O PRIMEIRO SALÁRIO



Juliana Bertolino era aluna da quarta série do Ginásio Comercial do SENAC, em Belo Horizonte, no final da década de sessenta.


Juliana, finalmente, conseguiu um emprego. Ela teve que lutar muito, estudar, treinar para conseguir esse emprego de vendedora, numa grande loja e agora estava com o seu primeiro salário nas suas mãos. Uma alegria incontida. Planos, fantasias, viagens e tudo mais. Além de poder ajudar sua família nas despesas da casa.
Participava de curso noturno, numa turma heterogênea, constituída de jovens que trabalhavam durante o dia e estudavam à noite. Portanto, eram moças e rapazes que já estavam se despedindo da adolescência.
Nessa noite de festas para o seu ego vitorioso, ao dar o sinal para o intervalo do lanche, Juliana e todos saem das salas e vão diretamente para a cantina.
Ao regressar, Juliana verifica que o envelope que estava na sua pasta, contendo o seu primeiro salário, tinha desaparecido. O dinheiro voa, mas  tem pés? E não vai fugir sozinho.
Juliana, mediante o choque pela sua perda, comunica, já em prantos,  ao professor na sala a ocorrência. Primeiramente, o professor pergunta à turma se alguém tinha informações sobre esse desaparecimento. Ninguém viu, ninguém sabia de nada. Juliana entra em desespero. Já tinha empenhado esse salário com tantas coisas que precisava na vida. Agora, tudo era feito em cinzas. Não resistiu a um ataque de nervos. Todos os colegas tiveram conhecimento desse desaparecimento.
O professor mandou chamar o diretor, e ele veio acompanhado do orientador educacional. Primeiros contatos. Nada. Ninguém viu e ninguém sabia de nada. Agora, entretanto, o caso passou para a responsabilidade de todos e todos estariam envolvidos nesse lance. Todos os alunos passaram de imediato a serem suspeitos. Turbulência geral. Os trinta colegas estavam envolvidos nesse desaparecimento, ou melhor, nesse roubo.
Diante da gravidade dos fatos, o diretor levantou duas alternativa: chamar a polícia ou fazer revista em todos os alunos. O orientador classificou essas medidas como antipedagógicas. Diante disso, o diretor passou a responsabilidade ao orientador para resolver esse impasse, retirando-se em seguida.
O professor da matéria do momento foi afastado e o orientador tomou a direção do espetáculo, quer dizer, da aula, já que as opiniões dos alunos se divergiam e as emoções tomaram acento no meio da turma. Clima de tensão generalizada pelo pranto convulsivo da Juliana. Um copo de água, uma palavra de tranquilidade de uma colega. “Fique tranquila, Juliana. Tudo vai sair bem.” Remédios sem eficácia. A tensão aumentava.
O orientador, inicialmente, recolheu dados e informações sobre o ocorrido, diretamente com a aluna, Juliana. Depois, conversou livremente com alguns dos alunos. Suspeitos? A turma inteira, mas principalmente aqueles que se sentavam mais próximos da vítima. Juliana tinha certeza de que o envelope de dinheiro fora  perdido na sala, porque ela tinha contado a colegas o recebimento de seu primeiro salário na vida. Houve constatação. Juliana tinha a certeza de que tudo estava em perfeita ordem até a sua saída para o lanche.
Diante dessas informações recolhidas, o orientador imaginou administrar um psicodrama. Essa técnica, preconizada pelo psicólogo romeno, Levy Moreno, (1889 – 1975) estava na moda. Não foi difícil a preparação e escolha dos voluntários artistas para desempenhar papéis a serem interpretados espontaneamente. A cena foi improvisada e as personagens se projetaram de maneira brilhante. O grupo assistia estarrecido a algumas revelações dos artistas. Alguns dos alunos queriam terminar logo essa farsa  porque precisavam ir para casa, cansados pelo trabalho, mas ficaram interessados no que viam e ouviam.
A cena improvisada foi um sucesso. Uma das alunas, uma garota de mais de 18 anos, negra, viveu um grande papel nesse teatro imaginário. Confessou ter tirado o dinheiro, relatou como, quando e quanto, sempre com naturalidade, que deixou os colegas perplexos. Como ela teria coragem de fazer o que fez?
O orientador ficou maravilhado com o sucesso da sua técnica. Por mais de vinte minutos a tragédia foi elucidada. O orientador ficou exultante. Que fazer agora? Pedir que essa aluna entregasse o dinheiro que tinha tirado da bolsa da colega e tudo estaria resolvido.
“Que dinheiro?” “Esse que você tirou da colega.” “Eu tirei da bolsa da Juliana?” “Sim!”  “Mas eu não tirei nada de ninguém e nem tiraria.” “Mas você não acaba de declarar na frente de todos os colegas, aqui presentes, que foi você mesma que tirou o dinheiro dela?” “Nunca! Isso nunca”. E acompanhou Juliana no seu pranto convulsivo.  Eis mais um problema para o orientador. Essa aluna,  de nome Dilma, entrou em desespero. Estava sendo acusada de um fato que ela não tinha nada a ver com ele. Desabou em prantos. Mas o orientador, convidou Juliana e Dilma para irem ao gabinete do Diretor. As duas, em prantos. Situações opostas convergindo para um mesmo objetivo. E o diretor, com pouca habilidade, recomenda à Dilma entregar imediatamente o dinheiro roubado.
“Roubado? Eu não roubei nada.”  “Mas o orientador me disse que você já tinha confessado. Precisamos resolver isso rápido porque está ficando tarde. As aulas já se encerraram.”
Dilma, em lamentações, comunica que fez um papel no psicodrama, tudo sob o ponto de vista virtual, nada de real. Ela apenas fez teatro, recomendado pelo orientador.      
O tempo passa e o diálogo do diretor vai ficando mais tenso e ameaça chamar a polícia. Ela seria interrogada na delegacia. O orientador procura acalmar os nervos e tudo acaba sem ter nada resolvido. Já era tarde e a turma estava desesperada pelo adiantado da hora e pela possibilidade de perder ônibus para casa. Aguardar. Nada resolvido.
No dia seguinte, pelas 14 horas, a mãe da aluna Dilma aparece para falar com o diretor do ginásio. Vinha armada de bons argumentos e com um vocabulário forte e pesado. Ameaçou. Ameaçou e pediu justificativas. A filha estava traumatizada. Na família nunca houve um ladrão. Houve violências e até mortes. Queria tudo resolvido e a filha livre dessa maldição, desse pesadelo.
O diretor, acuado, justifica sem argumentação condizente. Explica, e finalmente, negocia. Iria pensar e propor alternativas. “Que dia? Amanhã?” “Sim, pode ser”. “Volto amanhã .” 
O primeiro salário da aluna Juliana nunca foi encontrado. Neste caso, o segundo salário seria, pois, o primeiro. Guardado a sete chaves e sem contar nada a ninguém. E a aluna Dilma conseguiu bolsa de estudo até o final do curso e posteriormente, poderia matricular-se no curso que melhor lhe aprouvesse, com bolsa integral. E o caso foi encerrado, com sucesso.   

Comentários

  1. Sua narrativa tem soltura e bom encadeamento. Fiquei com uma pulga atrás da orelha, por causa da Dilma. Uma negra. Para se pensar. Abraço.

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  2. Agradável leitura.

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