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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

JK AO VIVO

 TEATRO - MONÓLOGO
Personagem: JK (Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902 – 1976)
Autor: Rogério de Alvarenga
Revisão: Omar Fürst



Cenário: sala de estar. O ex-presidente recebe amigos convidados, (Pequeno coral, in off, canta suavemente, um trecho da modinha Elvira, Escuta, de José Marcelo de Andrade e Luís Cláudio: “Elvira, escuta/ os meus gemidos,/ que a teus ouvidos,/ irão chegar// Não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma/ que te sabe amar.” Segue cantando mais suavemente a modinha em boca fechada, até desaparecer.)

(Entra o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira e, em tom coloquial, vai desenvolvendo um relacionamento afetivo com a plateia.) 
1. (A numeração dos itens da fala foi colocada para facilitar a memorização do ator e, também, para definir a sequência natural das ideias.) 
JK - Boa noite! Boa noite a todos! Impossível perder esta oportunidade de vir conversar com os meus amigos, principalmente com os amigos desta cidade que me fez para vida política.  Todos me conhecem de nome e de ação. Relatórios de minha vida? Todos conhecem. Vim por minha própria alegria de encontrar amigos. Amigos? Sempre tive dos melhores. Sempre fui fiel aos meus amigos. E os meus amigos me acompanharam até o meu final, ao final da minha vida, abraçados a mim, me conduziram ao meu descanso eterno. Tantos choraram por mim. Eu chorei por todos. Chorei copiosamente porque poderia ter feito ainda tantas coisas para o meu país e para o meu povo. Isto mesmo. Tive vergonha de morrer e deixar tantas coisas por fazer em tantos projetos arquitetados. Vim agora confirmar que meu pensamento sempre foi o caminho do progresso e tantas coisas que existem hoje em nosso país são fruto de uma disposição para o trabalho e para a realização de grandes obras. Não pensem que foi fácil romper tantas barreiras, ditas intransponíveis, para chegar ao topo, com a mesma coragem e o mesmo desprendimento que me caracterizam. Infelizmente, construí patamares nunca dantes imaginados para o povo brasileiro e recebi, em troca, por alguns, farpas inacreditáveis, denúncias, incompreensões e, finalmente, a própria morte.
2. Perdoar? Perdoar? Passei a minha vida inteira perdoando a centenas de algozes inesperados, que me atropelavam por infundadas razões, construídas por obsessão à inveja, à maldade, ao ódio ou ao medo. Agora, neste ponto final da linha da minha vida em que me encontro, que farei? Terei o mesmo senso de humildade ou de bondade para colocar o meu rancor em estado de pausa, para demonstrar o mesmo sorriso de complacência diante da arrogância, da petulância, da ousadia, da irreverência? Serei, assim, incompreendido pelos meus amigos, companheiros e até mesmo pelos meus eleitores. Se eu for arrancar palavras do fundo de um coração aviltado e coagido, não posso exprimir aquelas mesmas palavras, com sorriso de tranquilidade e segurança. Pensando melhor, neste momento, volto meus olhos para a minha vida, toda completa, de princípio, meio e fim, dizendo apenas que estou acima de todos os meus detratores, superior em filosofia de vida, em comportamento interior e soberania de princípios e ideais. Meus olhos não se convergem para as ações inferiores que habitam mentes também inferiores. Cada um pagará pelo que tenha feito. Esta lei não foi proposta por mim. É a lei do universo. O dia fatal chegará para todos, na sua grande justiça final. Com maior ou menor dose de sofrimento. Então, ironicamente, perdoo a todos, sem piedade. E não se fala mais nisso.      
3. Este comentário não está condizente com a amizade e o respeito que dedico às novas e brilhantes gerações de brasileirinhos, crescidos e desenvolvidos no respeito e na dignidade.
4. Falo para todos os que lutam para conseguir melhor qualidade de vida, segurança no trabalho e imaginar uma longínqua velhice digna. No meu caso, tantas forças da natureza colaboraram com a minha formação. Tive a sorte de nascer de família simples e digna. Meu pai, João César de Oliveira, era minerador na cidade de Diamantina, alegre, bem humorado, mas com pouca sorte na mineração. Ele faleceu jovem, deixando uma viúva de 23 anos, e dois filhos menores. Eu tinha dois anos e Naná era um pouco mais velha. Não me lembro de meu pai. Construí uma imagem dele pelas palavras amáveis e saudosas de minha mãe, professora Júlia Kubitschek. Meu pai, João César de Oliveira está sempre lembrado numa das principais avenidas da cidade de Contagem. Assim, minha mãe passou a dedicar a sua vida à educação dos seus filhos Nonô e Naná, como ela carinhosamente nos chamava. Não tínhamos nada que pudesse garantir uma vida de fartura e felicidade, se não fosse a dedicação da minha mãe e de alguns familiares mais próximos. Que estrela poderia nos oferecer uma oportunidade de brilho na sua constelação? Que futuro? Mas dona Júlia acreditava e sua fé era inabalável. Teve que vender tudo de valor que possuía, tão empenhada estava na educação dos filhos. Nada para si e tudo para os filhos. A vida da jovem Júlia estava planejada e sonhada. A sua riqueza eram essas duas crianças mais lindas do mundo, como são as palavras de todas as mães.
5. Em Diamantina, em 1906, foi criado o primeiro Grupo Escolar do Estado, pelo então governador João Pinheiro da Silva e minha mãe passou a ser remunerada pelo estado de Minas Gerais. Fui matriculado nesse grupo quando completei sete anos de idade. Terminado o curso no Grupo Escolar, que fazer? Minha mãe articulou com o diretor do seminário de Diamantina e conseguiu me matricular para o curso de padre. Correspondia ao curso ginasial ou primeiro grau. Se o aluno demonstrasse interesse de seguir a carreira eclesiástica, ele passaria para o curso mais avançado. Estudei muito, li muito, aprendi muito, mas a vocação para padre não apareceu. Fui franco com a direção do seminário e com minha mãe. Fiquei sem nova oportunidade pela frente.
6.Matriculei-me, então, num curso livre para telegrafista. Não havia outras oportunidades. Foi a minha salvação. Sem pensar em resultados imediatos, fui em frente como se a luz me aparecesse de repente. Fui firme, como todas as coisas que fiz na minha vida. Parece que sempre fui obsessivo demais. Quando pego, não largo e não entro em nenhuma atividade para perder. Por sorte, mais tarde, apareceu um concurso para telegrafista em Belo Horizonte. Fiz a minha inscrição e fui aprovado no concurso. Mesmo aprovado nesse concurso, tive que desenvolver algumas ações para ser nomeado. O meu primeiro dia de trabalho significou a minha independência financeira, estava rico. Assim, me senti mesmo rico e nem precisava de tanto. Minha mãe ficou mais aliviada. Continuei os meus estudos, trabalhava à noite inteira e, de manhã, estava firme na Escola de Medicina. Terminei o curso em 1927. Eu estava, portanto com 25 anos de idade.
7. Simples, não? Quando volto o meu olhar para esse tempo, vejo que fui bem sucedido e que estava no caminho certo, dentro do meu objetivo. Agora, trabalhar em benefício das pessoas carentes com assistência médica. Trabalhei em consultório particular e depois, por concurso, entrei para Polícia Militar do estado de Minas Gerais, como médico urologista. Participei da Guerra Civil Brasileira de 1932 e fui promovido a Capitão Médico.
8 A minha vida pública teve início com o convite que recebi do governador Benedito Valadares para o cargo de chefe de gabinete e logo, em seguida, fui nomeado prefeito da cidade de Belo Horizonte. Os prefeitos eram nomeados no tempo da ditadura Vargas. Não havia eleições. Belo Horizonte caiu nos meus braços. Não tive tempo nem de pensar, porque havia muitas coisas a fazer. Era o meu primeiro desafio.
9. Imaginem uma cidade idealizada e inaugurada em 1897, inacabada, mas caprichosamente bem traçada, com um plano diretor a ser seguido. Já imaginaram Belo Horizonte sem a Avenida Amazonas e sem a Avenida Antônio Carlos? Tudo por fazer. Uma cidade de 40 anos, construída pelo estado. Construída em quatro anos, apenas e inaugurada no dia 12 de dezembro de 1897. Não é feriado municipal comemorativo. Todas as cidades comemoram seu dia. BH, não! Há razões várias, nenhuma verdadeira. Mas, como ia dizendo, essas avenidas radiais deveriam ter 50m de largura. O atual bairro da Barroca era realmente uma barroca, um pântano. A Avenida Amazonas tinha que passar por cima. Grande movimentação de terra ou de barro. Não havia tratores, claro! Como abrir grandes avenidas de mais de seis quilômetros de extensão cada uma? Toda a terra era trasladada em carroças. A prefeitura monopolizou mais de um mil burros. Era a movimentação intensa de carroças, de poeira, de gritos e de problemas. Uma vitória. Com essas atividades, com essa movimentação de terra, me apelidaram de “prefeito furacão.” Sempre gostei desse apelido, que me acompanhou ao longo da minha vida. Não parece verdade? Sempre fui prefeito furacão. Não quero ficar fazendo relatório desse tal de “prefeito furacão. Mas não posso deixar de falar na represa da Pampulha. Depois desse lago artificial pela barragem construída, a urbanização. Em seguida um plano arrojado. Arrojado demais para a época.
9. O conjunto arquitetônico da Pampulha! Convidei a equipe do jovem e brilhante arquiteto Oscar Niemeyer para um projeto grandioso. Assim, surgiu o Cassino da Pampulha, com a efervescência do jogo, dos shows, do dinheiro rolando fácil. E o Iate Golfe Clube, a Casa do Baile e a igrejinha de São Francisco de Assis. Todo esse conjunto arquitetônico, edificado em linhas de vanguarda modernista, foi inaugurado por mim e pelo governador do estado Benedito Valadares, na década de quarenta. Os que viram na época, não acreditavam. E a lagoa da Pampulha com 18 quilômetros de perímetro! Foi a minha primeira loucura. Vivo de sonhos! Vivo de obras grandiosas. Não nasci para obras pequenas. Meu mal? Muitos pensam que sim, e ficam com o microscópio e os termômetros dependurados no pescoço, vendo o tempo passar. Nada melhor do que vislumbrar sempre, em sonhos, em planejamento e em ação, um belo e grandioso horizonte. Horizonte, minha grande meta.
Grandes obras, grandes voos! Foi um assombro para o nosso estado e para a nossa Belo Horizonte da época e elevou a autoestima dos mineiros. Era o início das minhas grandes realizações. Este conjunto arquitetônico representava ousadia, beleza e grandiosidade pela arquitetura de plena vanguarda modernista. Sempre me orgulho de ter vivido esses momentos de grandes realizações em Belo Horizonte.   
10. Uma polêmica: O bispo, Dom Cabral condenou a igrejinha de São Francisco. Tão simples, tão moderna, tão bonita! “Nada de rezas nessa caixa do Juscelino.” Foi condenada e, por quase vinte anos foram proibidas ações religiosas e permaneceu firme em pleno ostracismo. Somente em 1959, quando eu era presidente da República, consegui a sua liberação, seu “habeas-corpus”, em negociações com Dom João de Rezende Costa.
11.Ainda a igrejinha de São Francisco, que é protetor também dos animais. O painel do grande pintor Portinari, localizado na parte interior frontal, entre as figuras místicas representadas, havia um cachorro ao lado, que, atento, observava os acontecimentos. Esse cachorro foi um dos pontos de referência para a condenação. A Cúria Metropolitana venceu e a pena foi impiedosa. Entretanto, não posso me esquecer desse fato. Depois da liberação da igrejinha para atos religiosos, promovi uma missa solene de inauguração, com autoridades civis, militares e religiosas. Um solene acontecimento. Eis senão quando, no momento mais efusivo da celebração, entra pelo hall central, um velho cão, bem vira-lata, sem jamais saber o que seja “pedigree”, e avança tranquilamente, triunfantemente, até o altar e ali permanece sem se importar com nada. Ficou bem perto de mim alguns momentos e as minhas lágrimas desceram sorrateiramente. Depois, saiu porque não tinha mais nada a fazer senão demonstrar que era também devoto de São Francisco.
12. Depois disso, fui eleito deputado federal em 1947, pelo PSD – Partido Social Democrático, já me preparando para as eleições de governador do estado, quando fui eleito Governador em 3 de outubro de 1950.
13. Sabe quem foi meu adversário nessas eleições? Meu concunhado Gabriel Passos, pela UDN – União Democrática Nacional. O estado, nessa época, tinha 300 municípios e eu fiz 168 comícios com a meta Energia e Transporte. A população brasileira era de 52 milhões de habitantes, sem estradas, sem comunicações, sem energia elétrica.
14. O estado de Minas Gerais tinha 1.330 milhões de eleitores e o país, 8.254 milhões de eleitores. Eu fui eleito com 53% dos votos. A minha posse no governo do estado ocorreu no dia 31 de janeiro de 1951.
15, Imediatamente o trabalho. Mas, antes, era preciso mudar a postura e os métodos. Nada de ficar despachando com chefes políticos em gabinetes fechados. Mudança de comportamento e de atitudes para recuperar o atraso e a sonolência que dominavam o estado por tantos anos, desde a fuga das minerações e do ouro. Abri estradas. Eram 16 estradas-troncos para cortar diametralmente o estado. Belo Horizonte a Salto da Divisa, com 902 quilômetros! Criei a CEMIG – CENTRAIS ELÉTRICAS DE MINAS GERAIS – hoje, Companhia Energética de Minas Gerais, empresa modelo. Construí barragens de FURNAS e de TRÊS MARIAS, produzindo energia elétrica. Articulei para a implantação da Companhia Siderúrgica Mannesmann, inaugurada em 1954.
16. Uma vez, quando eu era governador, meu Secretário da Agricultura me confidenciou a compra de 40.000 enxadas. Respondi-lhe imediatamente que esperava a aquisição de 40 mil tratores. Não tenho vocação para obras pequenas. Nunca tive. Estou saudosista, Me desculpem!
17. Nunca me esqueci da minha Diamantina. Era o meu lado esquerdo do coração, do sentimento mais puro e profundo. Serestas, serenatas!!! Festejava com serenatas, lembrando sempre do meu pai, João César de Oliveira. Tive os irmãos que nunca tive. César Prates, Dilermando Reis, Ataulfo Alves, Sílvio Caldas e tantos outros. Sempre foram meus irmãos, companheiros, fieis e solidários. Meu coração se abria de canto a canto. Guardo-os a sete chaves, dentro do coração.

18. (Musical. Jk relembra suas músicas – O coral entra em cena, cantando. Elvira, escuta!
LETRA DE ELVIRA, ESCUTA – José Marcelo de Andrade/Luis Cláudio
Elvira, escuta os meus gemidos/ que aos teus ouvidos irão chegar/ Não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma, que te sabe amar.
Se tu me amas/ como eu te amo/ eu te prometo/ não te desprezar/ não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma que te sabe amar/
Teu coração é um rochedo/ e este rochedo/ é o meu penar/ não sejas traidora, tem dó de mim, tem dó dest´alma que te sabe amar.
Sobe a escada bem devagar/ Elvira dorme/ pode acordar/ não sejas traidora, tem dó de mim/ tem dó dest´alma/ que te sabe amar.
Ainda como depois de morta/ a tua face irei beijar/ não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma/ que te sabe amar. 

Em seguida, o coral canta a canção folclórica: PEIXE VIVO, com movimentação e alegria.
Zum, zum, zum – lá no meio do mar – bis / é o vento que nos atrasa/ é o mar que nos atrapalha/ para no porto chegar/
 Zum, zum, zum lá no meio do mar /bis / como pode o peixe vivo viver fora d´água fria –bis/
Como poderei viver/ como poderei viver/ sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia/ bis.
Os pastores desta aldeia/ já me fazem zombaria/ bis/ Por viver assim chorando/bis - sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia O rio de São Francisco/ corre de noite e de dia/ bis Só o tempo é que não corre/bis - sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia/ Zum, zum, zum lá no meio do mar/ bis.

Logo após, entra uma grande valsa vienense, orquestrada, em off. JK dança com cada uma das personagens do coral, com elegância e distinção.
Em seguida, o coral canta para encerramento:
Oh! Minas Gerais!  Quem te conhece não esquece jamais!/ Oh! Minas Gerais...
– adaptação musical da canção italiana: Vieni sul mar

19. Não posso deixar passar uma valsa. Sempre gostei de dançar e não perdia tempo. Depois, algumas pessoas passaram a pensar que a minha obsessão pelas dançarinas era uma questão patológica. Rio demais desse diagnóstico. Realmente, aproveitava todas as oportunidades e procurava agradar sempre às mulheres. Sarah não era assim tão ciumenta. Agora vou fazer uma revelação, uma confissão: não era essa a minha obsessão. E eu tinha obsessão era mesmo pela realização de obras grandiosas. E tudo pelo trabalho e pela minha família. Tudo o mais eram lendas. E por que não gostar de dançar com as belas mulheres brasileiras?
20. E agora, a meta pela presidência da República! Não foi fácil a aprovação do meu nome como candidato pelo PSD, Partido Social Democrático, mas finalmente, o meu nome foi aprovado em 1955. O país vivia um clima de tensão. Tensão política envolvendo o presidente Getúlio Vargas e o jornalista Carlos Lacerda, brilhante orador. O presidente estava numa roda sem saída. Eu, pessoalmente, e mesmo o governo de Minas nunca tivemos problemas com o presidente Getúlio Vargas, embora ele fosse de outro partido. Relações de amizade, de consideração e de respeito.
21.Tive sempre pelo presidente Getúlio Vargas a maior consideração e respeito. Assim, mesmo nesse período de turbulência política, o estado de Minas Gerais teve a honra de recebê-lo no dia 12 de agosto de 1954, por ocasião da inauguração da Companhia Siderúrgica Mannesmann. Esta inauguração foi a sua última aparição em público.
22. Não posso me esquecer desse dia. Ficaram marcados pelas contingências que posso explicar. Após a inauguração, ofereci-lhe um almoço nos jardins do Palácio da Liberdade, ao som de melodias bem suaves. O presidente se mostrava triste, arredio, sempre procurando o isolamento. À tarde, fomos para o Palácio das Mangabeiras, no alto da serra do Curral, local acolhedor e de pleno silêncio. Visão ampla e descortinada da cidade de Belo Horizonte, ao longe. Era um local adequado ao repouso e à meditação. O jantar foi servido para 30 pessoas, em caráter íntimo, apenas alguns sindicalistas, diretores da Mannesmann e alguns deputados. Houve, após, uma pequena serenata com César Prates e Dilermando Reis, terminando por volta da meia-noite. Deixei-o a sós e desci a serra do Curral, recomendando ao mordomo que não se afastasse dele um só instante. Ele, o presidente, mais tarde, desceu até à biblioteca, pegou um livro de Eça de Queirós. No dia seguinte, notei que ele estava muito abatido. Levei-o ao aeroporto. Na despedida, abraçou-me de forma inusitada. Pude sentir, pela firmeza de seus gestos que era um abraço fraternal. Ele queria falar alguma coisa e não conseguiu. Com esse abraço, entretanto, percebi que ele manifestava um forte impulso de agradecimento e de amizade. Tentou outra vez dizer alguma palavra, mas não conseguiu. Não precisava de palavras. Ele talvez quisesse agradecer aqueles momentos de paz e de solidariedade. Eu, de minha parte, comovi-me intensamente, porque sabia do clima de hostilidade generalizada que fermentava no Rio de Janeiro, capital do país, naquela época. A imprensa e os militares! Amigos?  Quais? Sei, com certeza que, nesse momento de despedida de Belo Horizonte, ele tinha podido sentir que eu estava do seu lado, mesmo sem dizer uma só palavra.
23. Getúlio Vargas despediu-se de mim na manhã do dia 13 de agosto de 1954 e suicidou-se no dia 24.
24. Foi um ato de plena decisão. Premeditado, arquitetado por vários dias. Foi um golpe final e fatal que terminou imediatamente com a farra da UDN e dos militares.
25. A UDN – União Democrática Nacional – tinha investido todas as suas forças contra Getúlio Vargas, sempre na tentativa de sua deposição, de seu afastamento ou de sua renúncia sem retorno programado. E ele respondia: “Só saio daqui morto! Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho razões para temer a morte!”
26. Getúlio Vargas resistiu o quanto pôde para evitar a sua deposição. Finalmente, nesse dia 24 de agosto de 1954, às 8h30, deu um tiro no próprio coração. E o povo brasileiro chorou e foi para as ruas, com a sua carta de despedida. Foi isso que aconteceu. Os opositores ficaram em pânico, atônitos com o povo nas ruas
27. Às 11h30 parti para o Rio de Janeiro, completamente aturdido pelos acontecimentos, pela amizade e pelo respeito que tinha pelo presidente. Estava comovido e chocado. Minha esposa, Sarah e eu acompanhamos o velório, procurando dar conforto aos familiares. Ainda mais, eu fui o único governador de estado que compareceu ao velório do presidente Vargas.
28. Depois desses acontecimentos, eu poderia pensar nas eleições para presidente, no ano seguinte? As eleições seriam realizadas no dia 3 de outubro de 1955. O ambiente político ficou conturbado. Era prudente aguardar. Esperar o momento certo. Finalmente tive a ventura de ver o PSD, meu partido, em forte aliança com o PTB – Partido Trabalhista Brasileiro – partido do presidente Vargas. Tive João Goulart como companheiro de chapa. Enfrentamos a candidatura à presidência da República.  Nas eleições, obtivemos 36% de votos. Eram quatro candidatos e não obtivemos a maioria absoluta, uma nova arma secreta da UDN e dos militares, contra a minha posse.  
29. Reviravolta de 360 graus. O Marechal Henrique Teixeira Lott, em 11 de novembro de 1955 restabeleceu a ordem política, assegurando a minha posse no dia 31 de janeiro de 1956. A faixa presidencial me foi passada pelo senador, digo, presidente, Nereu Ramos.
30. Assumi a presidência com um plano de metas e uma meta síntese, a construção de Brasília, um sonho impossível.
31. Não preciso fazer relatório sobre minha ação na presidência da República, mas digo, com orgulho, tive a honra de desbravar o interior desse gigante adormecido. Tirar o país da síndrome do caranguejo, deslumbrado pelo litoral Atlântico.  A estrada Belém-Brasília foi um marco nacional. E digo mais, a transferência da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960 foi um marco histórico irreversível. Brasília, um sonho tão sonhado por tantos e concretizado por mim. Brasília foi construída no planalto central em três anos e oito meses. Inacreditável até para os meus companheiros. Meus adversários aprovaram a construção de Brasília porque tinham a certeza de que ela seria um retumbante fracasso político. Sei que paguei caro por essa ousadia, e tantos e tantos não me perdoaram. Falei antes sobre perdoar. Isso ainda retumba na minha cabeça e rompe a minha consciência. Fico aturdido com a meta do perdão que sempre usei e abusei. Agora, que fazer?
32. Brasília, uma miragem! Uma paixão desenfreada! André Malraux, ministro da Cultura da França, quando avistou esse monumento não deixou de exclamar? “Esta é a capital da esperança!”
33. Após o término do meu mandato, passei a faixa presidencial ao meu sucessor, presidente Jânio Quadros. Democraticamente eleito. E o meu amigo, menestrel Juca Chaves, me fez uma homenagem comovente na sua canção, Presidente bossa nova: “Bossa nova é mesmo ser presidente/ desta terra descoberta por Cabral/ para tanto, basta ser tão simplesmente,/ simpático, risonho, original! ...”    
(Entra um cantor com o violão e canta a canção do Juca Chaves. JK procura fazer dueto. Cumprimentos e agradecimentos)

34. Tive a honra de ser eleito ainda Senador pelo estado de Goiás que representei com brilhantismo até o dia da cassação dos meus direitos políticos.
35. Depois de tudo isso, acontecimentos terríveis! Em 31 de março de 1964, os militares depuseram o presidente João Goulart e assumiram o poder do país.
36. Pronunciei um discurso no Senado afirmando a minha revolta. Foi o bastante. Foi o suficiente! No dia 8 de junho de 1964 foi decretada a cassação dos meus direitos políticos por dez anos, juntamente com nove deputados e 39 outros cidadãos.
37. Esse decreto teve apenas duas assinaturas: do então presidente, Marechal Castelo Branco e do Ministro da Justiça, Milton Soares Campos.
38. Todo mundo pensava que eu era um homem rico. Na verdade, fiquei praticamente indigente, sem receitas. Sem aposentadoria, sem emprego. Desesperado, sem amigos, fui para o exílio, com a ajuda financeira de amigos. Podia isso acontecer? Um político pobre, vivendo a custa de amigos? Estava na França e se voltasse, seria preso.
39. Vivi na França alguns anos. Anos de tristeza, de abatimento, de solidão. Vivi com grandes dificuldades financeiras, tanto tempo quanto pude. Não podia retornar. Neste período de exilado, faleceu a minha irmã, Naná. Minha única e amada irmã. Que fazer? Obtiveram para mim a permissão de acompanhar o velório e retornei, com todas as precauções. No aeroporto, um oficial militar me confidenciou que eu iria ser preso. Ele era grato a mim por um processo que eu tinha liberado a seu favor. Ele foi ao aeroporto somente para me proteger. Eu poderia acompanhar o velório, mas não poderia dirigir nenhuma palavra a meu povo. Foi cruel. Cheguei ao velório da minha irmã, Maria da Conceição, Naná.

40       Em Belo Horizonte, por onde passava, o povo me aplaudia e gritava meu nome. Eu não podia ouvir nem ver essas manifestações. Segui calado e triste. Nem cumprimentar o meu povo. Sempre estive de cabeça baixa. Finalmente, cheguei a frente ao corpo da minha irmã. Chorei copiosamente. Queria interromper meus soluços e não conseguia. Depois, percebendo que nada estancava meu pranto, passei a chorar sem repressão. Tinha que desabafar tanta dor incontida. Nem sei como derramei tantas lágrimas. Não me continha. Decidi deixar extravasar todos os meus ressentimentos. Ela compreenderia isso. Do lado de fora, aplausos. Que fazer? Foi uma cena patética. Nem gosto de me lembrar. O povo aplaudindo e eu chorando copiosamente. Tudo isso me fazia mais convulsivo. Era o dia 4 de junho de 1966.    
41. Indiquei Israel Pinheiro para governador do estado de Minas Gerais, nas vésperas da eleição, contrariando a expectativa dos políticos militares. Ele venceu e pôde se sentar na mesma cadeira onde seu pai, João Pinheiro assentou, em 1906 e morreu, em 1908, como governador do estado.         
42. E continuaram as perseguições à minha pessoa de todas as formas.   Tinha decidido voltar para o Brasil, disposto a enfrentar qualquer situação. Fui convocado a depor em várias oportunidades e recebia ameaças diariamente, até que surgiu a notícia da minha morte, anunciada por um jornal irresponsável. Ainda não era verdade. Mesmo assim, nunca me tocaram fisicamente.
43. Queriam, agora o sei, a minha morte, sem ressurreição. Sei, agora, que sempre fui um fantasma aterrador para eles. Sei, agora, que sempre me temeram, que temeram a minha sombra que passava por eles como qualquer fresta de luz. Temiam. Eu era o inimigo e eles vivem durante toda a vida profissional à procura do inimigo. E eu estava onde? Na memória do povo e nas minhas obras. Em tudo que tocavam a minha imagem fantasmagórica estava preservada. Eu tinha retornado definitivamente ao meu país e iria viver aqui, do jeito que pudesse. “Agora, só saio morto!”
44. Fui convidado para uma serenata em Diamantina e encontrei poucos amigos. “Parece que tenho uma doença contagiosa”. Mesmo assim, eu passava por cima dessas humilhações.
45. Sei que se me fosse permitido, eu seria eleito presidente, novamente. Minha meta principal: “Cinco anos de agricultura para cinquenta de fartura.”     
46. O boato da minha morte foi apenas um aviso. Na ocasião, eu me diverti muito com jornalistas e amigos na minha fazenda em Luziânia. Era a morte anunciada.
47. Candidatei-me a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Uma grande frustração. Fui vendido pelo presidente da casa, Austregésilo de Athayde, por um saco de cimento. Perdi a eleição, mas compareci à posse do meu concorrente para cumprimentá-lo.
48. Logo após, Vivaldi Moreira, presidente da Academia Mineira de Letras, inscreveu meu nome como candidato a uma vaga. Fui eleito por unanimidade. Tomei posse no dia 3 de maio de 1975. Das oportunidades, a mais honesta e mais significativa para mim.
49. Como é natural, a morte encerra todas as histórias. Numa tarde de domingo, dia 22 de agosto de 1976, vindo de carro de São Paulo, com o meu motorista e amigo, Geraldo Ribeiro, fui vítima de um acidente, provocado por uma “fechada” de um ônibus da Viação Cometa, no quilômetro 165 da via Dutra. Tal fato obrigou o motorista a desviar para a outra pista e colidiu com uma carreta que vinha em sentido contrário. Não tivemos salvação. Nada mais sei. Morte imediata. Faltavam 20 dias para eu completar 74 anos de idade. Meu corpo foi exposto numa mesa de bar da rodovia, sem nenhuma marca de perfuração por arma de fogo. Entretanto, o corpo de Geraldo Ribeiro foi imediatamente colocado num caixão de alumínio, trancado hermeticamente.
50. Fui transportado para o Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro e, em seguida, fui removido para o saguão do Edifício Manchete. Meu amigo Adolfo Bloch chorava convulsivamente. Sarah e as nossas filhas Márcia e Maristela chegaram ao amanhecer. Os meus amigos também começaram a chegar logo após. O povo, ousada e agressivamente, cantava a canção do “Peixe Vivo”. Ao meio-dia de 23 de agosto, o cortejo seguiu a pé até o aeroporto Santos-Dumont. O meu caixão estava coberto com a bandeira do Brasil. Fui transportado, como sempre, nos ombros do meu povo, num percurso que durou mais de uma hora. Ao chegar ao aeroporto, o povo aglomerado, me aplaudia emocionado. Brasília, meu destino! Às 16h chegava à minha nova morada. O povo, emudecido, viu abrirem-se as portas do avião. Silêncio total. Mais de 30 mil pessoas aguardavam a minha chegada. Meu novo itinerário: a Catedral. Uma “kombi”, coberta com a bandeira do Brasil, chegou-se ao avião, As portas se abriram e apareceu um funcionário da empresa. Fez o sinal-da-cruz. Fui transportado por uma Kombi! Tantos amigos corajosos ali presentes. Não posso citar nomes. Amigos ousados e corajosos. O povo aplaudia sem cessar. Sem cessar cantavam a canção do Peixe Vivo, desde a parte da manhã, quando começaram a se aglomerar no aeroporto, aguardando a minha chegada. Grupos informais se formavam, cantavam e choravam em movimentos de desespero. Corais emocionantes.
(O coral, em surdina, entoa a canção do Peixe Vivo. O ex-presidente aguarda um pouco e depois, continua.)
O cortejo seguiu com quatro mil automóveis em carreata. Fila interminável até a Catedral, distante 20 quilômetros. Quarenta jovens motociclistas, com blusões pretos, portavam faixas. O esquife entrou na Catedral, carregado pelo povo. A Catedral estava cheia de candangos. Eles construíram e agora, entraram. Por mais estranho que pareça, estavam felizes perto de mim. Havia centenas e centenas de coroas. Flores e flores chegavam. Depois, os candangos, que não tinham dinheiro para comprar flores, foram arrancando das coroas as flores mais bonitas e jogando-as sobre o meu caixão. Os cordões de isolamento eram enormes. Uma senhora disse para um militar:“Os senhores estão isolando o quê? Tem alguma coisa aqui para ser isolada? Nós viemos buscar o nosso presidente no maior respeito que ele merece! Já não chega esse isolamento de tantos anos? Vamos! Tirem essa corda que eu vou passar!” Os taxistas não cobravam as corridas e baixaram os taxímetros. Não cobravam de nenhum passageiro. A missa foi celebrada pelo Arcebispo dom José Newton, pelo Núncio apostólico, dom Cármine Rocco e mais 25 padres, tendo iniciado às 17h15. Quase não houve missa. Ela foi interrompida várias vezes por palmas, hinos, lamentações e choro. O celebrante acolhia essas manifestações, aguardava um momento para continuar a missa. Novamente, outra manifestação de desespero e dor profunda. Nada impedia manifestações. Nunca se viu uma interferência tão perturbadora numa missa como essa. Participação e integração nos atos religiosos. Do lado de fora, o povo se comprimia com os gritos de JK! JK! JK! Sarah, com voz trêmula, conseguiu pedir calma ao povo amigo. Todos se calaram, imediatamente. O povo atendeu por alguns instantes. O silêncio era cruel demais. Impossível suportá-lo. Logo depois, o desespero retornou em brados e lamentações. Um grupo de índios xavantes de Mato Grosso conseguiu chegar perto do meu caixão, colocado bem em baixo dos anjos de Ceschiatti. Uma oração na língua primitiva e pura ecoou na catedral. De mãos dadas, em coro, lançaram seus gritos tribais. Levantavam e desciam os braços, por várias vezes, com as mãos fechadas. Um candango, de alma pura, perguntou: “Ele vai ser enterrado?” Fazia sentido essa pergunta? Um ser sobrenatural? Eram seis horas da tarde quando o meu caixão foi retirado da Catedral. Seria colocado num carro vermelho do Corpo de Bombeiros, estacionado em frente. Aí, o povo, os candangos não permitiram e me carregariam nos ombros calejados, para onde quer que fosse. O caminho é longo. Vários quilômetros até o Campo da Esperança que me aguardava. Mas ninguém pensava nisso. Tinha o meu destino: “deitar-me para dormir em paz.” O percurso foi longo e sofrido. Era um cortejo fúnebre, mas apareciam corais improvisados que me saudavam a cada momento. Finalmente, já de madrugada do dia 24 de agosto, fui sepultado perto do meu amigo Bernardo Sayão e a alguns metros do Candango Desconhecido. O povo, com as mão vazias, retornavam às suas casas, para recuperar o grande esforço pela caminhada. Alma lavada! Foi isso. Foi assim. Assim me contaram por cartas. Nada mais penso, agora. Nenhuma emissora de televisão registrou esses acontecimentos, por falta de coragem ou por imposição política, dita legal e, se foram registrados, continuam mofando nos arquivos esquecidos. Finalmente, depois de alguns anos, por iniciativa de Sarah, com a participação de Sílvio Caldas e do presidente João Batista Figueiredo, foi edificado o Memorial JK, na minha cidade, em monumento projetado pelo mesmo arquiteto, Oscar Niemeyer. Simplesmente, faço parte da história. Sou grato ao meu povo que me compreendeu e me incentivou. Sei que as gerações futuras hão de prosseguir estudos e pesquisas para elucidar fatos que passaram encobertos.

(Grandes e continuadas reverências de agradecimento)
(No final, Hino Nacional em surdina, com o texto com locutor em off):                          
 “DESTE PLANALTO CENTRAL/ DESTA SOLIDÃO QUE EM BREVE SE TRANSFORMARÁ/ NO CÉREBRO DAS ALTAS DECISÕES NACIONAIS,/ LANÇO OS OLHOS,/ MAIS UMA VEZ,/ SOBRE O AMANHÃ DO MEU PAÍS/ E ANTEVEJO ESTA ALVORADA/ COM FÉ INQUEBRANTÁVEL E UMA CONFIANÇA SEM LIMITES/ NO SEU GRANDE DESTINO.
(O coral se apresenta com entusiasmo, cantando a canção Peixe Vivo, incentivando a participação da platéia.)

domingo, 14 de outubro de 2012

DEPOIMENTO DE TIRADENTES!


TEATRO

Autor: Rogério de Alvarenga
Revisão: Omar Fürst

INTRODUÇÃO:

Apresentação do Hino da Independência (Letra de Evaristo Ferreira da Veiga e música de dom Pedro I)

Já podeis da pátria filhos/ ver contente a mãe gentil/ já raiou a liberdade/ no horizonte do Brasil/ já raiou a liberdade/ já raiou a liberdade/ no horizonte do Brasil.
Brava gente brasileira/ longe vá temor servil/ ou ficar a pátria livre/ ou morrer pelo Brasil/ ou ficar a pátria livre/ ou morrer pelo Brasil.
Os grilhões que nos forjava/ da perfídia astuto ardil/ houver mão mais poderosa/ zombou deles o Brasil/ houver mão mais poderosa/ houver mão mais poderosa/  zombou deles o Brasil.
Brava gente brasileira/ longe vá temor servil/ ou ficar a pátria livre/ ou morrer pelo Brasil/ ou ficar a pátria livre/ ou morrer pelo Brasil
Não temais ímpias falanges/ que apresentem face hostil/ vossos peitos, vossos braços/ são muralhas do Brasil/ vossos peitos, vossos braços/ vossos peitos, vossos braços/ são muralhas do Brasil.
Brava gente brasileira...
Parabéns, oh brasileiros!/ já, com garbo varonil/ do universo entre as nações/ resplandece a do Brasil/ do universo entre as nações/ do universo entre as nações/ resplandece a do Brasil.
Brava gente brasileira...  

PRIMEIRO MOMENTO


(Tiradentes entra com farda de alferes) – Amigos meus destas plagas! Meu profundo respeito e minha reverência. Vim para que possamos nos conhecer melhor. Não me perguntem de onde eu venho! Os fragmentos do meu corpo foram afixados nos caminhos do ouro e desapareceram. Não tive túmulo.

Como vocês sabem, sou Joaquim José da Silva Xavier, alferes da Cavalaria Paga de Vila Rica. Sou um revolucionário! Eu me envolvi, junto a corajosos companheiros da capitania de Minas Gerais, em Vila Rica do Ouro Preto, na preparação de um levante pela conquista da liberdade do nosso país. Uma conspiração, uma conjuração, com objetivo e planos estratégicos confidencialmente traçados. Uma conjuração!

Eu, na verdade, era o mais humilde do grupo, um simples alferes. Era o mais humilde, mas era, também, o mais empolgado com a ideia de liberdade para a nossa pátria. Gritei aos quatro ventos, abracei de corpo e alma essa causa. Ela me envolveu por completo e, por pouco, a nossa história teria sido convertida em glórias. Hoje, tudo são cinzas sopradas pela memória de alguns brasileiros. Alguns riem dessa utopia, desse sonho. Quem não sonha não planeja, não age, não acontece. Riem porque fui enforcado e legalmente julgado. Duvidam?

Fui preso no Rio de Janeiro no dia 10 de maio de 1789, sem saber por quê? Estava licenciado de minhas funções militares para a execução de um projeto de captação e distribuição de água. Eu tinha visão empresarial e habilidade para projetos de construção. Eu não era um inútil despreparado. Sempre me despontei, aprendendo novas técnicas e novos métodos de trabalho. Tudo em favor do povo. Via em primeiro lugar o sofrimento do povo, por isso também me dediquei à medicina com plantas e ervas, junto com o tratamento de dentes. Daí, o meu cognome, Tiradentes. A anestesia foi um grande descobrimento para a humanidade. Hoje, poucas pessoas sabem o que seja a dor de dentes. No meu tempo, era sofrimento para todos. Sem medicamentos e sem pessoas que pudessem prestar assistência. Fiquei conhecido e conhecia centenas de pessoas a quem cumprimentava e a quem tinha o maior respeito. Até me admiravam e me seguiam. Ou vocês estão imaginando que eu não tinha um séquito de companheiros que estava disposto a pegar em armas a meu lado? E deu no que deu!

Como disse, fui preso e conduzido para uma prisão escura, incomunicável, na fortaleza da ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Três anos incomunicável, nessa prisão fétida, cheia de piolho e percevejos. Acorrentado! Algumas acareações e depoimentos. Dessa prisão nunca mais saí. Saí para o enforcamento em praça pública, como se fosse um palhaço revolucionário, divertindo uma plateia de cariocas temerosos. Não foi só isso. Respeitei as leis e as decisões dos preclaros juízes e perdoei o meu carrasco de nome Capitania. No momento do enforcamento, frente a frente com esses juízes fiscalizadores do evento, olho a olho com o meu carrasco, eu me ajoelhei e pedi licença para beijar os seus pés. O meu ódio se transformou em humilde compaixão pelos que não sabiam o que estavam fazendo. O carrasco Capitania era apenas um serviçal da rainha louca, dona Maria I. Louca enfurecida, carola, com seus duzentos frades em orações contínuas e em tempo integral. E seus juízes subalternos, juízes aderentes, fingidos, submissos, estavam decididos a condenar.

Pois foi assim. O carrasco Capitania portava uniforme de gala para um acontecimento público em grande comemoração. A morte de um revolucionário. Perdoei a todos. Digo aqui, agora, com a pureza e a lealdade de todos os meus sentimentos. Perdoei. Perdoei porque já estava cansado de toda essa farsa, estressado com tantos algozes refestelados, como abutres - sim, como abutres, aves de rapina.

Pode parecer que eu não tenha perdoado. Eu estava aflito para que essa comédia terminasse. Eu desejava o fim. E o fim foi cruel, como poucas vezes se viu igual nesse mundo. Fui enforcado e esquartejado a machado, em praça pública. Minhas partes – cinco partes do meu corpo se despregaram de mim, como partes preciosas para serem afixadas nas estradas do ouro. Meu coração e minhas vísceras serviram de alimento para os cães de dona Maria primeira.
Por isso eu disse antes que não sabia de onde estava vindo, porque as partes do meu corpo, como sementes da liberdade, foram plantadas em todo o percurso do caminho novo. Cada uma delas fala por mim, para toda a eternidade, como um grito de liberdade rugido por um infeliz revolucionário das Minas Gerais.    
           
Peço desculpas se hoje falo dessa maneira. Não tenho coração para sentir. Onde estaria meu coração? Dez vidas eu daria, se tivesse, pela liberdade do meu país! Ouso repetir isso perante o meu povo de Minas Gerais!
(Extenuado, senta-se. Servem-se bebidas. Troca de roupa. Alguém aparece para ajudá-lo a tirar algumas peças de sua farda, deixando-o como cidadão, homem do povo.)

SEGUNDO MOMENTO


Sou filho de pai português e de  mãe paulista. Fiquei órfão de pai aos 9 anos e de mãe, aos 11. Fiquei só no mundo, como estou aqui, e como sempre estive. Meus irmãos cuidaram de mim enquanto puderam. Nasci na fazenda do Pombal, em Ritápolis, perto de São João del-Rei. Sou da nação de Minas Gerais.

Em Vila Rica, todos tinham uma bateia debaixo do braço. Eu nunca fui minerador. Tenho algumas economias porque já trabalhei como mascate, dentista e, depois me tornei militar, fiel servidor da soberana rainha de Portugal e enfrentei as mais ousadas tarefas para garantir a segurança, a nobreza e a divindade de reis e rainhas.

Ah! Divindade de reis! Como diziam. Todos nascemos nus e a natureza não distingue um príncipe de um mendigo. Somos iguais perante a natureza. Eu não nasci alferes, mas sou militar de carreira.

Ah! O poder divino dos reis! O povo no poder! A França e a Nova Inglaterra estão em crise de poder. Os reis estão na terra como seres comuns.

Nessa época, os reis estão apavorados com as ideias revolucionárias, atingindo as raias da loucura. Vejam Maria Antonieta e Luís XVI tentando sobreviver ao clamor das massas populares famintas e desesperadas. Liberdade, igualdade e fraternidade! Milhares de anos de opressão dos reis sobre o povo ignorante e submisso. O povo no paraíso. Esse dia há de chegar. Impossível? Milhares e milhares de anos de opressão. Escravos sobreviveram ou morreram, por milênios, sob o poder legalizado e impiedoso dos nobres e dos reis. A grande transformação com o povo no poder. O povo finalmente tem direito à sua parte no paraíso. Esse dia há de chegar!

Os tronos são obstáculos odientos e usurpadores da plena felicidade do povo. E têm que ser combatidos. Nunca deixei de falar o que penso e o que guardo dentro do meu peito. Meu sonho é ver este país tornar-se uma república livre e independente.

Formamos um grupo composto de juristas, empresários, religiosos, militares, intelectuais – poetas, para uma ação revolucionária. Poetas? Sim, poetas têm a coragem e a ousadia de expressar seus sentimentos mais íntimos, seu ideário de liberdade a qualquer preço.

Os fidalgos estão em baixa. Para eles, o povo fede!

Os Estados Unidos da América conseguiram o triunfo completo pela independência em 1776. Nosso dia chegará! Pareço louco? Pareço revoltado? Impossível deixar de transparecer a cor do sangue que corre nas minhas veias.
Veja o que acontece em Vila Rica: chega um governador e, em três anos vai embora com as cargas cheias de ouro. Ele e seus serviçais. Entra logo um novo governador com a mesma fome, com o mesmo apetite. Brota ouro para todos.

Vila Rica pariu mais de mil toneladas de ouro. Um milhão de quilos. O que ficou? O que restou? Para onde foi?

Sou um homem de brio, de vergonha e de força, aos 45 anos de idade. Como posso assistir a tudo isso? Como posso me calar diante de tanta violência, todas legais?
Pensam que não sinto a imagem de Felipe dos Santos, em 1720, esquartejado, amarrado em quatro cavalos?

Sabem? O destino dos idealistas é a morte sem túmulo.

A liberdade não tem preço e nem conhece limites. Todos vivem aqui em cárcere aberto. Não temo os truculentos. Falo por mim e por vocês, mentes brilhantes de gerações futuras.

Tantos jovens bacharéis chegaram de Coimbra. Ideias novas, revolucionárias na turbulência dos movimentos sociais. Povo rico e participativo, fábricas abertas. Agora, tudo proibição.

Pensam que sou louco? Louco por imaginar a liberdade do meu povo? Para os medrosos todas as portas estão fechadas.

Sou louco. Sinto a exploração selvagem do ouro em Vila Rica e a opressão de todas as partes. Proibida a educação e todo processo produtivo. Uma voz tem que se levantar dessa multidão de cordeiros diante dos lobos famintos. Cabeça baixa, chapéu na mão, pobres e miseráveis. E a rainha distribuindo ouro aos países vizinhos. Que a leve o diabo! Falo isso nas pensões, nos ranchos, nas reuniões secretas ou na confidência entre amigos. Claro! Não posso falar em praça pública um plano confidencial.  Conheço todos em Vila Rica e todos me aclamam.

Louco? Louco por liberdade! Os bárbaros invasores não poupam nada para nos fazer submissos.

Queremos uma república livre e independente, uma bandeira, uma universidade e a libertação dos escravos.

Temos que dar o primeiro passo. Cumpre aos seguidores dar o segundo. Sem este primeiro passo não haverá o segundo. E não haverá o último.    

TERCEIRO MOMENTO

(Alguém ajuda-o a trocar de roupa, para vestir o camisolão branco – dando um tempo de descanso para beber água, ante de recomeçar)

Como falei, tinha sido preso no Rio de Janeiro. Meus companheiros foram sendo presos um a um, onde estivessem. Seus bens eram confiscados, as famílias ficavam na miséria. Cláudio Manuel da Costa foi morto na prisão, ou suicidou-se. Duas devassas foram abertas, uma no Rio, pelo Vice-Rei, Luís de Vasconcelos e Souza e outra em Vila Rica, pelo Visconde de Barbacena. As duas digladiavam procurando envolver o maior número de culpados. Nunca houve culpados. Apenas os representantes da Coroa portuguesa queriam mostrar fidelidade e produção. O povo assistia a tudo pelas gretas das janelas e se escondia e só aparecia para delatar, como forma de proteção. Nem uma palavra de contestação. Silêncio sobre as brumas.

As devassas se prolongaram por três anos. Os réus estavam aprisionados. Estávamos presos no mesmo local, mas incomunicáveis. Também, Joaquim Silvério dos Reis, que era nosso companheiro e amigo, ali mesmo se encontrava, como tive oportunidade de ficar sabendo, muito depois.

Quatro acareações e muitos interrogatórios. Um dia, tive uma acareação com Joaquim Silvério dos Reis. Com as minhas correntes, queria cumprimentá-lo como amigo, pois não sabia de sua delação. Logo senti a amargura da acusação frontal. Pesou-me mais do que as minhas próprias correntes que eu transportava. Era ele o delator.

Sempre nos interrogatórios as mesmas perguntas. Qual a verdade sobre a sublevação de Vila Rica? Nunca dei um nome sequer, nunca falei a palavra “levante”, não tinha nada a confessar a ninguém. Principalmente a esses juízes. Tantos eram os amigos aprisionados, como fiquei sabendo depois. Alvarenga Peixoto em São João del-Rei, deixando a esposa Bárbara Heliodora na mais cruel desventura. O Ouvidor da Corte, Tomás Antônio Gonzaga, preso oito dias antes de seu casamento com Maria Doroteia Joaquina de Seixas, sua Marília de Dirceu. Tantas eram as infelicidades. Pobres e infelizes companheiros!

Planos, delações, depoimentos, acusações infundadas. Estou rodeado de zombarias, insultos, mofa. Sou um louco, gênio ardente, homem sem nenhum escrúpulo, rústico, atroado.

E essa devassa foi finalmente concluída, documentada pelas mãos dos meus juízes inquiridores que a arremataram como quiseram. Eles construíram essa devassa, forjaram, mentiram, torturaram até conseguir as formas e os conteúdos desejados. Ninguém por mim. Fiquei só, mas, perante o tribunal, respondi: NÃO.

Num dos interrogatórios, o juiz mais acusava do que perguntava e acabou por se exaltar e declarou: (Essa declaração pode ser feita por locutor off, com voz cavernosa)

- Você é o cabeça do motim da capitania de Minas Gerais! Você é o louco da sedição. Você convocou e convenceu até estrangeiros à sua causa. Você é um covarde, alferes traidor de sua Majestade! Todos os seus companheiros são unânimes em confirmar que suas palavras inflamadas levaram todos à desgraça, ao infortúnio, ao sofrimento sem limites. Confesse, traidor!

E assim prosseguiu mais acusando do que perguntando. Na minha vez, respondi:

- Projetei, sim, o levante para criar uma pátria livre e rica! Sempre neguei, mas não foi por covardia. Não queria implicar meus amigos e companheiros, justamente para preservar a integridade de cada um deles. Todos me ouviam, me incentivavam, me acompanhavam. Tudo neguei por eles. Pelos meus amigos! Digo, agora, diante destas circunstâncias, com a clareza das minhas convicções – sim, é verdade que eu premeditava o levante. É minha a ideia. Planejei tudo sozinho. Tenho a fronte erguida para os meus ideais de uma pátria livre e independente do jugo português. E queiram ou não os senhores juízes deste tribunal, mais hoje, mais amanhã, as sementes germinarão e o Brasil será uma das maiores nações livres do mundo. Livre do jugo de quem quer que seja. Esta é a minha convicção inabalável. Nunca uma confissão.   

E o juiz ditou para o escrivão: “confessou livre de ferros e em liberdade” – Não tive como não rir no meu íntimo mais profundo – livre de ferros e em liberdade.

Meus bens foram confiscados? Sim. Duas canastras com meus objetos pessoais e instrumentos de dentista, uma sesmaria, três escravos, alguns livros. No mais, uma cabeça cheia de ideais republicanos.

Os interrogatórios terminaram. Saiu a relação dos condenados e as sentenças, no dia 18 de abril de 1792. Trinta e quatro réus. Três deles faleceram nesse período. Esses réus tinham direito a defesa, por um advogado indicado. Ele pediu clemência e nada mais.

A sentença foi longa e triste. Foram trazidos os réus para a sala de oratório do presídio. Quando se reuniram, nem mais se reconheciam. Grisalhos, envelhecidos, pálidos, emaciados. Os olhos deslumbrados pela luz, vestidos em panos de algodão. Aproximaram-se uns dos outros. E as pesadas correntes tiniam ao se abraçarem. E falavam incontrolavelmente como se estivessem sedentos de conversa, depois da ausência por longa viagem.

Levaram 18 horas lavrando a sentença, terminada às duas horas da madrugada. O próprio Vice-Rei, Conde de Resende, fez questão de acompanhar o desfecho. Onze religiosos do convento Santo Antônio foram imediatamente chamados, pois nenhum condenado à morte poderia deixar de receber assistência religiosa.

Todos condenados ao enforcamento – eis a sentença.

Desespero geral. O dia amanhecia com jatos de luz penetrando pelas frestas das pesadas portas e pelas grades do presídio. E o advogado de defesa? Pediu que a pena fosse comutada em cárcere perpétuo. Mas o desânimo havia turvado o espírito de todos. A sentença parecia ter vindo sem perspectiva de mais defesa alguma.

Uma sentença complementar, entretanto, veio em seguida. Imagine a ansiedade dos réus. Era já no dia 19 de abril, quando entrou no presídio um séquito de oficiais da justiça e alguns juízes. Com a entrada do escrivão, todos se calaram. Foi um instante supremo. Desenrolou-se um maço de laudas escritas. Eu estava com o meu colar de correntes de ferro ao pescoço, aguardando o desfecho.

Todos os recursos do advogado de defesa foram rejeitados.

A continuação da sentença final foi lida: “Em observância à carta da dita Senhora, rainha de Portugal, manda-se que se execute inteiramente a pena da sentença ao infame réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha Tiradentes, da Cavalaria Paga de Vila Rica, que concebeu o abominável intento de conduzir o povo da capitania a uma rebelião, por ser o único que, na forma da carta, se faz indigno da Real Piedade. Quanto aos demais réus, a quem deve aproveitar a clemência real hão por comutada a pena de morte na de degredo perpétuo.” (Os termos da sentença podem ser proferidos por locutor off. em voz cavernosa)

E concluiu: “Fica condenado o réu Joaquim José da Silva Xavier a ser conduzido com baraço e pregão, pelas ruas públicas ao lugar da forca e nela morra de morte natural para sempre e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica onde, em lugar público, seja pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma. Ainda, seu corpo deverá ser dividido em quartos e pregados em postes pelo caminho de Minas. Declaram o réu infame e seus filhos e netos, tendo-os e os seus bens aplicam para o fisco e Câmara Real. A casa que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria, será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados e, no mesmo chão, levantará um padrão, pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu.” (Os termos da sentença podem ser proferidos por locutor off, em voz cavernosa)     
                                                                                                                                                                                                                                                                                       
Neste momento, eu tinha o olhar perdido no espaço.   
          
Uns e outros se abraçavam e uma Salve Rainha foi rezada com muito fervor, entrecortada por explosões súbitas de choro e gritos de euforia. Na realidade, tudo estava previsto e os juízes fizeram apenas uma encenação de tragédia, em suspense, aterrorizando os réus.

Enquanto todos festejavam aos gritos de euforia, eu estava a um canto, realmente só. Nenhum abraço, nenhuma palavra de solidariedade ou conforto. Assim permaneci calado até que pudesse felicitar um a um pela graça que tinham conseguido. Felizmente, não levo ninguém comigo! Dez vidas eu daria se as tivesse para salvar a deles. Eu sou a causa da perdição desses homens, amigos e companheiros.

E a sentença foi executada. Após o enforcamento, o meu corpo foi subdividido em quartos a machado, como estava previsto, e hasteados no caminho de Minas. Minha cabeça foi levada a Vila Rica e, em solenidade pública foi hasteada como uma bandeira aterradora para gerações futuras. Deveria deteriorar nesse mastro infame. Na calada da terceira noite porém, alguém afrontou as autoridades da Capitania e levou a minha cabeça para algum jazigo desconhecido.

Nada mais tenho a dizer. Disse antes que não sabia de onde vinha. Nada mais tenho a dizer. Estou certo de que o povo brasileiro, de uma forma longínqua, usufrui um pouco do ideal deste louco falastrão. Dez vidas eu daria, em mil pedaços poderiam subdividir meu corpo para plantar a semente da liberdade e para vê-la germinar vigorosamente em meu país, com uma república livre e independente, com uma bandeira, com os escravos libertados e com uma universidade criada em Vila Rica. Nunca me arrependi do que falei ou do que fiz. Este louco falastrão nunca teve um crime para confessar e nunca se curvou diante dos opressores estrangeiros. Ele teve apenas a ousadia de responder simplesmente: NÃO!!!

(Entregam-lhe duas canastras. Abre uma delas e surge a bandeira de Minas. Balança-a no ar. Abre a segunda e surge a bandeira do Brasil. Balança-a no ar, ao som do hino da Independência cantado em coro, com a participação da plateia. – Ao final, surgem acordes do Hino Nacional)   
      
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