segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ONDE SE ESCONDEM OS ESCRITORES?

Goethe não se suicida em Werther. Guimarães Rosa não é Riobaldo, Castro Alves não é África, em Vozes da África. Machado de Assis não é Braz Cubas defunto.

Quem lê pode logo ficar pensando em identificar o lugar onde os escritores se escondem, onde eles se posicionam para conseguir relatar acontecimentos, reunindo palavras, formando um conteúdo, constituindo uma história, um romance, uma crônica, um conto, uma reportagem, relatório, um poema.
Pois bem! Os autores devem estar em algum lugar estratégico, vendo e ouvindo tudo para poder narrar os acontecimentos, dando-lhes vida e ação.
Em princípio, os autores escolhem posições confortáveis, para poder narrar com fidelidade e coerência. Estão mesmo escondidos, entrincheirados. Somente depois disso é que definem os formatos e escolhem os estilos narrativos.
Nada melhor do que surpreendê-los em pleno trabalho. Pode-se descobrir quatro esconderijos principais. Vamos surpreendê-los? Eles estão sempre disfarçados, mascarados e ficam na espreita com olho vivo. Alguns saem despreparados e podem ser descobertos e flechados. Assim, pode-se descobri-los em flagrantes nesses principais esconderijos:

1ª. Posição: o escritor está em cena num palco imaginário, relatando as suas próprias experiências e emoções, seus sentimentos, sua vida espontaneamente. É claro que é uma narrativa subjetiva, introspectivamente declarada e assumida integralmente. Tal é o caso de Gonçalves Dias, em Canção do exílio:
“Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas/ nossas várzeas tem mais flores/ nosso campo tem mais vida/ nossa vida mais amores. De cismar sozinho à noite/ mais prazer encontro eu lá/ minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá.”...
Verifica-se, pois, a predominância dos sentimentos do autor-narrador. Vive ele em constante relacionamento íntimo na exaltação dos seus sentimentos, das suas mágoas, das suas dores. São os poetas os grandes usuários deste modelo. Também os cronistas se apresentam em suas crônicas com as referências e vivências. Narrar é preciso. Delatar, denunciar, testemunhar. Dá a impressão de que as personagens escrevem mesmo com o próprio punho.
No romance e no conto também surgem autores escrevendo na 1ª. pessoa do singular. Recentemente, surgiu “O tigre branco” de Aravinda Adiga, indiano de Madras, vencedor do Man Booker  Prize 2008, publicado nesse formato. Contou uma grande história como se ele fosse a personagem principal. O autor-ator.Essa posição pressupõe que o autor estivesse num palco de um teatro, representando um texto de sua própria autoria.    

2ª. Posição: o autor entra em cena, participa da narrativa, tenta conversar com as suas personagens e até mesmo com o próprio leitor. Torna-se caso frequente em Machado de Assis e constante em W.Sommerset Maughan, como em “O fio da navalha”. Imagina-se, nesta segunda posição, que um autor estivesse no palco de um teatro, acompanhando o desenrolar do espetáculo e interferindo em algumas cenas, tentando melhorar ou explicar o texto.

3ª. Posição: o autor se coloca em cima do muro ou numa janela aberta, ou no buraco da fechadura de uma porta, visualizando todos os acontecimentos e narrando-os a seu modo, a seu gosto, a seu estilo. É sabedor do pensamento das suas personagens e faz delas o que bem entende. O autor dirige e narra. Não entra nas brigas, não recebe farpas ou saraivadas. É um criador, um deus, senhor de tudo. Faz chover e até pode matar sem piedade. Fica no seu posto de observador imparcial. Imparcial? Nem sempre. A maioria dos autores assume essa posição. É a mais confortável e, assim, torna-se dono da história. Assim, também, se coloca a maioria dos autores de romances e contos. Veja Jorge Amado, José de Alencar e Khaled Hosseine, em “A cidade do sol”. Os autores têm o poder de tudo ver e de tudo fazer acontecer. Assim, o autor se coloca numa plateia, assistindo ao espetáculo, dinamizado como ele estabeleceu ou determinou.

4ª. Posição: O autor faz de conta que é a personagem e narra como se fosse ele quem estivesse vivendo os acontecimentos. Usa uma técnica mais apurada, sofisticada, para narrar e produzir emoções que supostamente parecem ser do próprio autor.”Memórias póstumas de Braz Cubas” de Machado de Assis. Ou “Vozes da África” de Castro Alves, “Grande sertão e veredas” de Guimarães Rosa, “Werther” de Goethe. Machado de Assis não é Braz Cubas, um autor-defunto, nem Castro Alves é a África, mas se coloca na figura da África, (há dois mil anos te mandei meu grito!...), nem Guimarães Rosa é Riobaldo e nem Goethe suicidou-se em Werther. O autor coloca-se na pele da sua personagem. Assim, nesta posição, o autor está no alto da cabine de um teatro, administrando o espetáculo. Supostamente, seu texto está na 1ª.pessoa. Isto é verdade, mas por uma técnica especialmente em suposição. Envolve o leitor a acreditar que ele, autor, está sendo o ator principal.  

Não há outros esconderijos ou outras posições estratégicas, onde possam os escritores se esconder. Esta devastação não representa uma grande teoria literária, pois abandona os procedimentos acadêmicos, mas é fundamental na análise de qualquer obra literária. Assim, os leitores terão um dispositivo elucidado para flechar qualquer escritor que se apresente à sua frente. E pode analisar e descobrir a posição estratégica que ele tenha assumido na obra.  Como tudo na vida pode ser alterado, muitos escritores conseguem misturar seus formatos literários, colocando-se em diversas posições na mesma obra. Mesmo assim, estes são os seus esconderijos. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

INDÍCIOS – SEMIÓTICA VII

O mito das provas. Elas representam indícios e podem ser construídas para aprovar ou reprovar. Em jogo a intencionalidade.



Semiótica envolve o estudo dos signos. Os signos envolvem símbolos, ícones e indícios.

Os indícios estão disponíveis à decodificação ou à interpretação de qualquer pessoa. Cada qual interpreta como pode, de acordo com seu nível cultural. Ou como lhe convém? Dependem, entretanto da acuidade perceptiva de cada ser humano. Assim, a visão, a audição, o olfato, a gustação e, finalmente, a cinestesia (peso, textura, etc.) ficam alertas. Cada qual no seu posto de observação e de vigilância. 
Uma nuvem que se torna escura e um relâmpago são indícios de chuva por perto. Pode não chover. Entretanto, os indícios estavam disponíveis e podiam prever chuva por perto. Houve indícios.
Uma febre que surge inesperadamente não é uma doença em si. É um aviso de que há alguma coisa que não está indo bem no corpo humano. É um indício. 
Onde há fumaça há fogo. É uma crença. Entretanto, pode não ser verdadeira, mas é um indício.

Uma radiografia e uma análise clínica revelam em seus resultados uma possibilidade, um indício. O diagnóstico médico torna-se evidente. Centenas e centenas de vezes esses métodos de análises clínicas foram feitos, repetidos, analisadas, testados e comprovados para depois poderem chegar a uma conclusão num formato ideal, que traga segurança na tomada de decisão, partindo de um indício, de uma suposição, de uma hipótese. Assim, qualquer medicamento ao ser colocado em uso passou por esse crivo, sendo cientificamente testado, experimentado e comprovado, a partir de um indício. O próprio diagnóstico é um parecer passível de comprovação e torna-se um indício.
As provas pedagógicas ou provas de seleção apresentam indícios de conhecimento, inteligência, capacidade profissional ou personalidade. Usam-se instrumentos indiretos que proporcionam alguma fidedignidade. Não deixam de serem indícios. Seus resultados, entretanto, tornam-se passíveis de interpretações diferenciadas. A fidedignidade será fruto de aplicações repetidas, a público assemelhado e delimitado, e em condições idênticas, para padronização e garantia de credibilidade nos seus resultados, como são feitos os testes psicológicos.
Em continuidade, também o olfato revela outro mundo de sensação e de percepções. Transportam indícios de fácil tradução, vindos pelo vento, pela natureza, pelos perfumes e por tantos outros odores, catalogados internamente. O olfato entrou em decadência quando o ser humano foi se transformando em bípede. Entretanto, forte ainda, é capaz de provocar as mais divergentes reações. O despertar do sexo, da volúpia, da libido. Ou da náusea e da rejeição. Representam indícios seguros para interpretação imediata.
E o paladar, pelo poder gustativo, representa outros poderosos indícios? A percepção de sal, de doce, de azedo, de amargo traz sensações agradáveis ou repulsivas. Há a sensação de alerta pela porta de entrada, a boca e a língua. Traz um indício poderoso, um vigilante atento e incorruptível, responsável que é pela administração e pelo bem-estar do corpo. Um descuido pode ser fatal. Cumpre examinar constantemente os indícios representados pelos variados sabores e aprovar ou reprovar sem piedade e sem cumplicidade. 
Em continuidade, ainda, há os futurólogos que são capazes de fazerem previsões. São pessoas cultas e estudiosas que estão analisando e prevendo acontecimentos, até mesmo o destino da humanidade. Suas teorias são indícios.
Há os meteorologistas que interpretam dados para o clima em qualquer parte do mundo.
Há os astrônomos que utilizam equipamentos sofisticados para alcançar as grandes distâncias do espaço e calcularem os fenômenos da natureza, a vida dos astros. Embora haja equipamentos que calculam com precisão, suas teses podem ser consideradas, algumas vezes, como indícios. 
A grafologia e a quiromancia especulam traços de personalidade, comportamento e previsões.

Horóscopo, cartas, tarôs, búzios? E os videntes? E as cartas jamais mentem? Seriam indícios? Tudo isso fala alguma coisa para alguém. Comunica e influencia.
Não há argumentos contra os indícios. Se houver um indício, existe uma possibilidade. Por outras vezes, mesmo sem indícios, as coisas acontecem. Entretanto, os indícios são inumeráveis e não catalogáveis.

Ah! E os sonhos? Trazem algum indício? Freud foi também um explicador de sonhos.
Assim, os indícios estão disponíveis. Cada qual tira as suas conclusões, dentro das possíveis controvérsias. E a discussão reforça as teses. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

ENTREVISTA – SEMIÓTICA VI

Deve-se respeitar o entrevistado, pois ele é, para o entrevistador, a pessoa mais importante do mundo, naquele momento.

Entrevista é, antes de tudo, uma conversa profissional.
Ela pode ser realizada entre duas pessoas, entrevistador e entrevistado. Pode, também, ser uma entrevista coletiva. Mesmo assim, pressupõe-se um objetivo definido. Por que ou para que a entrevista está sendo realizada? Os motivos da entrevista são definidos entre as partes, antes de ela ser iniciada. Sem isso, sem essa combinação preliminar, terá resultados prejudicados, por assim dizer. Numa reunião bem-sucedida, entrevistador e entrevistado estão entrelaçados por uma linha invisível que os prende durante todo o tempo da entrevista. Trata-se de um transe hipnótico leve. Tanto um como o outro ficam inteiramente concentrados nas perguntas e nas respostas.
Outro fator importante que deve ocorrer para uma entrevista bem-sucedida, é a atitude do entrevistador. Ele é responsável pelo “rapport”, para evitar um possível aviltamento da sensibilidade do entrevistado. Esse “rapport” – palavra de origem francesa que significa uma conversa inicial, informal - antecede a qualquer relacionamento interpessoal. Pode parecer uma conversa inútil. Sim. Pode parecer uma conversa inútil, mas sem ela não configuram a confiança e disponibilidade do entrevistado. Rapport é fundamental na vida, em qualquer situação. Numa entrevista, principalmente. Não é chegar e ir logo ao assunto, sem saber quem é quem. Esse rapport não pode ser longo demais, porque, nesse caso, passa a ser uma conversa infindável e perde-se o objetivo do trabalho, já que a entrevista tem uma finalidade profissional e um objetivo predeterminado. Assim, inicia-se o transe hipnótico. Acomodam-se as partes, acertam-se os tons de voz, esclarecem-se os objetivos e, talvez, até a duração da entrevista.  Iniciada a entrevista propriamente dita, há algumas recomendações para o entrevistador que podem ser ressaltadas. Para o entrevistado não existem maneiras a serem recomendadas, porque ele deve ser espontâneo e será analisado em todas as suas atitudes. Claro que ele deve seguir alguns princípios para obter o sucesso que ele pretende alcançar. Entretanto, nesta oportunidade, o assunto se prende às maneiras adequadas que o entrevistador deve assumir, para obter uma entrevista bem-sucedida.
Algumas recomendações:
RAPPORT – como já foi explicitado, o entrevistador é responsável pelo comando do rapport, conversa inicial, preparatória, mas fora do contexto da entrevista.
TRANSE HIPNÓTICO – Muitos pensam que o entrevistado é que deve incorporar um transe hipnótico leve. Entretanto, o entrevistador deve estar, também, em transe hipnótico completo, estar ligado profundamente ao entrevistado, sem perder qualquer palavra ou gesto desse entrevistado. Deve ficar em plena prontidão.
AS PERGUNTAS – O entrevistador comanda a entrevista e tem as perguntas chaves a serem colocadas para o entrevistado. Deve, portanto, manter um tom de voz adequado ou calibrado com o entrevistado. Seguir o tom de voz do entrevistado. Copiar dele. Manter a mesma posição física que o entrevistado. Procurar espelhar, isto é, procurar fazer os mesmos gestos que ele fizer. Claro que deve fazer perguntas curtas, com palavras que o entrevistado possa entender. O entrevistador já captou o nível social e cultural do entrevistado, durante o rapport. Rapport não é uma ação inútil. Assim, perguntas longas podem ocasionar respostas curtas. Melhor seria se fossem perguntas curtas e para respostas longas.
REAÇÃO DO ENTREVISTADOR – O entrevistador deve estar consciente de que poderá ouvir qualquer tipo de resposta, desde as mais incoerentes e inadequadas, sem se assustar ou manifestar abertamente sua admiração. Acompanhar espelhando o entrevistado. As expressões faciais acompanham o desenrolar da entrevista, sem manifestação exagerada de aprovação ou recriminação. Agora, o entrevistador pode ter um momento de querer contradizer o entrevistado. Nada disso. Não é permitida a opinião do entrevistador. Ele não deve se intrometer na opinião do entrevistado, por mais diferente que seja a resposta da sua opinião. O entrevistador não é dono da verdade, nem tão pouco, precisa demonstrar sua sabedoria e seus conhecimentos. Isso ocorre com frequência. Técnica falha. Mesmo seguindo a lógica: se está perguntando é porque quer saber a opinião ou parecer do outro. Não discutir nada. Não responder pelo entrevistado. Isso é irritante para o entrevistado.
QUEBRA DO TRANSE HIPNÓTICO – Como foi dito, o entrevistador está em transe hipnótico e procura manter sua posição junto ao entrevistado, que também incorpora esse transe. Entretanto, se o entrevistador se descuidar, por um motivo pessoal qualquer ou, simplesmente, olhar pelo seu relógio de pulso, o entrevistado decodifica e escapa do transe. Quebra o transe. O entrevistador é o comandante da entrevista e, ao final, comunica que a entrevista está no final. Agradece. Isso é fundamental. Entretanto a quebra do transe, no auge da entrevista é considerada uma falha técnica. Ah! O telefone celular. Claro que uma chamada do telefone celular nem é uma quebra de transe, mas uma ruptura agressiva e decepcionante para o entrevistado. Imperdoável e falta de consideração.
PERGUNTAS COM RESPOSTAS – Há perguntas que possuem respostas implícitas. No caso, não é mais um questionamento e sim a busca de uma concordância. É uma pergunta mal-formulada, baseada na vontade do entrevistador para aceitação de suas concepções. Em princípio, numa entrevista bem-sucedida, o entrevistador não deve demonstrar a sua sabedoria, não deve ter nenhuma ideia fixa sobre o assunto e deve manter-se neutro. Casos há em que o entrevistado rebate a pergunta e, assim, passa a entrevistado do entrevistador. Reversão de procedimentos. Isso ocorre e é um caso de se pensar mais profundamente. O entrevistado envolve o entrevistador. Exemplificação: o médico, Hely Bonini, foi preso no período da ditadura e foi ouvido por um delegado. Pergunta vai, resposta vem. Até que o médico passou a discorrer com relação a um fato da medicina e o delegado distorceu o assunto e quis saber mais. Com pouco tempo, o médico estava perguntando ao entrevistador o que ele estava sentindo e acabou passando a entrevistador, dando uma consulta médica e uma receita para o entrevistador. Eis o fato. Reversão de procedimentos. O entrevistador é o comandante da entrevista. Não pode perder esse comando.
PERGUNTAS REPETIDAS 
– Outra vez? – pensa o entrevistado. Além disso, ele tira a conclusão de que está pregando no deserto e suas palavras estão sendo perdidas. Não está sendo ouvido com atenção. Além disso, pode haver perguntas indiretamente já respondidas. “Moro em Santo Antônio do Rio Abaixo”. Sim... Depois, passado algum tempo, o entrevistador pode perguntar: “Há quanto tempo você reside em Belo Horizonte?” – Demonstrou que o roteiro das perguntas está furado. E seguir um roteiro?
SEGUIR UM ROTEIRO – Quase sempre deve haver um roteiro discreto. Se for um roteiro por escrito, pior. Uma entrevista é única e corre livremente como um regato no seu leito natural, apesar de a entrevista ser sempre comandada. Finalmente, pergunta mal- formulada gera resposta mal-respondida.             
ANOTAÇÕES DURANTE A ENTREVISTA – Nas entrevistas de caráter psicológico ou médico são aceitáveis as anotações. Nas demais, torna-se motivo de desconfiança por parte do entrevistado. Também é motivo de quebra do transe.
ENTREVISTA DE  COMPRA E VENDA – Para a realização de uma transação comercial, verifica-se também um transe hipnótico. Muitas vezes, esse transe pode permanecer por maior tempo, até dias, enquanto se procura uma decisão final. Interessante é que a linha invisível que envolve as partes, esse transe, continua em pleno vigor. O rapport está preservado e pode ser reavivado muito rapidamente. Trata-se da continuação de uma entrevista e que se estende por mais tempo, até a sua conclusão ou fechamento.
OBSERVAÇÃO: Centenas de pessoas reclamam que foram mal-atendidas por recepcionistas incompetentes, por profissionais apressados ou atendentes mal-preparados. Os entrevistados, clientes, são, muitas vezes, invisíveis diante deles. Muitas empresas não percebem que o atendente e o recepcionista abrem ou fecham as portas da organização.   
Uma entrevista bem-sucedida faz amigos e confidentes.


terça-feira, 16 de julho de 2013

O SUCESSO NA COMUNICAÇÂO INTERPESSOAL – SEMIÓTICA V


As palavras que as pessoas escolhem moldam o seu destino. Sem conhecer a força das palavras é impossível reconhecer as pessoas.

As verdades são muitas. Cada um tem a sua. As palavras expressam verdades e constroem o intercâmbio constante de ideias, princípios e valores. Conversar é preciso. O respeito às verdades de cada um, também é preciso. Assim, cada pessoa pode obter mais resultado nas suas convicções, garantindo e confirmando amizades e respeito. Não existem leis para isso, mas recomendações não fazem mal a ninguém.
ENTUSIASMO – Os gregos chamam o entusiasmo como o “deus interior”. Ele é responsável pelo êxito de qualquer atividade e torna-se capaz de superar todas as adversidades.
O entusiasmo é uma espécie de combustível da expressão verbal.
Garante o sucesso de muitas pessoas que, possuindo atributos apenas razoáveis para a arte de comunicar, compensam suas fraquezas pela determinação animadora que emerge do seu interior, sempre contagiando a todos, pela força com que defendem as suas ideias.
É preciso apresentar cada mensagem como se estivesse carregando uma bandeira no campo de batalha. Vibrar a cada afirmação, envolver-se.
SÍNTESE – Dizer tudo que for preciso, somente o que for preciso, nada mais do que for preciso. É uma tarefa difícil que precisa ser perseguida com obstinação. A prolixidade é um fator de desgaste. A repetição é enfadonha e revela falta de recursos intelectuais. Perceber o bom retorno das suas mensagens para não exceder no reforço das argumentações. Muitas vezes é preciso tocar a campainha interna para alertar que chegou  o momento de parar.
RITMO – O ritmo é a musicalidade da fala e a colocação mais ou menos das vogais, a pronúncia correta das palavras, a acentuação, a alternância da altura da voz, a velocidade da articulação. É preciso aperfeiçoar o ritmo da fala dentro do estilo de cada um, aproveitando a energia, o timbre, a sonoridade da voz. Ninguém deve copiar ninguém, mas uma boa locução deve ser assimilada como modelo, para adaptação do seu próprio ritmo.
O conjunto harmonioso da pronúncia das palavras provoca reações imediatas. O ritmo faz parte do estudo da voz. Assim, a voz determina a própria personalidade de quem fala – alegre, triste, nervosa, apressada, segura, tímida, etc. A primeira impressão destes comportamentos é transmitida pela voz. O aparelho fonador, embora exista para fabricação da fala, é uma adaptação do organismo e qualquer alteração de ordem física ou emocional será revelada pela voz. Para que a voz adquira a qualidade desejada é preciso respirar adequadamente.
Pode existir falta de sincronismo fonorrespiratório que vem a prejudicar sensivelmente a fabricação da voz. Algumas pessoas falam quando ainda estão inspirando ou continuam a falar quando o ar já terminou.
A DICÇÃO -  Quanto à dicção, que é a pronúncia dos sons das palavras, nota-se que a sua deficiência é quase sempre provocadora de  problemas de negligência ou de fatores sócio-culturais. É costume quase generalizado de omitir o “r” e o “s” nos finais das palavras, como por exemplo: “levá”, “trazê”,  em vez de “levar” e “trazer”, assim como “fizemo” no lugar de “fizemos” e no plural dos adjetivos ou substantivos, como “as lagoa”, “os pato”. Além de não flexionar adequadamente os verbos: “os home chegaro”. Omite-se comumente o “i” intermediário, como “intero”, “janero”, no lugar de “inteiro”  e “janeiro”. Há outros erros de dicção provocados por regionalismos, como a troca do “l” pelo “u”, como “Brasiu”, “carnavau” e “r”, como “Cráudio”. Além disso, o regionalismo influencia fortemente a pronúncia do “r” intermediário, como “forte”, “tarde”. Essas alterações incorretas de pronúncia caracterizam geralmente a origem social e regional da pessoa que fala. Cada povo com a sua língua.
EXPRESSIVIDADE – Além desses aspectos é bom alertar para a expressividade dedicada às palavras dentro da frase. Cada palavra possui uma ou mais sílabas mais importante e que podem ser ressaltadas, sendo pronunciadas com mais destaque, segundo interesse pessoal. A mensagem pode adquirir outra conotação. Surge a ênfase em palavras cujo interesse deve ser valorizado. Exemplos:
- Ontem, eu fui à escola de automóvel com meu irmão.      
1ª. ONTEM, eu fui à escola de automóvel com meu irmão.
2ª. Ontem, eu fui À ESCOLA de automóvel com meu irmão.
3ª. Ontem, eu fui à escola DE AUTOMÓVEL com meu irmão.
4ª. Ontem, eu fui à escola de automóvel COM MEU IRMÃO.

VOCABULÁRIO – O vocabulário corporifica e traduz as idéias. Pode ser deficiente e não conseguir transmitir o pensamento corretamente ou, talvez, não encontre as palavras adequadas. O vocabulário deve ser o mais vasto possível, embora melhor do que se ter um vocabulário riquíssimo é saber usar o vocabulário que se tem. O vocabulário ideal não é riquíssimo, sofisticado, como se tivesse sido pesquisado nas profundezas do dicionário e, muito menos, pobre e vulgar. O vocabulário rico é útil para se compreender tudo aquilo que as pessoas falam ou escrevem, mas, nem sempre deve ser usado na expressão verbal, pois as pessoas não estão interessadas em palavras difíceis.
Como é que as pessoas poderiam ficar concentradas na mensagem se tiverem de preocupar com o significado de cada uma das palavras?

EXPRESSÕES EVITÁVEIS – Algumas expressões de uso comum podem ser evitadas na conversação em família ou entre amigos. Há expressões não recomendáveis, para as discordâncias normais que podem surgir. Trata-se da 

DISCORDÂNCIA FRONTAL -  Em princípio, uma discordância pode surgir a qualquer momento de uma conversa, mas não há necessidade de ser rechaçada com veemência imediata. Estas expressões podem ser evitadas socialmente: “discordo”, “discordo totalmente”, “sou contrário”, “você está errado”, “você está por fora”, “você está desatualizado”, “não”.
Mesmo que haja discordâncias, existem outros ângulos de visão para os mesmos fatos, ou para a mesma questão. Existem também outras expressões menos agressivas para demonstrar pontos de vista divergentes. Concordar com tudo também é difícil, pois as verdades são muitas e cada um tem a sua. A polêmica reforça as teses. Salve-se quem puder. As palavras são usadas para rir ou para chorar. Para ferir ou para curar. Para trazer esperança ou para trazer desolação.

Qualquer tolo pode fazer a sua regra de vida e se guiar por ela!

sábado, 22 de junho de 2013

TIPOS DE VOZES - SEMIÓTICA IV


Era uma bela figura, até que falou.
As palavras são emolduradas pelas emoções inconscientes e devem ser escolhidas, cultivadas, domesticadas e até mesmo domadas, tal a sua força e a sua expressividade. Elas representam apenas 7% da comunicação. Parece pouco, mas observe o efeito do sal na alimentação.E as vozes, que transportam as palavras, são responsáveis pelos efeitos e pelos resultados, sobrepondo-se aos seus significados, pelo “aliquid pro aliquo”, isto por aquilo. Numa carta, o filho pede: 
“Papai, mande dinheiro!” – Carta que o pai lê, imaginando a tonalidade da voz do filho e se projeta de acordo com o seu próprio estado de espírito no momento. “olhe a agressividade desse garoto!”
Mas, outro garoto telefona para o avô: 
- “Vô, você tem nota de vinte?” 
– “Agora, não tenho. Por que?” 
– “Estou fazendo coleção.”
– “Ah! Agora, só tenho nota de cinquenta.” 
– “Estou fazendo coleção de cinquenta, também.”
Que tipo de voz teria transcorrido este diálogo?
Muitas pessoas pensam que a voz é algo genético e que não se pode mudar. É uma crença frágil. Tanto as pessoas podem mudar a sua própria voz, como podem usá-las em formas diferentes em cada oportunidade da vida. Uma boa voz é fruto de cultivo, além disso, os ouvintes reagem mais de acordo como as palavras soam do que o que elas procuram expressar.Cada pessoa possui uma voz natural que caracteriza os seus traços individuais. Mesmo assim, pode ser adaptada de forma adequada para os diversos momentos especiais.Para efeito de estudo, pode-se classificar assim os diversos tipos de vozes:  
  • VOZ DE OURO – Utilizada nos discursos exaltados, nas locuções em transmissões esportivas, principalmente. É um tipo de voz eloquente, vibrante, em tom alto, procurando convencimento. Nenhum locutor esportivo deixa de usá-la. Caso contrário, pode significar que o jogo transmitido não merece ser ouvido.
  • VOZ DE PRATA – Voz didática, informativa, usada por professores, por locutores de noticiários de rádio ou televisão. Menos emotiva, mas racional. Clareza e precisão.
  • VOZ DE BRONZE – Voz pesada, agressiva, repressiva, crítica, amaldiçoada. Traduz uma reclamação, uma objeção agressiva. Mesmo que seja usada em tom baixo, ela pode, sorrateiramente, transmitir uma repressão. Os filhos sofrem com as reclamações dos pais. Retornam as objeções e justificativas no mesmo tom. Assim iniciam-se as brigas, as polêmicas, as incompreensões. Muitas pessoas não percebem que estão emitindo esse tipo de voz. O resultado aparece de imediato. Bateu, levou. Guerra é guerra. Muitas pessoas não imaginam, também, que a sua voz seja a causa de tantas dissonâncias nos seus relacionamentos pessoais.
  • VOZ DE VELUDO – Voz de carinho, afetividade, amizade. A voz do neto ao telefone, no exemplo de diálogo. “Vô, você tem nota de vinte?” – Imagine-se um pai que fala para a sua filha de dois anos: “Filhinha, me dá um beijo!” Não poderia usar outro tom de voz. Qualquer outro causaria recusa imediata. Por outro lado, um locutor de televisão que anunciasse: “Quem quer dinheiro, minha gente?” – em tom de voz de veludo, não causaria nenhum efeito. Esta frase teria que ser dita em voz de ouro. Eloquente, vibrante. Assim, cada situação comporta um tipo de voz. A voz de veludo é fruto de educação apurada, de sensibilidade, de carinho. Utilizada por pessoas de trato social refinado. Quem quiser respeito e amizade deve utilizá-la com mais freqüência, para recebê-la de volta, contagiando as pessoas a seu redor. Também não custa nada.
  • VOZ CAVERNOSA – É a voz das grandes tragédias. Ameaçadora, tenebrosa, assustadora. Dos tempos de terror, do medo, da assombração. Algumas pessoas têm este tipo de voz, meio rouca, por formação genética. Voz gutural. Podem ser desenvolvidas aptidões com belos resultados. Como o cantor Leonardo Cohen.
  • VOZ AFÔNICA – Sem som agradável e límpido. Algum distúrbio de formação. Rouquidão nasalação, gagueira. Voz fanhosa. A correção da voz merece tratamento com especialistas, visando a melhoria da comunicação. Há também a hipernasalidade e a denasalidade que podem ter causa orgânica. A língua portuguesa tem característica que mais aproxima da nasalidade do que o espanhol, por exemplo, pelo constante emprego do “nh” e do “ão”. 
Curiosidade: Tente ler em voz alta o texto, como teste de hipernasalidade, tampando o nariz com dois dedos:
- “O gato espreguiçou-se e estirou-se sobre o sofá. Paulo, que saía, ao vê-lo, recordou que precisava deixar-lhe água, pois logo precisava sair e a tigela estava vazia.”
Teste de denasalidade, também com o nariz tampado com dois dedos:
Os homens estão sempre descobrindo luas em torno de planetas, distantes em muitos sistemas planetários.  Mas, muitas luas são descobertas em torno de numerosos planetas.”
Nada existe que não possa ser corrigido.
CALIBRAÇÃO – Cada ambiente exige a escolha imediata de um tipo de voz para ser falada. Imagine um velório. Imagine um estádio de futebol. Imagine uma entrevista com o governador. Calibrar o tom de voz com a situação emergente. Algumas pessoas dizem que usam sempre o mesmo tipo de voz natural em qualquer circunstância. Isso pode ser o que essa pessoa pensa ou deseja, mas a realidade é forçosamente outra. Salve-se quem puder.  
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