terça-feira, 19 de março de 2013

ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE - II



2ª Carta virtual ao DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA (1860 – 1908)


ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE,
Capital do estado de MINAS GERAIS, inaugurada em 12  de dezembro de 1897 - BRASIL


Belo Horizonte, 16 de novembro de 2011

DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA
Ex-Presidente do Estado de Minas Gerais

RESPEITOSAS SAUDAÇÕES 
Cumprimento-o, mais uma vez, nesta manhã de sol, de ventos suaves como são as brisas das montanhas.
Lembrei-me de comentar com o senhor sobre o primeiro habitante civilizado destas plagas: JOÃO LEITE DA SILVA ORTIZ.
Ele chegou a esta região em 1701, vindo não sei de qual região do estado de São Paulo, para fazer não sei o quê. Claro está que ele procurava ouro. O certo é que esse bandeirante aconchegou-se às serras das Congonhas, hoje, serra do Curral e aqui permaneceu durante quase trinta anos.
Os bandeirantes são andarilhos por excelência, mas  João Leite da Silva Ortiz achou graça neste local e resolveu permanecer e explorar a região. Assim, seus amigos e companheiros de bandeira procuraram produzir alguma coisa de subsistência, dentro dos padrões mais primitivos de sobrevivência: plantar, colher e comer.  Não encontrou ouro na região e resolveu aprofundar sua expedição para o interior do estado de Goiás. Mais tarde, chegou a notícia que ele tinha falecido em 1730, na cidade do Recife.
Imagine-se que há 310 anos, neste local, foi iniciada a construção do povoado de Curral del-Rei, que progrediu rudimentarmente também na criação de gado, vindo da Bahia, na plantação de cereais e, posteriormente, até de algodão. Em Contagem das Abóboras, nas proximidades de Curral del-Rei, havia o posto de fiscalização para cobrança de impostos e registro do gado, de modo que corria muito dinheiro na praça.
Edificaram-se casas muito simples, mas adequadas para as condições sociais e econômicas dos seus moradores da época.    Posteriormente, Aarão Reis, o construtor da Nova Capital, como o senhor sabe, chamou essas construções de “choupanas”. O povoado cresceu e desenvolveu. Foram instaladas fábricas de tecidos em Sabará. Até mesmo iniciativas de fundição de ferro e bronze. A usina ficava nas imediações da lagoa Maria Dias, atualmente entre a Avenida Paraná e Rua dos Carijós.
Mas, em continuidade, construiu a Fazenda do Cercado. Era a sua sede administrativa, sua residência. Ela ficou. Informo ao senhor que essa bela fazenda é o único vestígio arquitetônico da passagem dele por esta região. Encontra-se primorosamente conservada e transformada como museu. Hoje, Museu Histórico Abílio Barreto. É um retrato vivo da história da Cidade de Minas, ou melhor, do povoado de Curral del-Rei. Esse museu é uma relíquia que aos tempos confirmará a nossa origem.
Outra coisa que gostaria de comentar com o senhor seria a atuação dos opositores à mudança da capital de Ouro Preto para outro lugar qualquer que fosse, mesmo ainda não definido. Como o senhor sabe, para toda ideia que surja e que implique em mudança, existem opositores, sempre bem armados de argumentos fortes. Os ouro-pretanos se armaram de argumentos, reunindo forças contrárias à mudança, forças políticas desafiadoras. Arregaçaram-se as mangas da camisa e saíram em defesa da permanência da capital em Ouro Preto, cidade muito amada.
Na verdade, um dos fortes argumentos criados  pela oposição era a constatação de que grande número dos moradores do povoado de Curral del-Rei, local escolhido para a construção da capital, sofria de bócio. Seria o clima, ou a água da região? Não havia estudos comprobatórios. Pois não é que havia mesmo na região alguma coisa que parecia uma epidemia de papudos, isto é, de pessoas que tinham um tipo de deformação física denominada de bócio? Diziam que era causado pelo clima. Talvez que o ar ou a água da região contaminava os moradores, e coisa e tal.
Por outro lado, havia outras regiões, além desta do Vale do rio das Velhas, que pleiteavam a instalação da nova capital. Formaram-se os grupos que defendiam essas regiões. Eram grupos de mudancistas. Pleiteavam mudanças para a sua região. Uma dessas facções de mudancistas, uma delas, a mais forte, era a região próxima a São João del-Rei, que relembrava o imaginário dos inconfidentes.
Assim, nas decisões finais, tendo como grande defensor Augusto de Lima (1859 – 1934), Curral del-Rei venceu por dois votos apenas, considerando-se a sua localização como um ponto equidistante de todas as regiões do estado. Não seria totalmente equidistante, mas o ponto geográfico que facilitaria a comunicação com todas as regiões do estado. Argumento muito forte, não é verdade?
Afonso Pena (1847 – 1909) não perdeu tempo. Criou logo a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) pela Lei n.3, art. 2º., adicional à Constituição do estado, em 7 de dezembro de 1893.     Confiou a coordenação ao engenheiro Aarão Reis (1853 – 1936). Prazo para a construção da nova capital? Quatro anos.
Quando essa Comissão Construtora da Nova Capital arranchou no povoado de Curral del-Rei, encontrou uma região com moradores tradicionais por assim dizer, habitada desde 1701. Propriedades urbanas e rurais. Havia na época, no povoado, 172 casas residenciais, 4.000 habitantes, 8 ruas, 16 pontos comerciais, 31 fazendas, 1 farmácia, 2 pontos de escolas, 2 largos ou praças. Vários engenhos. Era um povoado já com mais de cem anos de existência.
Houve a decisão do chefe da Comissão Construtora: destruir tudo para começar tudo de novo. Eis a questão. Prejuízos generalizados. A quem recorrer?  Acontece que grande extensão de terras da região já pertencia ao estado. Os moradores passaram, então, a serem admitidos como operários da Comissão Construtora, numa forma de suavizar prejuízos.
Na ocasião, havia 6.000 operários na construção da Nova Capital. E grandes problemas para a gerência das obras. Aarão Reis não resistiu até o final da obra e pediu exoneração. Foi substituído pelo engenheiro Francisco Bicalho que gerenciou a obra até o dia de sua inauguração, dentro do prazo estabelecido.
Imagine, senhor presidente do estado, como era o regime de trabalho da época, após a abolição da escravatura. Alimentação para esses trabalhadores, habitação, saúde, nesse planalto vazio de recursos?
Com muito sofrimento humano, sofrimento incalculável, como sempre, nesse curto espaço de tempo, a cidade floresceu. Veja que Brasília foi construída em três anos e oito meses.
Meu pensamento vagueia pelos idos de 1890, tempos que o senhor teve oportunidade de presenciar, de participar e de comandar.
Fui longe demais nesse passeio no tempo e peço desculpas se não tiver sido totalmente exato nestas informações.
Voltarei ao assunto, mas ainda vou tentar identificar a questão da mudança. Mudar por mudar - sempre para subir mais um degrau no aperfeiçoamento humano. O que move a humanidade é o inconformismo.
O presidente Afonso Pena (1847 – 1909), então presidente Conselho do estado, decidiu que seria construída uma nova capital, pois Ouro Preto não tinha mais condições de suportar as dimensões de capital do estado. Daí por diante, o sol nunca brilhou tão intensamente na ardente mensagem de coragem para o povo mineiro. Não havia mais passagem de volta. Assim, Augusto de Lima já tinha sugerido o local,  em 1891.
A primeira mensagem foi enviada ao Congresso Estadual em 17 de abril de 1891, propondo a mudança. Os ouro-pretanos achavam impossível esse empreendimento.
Mas, onde seria mesmo plantada essa nova capital? Havia várias indicações bem fortes para definição do local, principalmente a várzea do Marçal, vizinha a São João Del-Rei, como já foi comentado.
A região do vale do rio das Velhas, na decisão final, venceu e foi publicada a mensagem do Congresso Legislativo a Lei de mudança da capital.
O senhor conviveu com esse dilema, com esse grande problema. Uma decisão política, mas, antes de tudo, centrada em estudos técnicos para a plena viabilidade. E esta região, no povoado denominado Curral del-Rei, por apenas uma pequena margem de vantagens técnicas foi considerada a região escolhida pelo destino para ser a Belo Horizonte, não é verdade?
O senhor sabe que nessa época não havia tratores e, consequentemente, os trabalhadores tiveram que empregar esforços mais do que dobrados. Houve grande movimentação de terra, abrindo ruas, avenidas e praças. Havia trabalhadores estrangeiros especializados na construção dos palácios administrativos.
Imagine que os engenheiros e arquitetos projetaram esses palácios monumentais, com toda a papelada em plantas com detalhes técnicos, dentro dos padrões de uma arquitetura avançada, num estilo condizente com a filosofia e gosto da época, estilo neoclássico, meio art-nouveau. E tinham ainda que projetar as plantas das conexões hidráulicas e elétricas. Novidade para o mundo moderno. Água encanada. Eletricidade. Criar e equalizar um estilo arquitetônico em contraste total ao colonial e barroco. Nada que traduzisse influência de Ouro Preto. Tudo novo e moderno. Entusiasmo e petulância.
A nova república, instalada em 1889, impunha avanço tecnológico para elevar a qualidade de vida, sempre procurando um grau a mais, um degrau avançado no desenvolvimento humano, da ordem e do progresso. Uma república, uma recente república, numa visão positivista, inspirada e configurada nos ideais dos governantes da época, atraídos pela filosofia de Augusto Comte (1798 – 1857).
Afonso Pena era presidente do estado, entre o período de 1892 a 1894. Lembramos que Afonso Pena foi o primeiro governador/presidente do estado eleito por voto direto.
Imprimia-se agilidade memorável nas decisões e na efetivação dessas decisões. Empolgação total. Assim, para confrontar essas mudanças, vou fazer algumas referências à capacidade de adaptação do povo mineiro. Tantas mudanças ocorreram muito rapidamente, que não havia tempo nem para pensar duas vezes. Logo depois da saída de Afonso Pena do governo do estado, foi substituído por Crispim Jacques Bias Fortes (1847 – 1917). E o presidente Bias Fortes administrou o impossível, na opinião dos céticos. Uma cidade saída do papel e em quatro anos  resplandecia ao alvorecer do século XX. Como isso foi conseguido? Mudanças, já.
Doutor João Pinheiro, não achava que tal iniciativa era grande demais para um estado, sozinho, enfrentar e chegar vitorioso no novo século? Sei e sabemos todos que o senhor não tinha apego a tradições inúteis. O século XX estava batendo às portas. Mudanças!

Agora me despeço, respeitosamente.


quarta-feira, 13 de março de 2013

ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE I



1ª Carta virtual ao DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA (1860 – 1908)


ASPECTOS DA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE,
Capital do estado de MINAS GERAIS, inaugurada em 12  de dezembro de 1897 - BRASIL



 “Olhando para vocês, vi um belo horizonte!” - exclamou o papa João Paulo II, (1920 – 2005), no dia 1º. de junho de 1980, na praça Israel Pinheiro, Belo Horizonte, por ocasião da celebração de missa campal para cerca de um milhão de pessoas. A partir desse dia, o povo adotou esse local com o cognome de Praça do Papa, tal a emoção que essa manifestação espontânea e justa emoldurou a autoestima dos belo-horizontinos. Em retribuição imediata, o povo, em coro  improvisado, respondeu:  “Rei! Rei! Rei! – o Papa é nosso Rei!”  E assim, nesse ato memorável, configurou-se um amor à primeira vista.      


1ª.Carta virtual ao DOUTOR JOÃO PINHEIRO DA SILVA (1860 – 1908)

MUITO DIGNO EX-PRESIDENTE DO ESTADO DE MINAS GERAIS

                                     
Belo Horizonte, 15 de novembro de 2011


Hoje já é dia 15 novembro de 2011. Estamos comemorando 122 anos de república. Parabéns para o senhor, um batalhador incansável. Achei por bem enviar-lhe mensagens virtuais por cartas, colocando-o em sintonia com alguns acontecimentos ocorridos na cidade de Belo Horizonte, onde o senhor esteve até os últimos dias de sua vida. Sei e sabemos todos do seu interesse pelo pleno desenvolvimento, pelo crescimento deste estado que o senhor presidiu.      
Desculpe-me importuná-lo.
Desde que o senhor nos deixou, em 25 de outubro de 1908, ficou o Palácio da Liberdade com o sentimento de perda total. O povo do estado de Minas Gerais ficou órfão, juntamente com a sua família, seus 12 filhos. Todos ficaram órfãos, também, da sua ousadia administrativa, da sua visão do grande futuro do nosso estado e, sobretudo, da sua fraternidade republicana.
Hoje, resolvi invocar a sua paz, o seu repouso eterno. Tantas coisas aconteceram na nossa nova cidade-capital, depois de sua partida e outras tantas vêm acontecendo a cada dia que passa que eu me lembrei de fazer uma crônica, reportando para o senhor essas novidades.
Sabemos que a sua atuação como gerente, um grande gerente-governador-presidente, com a sua larga visão, sempre foi republicano incansável na configuração dos destinos do estado e, em particular, na confirmação do  desenvolvimento da nova capital.

Sabemos das suas dificuldades encontradas na época como presidente, pois este estado tinha investido todos os seus recursos na construção da nova capital, na sua construção e na sua instalação. Também na transferência de todos os funcionários. E esta cidade-capital iria exigir muito mais em finanças e obstinação, para a concretização de um plano arrojado e excessivamente ousado para a época. As pessoas têm que entender que não foi fácil construir esta cidade-capital, Belo Horizonte, num período estipulado em quatro anos.
       
E o senhor, como presidente do estado de Minas Gerais, primeiro presidente do estado eleito pelo povo, em 1906, após o governo instalar-se no Palácio da Liberdade, substituindo o doutor Crispim Jacques Bias Fortes, (1847 – 1917) teve como meta fundamental o desenvolvimento, de maneira ampla. Reconheço hoje com aplausos a sua meta proposta também para a educação, um dos princípios republicanos, na sua obstinação quanto à criação dos GRUPOS ESCOLARES, dando a partida para a oficialização do ensino público.
Vou recolher mais informações sobre essa meta dentro do plano educacional, para transmitir informações em outras oportunidades. Saiba que a sua meta vingou mesmo. Os seus Grupos Escolares se espalharam pelo nosso estado. E também as escolas rurais e as colônias agrícolas, pela implantação de novos métodos e técnicas para a agricultura e pecuária. O senhor foi obstinado, radical e entusiasmado. Não podia ser diferente. Seu trabalho foi recompensado e frutificou. 
Mas, hoje, tenho algo a relatar, com a certeza de que será uma surpresa que irá lhe causar uma grande alegria.
Nesse ano de 1929, seu amigo e contemporâneo da Escola de Direito de São Paulo, então presidente do estado, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada (1870 – 1946)  inaugurou um viaduto monumental, na cidade de Belo Horizonte, denominado VIADUTO DOS VIAJANTES e posteriormente, VIADUTO SANTA TERESA.
        
Não se trata de um simples viaduto urbano. Trata-se, como disse antes, de um monumento de arte, adequado aos interesses da população. Imaginar que esta nova cidade, com apenas 32 anos de fundação, já construiu, com recursos do estado, uma obra que passa sobre o rio Arrudas, a Avenida do Contorno e as linhas da estrada de ferro da Central do Brasil (EFCB), de uma só vez, além de fazer a ligação do centro da cidade a um dos bairros mais habitados. Pois o espírito republicano, tão defendido pelo senhor, sobrevive nesta obra. Tem a extensão de 400 metros de comprimento, com dois arcos laterais de 14 metros de altura. Tudo em cimento armado. Torna-se, pois, o maior vão de cimento armado da América Latina, para essa época. Tecnicamente perfeito. Elegante, majestoso, imponente. Além do seu valor utilitário, representa um marco para a autoestima dos novos moradores da cidade.
Darei outras notícias, principalmente sobre o seu projetista, o engenheiro responsável pela construção, em outra oportunidade. São tantas notícias que nem sei bem por qual ponto devo começar. Sei, entretanto, que tudo é novidade para o senhor. Apenas, mais uma informação: esta cidade de Belo Horizonte, neste início de século XXI, cresceu tanto que entornou, transbordou pela Avenida do Contorno, que foi projetada para ser o seu limite urbano. Extravasou,  extrapolou, expandiu. Inacreditável, dirá o senhor, não é verdade?
Aqui me despeço, prometendo dar continuidade a estes relatos amanhã bem cedo, para poder trazer informações complementares sobre a Cidade de Minas, hoje, Belo Horizonte.

P.S.

Achei melhor dar uma pequena informação sobre o engenheiro Emílio Baumgart, projetista e construtor do Viaduto Santa Teresa. Era Emílio Henrique Baumgart, (1889 – 1943), natural de Blumenau (SC), filho do imigrante alemão Gustav Baumgart e de Mathilde Odebrecht, também filha de imigrante alemão. Isso mesmo. Pois o engenheiro-projetista, devidamente graduado, montou no Rio de Janeiro, no ano de 1925, o primeiro escritório de engenharia, especializado em estruturas de concreto armado do Brasil. E teve sucesso como inovador e como competente profissional. Pois esse Viaduto Santa Teresa,  projetado e construído por ele, é obra de arte que vai romper os séculos pela sua beleza e pela sua rigidez estrutural.
Estive fazendo um passeio por ele, à tardinha, olhando lá de cima a praça da estação, a Serraria Souza Pinto, a Avenida dos Andradas, o Parque Municipal, a Avenida Assis Chateaubriand e me perdi no tempo e nas lembranças mais profundas do meu ser. Lembrei-me que nele se fazia o footing nas belas tardes fagueiras. As moças desciam do bairro da Floresta e de Santa Teresa para um passeio, um desfile de ida e volta, ao longo do viaduto, vendo os rapazes que se punham a admirar cada uma delas. O sol ia se pondo, as luzes elétricas se acendiam e a modernidade chegava num estalar de dedos. Tempos gloriosos vividos nessa jovem cidade, inaugurada em 12 de dezembro de 1897, bela e realmente moderna. Penso até que o seu projetista Aarão Reis (1853 – 1936)  teve algum mérito ao decidir a demolição, sem dó nem piedade, dos casebres de Curral del-Rei, para surgir das cinzas uma cidade realmente nova.
Divaguei demais. O Viaduto Santa Teresa, hoje com 82 anos, não apresenta nenhum sinal de envelhecimento. Digo isso, considerando os aspectos tanto estruturais  quanto estéticos. Como é que pode? Nem uma rachadurazinha, uma quebra de canto, um ponto de desequilíbrio. Mas, indo além, é obra de embelezamento, de configuração de imagem da nova capital. No ponto culminante, é obra utilitária, até hoje fundamental para o tráfego da região.       Finalmente, digo para o senhor que as tantas pessoas que trafegam diariamente por esse viaduto nem pensam no seu construtor, no seu projetista, nem no governador da época que teve a ousadia de ordenar uma obra desse vulto.

Saudações respeitosas do seu amigo,


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

VAQUEIRO CARIOCA


O garoto Marcelinho estava estudando no Rio de Janeiro. Nas férias de julho, convidou um colega de colégio para passar uns dias na fazenda do seu avô, em Santa Maria de Itabira, interior do estado de Minas Gerais. O avô vivia numa bela fazenda, em pleno conforto da modernidade, no meio de árvores frutíferas, de hortas, de jardins e de animais. Natureza cheia de verdor, um céu aberto, um sol rutilante e uma noite cheia de estrelas.
Marcelinho era tratado como rei pelo avô e o carioca adolescente, visitante, de nome Gustavo, deveria ser tratado, então, como príncipe.
Mas, o carioquinha cheirava a asfalto, gás carbônico e muita maresia. Perguntava tudo, queria saber de tudo. Era curioso demais. Falava o que pensava e o avô se encantava com as perguntinhas dele.
- Essas galinhas soltas no terreiro não fogem?
- Não! Não fogem. Elas gostam daqui e da nossa proteção. 
Gustavinho se sentiu em casa, pronto e disposto para tudo. Na tarde do dia seguinte, foi nadar no tanque, debaixo da cachoeira, no meio da mata. Foi um custo pra botar o garoto em cima de um paciente cavalo.
- Não precisa de carteira de habilitação pra montar a cavalo?
- Precisa só da autorização do avô!
Os dois filhos do vaqueiro eram acompanhantes do Marcelinho e do Gustavo. Pularam nas garupas dos cavalos e Marcelinho comandou a expedição pelo no meio da mata. A pose e a elegância do Marcelinho impressionaram o hóspede. Foi uma festa a cavalgada. Melhor ainda foi o cachoeirão de água límpida e esvoaçante, caindo das rochas e fazendo uma lagoa, pronta para ser nadada.
O carioca ficou deslumbrado. Só tinha visto cachoeiras em filmes ou na televisão. Ali, no meio da mata, achou que estava vivendo um paraíso.
E os dois filhos do vaqueiro e Marcelinho tiraram a roupa num átimo e pularam na água fria. Gustavinho ficou temeroso, e meio arredio. Depois começou a tirar a roupa também e ficou com um belo calção de náilon vermelho e pulou na água. Fria demais e gostosa demais.
Foi aí que ele notou que todos os garotos nadavam pelados. Eles nunca precisavam de calção ou de short para nadar. Percebeu que estava fora de moda e acabou tirando também o seu calção. Foi aí que os dois filhos do vaqueiro começaram a rir. Riram de verdade. Gustavinho percebeu que estava sendo a causa da gozação. Os irreverentes filhos do vaqueiro ficaram ainda mais admirados e riam sem parar. Por quê?
- Bunda branca!
Eram as marcas do sol na praia. Sem imaginar mais causas, nasce um apelido que começa pela evidência. Estava mesmo bem moreno queimado de sol, e com a bunda branca. A denominação era irreversível. Daí pra confirmar um apelido foi um pulo. Ninguém mais conhecia Gustavo e sim, o “Bunda Branca.”
O avô riu muito e pediu desculpas. Mas, com isso, a família inteira riu e adotou, mesmo às escondidas, o apelido natural. Gustavinho gostou da brincadeira, gostou do apelido e foi em frente, aproveitando o conforto da fazenda.
Depois, Gustavinho queria saber como se tirava o leite. O avô explicou a técnica e demonstrou. Gustavinho, na prática, apertava a teta da vaca, mas o leite não esguichava. Por fim, quase deu certo. Suou para tirar um copo de leite. Com mais um ano de prática ia conseguir tirar um litro de leite por hora.
O avô explicou que cada vaca recebia um nome de batismo logo que desse a primeira cria. E relacionou os nomes principais: Granada, Lubrina, Pintada, Guanabara, etc.
- Quando eu chamo a Lubrina, ela vem e seu bezerro vem no mesmo momento.
- Não é possível!
- Quando a vaca pare pela primeira vez, eu registro o nome dela e ela aceita o nome para o resto da vida.
- Quero experimentar chamar uma vaca, amarrar e tirar o leite todo. Quero ser um vaqueiro de verdade. Isso mesmo. Quero ser vaqueiro.
- E já está contratado!!!
O avô ficou encantado com a petulância e disposição do Gustavinho. Era bonito ver um jovem querer ser um vaqueiro de verdade. Nem seu neto jamais tinha pensado em ser vaqueiro.
Mas o atual vaqueiro, Janjão, meio gozador, recomendou para que ele chamasse a Marajá, que era mansinha e podia dar uma boa oportunidade para o Gustavinho treinar.
Gustavinho gritou, imitando os vaqueiros:
- Marajá! Marajaaaá! Marajaaaá!!!
Veio um boi chifrudo, velho boi carreiro branco. Veio caminhando lentamente para a direção do chamamento. Ficou parado, esperando, sempre obediente.
Gustavinho  pegou a corda de amarrar as pernas das vacas e deu o laço com a maior perfeição. Pegou a balde, a toalha de limpar as tetas, jogou no ombro e partiu para debaixo da barriga da Marajá. Ao agachar debaixo da Marajá, notou que ela não tinha as quatro tetas e somente duas, representadas pelo saco murcho, onde havia outrora,  dois bagos enormes do boi carreiro. Gritou para o avô:
- Oi, vô!!! Essa vaca está com defeito!
E o caipira, Janjão, veio tirar um sarro em cima do carioquinha? Não podia perder o emprego pra esse tal de Gustavinho, já de contrato firmado com o avô.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

NEPOTISMO GRAMATICAL


“Você sem ti” “Tu sem você!” Se “você” vier, não venha acompanhado. Se “tu” vieres, venhas sozinho! Se vierdes juntos, eu não deixo entrar. Não quero confusão na minha casa.     
                                                                            
Esta recomendação já foi lançada aos quatro ventos no meu discurso universal e, no meu canto sublimado, sempre exijo nepotismo gramatical. Cada qual fica com a sua família, protege-a, faz as suas concordâncias, acerta as suas quantidades. Assim também, define as suas variações de sexo. Eu disse variações? Melhor diria, indicações de gênero. Não se trata de crime de racismo nem de preconceito. Trata-se de organização étnica, de princípios. Nada contra “você.” Nada contra “tu”. Cada um deve viver dentro do seu território e deve impor ordem na sua descendência, na sua família, na sua estirpe, na sua raça. Evitam-se misturas degradantes, inconsequentes, condenáveis.  Abomino a salada pronominal! Sempre me propugnei também por manter a eufonia para as declarações verbais, além do ritmo e da cadência militar para os versos.
Além disso, para enfatizar as minhas recomendações, os verbos devem ser desdobrados para o acompanhamento integral ao sujeito, qualquer que seja ele. Não me preocupo em levantar as qualificações morais do sujeito. Os verbos devem ser submissos a ele e flexionar como esse sujeito ordenar, O sujeito é um comandante autoritário, ditatorial, irreverente. Os verbos são seus escravos e dançam no ritmo da música que ele tocar.
Portanto, minha recomendação final é esta: se “tu” vieres, tragas a tua família para ocupares todos os postos vagos e dominares o texto na sua totalidade. Nepotismo total e irrestrito.
Mas, se “você” resolver aparecer, venha bem acompanhado de seus familiares, seus tios, avós, netos e, sobretudo, dos seus sobrinhos em quantidade. Se “você” for divorciado, traga também a ex-esposa. Enteados? Nada contra. Nepotismo vale tudo!
Assim, cada um puxa a brasa pra sua sardinha! Certo?      

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A CIDADE DO SOL

CRÍTICA LITERÁRIA


Se você não quiser se ligar ou entrar em transe, não pegue esse livro de HOSSEINE , Kaled, A Cidade do sol, ed. Nova Froneira, RJ, 2007.


O Afeganistão, esse pouco conhecido país do mundo árabe, se revela aos olhos estupefatos dos leitores nas suas clareiras psicológicas, sociais e políticas num romance que, de tão verdadeiro, parece ficção e com tantos acontecimentos chocantes, que parece mesmo realidade. Eis a questão.
 “Você é uma harami! – diz Nana à sua filha Mariam de apenas cinco anos – Você não vai ser nada, não vai ser ninguém. Será sempre uma ilegítima, e terá que aguentar o seu estado de bastarda o resto da vida.”  
Não deixa de ser uma bela lição para a formação da autoestima da filha. E acrescenta: “Nunca terá um lar!”
Mas Mariam adorava o pai, Jalil  que, de vez em quando, aparecia no seu casebre, uma kolba. Era homem de negócios em Herat, tinha três esposas e nove filhos legítimos. Ela, Mariam, uma harami.
Aos 13 anos, desiludida com o pai e tendo perdido a mãe, foi dada em casamento a um viúvo de 40 anos, residente em Cabul, distante 600 quilômetros. Um novo mar de infelicidades. Como esposa tinha os trabalhos domésticos sem poder sair de casa desacompanhada do marido e tinha que usar burqa. O marido, um senhor. Uma mulher desacompanhada na rua seria espancada e entregue ao seu marido, que tinha a obrigação de fiscalizar  a sua esposa.
Se o tempero do jantar não ficasse ao paladar do marido, um chute, uma bofetada na cara, um dente quebrado!
Reclamar de quem? Da polícia? Da legislação do país?
Nana tinha razão: “Assim como o ponteiro da bússola indica o norte, assim também o dedo acusador do homem aponta sempre para uma mulher!” Uma realidade consagrada.
Mas Rachid, o marido, resolveu arranjar uma segunda esposa. Tinha condições financeiras para isso. Arranjou uma menina loura que passou a ser a sua “Mercedes”. – “Você é um carro velho! Quem manda agora na casa é a minha Mercedes”     
Rachid era culpado? Claro que não era totalmente culpado. A cultura
da sua gente modelava os homens dentro de padrões dessa categoria. Esse o resultado. Tinha que dar os corretivos às suas esposas para que não fosse tachado de “maricas”. Mas as esposas se unem contra a opressão!
A técnica de narrar não deixa o leitor respirar. Acontecimentos e surpresas a cada instante, sem meias palavras. Não deixa o pobre do leitor descansar. O livro é modelo de narrativa moderna. Sem enfeites e sem adjetivos, sem piedade. Sadismo? Talvez apenas realidade afegã. O homem não suporta chifre, mesmo tendo várias esposas. E um homem sem chifre é um animal indefeso.
E a vida continua no regulamento constitucional do país, com os talibãs e outros invasores guerreiros, nas escrituras do Alcorão e no fanatismo religioso, com todas as suas iniquidades justificadas e aceitas plenamente. É dose!
Kaled não é um Sidney Sheldon, mas seu lugar está reservado na literatura universal. Sheldon vive com seus magnatas e altos negócios. Kaled vai ao fundo do poço da raia miúda do Afeganistão. Nesse caso, seria um lugar impenetrável para um romancista americano.
Por tudo isso, quem tiver a ventura de ter em mãos esse livro pode ter a certeza de que está com a primeira obra recomendada do século XXI, que ora abre as suas portas.  
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