra como se fosse ele quem estivesse vivendo os acontecimentos. Usa uma técnica mais apurada, sofisticada, para narrar e produzir emoções que supostamente parecem ser do próprio autor.”Memórias póstumas de Braz Cubas” de Machado de Assis. Ou “Vozes da África” de Castro Alves, “Grande sertão e veredas” de Guimarães Rosa, “Werther” de Goethe. Machado de Assis não é Braz Cubas, um autor-defunto, nem Castro Alves é a África, mas se coloca na figura da África, (há dois mil anos te mandei meu grito!...), nem Guimarães Rosa é Riobaldo e nem Goethe suicidou-se em Werther. O autor coloca-se na pele da sua personagem. Assim, nesta posição, o autor está no alto da cabine de um teatro, administrando o espetáculo. Supostamente, seu texto está na 1ª.pessoa. Isto é verdade, mas por uma técnica especialmente em suposição. Envolve o leitor a acreditar que ele, autor, está sendo o ator principal.  

Não há outros esconderijos ou outras posições estratégicas, onde possam os escritores se esconder. Esta devastação não representa uma grande teoria literária, pois abandona os procedimentos acadêmicos, mas é fundamental na análise de qualquer obra literária. Assim, os leitores terão um dispositivo elucidado para flechar qualquer escritor que se apresente à sua frente. E pode analisar e descobrir a posição estratégica que ele tenha assumido na obra.  Como tudo na vida pode ser alterado, muitos escritores conseguem misturar seus formatos literários, colocando-se em diversas posições na mesma obra. Mesmo assim, estes são os seus esconderijos. 
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