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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

JK AO VIVO

 TEATRO - MONÓLOGO
Personagem: JK (Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902 – 1976)
Autor: Rogério de Alvarenga
Revisão: Omar Fürst



Cenário: sala de estar. O ex-presidente recebe amigos convidados, (Pequeno coral, in off, canta suavemente, um trecho da modinha Elvira, Escuta, de José Marcelo de Andrade e Luís Cláudio: “Elvira, escuta/ os meus gemidos,/ que a teus ouvidos,/ irão chegar// Não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma/ que te sabe amar.” Segue cantando mais suavemente a modinha em boca fechada, até desaparecer.)

(Entra o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira e, em tom coloquial, vai desenvolvendo um relacionamento afetivo com a plateia.) 
1. (A numeração dos itens da fala foi colocada para facilitar a memorização do ator e, também, para definir a sequência natural das ideias.) 
JK - Boa noite! Boa noite a todos! Impossível perder esta oportunidade de vir conversar com os meus amigos, principalmente com os amigos desta cidade que me fez para vida política.  Todos me conhecem de nome e de ação. Relatórios de minha vida? Todos conhecem. Vim por minha própria alegria de encontrar amigos. Amigos? Sempre tive dos melhores. Sempre fui fiel aos meus amigos. E os meus amigos me acompanharam até o meu final, ao final da minha vida, abraçados a mim, me conduziram ao meu descanso eterno. Tantos choraram por mim. Eu chorei por todos. Chorei copiosamente porque poderia ter feito ainda tantas coisas para o meu país e para o meu povo. Isto mesmo. Tive vergonha de morrer e deixar tantas coisas por fazer em tantos projetos arquitetados. Vim agora confirmar que meu pensamento sempre foi o caminho do progresso e tantas coisas que existem hoje em nosso país são fruto de uma disposição para o trabalho e para a realização de grandes obras. Não pensem que foi fácil romper tantas barreiras, ditas intransponíveis, para chegar ao topo, com a mesma coragem e o mesmo desprendimento que me caracterizam. Infelizmente, construí patamares nunca dantes imaginados para o povo brasileiro e recebi, em troca, por alguns, farpas inacreditáveis, denúncias, incompreensões e, finalmente, a própria morte.
2. Perdoar? Perdoar? Passei a minha vida inteira perdoando a centenas de algozes inesperados, que me atropelavam por infundadas razões, construídas por obsessão à inveja, à maldade, ao ódio ou ao medo. Agora, neste ponto final da linha da minha vida em que me encontro, que farei? Terei o mesmo senso de humildade ou de bondade para colocar o meu rancor em estado de pausa, para demonstrar o mesmo sorriso de complacência diante da arrogância, da petulância, da ousadia, da irreverência? Serei, assim, incompreendido pelos meus amigos, companheiros e até mesmo pelos meus eleitores. Se eu for arrancar palavras do fundo de um coração aviltado e coagido, não posso exprimir aquelas mesmas palavras, com sorriso de tranquilidade e segurança. Pensando melhor, neste momento, volto meus olhos para a minha vida, toda completa, de princípio, meio e fim, dizendo apenas que estou acima de todos os meus detratores, superior em filosofia de vida, em comportamento interior e soberania de princípios e ideais. Meus olhos não se convergem para as ações inferiores que habitam mentes também inferiores. Cada um pagará pelo que tenha feito. Esta lei não foi proposta por mim. É a lei do universo. O dia fatal chegará para todos, na sua grande justiça final. Com maior ou menor dose de sofrimento. Então, ironicamente, perdoo a todos, sem piedade. E não se fala mais nisso.      
3. Este comentário não está condizente com a amizade e o respeito que dedico às novas e brilhantes gerações de brasileirinhos, crescidos e desenvolvidos no respeito e na dignidade.
4. Falo para todos os que lutam para conseguir melhor qualidade de vida, segurança no trabalho e imaginar uma longínqua velhice digna. No meu caso, tantas forças da natureza colaboraram com a minha formação. Tive a sorte de nascer de família simples e digna. Meu pai, João César de Oliveira, era minerador na cidade de Diamantina, alegre, bem humorado, mas com pouca sorte na mineração. Ele faleceu jovem, deixando uma viúva de 23 anos, e dois filhos menores. Eu tinha dois anos e Naná era um pouco mais velha. Não me lembro de meu pai. Construí uma imagem dele pelas palavras amáveis e saudosas de minha mãe, professora Júlia Kubitschek. Meu pai, João César de Oliveira está sempre lembrado numa das principais avenidas da cidade de Contagem. Assim, minha mãe passou a dedicar a sua vida à educação dos seus filhos Nonô e Naná, como ela carinhosamente nos chamava. Não tínhamos nada que pudesse garantir uma vida de fartura e felicidade, se não fosse a dedicação da minha mãe e de alguns familiares mais próximos. Que estrela poderia nos oferecer uma oportunidade de brilho na sua constelação? Que futuro? Mas dona Júlia acreditava e sua fé era inabalável. Teve que vender tudo de valor que possuía, tão empenhada estava na educação dos filhos. Nada para si e tudo para os filhos. A vida da jovem Júlia estava planejada e sonhada. A sua riqueza eram essas duas crianças mais lindas do mundo, como são as palavras de todas as mães.
5. Em Diamantina, em 1906, foi criado o primeiro Grupo Escolar do Estado, pelo então governador João Pinheiro da Silva e minha mãe passou a ser remunerada pelo estado de Minas Gerais. Fui matriculado nesse grupo quando completei sete anos de idade. Terminado o curso no Grupo Escolar, que fazer? Minha mãe articulou com o diretor do seminário de Diamantina e conseguiu me matricular para o curso de padre. Correspondia ao curso ginasial ou primeiro grau. Se o aluno demonstrasse interesse de seguir a carreira eclesiástica, ele passaria para o curso mais avançado. Estudei muito, li muito, aprendi muito, mas a vocação para padre não apareceu. Fui franco com a direção do seminário e com minha mãe. Fiquei sem nova oportunidade pela frente.
6.Matriculei-me, então, num curso livre para telegrafista. Não havia outras oportunidades. Foi a minha salvação. Sem pensar em resultados imediatos, fui em frente como se a luz me aparecesse de repente. Fui firme, como todas as coisas que fiz na minha vida. Parece que sempre fui obsessivo demais. Quando pego, não largo e não entro em nenhuma atividade para perder. Por sorte, mais tarde, apareceu um concurso para telegrafista em Belo Horizonte. Fiz a minha inscrição e fui aprovado no concurso. Mesmo aprovado nesse concurso, tive que desenvolver algumas ações para ser nomeado. O meu primeiro dia de trabalho significou a minha independência financeira, estava rico. Assim, me senti mesmo rico e nem precisava de tanto. Minha mãe ficou mais aliviada. Continuei os meus estudos, trabalhava à noite inteira e, de manhã, estava firme na Escola de Medicina. Terminei o curso em 1927. Eu estava, portanto com 25 anos de idade.
7. Simples, não? Quando volto o meu olhar para esse tempo, vejo que fui bem sucedido e que estava no caminho certo, dentro do meu objetivo. Agora, trabalhar em benefício das pessoas carentes com assistência médica. Trabalhei em consultório particular e depois, por concurso, entrei para Polícia Militar do estado de Minas Gerais, como médico urologista. Participei da Guerra Civil Brasileira de 1932 e fui promovido a Capitão Médico.
8 A minha vida pública teve início com o convite que recebi do governador Benedito Valadares para o cargo de chefe de gabinete e logo, em seguida, fui nomeado prefeito da cidade de Belo Horizonte. Os prefeitos eram nomeados no tempo da ditadura Vargas. Não havia eleições. Belo Horizonte caiu nos meus braços. Não tive tempo nem de pensar, porque havia muitas coisas a fazer. Era o meu primeiro desafio.
9. Imaginem uma cidade idealizada e inaugurada em 1897, inacabada, mas caprichosamente bem traçada, com um plano diretor a ser seguido. Já imaginaram Belo Horizonte sem a Avenida Amazonas e sem a Avenida Antônio Carlos? Tudo por fazer. Uma cidade de 40 anos, construída pelo estado. Construída em quatro anos, apenas e inaugurada no dia 12 de dezembro de 1897. Não é feriado municipal comemorativo. Todas as cidades comemoram seu dia. BH, não! Há razões várias, nenhuma verdadeira. Mas, como ia dizendo, essas avenidas radiais deveriam ter 50m de largura. O atual bairro da Barroca era realmente uma barroca, um pântano. A Avenida Amazonas tinha que passar por cima. Grande movimentação de terra ou de barro. Não havia tratores, claro! Como abrir grandes avenidas de mais de seis quilômetros de extensão cada uma? Toda a terra era trasladada em carroças. A prefeitura monopolizou mais de um mil burros. Era a movimentação intensa de carroças, de poeira, de gritos e de problemas. Uma vitória. Com essas atividades, com essa movimentação de terra, me apelidaram de “prefeito furacão.” Sempre gostei desse apelido, que me acompanhou ao longo da minha vida. Não parece verdade? Sempre fui prefeito furacão. Não quero ficar fazendo relatório desse tal de “prefeito furacão. Mas não posso deixar de falar na represa da Pampulha. Depois desse lago artificial pela barragem construída, a urbanização. Em seguida um plano arrojado. Arrojado demais para a época.
9. O conjunto arquitetônico da Pampulha! Convidei a equipe do jovem e brilhante arquiteto Oscar Niemeyer para um projeto grandioso. Assim, surgiu o Cassino da Pampulha, com a efervescência do jogo, dos shows, do dinheiro rolando fácil. E o Iate Golfe Clube, a Casa do Baile e a igrejinha de São Francisco de Assis. Todo esse conjunto arquitetônico, edificado em linhas de vanguarda modernista, foi inaugurado por mim e pelo governador do estado Benedito Valadares, na década de quarenta. Os que viram na época, não acreditavam. E a lagoa da Pampulha com 18 quilômetros de perímetro! Foi a minha primeira loucura. Vivo de sonhos! Vivo de obras grandiosas. Não nasci para obras pequenas. Meu mal? Muitos pensam que sim, e ficam com o microscópio e os termômetros dependurados no pescoço, vendo o tempo passar. Nada melhor do que vislumbrar sempre, em sonhos, em planejamento e em ação, um belo e grandioso horizonte. Horizonte, minha grande meta.
Grandes obras, grandes voos! Foi um assombro para o nosso estado e para a nossa Belo Horizonte da época e elevou a autoestima dos mineiros. Era o início das minhas grandes realizações. Este conjunto arquitetônico representava ousadia, beleza e grandiosidade pela arquitetura de plena vanguarda modernista. Sempre me orgulho de ter vivido esses momentos de grandes realizações em Belo Horizonte.   
10. Uma polêmica: O bispo, Dom Cabral condenou a igrejinha de São Francisco. Tão simples, tão moderna, tão bonita! “Nada de rezas nessa caixa do Juscelino.” Foi condenada e, por quase vinte anos foram proibidas ações religiosas e permaneceu firme em pleno ostracismo. Somente em 1959, quando eu era presidente da República, consegui a sua liberação, seu “habeas-corpus”, em negociações com Dom João de Rezende Costa.
11.Ainda a igrejinha de São Francisco, que é protetor também dos animais. O painel do grande pintor Portinari, localizado na parte interior frontal, entre as figuras místicas representadas, havia um cachorro ao lado, que, atento, observava os acontecimentos. Esse cachorro foi um dos pontos de referência para a condenação. A Cúria Metropolitana venceu e a pena foi impiedosa. Entretanto, não posso me esquecer desse fato. Depois da liberação da igrejinha para atos religiosos, promovi uma missa solene de inauguração, com autoridades civis, militares e religiosas. Um solene acontecimento. Eis senão quando, no momento mais efusivo da celebração, entra pelo hall central, um velho cão, bem vira-lata, sem jamais saber o que seja “pedigree”, e avança tranquilamente, triunfantemente, até o altar e ali permanece sem se importar com nada. Ficou bem perto de mim alguns momentos e as minhas lágrimas desceram sorrateiramente. Depois, saiu porque não tinha mais nada a fazer senão demonstrar que era também devoto de São Francisco.
12. Depois disso, fui eleito deputado federal em 1947, pelo PSD – Partido Social Democrático, já me preparando para as eleições de governador do estado, quando fui eleito Governador em 3 de outubro de 1950.
13. Sabe quem foi meu adversário nessas eleições? Meu concunhado Gabriel Passos, pela UDN – União Democrática Nacional. O estado, nessa época, tinha 300 municípios e eu fiz 168 comícios com a meta Energia e Transporte. A população brasileira era de 52 milhões de habitantes, sem estradas, sem comunicações, sem energia elétrica.
14. O estado de Minas Gerais tinha 1.330 milhões de eleitores e o país, 8.254 milhões de eleitores. Eu fui eleito com 53% dos votos. A minha posse no governo do estado ocorreu no dia 31 de janeiro de 1951.
15, Imediatamente o trabalho. Mas, antes, era preciso mudar a postura e os métodos. Nada de ficar despachando com chefes políticos em gabinetes fechados. Mudança de comportamento e de atitudes para recuperar o atraso e a sonolência que dominavam o estado por tantos anos, desde a fuga das minerações e do ouro. Abri estradas. Eram 16 estradas-troncos para cortar diametralmente o estado. Belo Horizonte a Salto da Divisa, com 902 quilômetros! Criei a CEMIG – CENTRAIS ELÉTRICAS DE MINAS GERAIS – hoje, Companhia Energética de Minas Gerais, empresa modelo. Construí barragens de FURNAS e de TRÊS MARIAS, produzindo energia elétrica. Articulei para a implantação da Companhia Siderúrgica Mannesmann, inaugurada em 1954.
16. Uma vez, quando eu era governador, meu Secretário da Agricultura me confidenciou a compra de 40.000 enxadas. Respondi-lhe imediatamente que esperava a aquisição de 40 mil tratores. Não tenho vocação para obras pequenas. Nunca tive. Estou saudosista, Me desculpem!
17. Nunca me esqueci da minha Diamantina. Era o meu lado esquerdo do coração, do sentimento mais puro e profundo. Serestas, serenatas!!! Festejava com serenatas, lembrando sempre do meu pai, João César de Oliveira. Tive os irmãos que nunca tive. César Prates, Dilermando Reis, Ataulfo Alves, Sílvio Caldas e tantos outros. Sempre foram meus irmãos, companheiros, fieis e solidários. Meu coração se abria de canto a canto. Guardo-os a sete chaves, dentro do coração.

18. (Musical. Jk relembra suas músicas – O coral entra em cena, cantando. Elvira, escuta!
LETRA DE ELVIRA, ESCUTA – José Marcelo de Andrade/Luis Cláudio
Elvira, escuta os meus gemidos/ que aos teus ouvidos irão chegar/ Não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma, que te sabe amar.
Se tu me amas/ como eu te amo/ eu te prometo/ não te desprezar/ não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma que te sabe amar/
Teu coração é um rochedo/ e este rochedo/ é o meu penar/ não sejas traidora, tem dó de mim, tem dó dest´alma que te sabe amar.
Sobe a escada bem devagar/ Elvira dorme/ pode acordar/ não sejas traidora, tem dó de mim/ tem dó dest´alma/ que te sabe amar.
Ainda como depois de morta/ a tua face irei beijar/ não sejas traidora/ tem dó de mim/ tem dó dest´alma/ que te sabe amar. 

Em seguida, o coral canta a canção folclórica: PEIXE VIVO, com movimentação e alegria.
Zum, zum, zum – lá no meio do mar – bis / é o vento que nos atrasa/ é o mar que nos atrapalha/ para no porto chegar/
 Zum, zum, zum lá no meio do mar /bis / como pode o peixe vivo viver fora d´água fria –bis/
Como poderei viver/ como poderei viver/ sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia/ bis.
Os pastores desta aldeia/ já me fazem zombaria/ bis/ Por viver assim chorando/bis - sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia O rio de São Francisco/ corre de noite e de dia/ bis Só o tempo é que não corre/bis - sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia/ Zum, zum, zum lá no meio do mar/ bis.

Logo após, entra uma grande valsa vienense, orquestrada, em off. JK dança com cada uma das personagens do coral, com elegância e distinção.
Em seguida, o coral canta para encerramento:
Oh! Minas Gerais!  Quem te conhece não esquece jamais!/ Oh! Minas Gerais...
– adaptação musical da canção italiana: Vieni sul mar

19. Não posso deixar passar uma valsa. Sempre gostei de dançar e não perdia tempo. Depois, algumas pessoas passaram a pensar que a minha obsessão pelas dançarinas era uma questão patológica. Rio demais desse diagnóstico. Realmente, aproveitava todas as oportunidades e procurava agradar sempre às mulheres. Sarah não era assim tão ciumenta. Agora vou fazer uma revelação, uma confissão: não era essa a minha obsessão. E eu tinha obsessão era mesmo pela realização de obras grandiosas. E tudo pelo trabalho e pela minha família. Tudo o mais eram lendas. E por que não gostar de dançar com as belas mulheres brasileiras?
20. E agora, a meta pela presidência da República! Não foi fácil a aprovação do meu nome como candidato pelo PSD, Partido Social Democrático, mas finalmente, o meu nome foi aprovado em 1955. O país vivia um clima de tensão. Tensão política envolvendo o presidente Getúlio Vargas e o jornalista Carlos Lacerda, brilhante orador. O presidente estava numa roda sem saída. Eu, pessoalmente, e mesmo o governo de Minas nunca tivemos problemas com o presidente Getúlio Vargas, embora ele fosse de outro partido. Relações de amizade, de consideração e de respeito.
21.Tive sempre pelo presidente Getúlio Vargas a maior consideração e respeito. Assim, mesmo nesse período de turbulência política, o estado de Minas Gerais teve a honra de recebê-lo no dia 12 de agosto de 1954, por ocasião da inauguração da Companhia Siderúrgica Mannesmann. Esta inauguração foi a sua última aparição em público.
22. Não posso me esquecer desse dia. Ficaram marcados pelas contingências que posso explicar. Após a inauguração, ofereci-lhe um almoço nos jardins do Palácio da Liberdade, ao som de melodias bem suaves. O presidente se mostrava triste, arredio, sempre procurando o isolamento. À tarde, fomos para o Palácio das Mangabeiras, no alto da serra do Curral, local acolhedor e de pleno silêncio. Visão ampla e descortinada da cidade de Belo Horizonte, ao longe. Era um local adequado ao repouso e à meditação. O jantar foi servido para 30 pessoas, em caráter íntimo, apenas alguns sindicalistas, diretores da Mannesmann e alguns deputados. Houve, após, uma pequena serenata com César Prates e Dilermando Reis, terminando por volta da meia-noite. Deixei-o a sós e desci a serra do Curral, recomendando ao mordomo que não se afastasse dele um só instante. Ele, o presidente, mais tarde, desceu até à biblioteca, pegou um livro de Eça de Queirós. No dia seguinte, notei que ele estava muito abatido. Levei-o ao aeroporto. Na despedida, abraçou-me de forma inusitada. Pude sentir, pela firmeza de seus gestos que era um abraço fraternal. Ele queria falar alguma coisa e não conseguiu. Com esse abraço, entretanto, percebi que ele manifestava um forte impulso de agradecimento e de amizade. Tentou outra vez dizer alguma palavra, mas não conseguiu. Não precisava de palavras. Ele talvez quisesse agradecer aqueles momentos de paz e de solidariedade. Eu, de minha parte, comovi-me intensamente, porque sabia do clima de hostilidade generalizada que fermentava no Rio de Janeiro, capital do país, naquela época. A imprensa e os militares! Amigos?  Quais? Sei, com certeza que, nesse momento de despedida de Belo Horizonte, ele tinha podido sentir que eu estava do seu lado, mesmo sem dizer uma só palavra.
23. Getúlio Vargas despediu-se de mim na manhã do dia 13 de agosto de 1954 e suicidou-se no dia 24.
24. Foi um ato de plena decisão. Premeditado, arquitetado por vários dias. Foi um golpe final e fatal que terminou imediatamente com a farra da UDN e dos militares.
25. A UDN – União Democrática Nacional – tinha investido todas as suas forças contra Getúlio Vargas, sempre na tentativa de sua deposição, de seu afastamento ou de sua renúncia sem retorno programado. E ele respondia: “Só saio daqui morto! Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho razões para temer a morte!”
26. Getúlio Vargas resistiu o quanto pôde para evitar a sua deposição. Finalmente, nesse dia 24 de agosto de 1954, às 8h30, deu um tiro no próprio coração. E o povo brasileiro chorou e foi para as ruas, com a sua carta de despedida. Foi isso que aconteceu. Os opositores ficaram em pânico, atônitos com o povo nas ruas
27. Às 11h30 parti para o Rio de Janeiro, completamente aturdido pelos acontecimentos, pela amizade e pelo respeito que tinha pelo presidente. Estava comovido e chocado. Minha esposa, Sarah e eu acompanhamos o velório, procurando dar conforto aos familiares. Ainda mais, eu fui o único governador de estado que compareceu ao velório do presidente Vargas.
28. Depois desses acontecimentos, eu poderia pensar nas eleições para presidente, no ano seguinte? As eleições seriam realizadas no dia 3 de outubro de 1955. O ambiente político ficou conturbado. Era prudente aguardar. Esperar o momento certo. Finalmente tive a ventura de ver o PSD, meu partido, em forte aliança com o PTB – Partido Trabalhista Brasileiro – partido do presidente Vargas. Tive João Goulart como companheiro de chapa. Enfrentamos a candidatura à presidência da República.  Nas eleições, obtivemos 36% de votos. Eram quatro candidatos e não obtivemos a maioria absoluta, uma nova arma secreta da UDN e dos militares, contra a minha posse.  
29. Reviravolta de 360 graus. O Marechal Henrique Teixeira Lott, em 11 de novembro de 1955 restabeleceu a ordem política, assegurando a minha posse no dia 31 de janeiro de 1956. A faixa presidencial me foi passada pelo senador, digo, presidente, Nereu Ramos.
30. Assumi a presidência com um plano de metas e uma meta síntese, a construção de Brasília, um sonho impossível.
31. Não preciso fazer relatório sobre minha ação na presidência da República, mas digo, com orgulho, tive a honra de desbravar o interior desse gigante adormecido. Tirar o país da síndrome do caranguejo, deslumbrado pelo litoral Atlântico.  A estrada Belém-Brasília foi um marco nacional. E digo mais, a transferência da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960 foi um marco histórico irreversível. Brasília, um sonho tão sonhado por tantos e concretizado por mim. Brasília foi construída no planalto central em três anos e oito meses. Inacreditável até para os meus companheiros. Meus adversários aprovaram a construção de Brasília porque tinham a certeza de que ela seria um retumbante fracasso político. Sei que paguei caro por essa ousadia, e tantos e tantos não me perdoaram. Falei antes sobre perdoar. Isso ainda retumba na minha cabeça e rompe a minha consciência. Fico aturdido com a meta do perdão que sempre usei e abusei. Agora, que fazer?
32. Brasília, uma miragem! Uma paixão desenfreada! André Malraux, ministro da Cultura da França, quando avistou esse monumento não deixou de exclamar? “Esta é a capital da esperança!”
33. Após o término do meu mandato, passei a faixa presidencial ao meu sucessor, presidente Jânio Quadros. Democraticamente eleito. E o meu amigo, menestrel Juca Chaves, me fez uma homenagem comovente na sua canção, Presidente bossa nova: “Bossa nova é mesmo ser presidente/ desta terra descoberta por Cabral/ para tanto, basta ser tão simplesmente,/ simpático, risonho, original! ...”    
(Entra um cantor com o violão e canta a canção do Juca Chaves. JK procura fazer dueto. Cumprimentos e agradecimentos)

34. Tive a honra de ser eleito ainda Senador pelo estado de Goiás que representei com brilhantismo até o dia da cassação dos meus direitos políticos.
35. Depois de tudo isso, acontecimentos terríveis! Em 31 de março de 1964, os militares depuseram o presidente João Goulart e assumiram o poder do país.
36. Pronunciei um discurso no Senado afirmando a minha revolta. Foi o bastante. Foi o suficiente! No dia 8 de junho de 1964 foi decretada a cassação dos meus direitos políticos por dez anos, juntamente com nove deputados e 39 outros cidadãos.
37. Esse decreto teve apenas duas assinaturas: do então presidente, Marechal Castelo Branco e do Ministro da Justiça, Milton Soares Campos.
38. Todo mundo pensava que eu era um homem rico. Na verdade, fiquei praticamente indigente, sem receitas. Sem aposentadoria, sem emprego. Desesperado, sem amigos, fui para o exílio, com a ajuda financeira de amigos. Podia isso acontecer? Um político pobre, vivendo a custa de amigos? Estava na França e se voltasse, seria preso.
39. Vivi na França alguns anos. Anos de tristeza, de abatimento, de solidão. Vivi com grandes dificuldades financeiras, tanto tempo quanto pude. Não podia retornar. Neste período de exilado, faleceu a minha irmã, Naná. Minha única e amada irmã. Que fazer? Obtiveram para mim a permissão de acompanhar o velório e retornei, com todas as precauções. No aeroporto, um oficial militar me confidenciou que eu iria ser preso. Ele era grato a mim por um processo que eu tinha liberado a seu favor. Ele foi ao aeroporto somente para me proteger. Eu poderia acompanhar o velório, mas não poderia dirigir nenhuma palavra a meu povo. Foi cruel. Cheguei ao velório da minha irmã, Maria da Conceição, Naná.

40       Em Belo Horizonte, por onde passava, o povo me aplaudia e gritava meu nome. Eu não podia ouvir nem ver essas manifestações. Segui calado e triste. Nem cumprimentar o meu povo. Sempre estive de cabeça baixa. Finalmente, cheguei a frente ao corpo da minha irmã. Chorei copiosamente. Queria interromper meus soluços e não conseguia. Depois, percebendo que nada estancava meu pranto, passei a chorar sem repressão. Tinha que desabafar tanta dor incontida. Nem sei como derramei tantas lágrimas. Não me continha. Decidi deixar extravasar todos os meus ressentimentos. Ela compreenderia isso. Do lado de fora, aplausos. Que fazer? Foi uma cena patética. Nem gosto de me lembrar. O povo aplaudindo e eu chorando copiosamente. Tudo isso me fazia mais convulsivo. Era o dia 4 de junho de 1966.    
41. Indiquei Israel Pinheiro para governador do estado de Minas Gerais, nas vésperas da eleição, contrariando a expectativa dos políticos militares. Ele venceu e pôde se sentar na mesma cadeira onde seu pai, João Pinheiro assentou, em 1906 e morreu, em 1908, como governador do estado.         
42. E continuaram as perseguições à minha pessoa de todas as formas.   Tinha decidido voltar para o Brasil, disposto a enfrentar qualquer situação. Fui convocado a depor em várias oportunidades e recebia ameaças diariamente, até que surgiu a notícia da minha morte, anunciada por um jornal irresponsável. Ainda não era verdade. Mesmo assim, nunca me tocaram fisicamente.
43. Queriam, agora o sei, a minha morte, sem ressurreição. Sei, agora, que sempre fui um fantasma aterrador para eles. Sei, agora, que sempre me temeram, que temeram a minha sombra que passava por eles como qualquer fresta de luz. Temiam. Eu era o inimigo e eles vivem durante toda a vida profissional à procura do inimigo. E eu estava onde? Na memória do povo e nas minhas obras. Em tudo que tocavam a minha imagem fantasmagórica estava preservada. Eu tinha retornado definitivamente ao meu país e iria viver aqui, do jeito que pudesse. “Agora, só saio morto!”
44. Fui convidado para uma serenata em Diamantina e encontrei poucos amigos. “Parece que tenho uma doença contagiosa”. Mesmo assim, eu passava por cima dessas humilhações.
45. Sei que se me fosse permitido, eu seria eleito presidente, novamente. Minha meta principal: “Cinco anos de agricultura para cinquenta de fartura.”     
46. O boato da minha morte foi apenas um aviso. Na ocasião, eu me diverti muito com jornalistas e amigos na minha fazenda em Luziânia. Era a morte anunciada.
47. Candidatei-me a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Uma grande frustração. Fui vendido pelo presidente da casa, Austregésilo de Athayde, por um saco de cimento. Perdi a eleição, mas compareci à posse do meu concorrente para cumprimentá-lo.
48. Logo após, Vivaldi Moreira, presidente da Academia Mineira de Letras, inscreveu meu nome como candidato a uma vaga. Fui eleito por unanimidade. Tomei posse no dia 3 de maio de 1975. Das oportunidades, a mais honesta e mais significativa para mim.
49. Como é natural, a morte encerra todas as histórias. Numa tarde de domingo, dia 22 de agosto de 1976, vindo de carro de São Paulo, com o meu motorista e amigo, Geraldo Ribeiro, fui vítima de um acidente, provocado por uma “fechada” de um ônibus da Viação Cometa, no quilômetro 165 da via Dutra. Tal fato obrigou o motorista a desviar para a outra pista e colidiu com uma carreta que vinha em sentido contrário. Não tivemos salvação. Nada mais sei. Morte imediata. Faltavam 20 dias para eu completar 74 anos de idade. Meu corpo foi exposto numa mesa de bar da rodovia, sem nenhuma marca de perfuração por arma de fogo. Entretanto, o corpo de Geraldo Ribeiro foi imediatamente colocado num caixão de alumínio, trancado hermeticamente.
50. Fui transportado para o Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro e, em seguida, fui removido para o saguão do Edifício Manchete. Meu amigo Adolfo Bloch chorava convulsivamente. Sarah e as nossas filhas Márcia e Maristela chegaram ao amanhecer. Os meus amigos também começaram a chegar logo após. O povo, ousada e agressivamente, cantava a canção do “Peixe Vivo”. Ao meio-dia de 23 de agosto, o cortejo seguiu a pé até o aeroporto Santos-Dumont. O meu caixão estava coberto com a bandeira do Brasil. Fui transportado, como sempre, nos ombros do meu povo, num percurso que durou mais de uma hora. Ao chegar ao aeroporto, o povo aglomerado, me aplaudia emocionado. Brasília, meu destino! Às 16h chegava à minha nova morada. O povo, emudecido, viu abrirem-se as portas do avião. Silêncio total. Mais de 30 mil pessoas aguardavam a minha chegada. Meu novo itinerário: a Catedral. Uma “kombi”, coberta com a bandeira do Brasil, chegou-se ao avião, As portas se abriram e apareceu um funcionário da empresa. Fez o sinal-da-cruz. Fui transportado por uma Kombi! Tantos amigos corajosos ali presentes. Não posso citar nomes. Amigos ousados e corajosos. O povo aplaudia sem cessar. Sem cessar cantavam a canção do Peixe Vivo, desde a parte da manhã, quando começaram a se aglomerar no aeroporto, aguardando a minha chegada. Grupos informais se formavam, cantavam e choravam em movimentos de desespero. Corais emocionantes.
(O coral, em surdina, entoa a canção do Peixe Vivo. O ex-presidente aguarda um pouco e depois, continua.)
O cortejo seguiu com quatro mil automóveis em carreata. Fila interminável até a Catedral, distante 20 quilômetros. Quarenta jovens motociclistas, com blusões pretos, portavam faixas. O esquife entrou na Catedral, carregado pelo povo. A Catedral estava cheia de candangos. Eles construíram e agora, entraram. Por mais estranho que pareça, estavam felizes perto de mim. Havia centenas e centenas de coroas. Flores e flores chegavam. Depois, os candangos, que não tinham dinheiro para comprar flores, foram arrancando das coroas as flores mais bonitas e jogando-as sobre o meu caixão. Os cordões de isolamento eram enormes. Uma senhora disse para um militar:“Os senhores estão isolando o quê? Tem alguma coisa aqui para ser isolada? Nós viemos buscar o nosso presidente no maior respeito que ele merece! Já não chega esse isolamento de tantos anos? Vamos! Tirem essa corda que eu vou passar!” Os taxistas não cobravam as corridas e baixaram os taxímetros. Não cobravam de nenhum passageiro. A missa foi celebrada pelo Arcebispo dom José Newton, pelo Núncio apostólico, dom Cármine Rocco e mais 25 padres, tendo iniciado às 17h15. Quase não houve missa. Ela foi interrompida várias vezes por palmas, hinos, lamentações e choro. O celebrante acolhia essas manifestações, aguardava um momento para continuar a missa. Novamente, outra manifestação de desespero e dor profunda. Nada impedia manifestações. Nunca se viu uma interferência tão perturbadora numa missa como essa. Participação e integração nos atos religiosos. Do lado de fora, o povo se comprimia com os gritos de JK! JK! JK! Sarah, com voz trêmula, conseguiu pedir calma ao povo amigo. Todos se calaram, imediatamente. O povo atendeu por alguns instantes. O silêncio era cruel demais. Impossível suportá-lo. Logo depois, o desespero retornou em brados e lamentações. Um grupo de índios xavantes de Mato Grosso conseguiu chegar perto do meu caixão, colocado bem em baixo dos anjos de Ceschiatti. Uma oração na língua primitiva e pura ecoou na catedral. De mãos dadas, em coro, lançaram seus gritos tribais. Levantavam e desciam os braços, por várias vezes, com as mãos fechadas. Um candango, de alma pura, perguntou: “Ele vai ser enterrado?” Fazia sentido essa pergunta? Um ser sobrenatural? Eram seis horas da tarde quando o meu caixão foi retirado da Catedral. Seria colocado num carro vermelho do Corpo de Bombeiros, estacionado em frente. Aí, o povo, os candangos não permitiram e me carregariam nos ombros calejados, para onde quer que fosse. O caminho é longo. Vários quilômetros até o Campo da Esperança que me aguardava. Mas ninguém pensava nisso. Tinha o meu destino: “deitar-me para dormir em paz.” O percurso foi longo e sofrido. Era um cortejo fúnebre, mas apareciam corais improvisados que me saudavam a cada momento. Finalmente, já de madrugada do dia 24 de agosto, fui sepultado perto do meu amigo Bernardo Sayão e a alguns metros do Candango Desconhecido. O povo, com as mão vazias, retornavam às suas casas, para recuperar o grande esforço pela caminhada. Alma lavada! Foi isso. Foi assim. Assim me contaram por cartas. Nada mais penso, agora. Nenhuma emissora de televisão registrou esses acontecimentos, por falta de coragem ou por imposição política, dita legal e, se foram registrados, continuam mofando nos arquivos esquecidos. Finalmente, depois de alguns anos, por iniciativa de Sarah, com a participação de Sílvio Caldas e do presidente João Batista Figueiredo, foi edificado o Memorial JK, na minha cidade, em monumento projetado pelo mesmo arquiteto, Oscar Niemeyer. Simplesmente, faço parte da história. Sou grato ao meu povo que me compreendeu e me incentivou. Sei que as gerações futuras hão de prosseguir estudos e pesquisas para elucidar fatos que passaram encobertos.

(Grandes e continuadas reverências de agradecimento)
(No final, Hino Nacional em surdina, com o texto com locutor em off):                          
 “DESTE PLANALTO CENTRAL/ DESTA SOLIDÃO QUE EM BREVE SE TRANSFORMARÁ/ NO CÉREBRO DAS ALTAS DECISÕES NACIONAIS,/ LANÇO OS OLHOS,/ MAIS UMA VEZ,/ SOBRE O AMANHÃ DO MEU PAÍS/ E ANTEVEJO ESTA ALVORADA/ COM FÉ INQUEBRANTÁVEL E UMA CONFIANÇA SEM LIMITES/ NO SEU GRANDE DESTINO.
(O coral se apresenta com entusiasmo, cantando a canção Peixe Vivo, incentivando a participação da platéia.)

domingo, 5 de agosto de 2012

JUSCELINO KUBITSCHEK - ENTREVISTA VIRTUAL

JK, O PRESIDENTE CONSTRUTOR DE BRASÍLIA

Autor: Rogério de Alvarenga

Apresentação
Este é o presidente da República Federativa do Brasil, no período de 31 de janeiro de 1956 a 31 de janeiro de 1961. Este mesmo que fez o Brasil crescer cinquenta anos em cinco. O presidente que construiu e inaugurou uma capital no vasto  planalto central – Brasília. Obsessivo pelo trabalho, pelo desenvolvimento, pela energia, pela alegria contagiante de viver! Hoje, apenas sonhos e imaginação! Contudo, estão suas pegadas impregnadas nas trilhas do Brasil forte, Brasil gigante, Brasil produtivo - nas obras e, principalmente, no reconhecimento e na gratidão do povo. Por isso mesmo, ele é lembrado com carinho por tantas pessoas que o conheceram. Assim, se referem a ele: “A única realidade nacional é o perfil de JK, atarefado numa obra que ninguém lhe pode negar – a de providenciar botas de sete léguas para o gigante caminhar.” Assis Chateaubriand. “Foi um sonhador, um visionário, um estadista na verdadeira acepção da palavra”. Antônio Carlos Magalhães. “O presidente JK deve ser visto como profeta que preparou o Brasil para o século XXI”. Fernando Henrique Cardoso. “Também admirei nele a coragem de nos infundir e transmitir confiança, quando o país só acreditava no que vinha com a marca estrangeira”. Jarbas Passarinho. “O governo do presidente JK tem um ocaso que mais parece uma alvorada”. Juracy Magalhães. “Juscelino trouxe a gargalhada para a presidência. Os outros presidentes tinham a rigidez de quem ouve o Hino Nacional, cada um comportando como se fosse uma estátua de si mesmo. A partir de JK, surge um novo brasileiro”. Nélson Rodrigues.
“JK é entusiasmo, esperança, determinação” Niemeyer. “Homem excepcional, incapaz de uma perseguição, de uma violência, de uma vingança. Perdoava as pessoas, anistiava os culpados e seus detratores mas, depois, foi por eles perseguido de forma cruel, por inveja e despeito. Lançassem as urnas eleitorais, ele teria voltado à presidência, com a consagração de todo o povo brasileiro”. Sobral Pinto. “Cinco anos de trabalho, cinco anos de estabilidade, cinco anos de política ilesa da democracia”. Tancredo Neves. “O Brasil perdeu um filho que soube ser o mais querido e o mais injustiçado”. Nélson Carneiro.

Entrevistador
O povo brasileiro há de reverenciar, com fé e orgulho, as ações deste ex-presidente bossa-nova, visionário de um Brasil feliz. Assim, eis conosco, JK, para uma conversa simples e abrangente sobre fatos de sua vida Boa noite, PRESIDENTE JK!
JK
Boa noite!  Sempre que tenho oportunidade, me proponho a falar para exaltar e dignificar o povo brasileiro e a minha pátria!
E
Mas, presidente, sua vida foi uma sucessão de vitórias! Que pode dizer sobre seus momentos mais gloriosos?
JK
Na primeira fase da minha vida, sempre obtive as mais fantásticas e inacreditáveis vitórias pelas minhas realizações.
E
Primeira fase?
JK
Não posso negar as duas grandes fases da minha vida. A primeira, de glórias, a segunda de amarguras.
E
Pode delimitar no tempo essas fases?
JK
Claro! A primeira, da minha infância em Diamantina, minha cidade natal, até o dia da cassação dos meus direitos políticos, em 8 de junho de 1964. A segunda, a partir dessa cassação até a minha morte trágica, na tarde de 22 de agosto de 1976.
E
Poderia acrescentar uma terceira fase, presidente?
JK
O que propõe?
E
A terceira fase seria a construção da sua memória para romper os séculos, consignando a esperança num Brasil novo a cada dia, rememorando o mito que o fez gigante.   
JK
Sei que vou continuar na memória do povo brasileiro, porque dediquei a minha vida pelo meu povo e pela minha pátria.
E
Poderia falar de sua infância?
JK
Meu pai, João César de Oliveira, minerador em Diamantina, sempre bem-humorado e festeiro, faleceu quando eu tinha dois anos. Minha mãe, Júlia Kubitschek, viúva aos 23 anos de idade, dedicou sua vida ao magistério e à educação de seus dois filhos, Naná e Nonô, como ela, carinhosamente nos chamava. Lutou contra as maiores adversidades e viveu exclusivamente para a formação dos filhos. Em 1919, abriu-se um concurso para telegrafista na Agência Central de Belo Horizonte. Fui à capital para prestar as provas desse concurso e obtive o 19o lugar na classificação geral e a primeira prova foi realizada no dia 21 de julho de 1919. Compareceram 89 dos candidatos inscritos. Voltei a Belo Horizonte, ainda em dezembro de 1919, mas só assumi o cargo de Telegrafista Auxiliar no dia 19 de maio de 1921. Com isso, me considerava rico e independente! Permaneci no cargo até formar-me em Medicina, em Belo Horizonte, no ano de 1927.
E
Formou-se, então, em Medicina?
JK
Sim! E trabalhei efetivamente, como médico, em clínica particular. Posteriormente, ingressei na Polícia Militar de Minas Gerais, como médico urologista. Participei da Revolução de 1932 – ou Guerra Civil - e fui promovido a Capitão Médico, depois de estágio profissional, realizado em Paris.
E
E o casamento?
JK
Casei-me com Sarah Lemos de Oliveira, no dia 30 de dezembro de 1931 e vivemos muito felizes com as nossas filhas Márcia e Maristela. Sarah era filha de um importante senador estadual, pessoa da mais alta dignidade da época.
E
E a política?
 JK
O então governador do Estado de Minas Gerais, doutor Benedito Valadares, convidou-me para chefe de Gabinete e, logo depois, nomeou-me prefeito de Belo Horizonte. Foi o primeiro desafio.
E
E a nova capital, Belo Horizonte?
JK
Belo Horizonte, a nova capital do Estado, transferida de Ouro Preto em 1897, estava praticamente por fazer. Uma cidade com pouco mais 30 anos de inaugurada! Comecei um plano de obras, abri então as avenidas radiais, avenida Amazonas e Antônio Carlos. Esta, projetada para 50 metros de largura! Construí o conjunto arquitetônico da Pampulha, um lago artificial, um cassino, um iate golfe clube, uma casa de diversão, a Casa do Baile, e uma igrejinha. Também inaugurei o Museu Histórico Abílio Barreto e criei a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Nessa época, eu já tinha a meu lado um grupo de jovens, amigos de primeira linha, artistas e arquitetos: Oscar Niemeyer, Portinari, Burle Marx, Santa Rosa, Ceschiatti, Eles me acompanharam por longos anos de minha vida.
E
E essa igreja?
JK
Essa igrejinha de São Francisco, construída em linhas de plena vanguarda modernista, não foi bem aceita pelo clero local. Infelizmente! Não era a minha intenção! Assim, manteve-se interditada para atos religiosos por 17 anos. Somente em 1959, quando eu era presidente da República, estabeleci acordo, doando-a à Mitra Arquidiocesana, por intermédio de Dom João de Rezende Costa.           
E
E esse conjunto de obras trouxe repercussão nacional?
JK
Pela beleza, pela grandiosidade e pela ousadia! Uma arquitetura moderna, avançada, Era o início das minhas grandes realizações. Foi o meu impulso para alcançar níveis mais elevados. Sempre me orgulho de ter vivido esses momentos de grandes realizações em Belo Horizonte.
E
Daí passou a ser chamado de prefeito furacão?
JK
Muito justo, acredite! Para compreender melhor, o trabalho de remoção de terra de todas as obras da época era feito por intermédio de burros e carroças. Mais de mil burros tinham emprego direto na Prefeitura. Poderia ser de outra forma? Podem imaginar isso? Às vezes, me pergunto: “se dispusesse dessas máquinas possantes de hoje, teria feito outros 50 anos em 5!”
E
Depois de prefeito de Belo Horizonte, Deputado Federal?
JK
Fui eleito Deputado Federal pelo PSD, Partido Social Democrático, em 1947. Mas, já estava me preparando para as eleições estaduais. Fui indicado pelo meu partido para concorrer como candidato ao governo do estado. Com muito esforço, saí vitorioso nas eleições realizadas no dia 3 de outubro de 1950.
E
Gabriel Passos, seu concunhado, foi o candidato da UDN!
JK
Isso mesmo. Nessas eleições, somente a minha sogra tinha a certeza de que venceria.
E
O estado de Minas Gerais era bem diferente!
JK
Tive dificuldades imensas.  O estado possuía 300 municípios na época. Lancei um slogan pelo binômio ENERGIA E TRANSPORTE e realizei 168 comícios. Imaginem a dificuldade que tive em percorrer os mais distantes cantões do estado! Entretanto, as minhas convicções eram mais vigorosas. Quando se acredita, as coisas acontecem!
E
Mas o próprio país era diferente!
JK
A população brasileira era, em 1850, de 52 milhões de habitantes, sem estradas, sem comunicações, sem energia elétrica.
E
E o estado?
JK
O estado de Minas Gerais tinha 1.330.000 eleitores e o país tinha 8.254.989. Fui eleito com 53% dos votos, enquanto meu adversário obteve 40%.
E
E a posse?
JK
Ocorreu no dia 31 de janeiro de 1951. Eu era um GOVERNADOR A JATO!
E
Muito trabalho?
JK
Muito trabalho mesmo! Imediatamente o trabalho! Mas, antes, mudar a postura e os métodos. Nada de ficar despachando com chefes políticos em gabinetes fechados. Mudança de comportamento e de atitudes, para recuperar o atraso e a sonolência que dominavam o estado, por tantos anos, desde a fuga das minerações e do ouro,
E
Muito trabalho, então?
JK
Abertura de estradas de rodagem. Eram 16 estradas-troncos para cortar radialmente o estado. A principal delas era a Belo Horizonte-Salto da Divisa, com 902 km de extensão. No total do meu governo, tivemos 3.087 km de estradas abertas no período. 
E
E energia?
JK
Em 1952, criei as Centrais Elétricas de Minas Gerais – CEMIG, hoje, Companhia Energética de Minas Gerais - tornando-se essa empresa em modelo estatal de eletrificação. Atualmente, ilumina o nosso estado por completo. Lancei a pedra fundamental da Mannesmann, Companhia Siderúrgica Mannesmann - inaugurada em 1954. São empresas que valorizam o potencial do estado de Minas Gerais.   
E
E as obras?
JK
Uma vez, meu Secretário da Agricultura me confidenciou a compra de 40.000 enxadas. Respondi-lhe imediatamente que esperava a aquisição de 40.000 tratores. Não tenho vocação para obras pequenas. Nunca tive. Estou muito saudosista, me desculpe!
E
E as serenatas?
JK
Ah! Diamantina me ensinou a festejar uma serenata. Assim, a minha vida é uma serenata completa. Amigos diletos, meus irmãos que não tive, César Prates, Dilermando Reis, Ataulfo Alves, Sílvio Caldas e tantos outros. Sempre estiveram comigo, a meu lado, do lado afetivo do coração. Também Juca Chaves, que me chamou de “PRESIDENTE BOSSA-NOVA”! Toda essa gente me acompanhou. Como me esquecer deles? Há centenas de outros. Como deixar de me lembrar deles nas recordações mais íntimas de minha vida?
E
Seus biógrafos insistem em afirmar que o senhor tinha obsessão por mulheres bonitas e elegantes. Que era pé-de-valsa, isto é, que adorava dançar.
JK
Uma bela afirmação! Quem não gostaria de coisas belas? Entretanto, não podem deixar de dizer também que eu tinha compulsão pelo trabalho, pela política e pelas realizações. Nunca estive parado um só instante da minha vida. Obras grandiosas, visando fazer um Brasil feliz. Uma obsessão irresistível. Para resumir, tudo que fiz foi com obsessão desenfreada, O trabalho sempre foi mais importante para mim do que a minha própria vida. Meu trabalho e minha família foram sempre mais importantes para mim e para a minha vida.   
E
E agora a meta era a Presidência da República?
JK
Antes disso, seria forçoso lembrar que não foi fácil a aprovação do meu nome para candidato às eleições presidenciais de 1955.
E
Problemas com o presidente Getúlio Vargas?
JK
Problemas! Problemas não com ele. Problemas políticos que o envolveram numa das armadilhas mais funestas da vida brasileira, num conjunto de ações desenvolvidas por jornalistas e militares.
E
Então, o presidente Vargas sempre foi seu amigo?
JK
Tive por ele, sempre, a maior consideração e o maior respeito. Por isso mesmo, o estado de Minas Gerais teve a honra de recebê-lo no dia da inauguração da Companhia Siderúrgica Mannesmann, em 12 de agosto de 1954. Essa foi a última inauguração do seu governo e a sua última aparição em público.
E
Como foi?
JK
Após a solenidade de inauguração, ofereci-lhe um almoço nos jardins do Palácio da Liberdade, ao som de melodias de uma orquestra instruída para tocar músicas suaves. Getúlio Vargas se mostrava triste, arredio, sempre procurando o isolamento. À tarde, fomos para o Palácio das Mangabeiras, no alto da serra do Curral, local acolhedor e de pleno silêncio. Visão ampla e descortinada da cidade, local adequado ao repouso e à meditação. O jantar foi servido para 30 pessoas, em caráter íntimo, apenas alguns sindicalistas, alguns deputados e diretores da Mannesmann. Houve uma pequena serenata com César Prates e Dilermando Reis, terminando por volta da meia-noite. Deixei-o a sós e desci a serra do Curral, recomendando ao mordomo que não se afastasse dele um só instante. Ele, mais tarde, desceu até a biblioteca e pegou um livro de Eça de Queirós. No dia seguinte, notei que ele ainda estava muito abatido. Levei-o ao aeroporto. Abraçou-me nas despedidas e pude sentir, pela firmeza de seus gestos nesse abraço fraternal, que ele estava manifestando um forte impulso de agradecimento e de amizade. Tentou dizer alguma palavra, mas desistiu. Não precisava de palavras. Ele talvez quisesse agradecer aqueles momentos de paz e de solidariedade. Eu, de minha parte, comovi-me intensamente, porque sabia do clima de hostilidade generalizada que fermentava no Rio de Janeiro. A imprensa, os militares! Amigos? Quais? Sei, com certeza que, nesse momento de despedida de Belo Horizonte, ele pôde sentir que eu estava do seu lado, mesmo sem dizer uma só palavra..
E
Saiu de Belo Horizonte em 13 de agosto e suicidou-se no dia 24.
JK
Foi um ato de plena decisão. Premeditado e arquitetado por vários dias. Foi um golpe final e fatal que terminou, imediatamente, com a farra da UDN e dos militares.
E
Então, Getúlio Vargas sofreu o suficiente para essa decisão?
JK
A UDN investiu todas as suas forças contra Getúlio Vargas, sempre na tentativa de sua deposição, ou de seu licenciamento sem retorno programado. E ele respondia: “Só saio daqui morto! Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho razões para temer a morte!”
E
Resistiu o quanto pôde?
JK
Getúlio Vargas resistiu o quanto pôde para evitar a sua deposição. Finalmente, no dia 24 de agosto de 1954, às 8h30, deu um tiro no próprio coração, deixando uma carta-testamento ao povo brasileiro.
E
E esse gesto?
JK
Esse gesto deixou atônitos os seus opositores que acabaram em pânico com o povo nas ruas.
E
E que fez o senhor, depois de ter conhecimento da morte de Vargas?
JK
Às 11h30, parti para o Rio de Janeiro, completamente aturdido pelos acontecimentos e pela amizade e pelo respeito que tinha pelo presidente. Estava comovido e chocado. Sarah e eu acompanhamos o velório, procurando dar conforto aos familiares. Ainda mais. Eu fui o único governador de estado que compareceu ao velório do presidente Vargas.
E
Depois de todos esses acontecimentos, poderia pensar nas eleições para a presidência no ano seguinte?
JK
É verdade. Seriam realizadas a 3 de outubro de 1955 mas, mediante esses acontecimentos, com o ambiente político conturbado, era prudente aguardar. Esperar o tempo certo. Finalmente, tive a ventura de ver o PSD em forte aliança com o PTB, partido de Getúlio Vargas, tendo João Goulart como companheiro de chapa. Obtivemos três milhões de votos, isto é, 36%. Eram quatro candidatos e não foi obtida a maioria absoluta, uma nova arma secreta da UDN e dos militares, contra a minha posse.
E
Reviravoltas?
JK
Com a intervenção decisiva do Marechal Henrique Teixeira Lott, em 11 de novembro, restabeleceu-se a ordem política. Nesse dia, o senador Nereu Ramos foi convocado, como presidente do Senado, a tomar posse na Presidência da República, às 18h30. Teve alguma relutância inicial, mas acabou aceitando, em vista do afastamento por motivo de saúde do Vice-Presidente, Café Filho e do impedimento de Carlos Luz, que ocupava a Presidência. Nesse momento, Carlos Luz viajava a bordo do navio Tamandaré, em companhia de correligionários, em direção a Santos, onde pretendia retomar o poder. Esse navio, entretanto, estava em condições precárias e jamais chegaria a Santos. Resolveram retornar. Essas decisões estratégicas foram suficientes para que a minha posse fosse realizada, em 31 de janeiro de 1956. A faixa presidencial foi passada pelo senador, ou melhor, pelo Presidente, Nereu Ramos. Mais tarde, em tom de irreverência, teriam dito que a minha posse não teve “Café nem Luz”. Estabeleci plano de metas e mais a meta-síntese, a construção de Brasília.
E
Novamente, muito trabalho?
JK
Dificuldades atrás de dificuldades, mas tudo é alcançado quando se quer realmente. Assim, no meu governo, fiz o Brasil crescer 50 anos em 5, numa era de prosperidade, tornando-me o presidente que instalou a indústria automobilística no país, multiplicou por 15 a produção de petróleo, construiu as hidrelétricas de Furnas e de Três Marias e que abriu mais de 20.000 km de estradas. Além disso, fui o presidente que construiu Brasília e que transferiu a Capital Federal do Rio de Janeiro para Brasília, em 21 de abril de 1960. Finalmente, passei a faixa presidencial a meu sucessor, em regime de plena democracia.
E
Mas e Brasília?
JK
Minha paixão desenfreada. André Malraux, ministro da Cultura da França, disse extasiado: “Esta é a capital da esperança!”
E
E depois?  Candidatou-se a Senador?
JK
Tive a honra de ser eleito Senador pelo estado de Goiás, que representei com brilhantismo, até o dia da cassação dos meus direitos políticos.
E
E Estadista do Século!
JK
Mais uma honra que me concederam alguns anos depois da minha morte, por uma comissão de ilustres brasileiros, numa conceituada revista de circulação nacional, ao findar do século. Fui eleito o Estadista do século XX.
E
Finalmente, chegamos aos anos da amargura, que muitos dizem “anos de chumbo!”
JK
Finalmente! Em 31 de março de 1964, os militares depuseram o presidente João Goulart e assumiram o poder do país. Desde os tempos recentes de Getúlio Vargas, era a aspiração máxima de grupos das forças armadas. Estavam ávidos pelo domínio geral. Finalmente, eles vieram com força total, com o ideal firmado de normalização e moralização política do Brasil.
E
O senhor também foi vítima desse desmoronamento político institucional?
JK
Pronunciei discurso no Senado, afirmando a minha revolta contra oficiais de alta patente, muitos deles promovidos por mim mesmo.
E
Obteve resposta?
JK
Imediatamente! No dia 8 de junho de 1964, foi decretada a cassação dos meus direitos políticos por dez anos, juntamente com nove deputados estaduais e 39 outras pessoas. O país passou por dias tenebrosos com prisões, torturas, sofrimento, intranqüilidade e insegurança geral. Sofreu também tantas outras arbitrariedades, ditas legais. O decreto de cassação tinha apenas duas assinaturas: a do Presidente, Marechal Castelo Branco e do Ministro da Justiça, Milton Soares Campos.
E
Daí, o exílio?
JK
No dia 14 de junho, decidi me afastar do país, tendo amargado vários anos de exílio. Afastei-me do país. Minha vida financeira ficou abalada, porque não tinha fonte de receita. Passei grandes dificuldades no exterior. Uma das vezes que estive de retorno, um oficial jovem me confidenciou que eu iria ser preso. Ele, o oficial, era grato a mim num processo que o atingira injustamente e eu tinha dado a ele a minha decisão. Foi ao aeroporto me receber e me confidenciar. Voltei também, com autorização especial, para acompanhar o velório da minha irmã, Maria da Conceição, Naná, minha única irmã.  Consegui autorização para vir ao enterro, mas nada de declarações ou manifestações. Assim mesmo, recebi voz de prisão, ao desembarcar.
E
Conseguiu ainda ver o corpo da sua irmã?
JK
Em Belo Horizonte, por onde passava, o povo me aplaudia. Não podia fazer nada por isso. Nem cumprimentar o meu povo. Sempre estive de cabeça baixa. Finalmente, cheguei em frente ao corpo da minha irmã. Chorei copiosamente. Queria interromper meus soluços e não conseguia. Desabafei as dores de tantos anos de sofrimento e sei que Naná sempre sofria comigo. Nem sei como derramei tantas lágrimas! Não me continha! Não me contive! Decidi deixar extravasar todos os meus ressentimentos. Ela compreenderia isso.  Do lado de fora, aplausos. Que fazer? Foi uma cena patética! Nem gosto de me lembrar! Eu, chorando copiosamente! E o povo aplaudindo! Isso tudo me fazia mais convulsivo! Era o dia 4 de junho de 1966.
E
E voltou outra vez?
JK
Sim, mas antes de regressar, indiquei Israel Pinheiro ao governo de Minas Gerais. Não vim para as eleições, mas foi um lançamento ousado, nas vésperas do dia das eleições, em vista da cassação do candidato indicado pelo meu partido. O povo correspondeu ao nosso chamado, como se fosse uma resposta à situação política atual. Assim, Israel Pinheiro conseguiu sentar-se na cadeira de governador do estado de Minas Gerais, no Palácio da Liberdade, onde seu pai, o governador João Pinheiro, havia morrido no ano de 1908.
E
E continuaram as perseguições?
JK
De todas as formas. Passei por situações muito delicadas e de muita humilhação. Não há por que falar mais sobre isso, quando temos outras amarguras pela frente. Mas, mesmo assim, devo declarar que nunca me tocaram fisicamente. Como disse, já faz parte de um passado distante, que melhor seria abandoná-lo nos porões das memórias profundas. . 
E
Mas, o que queriam de JK?
JK
Queriam, agora o sei, a minha morte, sem ressurreição. Sei, agora, que sempre fui um fantasma aterrador para eles. Sei, agora, que sempre me temeram, que temeram a minha sombra que passava por eles como qualquer fresta de luz. Temiam. Eu era o inimigo e eles vivem durante toda a vida profissional à procura de um inimigo. E eu estava onde? Na memória do povo e nas minhas obras. Em tudo que tocavam a minha imagem fantasmagórica estava preservada.
E
Finalmente, o dia 22 de agosto?
JK
Tinha retornado definitivamente ao meu país e iria viver aqui, do jeito que pudesse. “Agora, só saio morto!”
E
Ainda os amigos de sempre?
JK
Fui convidado para uma serenata em Diamantina e encontrei poucos amigos. “Parece que tenho uma doença contagiosa” Mesmo assim, eu dava uma bela gargalhada.
E
E a sua vida pública foi completa!
JK
Fui Prefeito, Deputado Federal, Governador, Presidente da República e Senador.
E
Poderia ter assumido a Presidência, novamente, em 1965!
JK
E a minha meta seria “5 anos de agricultura, para 50  de fartura”. Tudo um sonho!
E
Então surgiu o boato da sua morte, antecipadamente.
JK
É verdade! Eu me diverti muito e fizemos um belo encontro com jornalistas e amigos na minha fazenda em Luziânia. Era a morte desejada!
E
E a Academia Brasileira de Letras?
JK
Uma grande frustração! Pela primeira vez, perdi uma eleição! Em 1975, candidatei-me a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro e, por injunções políticas de seu presidente, Austregésilo de Atayde e de seu envolvimento com militares, não fui o eleito. Fui vendido por um saco de cimento! Compareci, entretanto, à posse do meu adversário e cumprimentei-o solenemente. Não posso negar que fiquei muito triste com isso. Além de tudo, era mais triste ver um presidente de uma casa respeitável se prestar a ajustamentos e a adequações políticas dessa natureza. Em contrapartida, tive o meu nome lançado pela Academia Mineira de Letras, em convite do seu presidente, Vivaldi Moreira, na cadeira 34, cujo patrono é Tomás Antônio Gonzaga e o último ocupante era Nilo Aparecida Pinto. Tomei posse no dia 3 de maio de 1975. Das oportunidades, a melhor!
E
E o boato de sua morte? Continuamos?
JK
O jornal, “Folha de São Paulo”, informou que eu tinha morrido em acidente de carro. A notícia correu pelo país. Achei tudo uma grande brincadeira, mas hoje pressinto que teria sido um “balão de ensaio”, pois esse fato ocorreu já no mês de agosto de 1976.
E
E dona Júlia?
JK
Minha mãe faleceu em 1971. Algum tempo depois, recomendei a um amigo que adquirisse a casinha onde moramos tanto tempo, em Diamantina. Fica à rua São Francisco, 241. Ela foi restaurada de forma adequada, pelo governador do estado de Minas Gerais, Tancredo Neves, tornando-se um dos pontos turísticos obrigatórios na minha cidade. Recentemente, o governador Aécio Neves destinou uma verba especial para a sua manutenção.
E
Finalmente, podemos voltar ao dia 22 de agosto de 1976?
JK
Nesse dia, nessa tarde de domingo, eu viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro em companhia do meu amigo e motorista, Geraldo Ribeiro quando, no quilômetro 165 da via Dutra, fui vítima de um acidente, com uma fechada de um ônibus da empresa da Viação Cometa. Isso obrigou o Geraldo a sair da pista e colidir com uma carreta que vinha em sentido contrário. Foi um acidente fatal para mim e para o Geraldo, com morte imediata. Nada mais sei.
E
Vinha então de São Paulo?
JK
Estive em São Paulo na casa da revista Manchete, a convite do meu amigo Adolfo Bloch. Foi ele um amigo até os meus últimos momentos.
E
E o senhor não chegou a completar 74 anos de idade?
JK
Faltaram 20 dias para isso.
E
E os acontecimentos do dia seguinte?
JK
Fui exposto nas mesas de um bar para constatação geral. O corpo do motorista Geraldo foi colocado num caixão de alumínio e lacrado. Parecia já preparado. Depois, meu corpo foi  transportado para o Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro. Em seguida, fui removido para o saguão do Edifício Manchete. Sarah e as nossas filhas Márcia e Maristela chegaram ao amanhecer. Os meus amigos começaram a chegar, logo após. O povo já cantava a canção “Peixe Vivo”. Ao meio-dia de 23 de agosto, o cortejo seguiu a pé até ao Aeroporto Santos-Dumont. O meu caixão estava coberto com a bandeira do Brasil. Fui transportado nos ombros do povo do Rio de Janeiro, num percurso que durou mais de uma hora. Ao chegar ao aeroporto, o povo aplaudia emocionado.
E
Seguiu para Brasília?
JK
Justamente!  Às 16 horas o BOING PP – VLT da VARIG chegava a Brasília.  O povo, emudecido, viu abrirem-se as portas do avião. Silêncio total de 30.000 pessoas que aguardavam no aeroporto de Brasília.
E
Seguiu para a Catedral?
JK
Aguardando o corpo, estava uma “Kombi”, junto ao BOING, coberta com a bandeira do Brasil. As portas do avião se abriram e apareceu um funcionário da empresa. Fez o sinal-da-cruz.
E
Foi transportado por uma “kombi”?
JK
Meu corpo foi colocado na “kombi” por Ulisses Guimarães e outros amigos diletos. O povo aplaudia sem cessar e sem saber se chorava ou se cantava o “Peixe-Vivo”, desde as 13 horas. Grupos se reuniam, informalmente, em corais emocionantes. O cortejo seguiu lento! 4.000 automóveis! Fila interminável até à Catedral Metropolitana de Brasília, a 20 km de distância! 40 jovens motociclistas, com blusões pretos portavam faixas. O esquife entrou na Catedral, carregado pelo povo. A Catedral era flores e candangos! Eles construíram e agora entraram! Por mais estranho que pareça, estavam felizes por estar perto de mim! Havia centenas e centenas de coroas! Estavam bonitas, no começo. Depois, esses amigos candangos, que não tinham dinheiro para comprar flores, foram arrancando as mais bonitas e jogando sobre o meu caixão. Os cordões de isolamento eram enormes! Uma senhora disse para um militar: “os senhores estão isolando o quê? Tem alguma coisa aqui para ser isolada? Nós viemos buscar o nosso presidente no maior respeito que ele merece! Já não chega esse isolamento de tantos esses anos? Vamos!  Tirem essa corda que eu vou passar!” Os taxistas não cobravam as corridas e abaixaram os taxímetros  Não cobravam de nenhum passageiro! A missa foi celebrada pelo Arcebispo dom José Newton, pelo Núncio Apostólico. Dom Carmine Rocco e mais 25 padres, iniciando às 17h15. Quase não houve missa. Ela foi várias vezes, interrompida por palmas, hinos, lamentações e choro! Do lado de fora, o povo se comprimia com gritos de JK! JK! JK! Sarah pronunciou algumas palavras, recebidas entusiasticamente pelo povo. Pedia calma e prudência! O povo atendeu por alguns momentos, mas, logo depois, era revivida a situação de desespero geral. Um grupo de índios xavantes de Mato Grosso conseguiu chegar até perto do caixão, colocado bem debaixo dos anjos de Ceschiatti. Um candango, de alma pura, perguntou? “Ele vai ser enterrado?” Fazia sentido essa pergunta? Eram seis horas da tarde quando o meu caixão foi retirado da Catedral. Seria colocado num carro vermelho estacionado. Aí, o povo, os candangos não permitiram e me carregaram nos ombros calejados. O caminho é longo! Vários quilômetros! Mas, em pleno transe, ninguém pensava nisso. Alucinação. Tinha o meu destino: “deitar-me para dormir em paz!” O percurso foi longo e sofrido. Finalmente, de madrugada, na hora das serestas, cheguei ao CAMPO DA ESPERANÇA. Fui sepultado ao lado do meu amigo Bernardo Sayão e a 150 metros do Candango Desconhecido, já horas altas dessa madrugada, no raiar do dia 24 de agosto, sempre carregado pelo povo que não sabia se cantava ou se chorava ou se fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Foi isso. Foi assim que me contaram em cartas. Nada mais, penso agora. Ninguém transmitiu pela televisão essas cenas, por falta de coragem ou por imposição, dita legal.
E
E o Memorial JK?
JK
Foi uma iniciativa de Sarah. Dizia um ministro: “Isso, nunca!”. Entretanto, Sílvio Caldas tinha uma audiência com o presidente Figueiredo e foi incumbido de pedir essa autorização. Conseguiu! Sarah solicitou uma audiência com o presidente, dias depois, para a escolha do local e, nos moldes de JK, fazer-lhe o convite para a inauguração, fixando o prazo em 17 meses. Niemeyer já tinha o esboço pronto! Surgiu depois a polêmica da foice e do martelo, símbolos do poder marxista. Nada deteve a força das convicções. A minha estátua permanece dentro da parte côncava da foice idealizada. O Memorial JK, em Brasília, DF, foi solenemente inaugurado no dia 12 de setembro de 1981, no dia do meu aniversário, quando completaria 79 anos de idade.
E
Senhor Presidente! O povo brasileiro agradece a gentileza da sua presença e de suas palavras. Impossível seria deixar de ouvir a sua mensagem, neste momento.
JK
Agradeço de coração, mais uma vez, esta derradeira oportunidade de falar ao meu povo! Agora, simplesmente faço parte da história. As minhas palavras revelam muito pouco de tantos acontecimentos da fase da amargura da minha vida. As gerações futuras hão de prosseguir estudos e pesquisas para elucidar fatos que passaram encobertos. Sou grato ao meu povo. Tudo que fiz teve a marca da minha alegria e da festa de minha vida. O sofrimento foi temporário. Adeus!
E
Sem discursos ou pregações filosóficas, estas palavras do PRESIDENTE JK atingem o fundo dos corações do povo brasileiro. Que fazer, agora? Apenas uma saudade resta, impregnada em todas as suas obras e em todos os capítulos de sua história. Obrigado, Presidente! Descanse em paz! . 

Palavras de JK impressas em placa no Palácio da Alvorada
DESTE PLANALTO CENTRAL,
DESTA SOLIDÃO QUE EM BREVE SE TRANSFORMARÁ
NO CÉREBRO DAS ALTAS DECISÕES NACIONAIS,
LANÇO OS OLHOS,
MAIS UMA VEZ, 
SOBRE O AMANHÃ DO MEU PAÍS
E ANTEVEJO ESTA ALVORADA,
COM FÉ INQUEBRANTÁVEL
E UMA CONFIANÇA SEM LIMITES
NO SEU GRANDE DESTINO. (JK)

Decreto de cassação do mandato e dos direitos políticos do senador Juscelino Kubitschek de Oliveira
8 de junho de 1964
Fonte: Diário Oficial, Seção I, Parte I, 8 de junho de 1964.
Ministério da Justiça e Negócios Interiores
DECRETO DE 8 DE JUNHO DE 1964
O presidente da República, no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo parágrafo único do artigo 10 do Ato Institucional de 9 de abril de 1964 e tendo em vista a indicação do Conselho de Segurança Nacional, resolve Cassar o mandato legislativo e suspender os direitos políticos por dez anos do senador Juscelino Kubitschek de Oliveira.
Brasília, 8 de junho de 1964; 143º da Independência e 75º da República.
H. Castello Branco
Milton Soares Campos

BIBLIOGRAFIA
BOJUNCA, Cláudio, O artista do imossível, Objetiva, RJ, 2001
JARDIM, Serafim, JK onde está a verdade?, ed. Vozes, Petrópolis, 2a. edição, RJ, 1999
COUTO, Ronaldo Costa, Brasília Kubitschek de Oliveira, ed. Record, RJ, 2001
KUBITSCHK, Juscelino, Por que construí Brasília, Bloch Editores, RJ, 1975
KUBITSCEK, Juscelino, Meu caminho para Brasília vol III – 50 anos em 5, Bloch Editores, , RJ, 1975
OLIVEIRA, Carlos Alberto Teixeira de, Cinquenta anos de progresso  em cinco anos de governo, ed. Mercado Comum, Belo Horizonte, 2006
NEVES, Aécio, Juscelino a oportunidade e a virtude, in Cinqüenta anos de progresso em cinco anos de governo, Mercado Comum, pág. 217-228, Belo Horizonte, 2006
BAGGIO, Marco Aurélio, Juscelino Kubitschek sua excelência, editora B, Belo Horizonte, 2005
NETO, João Pinheiro, Juscelino um caso de amor, Mauad editora, RJ, 1994
VAZ, Allisson Mascarenhas, Israel, uma vida para a história, Cia Vale do Rio Doce, RJ, 1996

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