sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

LEITO DE LAMA

A lama transforma o verde e as águas de Minas Gerais. Mas como isso é possível? Não se aprende nem com os erros? É mais lucrativo continuar errando? Só se percebe o valor de uma vida, depois que ela foi ceifada. E quanto vale uma vida? Andam por aí perguntando isso. Causar dano à terra é também demonstrar desprezo pela natureza. Que virá depois disso? Algum pressentimento?




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ENTRANDO PELO CANO

Uma mina, um mineroduto, um porto e muitos problemas. Por 525 Km, o mineroduto Minas–Rio é um sistema de transporte tubular de minério de ferro, que liga as cidades brasileiras de Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais e São João da Barra, no Rio de Janeiro. Enquanto os tubos vão sendo enterrados, um rastro de insatisfação vai se abrindo.





MINERODUTO

Esse mineroduto virou moda
Modelo de transporte tubular
Com a força de um rio inteiro empurrar
E chupar do outro lado da roda.

Fica então esse rio, ou esse ex-rio
Sem água, sem peixe ou navegação
Toda acertada a legalização
E não se pensa mais nesse martírio.

E nem se envergonha o nobre governante
Ao assinar tal proposta indecente
E afirmar seu povo ser ignorante

E pelo simples ato tão inocente
Sorri o alto poder que lhe garante
E apunhala a natureza inclemente




RIO ABAIXO

Bebo sim! Estou bebendo! Enquanto tem!
A água leva tudo! Leva até minério!
Por baixo, passa até de cemitério
No aqueduto que não gasta um vintém.

Quem diz que ele não beba um rio inteiro
Engolindo até os peixinhos caipiras?
Não escapam os lambaris ou as traíras
E vomitam no Rio de Janeiro.

Pra que essa água que tem esse rio,
Barulhento nas matas e cachoeiras
Que tanta força tem e poderio?

Preso enlatado em fontes altaneiras
Entubado, desce em crime e martírio,
Envergonhando as origens mineiras.,

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

LIBIDO


Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente; 
é um contentamento descontente, 
é dor que desatina sem doer[....] 
Camões 




Fenômeno geral – não existe rejeição

  • Impulso energético no cérebro dos seres humanos, fomentando desejos e tendências.
  • Do nascimento à morte, dirige comportamentos, sem se importar com consequências sociais ou de qualquer natureza.
  • A Libido comanda e o ser humano que lhe obedece cegamente.
  • Madame Bovary não agiu sozinha nas letras de Gustave Flaubert. Por destino, um fantasma dirigia seus passos. Era a busca do prazer pelo comando interno, silencioso e invisível. O autor pagou por essa revelação.
  • Freud e Jung discutiram por causa dela e mesmo assim, não chegaram a um acordo. No mundo, principalmente depois de 1960, com a liberação geral, a Libido mudou a cor do seu mapa.
  • A Libido teve forma definitiva e abriu seus tentáculos. Liberação foi ampla, e cada pessoa solta suas entranhas da maneira que seu comando interno determinar.
  • Libido não é maior nem menor. Ela quer dominar e se expressar com a cara e a coragem. Não aumenta nem diminui. Ela se incorpora em cada pessoa, e sobrevive nela.


LIBIDO

Libido é mesmo o tal fiel anjinho
Conselheiro, amigão e protetor
Aplaude sempre, e tudo tem valor
Invisível tanto que agarradinho.

Desejos vários que atraem ou repelem
Signos de vida envolvem e dominam
Desde o nascimento à morte acompanham
Desvendando as faces é o que mais querem.

A libido nasce com o portador
E carrega-o por toda a existência
Aceita todas as formas de amor.

Como fantasma até incita demência
Cai de vez a máscara do pudor
Ou glorifica a própria abstinência.



sábado, 26 de janeiro de 2019

SONETOS SOCIALMENTE INCORRETOS


MULHER MODERNA

Mulheres? Só bom dia e boa tarde
Sem a visão do elegante porte
Se uma palavra der define a sorte
Assédio à vista em furioso alarde.

Agora, ela quer na vitrine se expor
Exibindo ao transeunte o que é belo
Disponível pra bater o martelo
Vai requebrando com todo vapor.

Ousada guerreira, quer enfrentar a luta
Marcha linda com os artifícios que tenha
Pesinhos dourados, mas força bruta.

Escolhe aquele que mais lhe convenha
Curtindo a moda, veste-se de puta
Cliente certa: Maria da Penha.



BOVARY

Madame Bovary gira a classe A
Belos trejeitos, amores ligeiros
Velhotes safados vão sorrateiros
Nas danças da tarde aqui e acolá

Modelos se espalham no mundo afora
Lindas mulheres o tempo aproveitam
Discretos amores presente aceitam
Recheadas carteiras que veem agora.

Com o tempo, facilidades aumentam
No ritmo a vida não vai parar
Os belos prazeres do mundo encantam.

“Les belles de jour” no jogo vão entrar
As classes B,C, por querer, imitam
Traídos maridos, traídos ficam.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A LÍNGUA PORTUGUESA FALADA



 A FONÉTICA
Para onde vai a língua portuguesa falada no Brasil? Ninguém escreve como fala e nem  fala como escreve. O povo fala como quer. O povo fala de acordo com a informalidade regional.




A fonética é a parte energética, dinâmica e criativa da gramática de uma língua. Portanto, é a parte viva da língua portuguesa, principalmente no Brasil, percorrendo o seu vasto território. Suas irmãs, a morfologia e a sintaxe, são sisudas e pacíficas. Parece que estão adormecidas, mas são vigilantes e guardiãs das normas da língua. Parecem dogmas. 
Qualquer língua, por mais primitiva que seja, tem sua sintaxe e tem seu vocabulário. Sem vocabulário não há idiomas. As palavras vão determinar os seus objetos de uso e seus sentimentos e suas emoções. A sintaxe faz as conexões para formar os pensamentos, as frases


O vocabulário no Brasil cresce, aceitando termos de outros idiomas para dar nome a objetos ou a fatos que vão surgindo no mundo moderno. A tecnologia traz centenas de palavras para uso imediato. O Brasil está de braços abertos para receber essas palavras imigradas, agora, da língua inglesa. No passado, aceitou centenas de vocábulos do francês. Também, no passado, incorporou, sem lutas, palavras de origem africana. E antes de tudo isso, havia o substrato linguístico do Tupi-Guarani, falado pelos donos da terra. 
Pensam que a fonética não reagiu? Aceitou tudo, mas a seu modo. Os fonemas, isto é, os sons na articulação dessas palavras importadas, absorveram características regionais para dar, em consequência, coloridos típicos. As palavras que vão chegando se adaptam a cada lugarejo onde elas se aportarem. O idioma que se dane. 
O idioma pode continuar se denominando língua portuguesa, mas a fonética local não despreza o seu poder de pronunciar esses vocábulos dentro da sua cor local. A fala regional. 
Assim, a fonética vibra, grita, se contorce e se transforma. Livre como um pássaro, ela voa pelos recantos mais afastados do país e se acomoda, incorpora trejeitos e arranjos. A sintaxe e a morfologia podem ser arranhadas pela cor local, mas se mantêm nos seus postos. 
A língua portuguesa, no Brasil, foneticamente, vai para as cucuias e as pessoas falam, se entendem, se comunicam e nem querem saber que idioma estão usando, adormecida que está a gramática da língua portuguesa no Brasil, na linguagem do povo. 


Não há normas que indicam formas corretas de pronúncias. O povo fala como quer. Mesmo assim, falar é uma coisa, escrever é outra. Não fala como escreve e nem escreve como se fala.
Assim, as divergências regionais campeiam. Chega-se a pensar que há um outro idioma parecido com a língua portuguesa falada em Portugal. Mesmo a língua culta, falada no Brasil, tem suas características muito acentuadas. Hoje pode-se dizer que, foneticamente, há grandes diferenças entre Brasil e Portugal. 
Daí, para onde vai essa diversidade fonética da língua portuguesa? A população de Portugal, em 2019, é de 10.190.160 habitantes. O Brasil conta com vinte vezes mais a população de Portugal. 



Referências 
S.N.Serafim. Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil. RJ.Presença/MEC.1950. 
Pinto, E.P. O português do Brasil. RJ, O livro técnico.1978.

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