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sábado, 26 de janeiro de 2019

SONETOS SOCIALMENTE INCORRETOS


MULHER MODERNA

Mulheres? Só bom dia e boa tarde
Sem a visão do elegante porte
Se uma palavra der define a sorte
Assédio à vista em furioso alarde.

Agora, ela quer na vitrine se expor
Exibindo ao transeunte o que é belo
Disponível pra bater o martelo
Vai requebrando com todo vapor.

Ousada guerreira, quer enfrentar a luta
Marcha linda com os artifícios que tenha
Pesinhos dourados, mas força bruta.

Escolhe aquele que mais lhe convenha
Curtindo a moda, veste-se de puta
Cliente certa: Maria da Penha.



BOVARY

Madame Bovary gira a classe A
Belos trejeitos, amores ligeiros
Velhotes safados vão sorrateiros
Nas danças da tarde aqui e acolá

Modelos se espalham no mundo afora
Lindas mulheres o tempo aproveitam
Discretos amores presente aceitam
Recheadas carteiras que veem agora.

Com o tempo, facilidades aumentam
No ritmo a vida não vai parar
Os belos prazeres do mundo encantam.

“Les belles de jour” no jogo vão entrar
As classes B,C, por querer, imitam
Traídos maridos, traídos ficam.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

SONETOS DO CÉU AO DIABO

Inferno é um termo usado por diferentes religiões, mitologias e filosofias, representando a morada dos mortos, ou lugar de grande sofrimento e de condenação. Paraíso Lugar de recompensa das almas dos homens, após a morte. Lugar de delícias, repleto de felicidade, onde há paz e sossego.


INFERNO E PARAÍSO

Um samurai vai a um monge budista
Existe mesmo inferno e paraíso?
Como poderia saber tudo isso?
Nem tudo pode estar a nossa vista.

Sou samurai e preciso saber...
Soldado? Pareces mais um mendigo...
Vou cortar teu pescoço, é o que te digo
Assim já entras no inferno, por querer.

O samurai vê o choque da verdade
Recolhe então a espada, envergonhado.
Reconhece a clara realidade.

E o monge com sorriso disfarçado
Justifica a natural humildade.
Agora o paraíso é apresentado.


O DIABO E A CRUZ

Dizem que o diabo corre da cruz
Mas ele não parece tão medroso
Põe a capa de guerreiro bondoso
Quer dividir herança com Jesus.

Nas pesquisas tem ganhado eleição
Chamuscado e envolto na capa preta
Com tridente escondido na maleta
Multidões atrai para o seu torrão.

Salve-se quem puder ou quem quiser
Desiste daquilo que prometeu
Dos prazeres que no porão tiver.

Vou pro céu e levo tudo que é meu
Recuso as promessas que ele fizer
Nem ver! Ai de mim se não fosse eu.


INCENTIVO DO DIABO

O Diabo está investindo pesado
Na mais bela estrutura do porão
Para dar conforto e satisfação
Até velho estatuto foi alterado.

Foi aprovado no legislativo
Lei de incentivo ao pecado mortal
Entrada franca, chamada geral
Basta alguém acessar no aplicativo.

No carnaval há damas e cavalheiros
Nos pacotes livres de temporário
No curso - Graduação de Trapaceiros.

Eternidade até no crediário
Sem comprometimentos entre parceiros
Sem cadastro, pelo facilitário.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

ITABIRA EM FOTOGRAFIA NA PAREDE

Três sonetos
Uma radiografia, um recado e uma proposta.
Uma contribuição. Sem romantismo.



ITABIRA

Itabira não tem mais solução!
Vendeu bem barato sua alma ao diabo
Solo, subsolo e tem preso o rabo
Desde o parto, desde a concepção.

Também Fausto, um dia, vendeu a alma
Em troca de prazeres ao demônio.
No fim, perdeu todo o seu patrimônio
O paraíso, em desespero, a calma.

Como rasgar essas escrituras
Se o patrono aceitou as condições
Dando tudo das gerações futuras?

Anseios sepultados aos montões
Sem projetos pois as belas figuras 
Decretaram sua vida aos porões.



FALA DA VALE

Quem quiser montar indústria, que monte!
Eu vim aqui só pra buscar minério
Por isso, não saio do meu critério
Pago o preço e pego o ferro na fonte.

Não vim pra criar emprego a ninguém
Nem pra tirar cidade do buraco
Sem papo, todos vêm me encher o saco,
Com pires na mão, querendo um vintém.

Meus direitos não são de concessão
Fui criada para a exploração das minas
Por mineiros, Silva e Batista, não?

Agora, chegam tantas sabatinas
No Rio de Janeiro a implantação
Lá, firme a sede fica. Quer propinas?



TURISMO ECOLÓGICO

Turismo ecológico cheira a mato
A transa, droga, farofa e mochila
Grana curta pra encontrar um gorila
Banho de cachoeira e carrapato.

Um campo de pouso internacional
Estrada duplicada e ajardinada
Pernoites? Cama larga almofadada
Raios de sol rompem na matinal.

Grandes praças de esporte e lazer
Boys e girls como gentis serviçais
À mesa faisões tostados trazer.

À noite,as danças e os jogos florais,
Música e vinhos pra juntos sorver!
Muito além dos antigos carnavais!

quinta-feira, 22 de março de 2018

SONETOS EM PENCA DE TRÊS

Três sonetos do reino animal, sem clemência. Cada qual aparece de modo mais estranho. São as personagens do dia. Desculpem-me alguma irreverência.



PERU
Um peru que pia como peru
Como peru deve ele ser tratado.
Cada pio que der é analisado,
Já fede o filhotinho de urubu.

O eco é uma resposta de um som qualquer
Que assim que ouvido é interpretado.
Caso não seja de total agrado,
Quem emite tem a culpa e mister.

Cada qual veste certo a sua história!
Cada planta tem a sua folhagem
Que não desmente a verdade ilusória.

O velho espelho retrata esta imagem
Que bem gravada fica na memória.
Cada qual traz na cara sua mensagem.



SER VACA
As portas do hospício estão sempre abertas
Pra quem sai fora da linha do trem
Vê o outro lado que a vida contém
E o crivo da imaginação liberta.

Solta o verbo, mesmo sem microfone
Veste-se de Adão - e de Eva ataca.
Morador diz que se transformou em vaca
E em vez de chifre na cabeça um cone.

Cada qual veste a vida que escolher
E cada qual sua verdade tinha
E cada qual procura o que fazer.

- E desde quando a transformação vinha?
E sem hesitar vai já responder:
“Desde quando eu era uma bezerrinha.”



CACHORRO MORTO
Foi numa vila bem longe daqui
Cachorro morto na rua jazia
Três ou quatro dias de sol, fedia.
Ninguém veio para tirá-lo dali.

Mulher sentada na porta da casa
Cuidava dos filhos brincando em frente
Queixava da fedentina inclemente
E o mau cheiro os moradores arrasa.

Um vizinho quis enterrar o bicho
Mas ninguém ajudou nesse socorro
Por moleza, por preguiça ou capricho.

Deixa o tal acabar até o couro!
E ele só? Ia por a mão no lixo?
Desistiu. Sozinho, era desaforo!

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