segunda-feira, 14 de março de 2016

O PRIMEIRO SALÁRIO



Juliana Bertolino era aluna da quarta série do Ginásio Comercial do SENAC, em Belo Horizonte, no final da década de sessenta.


Juliana, finalmente, conseguiu um emprego. Ela teve que lutar muito, estudar, treinar para conseguir esse emprego de vendedora, numa grande loja e agora estava com o seu primeiro salário nas suas mãos. Uma alegria incontida. Planos, fantasias, viagens e tudo mais. Além de poder ajudar sua família nas despesas da casa.
Participava de curso noturno, numa turma heterogênea, constituída de jovens que trabalhavam durante o dia e estudavam à noite. Portanto, eram moças e rapazes que já estavam se despedindo da adolescência.
Nessa noite de festas para o seu ego vitorioso, ao dar o sinal para o intervalo do lanche, Juliana e todos saem das salas e vão diretamente para a cantina.
Ao regressar, Juliana verifica que o envelope que estava na sua pasta, contendo o seu primeiro salário, tinha desaparecido. O dinheiro voa, mas  tem pés? E não vai fugir sozinho.
Juliana, mediante o choque pela sua perda, comunica, já em prantos,  ao professor na sala a ocorrência. Primeiramente, o professor pergunta à turma se alguém tinha informações sobre esse desaparecimento. Ninguém viu, ninguém sabia de nada. Juliana entra em desespero. Já tinha empenhado esse salário com tantas coisas que precisava na vida. Agora, tudo era feito em cinzas. Não resistiu a um ataque de nervos. Todos os colegas tiveram conhecimento desse desaparecimento.
O professor mandou chamar o diretor, e ele veio acompanhado do orientador educacional. Primeiros contatos. Nada. Ninguém viu e ninguém sabia de nada. Agora, entretanto, o caso passou para a responsabilidade de todos e todos estariam envolvidos nesse lance. Todos os alunos passaram de imediato a serem suspeitos. Turbulência geral. Os trinta colegas estavam envolvidos nesse desaparecimento, ou melhor, nesse roubo.
Diante da gravidade dos fatos, o diretor levantou duas alternativa: chamar a polícia ou fazer revista em todos os alunos. O orientador classificou essas medidas como antipedagógicas. Diante disso, o diretor passou a responsabilidade ao orientador para resolver esse impasse, retirando-se em seguida.
O professor da matéria do momento foi afastado e o orientador tomou a direção do espetáculo, quer dizer, da aula, já que as opiniões dos alunos se divergiam e as emoções tomaram acento no meio da turma. Clima de tensão generalizada pelo pranto convulsivo da Juliana. Um copo de água, uma palavra de tranquilidade de uma colega. “Fique tranquila, Juliana. Tudo vai sair bem.” Remédios sem eficácia. A tensão aumentava.
O orientador, inicialmente, recolheu dados e informações sobre o ocorrido, diretamente com a aluna, Juliana. Depois, conversou livremente com alguns dos alunos. Suspeitos? A turma inteira, mas principalmente aqueles que se sentavam mais próximos da vítima. Juliana tinha certeza de que o envelope de dinheiro fora  perdido na sala, porque ela tinha contado a colegas o recebimento de seu primeiro salário na vida. Houve constatação. Juliana tinha a certeza de que tudo estava em perfeita ordem até a sua saída para o lanche.
Diante dessas informações recolhidas, o orientador imaginou administrar um psicodrama. Essa técnica, preconizada pelo psicólogo romeno, Levy Moreno, (1889 – 1975) estava na moda. Não foi difícil a preparação e escolha dos voluntários artistas para desempenhar papéis a serem interpretados espontaneamente. A cena foi improvisada e as personagens se projetaram de maneira brilhante. O grupo assistia estarrecido a algumas revelações dos artistas. Alguns dos alunos queriam terminar logo essa farsa  porque precisavam ir para casa, cansados pelo trabalho, mas ficaram interessados no que viam e ouviam.
A cena improvisada foi um sucesso. Uma das alunas, uma garota de mais de 18 anos, negra, viveu um grande papel nesse teatro imaginário. Confessou ter tirado o dinheiro, relatou como, quando e quanto, sempre com naturalidade, que deixou os colegas perplexos. Como ela teria coragem de fazer o que fez?
O orientador ficou maravilhado com o sucesso da sua técnica. Por mais de vinte minutos a tragédia foi elucidada. O orientador ficou exultante. Que fazer agora? Pedir que essa aluna entregasse o dinheiro que tinha tirado da bolsa da colega e tudo estaria resolvido.
“Que dinheiro?” “Esse que você tirou da colega.” “Eu tirei da bolsa da Juliana?” “Sim!”  “Mas eu não tirei nada de ninguém e nem tiraria.” “Mas você não acaba de declarar na frente de todos os colegas, aqui presentes, que foi você mesma que tirou o dinheiro dela?” “Nunca! Isso nunca”. E acompanhou Juliana no seu pranto convulsivo.  Eis mais um problema para o orientador. Essa aluna,  de nome Dilma, entrou em desespero. Estava sendo acusada de um fato que ela não tinha nada a ver com ele. Desabou em prantos. Mas o orientador, convidou Juliana e Dilma para irem ao gabinete do Diretor. As duas, em prantos. Situações opostas convergindo para um mesmo objetivo. E o diretor, com pouca habilidade, recomenda à Dilma entregar imediatamente o dinheiro roubado.
“Roubado? Eu não roubei nada.”  “Mas o orientador me disse que você já tinha confessado. Precisamos resolver isso rápido porque está ficando tarde. As aulas já se encerraram.”
Dilma, em lamentações, comunica que fez um papel no psicodrama, tudo sob o ponto de vista virtual, nada de real. Ela apenas fez teatro, recomendado pelo orientador.      
O tempo passa e o diálogo do diretor vai ficando mais tenso e ameaça chamar a polícia. Ela seria interrogada na delegacia. O orientador procura acalmar os nervos e tudo acaba sem ter nada resolvido. Já era tarde e a turma estava desesperada pelo adiantado da hora e pela possibilidade de perder ônibus para casa. Aguardar. Nada resolvido.
No dia seguinte, pelas 14 horas, a mãe da aluna Dilma aparece para falar com o diretor do ginásio. Vinha armada de bons argumentos e com um vocabulário forte e pesado. Ameaçou. Ameaçou e pediu justificativas. A filha estava traumatizada. Na família nunca houve um ladrão. Houve violências e até mortes. Queria tudo resolvido e a filha livre dessa maldição, desse pesadelo.
O diretor, acuado, justifica sem argumentação condizente. Explica, e finalmente, negocia. Iria pensar e propor alternativas. “Que dia? Amanhã?” “Sim, pode ser”. “Volto amanhã .” 
O primeiro salário da aluna Juliana nunca foi encontrado. Neste caso, o segundo salário seria, pois, o primeiro. Guardado a sete chaves e sem contar nada a ninguém. E a aluna Dilma conseguiu bolsa de estudo até o final do curso e posteriormente, poderia matricular-se no curso que melhor lhe aprouvesse, com bolsa integral. E o caso foi encerrado, com sucesso.   

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O ZÉ DA GEORGINA



O que é a vida? Uma gota d´água, um cisco no olho, um nada. Felicidade é agora, uma gota de água que cai, num instante evapora.

Georgina chegou esbaforida à casa de dona Jonina, para começar a passar roupa, como diarista. Estava um pouco em atraso no compromisso. Era uma mulher negra, já na meia idade, exaurida pelo trabalho de casa em casa. O filho, um garotão de 15 ou 16 anos de idade, ficava no barraco, na favela na vila dos Marmiteiros, ao lado do bairro da Gameleira, depois da linha de trem. Era alto e forte o seu filho Zé. Saía quando queria. Sua mãe não podia ficar o dia inteiro cuidando do filho, bobão dentro de casa. José, ou simplesmente Zé, tinha um forte retardo. Conseguia vestir-se sozinho, mas  abotoava a camisa com os botões trocados. Saía quando queria. Rodava as ruelas da favela e chegava até à rua Zurich, atravessando a linha de trem. O Zé, esse garotão forte, tinha um ou dois dentes na frente.  Não sabia falar uma palavra sequer que fosse compreendida imediatamente. Gaguejava e falava uma palavra aos pedaços. O que mais era admirado nele era a simpatia. Todas as pessoas do seu convívio tinham respeito e amizade ao Zé.
- Oi, Zé! Saindo pra namorar?
- Vou.
Com isso subia a rua Zurich, até o armazém do Gasparino. Parava na porta. Depois chegava ao depósito de bebidas do João e ficava olhando.
- Tudo bem, Zé?
- Tou.
- Quer um gole de pinga hoje?
- Num. Mãe num dei...xa.
E saía para a porta do bar, logo ao lado. Depois, voltava ao depósito de bebidas. Sabia onde tinha uma vassoura. Ia lá pegava uma delas e começava a varrer o passeio largo na frente desses comércios. Varria com muito boa vontade, não com perfeição. Deixava cisco para trás e depois se esquecia deles. O motorista do ônibus que passava, gritava para ele:
- Cansado,Zé?
- Mui...to
Depois de varrer, desvarria. Como? Voltava o lixo para o mesmo lugar. As pessoas riam por isso. Não riam dele. Riam por brincadeira, e sempre alguém fazia um pagamento pelo trabalho realizado. Trabalho simbólico, pagamento simbólico. Ele  ria e aceitava. Seu rosto transfigurava.
Sempre limpinho, com roupas limpas. A Georgina fazia questão de deixar o Zé sempre limpinho e asseado. Não portava lenço de modo que sempre que babava, escorria pelo peito e passava  mesmo a mão para limpar.
Nenhum garoto de rua zombava dele. Mantinha a sua dignidade e seu respeito. E, se um dia, alguém quisesse tirar um sarro com ele, o pessoal do depósito de bebidas vinha em seu socorro na mesma hora. Praticamente, isso nem era necessário. O Zé reinava na rua Zurick. Era um garotão simplório e indefeso. Era lento e nem sabia correr. Andava sempre muito devagar. No fim do dia, Georgina passava, comprava alguma coisa no armazém e ia saindo para casa. Zé ia caminhando lentamente, atrás dela.  Era a rotina.
Mas, na vida, as flores também murcham. Georgina teve um AVC na porta do armazém, num dia de sol assim. Estava sozinha como sempre esteve. O João, do depósito de bebidas, pegou a caminhonete e levou-a para o Pronto Socorro. Lá, ficou internada, sem capacidade para responder por nada. E o Zé? Esquecido? Quando algum visitante perguntava pelo Zé, ela ouvia isso, mas não tinha voz para responder. Apenas lágrimas surgiam nos seus olhos. Georgina nunca mais voltou para o seu barraco. Não tinha condições. Agora, acredite: o filho Zé foi adotado, com carinho, pela vizinha do barraco, dona Zizinha. E quem era dona Zizinha? Lavadeira domiciliar, seis filhos, morando num barraco de favela. Enquanto isso, os vizinhos, moradores da rua Zurich, conseguiram o internamento da Georgina no asilio de idosos da cidade Ozanan, no bairro da Renascença, mantido pela organização da Divina Providência. Mas, e o Zé? Adotado pela dona Zizinha, com todo carinho e afeição, teve um dia a oportunidade de ser internado no asilo Santa Maria, onde viveu mais alguns anos. Com o passar do tempo, os moradores da rua Zurich receberam a notícia de sua morte. Foi assim. Por mais irônico que possa parecer, o Zé passou por esta vida sempre sorrindo, sem perceber tantas outras alegrias da vida. Ele sempre tinha um sorriso e um coração puro. Reina nos céus. Cumpriu sua missão e deixou a sua mensagem. Adeus, Zé!!  

domingo, 17 de janeiro de 2016

SALVEM MINHA FILHA



Era impossível. Então, fui lá e fiz.

O professor Francisco não era mesmo um professor do Ginásio Comercial do SENAC, em Belo Horizonte, na década de setenta. Tinha o cargo de Regente de Alunos, Bedel, ou atividade assemelhada. Para os alunos era mesmo como se fosse um professor. Com mais de 50 anos de idade, com 1,60m de altura, discreto e de fala mansa, granjeava amizade e simpatia dos alunos. Por isso mesmo, era chamado de Professor Francisco.
Um dia tal, o professor Francisco apareceu com uma folha de papel almaço, tendo o título ao alto: SALVEM MINHA FILHA.  Com isso, estava recolhendo ajuda financeira para o tratamento da filha Estela, de sete anos de idade, internada no hospital da Baleia, com leucemia e desenganada pelos médicos.
Sem autorização do diretor do ginásio, já tinha recolhido mais de duzentos reais. Precisava de cinco mil reais (em valores atuais) até o fim da semana.
Era proibido pelo regulamento do ginásio qualquer tipo de lista, venda de produtos ou atividades semelhantes. Mesmo assim, o professor Francisco achou que poderia justificar. Tinha que ajuntar cinco mil reais até o fim da semana. Que fazer? O diretor tomou conhecimento, foi aprofundar o assunto e ficou sabendo que a filha do professor Francisco estava mesmo condenada. A medicina não podia fazer mais nada. Estela era a terceira filha do professor, num total de seis. Filha amada. Por ela, não haveria impossibilidade.
Tinha pedido ajuda ou socorro à sua paróquia e o padre apenas lamentou e disse que nada podia fazer. Foi a outros centros de várias seitas e ninguém levantou a mão pra nada. Finalmente foi ao Centro de Umbanda são Miguel Arcanjo, situado nos finais do bairro Padre Eustáquio, como última tentativa, em plena desesperança.
Dentro de uma sessão noturna, no grande salão cheio de gente, o professor Francisco foi introduzido. Todos estavam sentados no chão, com as pernas cruzadas, em círculo e em cânticos de orações. A iluminação era precária, intencionalmente, talvez. Num momento, uma das irmãs da congregação, com voz rouca e alterada, declarou que Estela poderia ser salva. Gritos e braços ao alto por todos os participantes. Choro de criança foi ouvido, não se sabe de onde veio. O professor Francisco, no meio dessa cerimônia, estava sentado no chão, como todos os participantes. As luzes se apagaram completamente.
O tempo foi passando e, finalmente, ele acordou e pensou em sair daquela cena. Quando olhou na penumbra, somente ele estava ainda na sala. Foi saindo lentamente, quando uma voz rouca de mulher o chamou. Era a diretora do Centro, ainda sentada no chão, num dos cantos da sala. Sem mais palavras, ela foi logo dizendo:

“A SUA FILHA ESTELA ESTARÁ SALVA PELO NOSSO TRABALHO E PELA NOSSA ROGAÇÃO. PARA ISSO, O SENHOR PRECISA NOS TRAZER CINCO MIL REAIS, ATÉ SEXTA-FEIRA. NÃO PRECISAMOS DE DINHEIRO, PRECISAMOS DA COMPROVAÇÃO DA SUA VONTADE E DA SUA FORÇA DECIDIDA PARA SALVAÇÃO DA SUA FILHA. NADA É IMPOSSÍVEL”

Atordoado, o professor Francisco chegou a casa bem depois da meia-noite e encontrou a esposa e os cinco filhos em orações. Relatou o acontecimento da cerimônia religiosa. Assustados mais que desesperados, ficaram todos. Como arranjar cinco mil reais numa semana? Era muito dinheiro. E a lista foi a solução. Nunca tivera esse dinheiro todo na mão. Impossível? Nada será impossível.
O diretor do ginásio ouviu tudo com atenção. Sentiu pena da credibilidade do Francisco. O mundo está cheio de vigaristas, trapaceiros, etc. Pessoas que abusam da boa fé, pela emoção, pela angústia, pelo desespero.
Procurou alertar o colega de que isso seria um golpe imoral e ultrajante. Nada o convenceu. O diretor riu discretamente. Outros professores também tiveram de conter o riso pela credibilidade do Francisco. E ele dizia:

“PELA MINHA FILHA, FAÇO TUDO. SE NÃO FIZER, NEM A MINHA FAMÍLIA IRIA ME PERDOAR. NEM EU MESMO ME PERDOARIA.”

O diretor deu cinquenta reais, sabendo que estava jogando dinheiro fora. Outros professores também contribuíram. Era apenas pela ignorância do colega.
Francisco saiu depois para as ruas da cidade, praça Sete, Rodoviária, Estação da Central, Praça da Liberdade, Prefeitura, Câmara dos Vereadores e Assembleia Legislativa. Noite e dia, dia e noite. Sexta-feira está chegando. Em casa, contou o dinheiro arrecadado. A esposa tinha rodado por outros lados e o filho mais velho rodou a bolsa entre os colegas.
A noite de sexta-feira chegou. Foi ao encontro da salvação da sua filha. Faltavam ainda alguns trocados. No ônibus, pediu ao motorista, ao trocador e aos passageiros. Esses passageiros fecharam a conta. Um bolo de dinheiro que nunca tinha passado pelas suas mãos.
Na hora da cerimônia veio aquela a cantoria. Ele se sentou no chão e chorava de alívio e triunfo por ter conseguido o salvamento de uma vida. A irmã levantou a voz e perguntou ao Francisco:

“SALVOU A SUA FILHA, IRMÃO?” – “SIM!” – “ENTREGA A SALVAÇÃO DELA PARA NOSSA IRMÃ DO LADO.” 

Francisco entregou o pacote de dinheiro e a outra irmã pegou esse dinheiro e sumiu lá pra dentro. Meia hora depois, retorna e confirma o  total recebido. A irmã diretora levanta a voz, puxando um canto de euforia e agradecimento. As vozes agora eram mais fortes e vibrantes. Foi emocionante. Pelo menos assim foi para Francisco, tendo feito tudo para o salvamento da sua filha de um mal incurável e já condenada pelas palavras da medicina.
Em casa, a expectativa. No sábado, pela manhã,  Francisco e a família foram em visita à filha no hospital da Baleia. Uma longa viagem porque moravam em bairro oposto.
Quando entraram no quarto da filha, encontraram-na em prantos. Estela tinha feito forte amizade com a colega de quarto. Amizade nascida no sofrimento, na tristeza e no infortúnio. Essa amiga já tinha quatorze anos e convivia com a doença há mais tempo. Assim, vendo Estela sempre tristonha e sozinha, tornou-se sua amiga e protetora. Com o passar dos dias, foi entregando  de presente a Estela as suas bonecas, seus livros, suas coisas mais queridas. Parecia uma doação. Estela admirava tanto o desprendimento que tanto fortalecia a sua amizade. Um cordão de ouro e uma pulseira colorida de fantasia. Uma caixinha de jóias.

- Mas, porque chorar tanto assim, Estela?

A colega tinha falecido durante a noite... foi encontrada sem vida pela manhã. Estela não se conformava. Uma amizade para o resto da vida. Ela mesma estava pronta para morrer e viu a colega partir antes dela... Mas que aconteceu? A colega estava condenada pela mesma doença, já em estado terminal e a ficha de identificação, envolta numa pasta de plástico, estava colocada junto ao leito de Estela, por engano, com todos os resultados dos exames laboratoriais. Estela vivia a vida da colega, sem saber.
Os  exames laboratoriais de Estela estavam trocados pelos da colega de quarto. Os resultados desses exames indicavam resultado negativo.

Estela recebeu alta naquele mesmo fim de semana. 
       

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

4ª EDIÇÃO DO LIVRO A SEGUNDA SAFRA DO FERRO



(Trecho do livro A SEGUNDA SAFRA DO FERRO, num diálogo de Soroco, motorista de caminhão e sua mãe, Hortênsia)
.......................
Rogério Alvarenga
Próximo lançamento em 4ª. Edição.
APRESENTAÇÃO:

A primeira edição desta peça data de 1980. Sempre foi uma ficção, embora a ficção  possa representar alguma realidade. Assim, desse tempo para cá, a tecnologia rompeu os padrões da tranquilidade provinciana e destruiu a monotonia dos métodos de trabalho. Entretanto, a crueza das verdades confirma a continuidade da degradação ambiental, da poluição, da corrupção, do domínio autoritário sobre a população e mesmo sobre as dignas autoridades.  Mudanças e mais mudanças, mas tudo continua na mesma situação, dantes referida. Consequências desagradáveis rompem o dia a dia.
(Trecho do livro, num diálogo de Soroco, motorista de caminhão e sua mãe, Hortênsia)
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SOROCO – De onde é que a senhora tirou tudo isso, mãe? Itabira alimenta o mundo com ferro, arrancado do chão pelas mãos e pelas máquinas. Depois, serpenteia nos vagões do trem até a boca dos navios, nas grandes plataformas.
HORTÊNSIA – Pedra de ferro no calçamento das ruas.  Hoje é asfalto. É o progresso. Iluminação do século XX. Admiro muito, mas fico pasma, estarrecida. Itabira alimenta o mundo, é o centro do mundo. Fico abismada. E arrasa o mundo. Olha as roupas que a Itabira veste. Andrajos nas ruas tortas, casas escoradas e povo mole. E o mesmo acontece com cidades históricas, sem eira nem beira, cheias de igrejas monstrengas para salvar as almas do inferno. Se tirar a companhia o povo morre de fome. A cidade acaba. A ignorância é miséria hereditária. Não é privilégio do povo. Roda nas cabeças coroadas dos chefes e dos prefeitos. Se a companhia acabar a cidade acaba. Melhor assim.
SOROCO – Tenho que ir, mãe. Vou acordar a Lili. De amargura a vida está cheia. Pensar no que é nosso. Desgraça dos outros é desgraça deles mesmos.
HORTÊNSIA – Terra boa mesmo não é. Nem a nossa nem a deles. Nossa riqueza vem debaixo da terra. Tem que arrasar tudo, revolver tudo pra tirar o que presta. O rejeito joga-se nos rios que vão para o mar. Eles que se danem.  Mas é a riqueza que faz isso tudo.. Aliás, era a riqueza, porque o povo hoje é pobre. Parece rico e se engana. A Companhia é rica. E carregador de minério pode ficar rico? E picareta é instrumento científico?
SOROCO – É perigoso ficar falando demais, sem saber, mãe.
HORTÊNSIA – Eu sei de tudo. Eles vieram falar comigo esta noite, me informaram de tudo que está acontecendo nas cercanias, nas crateras abertas, nas desgraças dos rios, da morte dos peixes e dos bichos. Eles voltam pra me contar tudo.
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