domingo, 17 de janeiro de 2016

SALVEM MINHA FILHA



Era impossível. Então, fui lá e fiz.

O professor Francisco não era mesmo um professor do Ginásio Comercial do SENAC, em Belo Horizonte, na década de setenta. Tinha o cargo de Regente de Alunos, Bedel, ou atividade assemelhada. Para os alunos era mesmo como se fosse um professor. Com mais de 50 anos de idade, com 1,60m de altura, discreto e de fala mansa, granjeava amizade e simpatia dos alunos. Por isso mesmo, era chamado de Professor Francisco.
Um dia tal, o professor Francisco apareceu com uma folha de papel almaço, tendo o título ao alto: SALVEM MINHA FILHA.  Com isso, estava recolhendo ajuda financeira para o tratamento da filha Estela, de sete anos de idade, internada no hospital da Baleia, com leucemia e desenganada pelos médicos.
Sem autorização do diretor do ginásio, já tinha recolhido mais de duzentos reais. Precisava de cinco mil reais (em valores atuais) até o fim da semana.
Era proibido pelo regulamento do ginásio qualquer tipo de lista, venda de produtos ou atividades semelhantes. Mesmo assim, o professor Francisco achou que poderia justificar. Tinha que ajuntar cinco mil reais até o fim da semana. Que fazer? O diretor tomou conhecimento, foi aprofundar o assunto e ficou sabendo que a filha do professor Francisco estava mesmo condenada. A medicina não podia fazer mais nada. Estela era a terceira filha do professor, num total de seis. Filha amada. Por ela, não haveria impossibilidade.
Tinha pedido ajuda ou socorro à sua paróquia e o padre apenas lamentou e disse que nada podia fazer. Foi a outros centros de várias seitas e ninguém levantou a mão pra nada. Finalmente foi ao Centro de Umbanda são Miguel Arcanjo, situado nos finais do bairro Padre Eustáquio, como última tentativa, em plena desesperança.
Dentro de uma sessão noturna, no grande salão cheio de gente, o professor Francisco foi introduzido. Todos estavam sentados no chão, com as pernas cruzadas, em círculo e em cânticos de orações. A iluminação era precária, intencionalmente, talvez. Num momento, uma das irmãs da congregação, com voz rouca e alterada, declarou que Estela poderia ser salva. Gritos e braços ao alto por todos os participantes. Choro de criança foi ouvido, não se sabe de onde veio. O professor Francisco, no meio dessa cerimônia, estava sentado no chão, como todos os participantes. As luzes se apagaram completamente.
O tempo foi passando e, finalmente, ele acordou e pensou em sair daquela cena. Quando olhou na penumbra, somente ele estava ainda na sala. Foi saindo lentamente, quando uma voz rouca de mulher o chamou. Era a diretora do Centro, ainda sentada no chão, num dos cantos da sala. Sem mais palavras, ela foi logo dizendo:

“A SUA FILHA ESTELA ESTARÁ SALVA PELO NOSSO TRABALHO E PELA NOSSA ROGAÇÃO. PARA ISSO, O SENHOR PRECISA NOS TRAZER CINCO MIL REAIS, ATÉ SEXTA-FEIRA. NÃO PRECISAMOS DE DINHEIRO, PRECISAMOS DA COMPROVAÇÃO DA SUA VONTADE E DA SUA FORÇA DECIDIDA PARA SALVAÇÃO DA SUA FILHA. NADA É IMPOSSÍVEL

Atordoado, o professor Francisco chegou a casa bem depois da meia-noite e encontrou a esposa e os cinco filhos em orações. Relatou o acontecimento da cerimônia religiosa. Assustados mais que desesperados, ficaram todos. Como arranjar cinco mil reais numa semana? Era muito dinheiro. E a lista foi a solução. Nunca tivera esse dinheiro todo na mão. Impossível? Nada será impossível.
O diretor do ginásio ouviu tudo com atenção. Sentiu pena da credibilidade do Francisco. O mundo está cheio de vigaristas, trapaceiros, etc. Pessoas que abusam da boa fé, pela emoção, pela angústia, pelo desespero.
Procurou alertar o colega de que isso seria um golpe imoral e ultrajante. Nada o convenceu. O diretor riu discretamente. Outros professores também tiveram de conter o riso pela credibilidade do Francisco. E ele dizia:

“PELA MINHA FILHA, FAÇO TUDO. SE NÃO FIZER, NEM A MINHA FAMÍLIA IRIA ME PERDOAR. NEM EU MESMO ME PERDOARIA.”

O diretor deu cinquenta reais, sabendo que estava jogando dinheiro fora. Outros professores também contribuíram. Era apenas pela ignorância do colega.
Francisco saiu depois para as ruas da cidade, praça Sete, Rodoviária, Estação da Central, Praça da Liberdade, Prefeitura, Câmara dos Vereadores e Assembleia Legislativa. Noite e dia, dia e noite. Sexta-feira está chegando. Em casa, contou o dinheiro arrecadado. A esposa tinha rodado por outros lados e o filho mais velho rodou a bolsa entre os colegas.
A noite de sexta-feira chegou. Foi ao encontro da salvação da sua filha. Faltavam ainda alguns trocados. No ônibus, pediu ao motorista, ao trocador e aos passageiros. Esses passageiros fecharam a conta. Um bolo de dinheiro que nunca tinha passado pelas suas mãos.
Na hora da cerimônia veio aquela a cantoria. Ele se sentou no chão e chorava de alívio e triunfo por ter conseguido o salvamento de uma vida. A irmã levantou a voz e perguntou ao Francisco:

“SALVOU A SUA FILHA, IRMÃO?” – “SIM!” – “ENTREGA A SALVAÇÃO DELA PARA NOSSA IRMÃ DO LADO.” 

Francisco entregou o pacote de dinheiro e a outra irmã pegou esse dinheiro e sumiu lá pra dentro. Meia hora depois, retorna e confirma o  total recebido. A irmã diretora levanta a voz, puxando um canto de euforia e agradecimento. As vozes agora eram mais fortes e vibrantes. Foi emocionante. Pelo menos assim foi para Francisco, tendo feito tudo para o salvamento da sua filha de um mal incurável e já condenada pelas palavras da medicina.
Em casa, a expectativa. No sábado, pela manhã,  Francisco e a família foram em visita à filha no hospital da Baleia. Uma longa viagem porque moravam em bairro oposto.
Quando entraram no quarto da filha, encontraram-na em prantos. Estela tinha feito forte amizade com a colega de quarto. Amizade nascida no sofrimento, na tristeza e no infortúnio. Essa amiga já tinha quatorze anos e convivia com a doença há mais tempo. Assim, vendo Estela sempre tristonha e sozinha, tornou-se sua amiga e protetora. Com o passar dos dias, foi entregando  de presente a Estela as suas bonecas, seus livros, suas coisas mais queridas. Parecia uma doação. Estela admirava tanto o desprendimento que tanto fortalecia a sua amizade. Um cordão de ouro e uma pulseira colorida de fantasia. Uma caixinha de jóias.

- Mas, porque chorar tanto assim, Estela?

A colega tinha falecido durante a noite... foi encontrada sem vida pela manhã. Estela não se conformava. Uma amizade para o resto da vida. Ela mesma estava pronta para morrer e viu a colega partir antes dela... Mas que aconteceu? A colega estava condenada pela mesma doença, já em estado terminal e a ficha de identificação, envolta numa pasta de plástico, estava colocada junto ao leito de Estela, por engano, com todos os resultados dos exames laboratoriais. Estela vivia a vida da colega, sem saber.
Os  exames laboratoriais de Estela estavam trocados pelos da colega de quarto. Os resultados desses exames indicavam resultado negativo.

Estela recebeu alta naquele mesmo fim de semana. 
       

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