quarta-feira, 8 de abril de 2015

O PROFESSOR BRASILEIRO

Ser professor: uma escolha de poucos. Nos últimos anos, tornou-se comum a noção de que cada vez menos jovens querem ser professores."Se eu quisesse ser professor, minha família não ia aceitar, pois investiu em mim. É uma profissão que não dá futuro." 

O professor J.S. levanta-se às 5h da manhã, chega ao colégio para aulas de 7 ao meio dia. De 14h às 17, aulas em outro colégio. Pega uma van e viaja uma hora para outra cidade. Aulas até as 22h. Chega a casa à meia- noite. E um aluno de faculdade perguntou-lhe um dia: “além de dar aulas, o senhor também trabalha?” 
A crise da educação, com a baixa qualidade do ensino, é despejada sobre os professores. A primeira vítima. Ele não está desempenhando de forma eficiente o seu trabalho. Está mal preparado. As pesquisas falam, fotografam, mas não focam. Assim, o ensino fundamental é um dos níveis da Educação Básica no Brasil. O ensino fundamental é obrigatório, gratuito nas escolas públicas, e atende crianças a partir dos 6 anos de idade. Desde 2006, a duração do Ensino Fundamental passou a ser de 9 anos (Lei de Diretrizes e Bases) – Lei Ordinária 11.274/2006. Depois disso, vem o Ensino Médio com duração de três anos.
Por que não focar que o professor vive cansado de tantas e tantas atividades que a sua função requer? Excesso de tarefas causam esgotamento físico, intelectual, mental e moral – burocracia: diários de classe, planos de aula, fichas avaliativas, correções, testes, provas, projetos – além de enfrentar o problema da indisciplina escolar, difundida com as conversas constantes, bagunças, uso frequente e indevido de aparelhos eletrônicos, celulares e além disso tudo, ainda, enfrentam as salas superlotadas. Sobre eles ainda rondam os supervisores, coordenadores em busca de resultados. E, com todo esse trabalho, com essa pressão sobre o professor, o salário que recebe não tem correspondência com o seu esforço e com o seu desgaste emocional. As pesquisas têm o foco no agrado às autoridades educacionais e aos administradores-economistas de plantão. E vem o ridículo professor Raimundo do programa do Chico Anísio, retratando uma escola de fazer rir.  Corrobora, em consequência, mais pesadamente, a crescente decadência de valorização e de prestígio desses profissionais entre os alunos, a direção dos colégios e mesmo na sociedade. E, principalmente entre as autoridades educacionais e entre o próprio governo.
Falar mais o quê? Se alguém sabe ler, escrever e contar agradeça ao seu professor. 
E assim, os pedagogos, os pedagogistas, os administradores-economistas e assemelhados reclamam por um melhor ensino, feito por atacado e cada vez mais barato. Custo aluno mais barato. Entretanto, o ensino deve ser feito a varejo. Ensino personalizado. Então, vem o economista neoliberal dizendo que cabem mais dois alunos em sala. Assim, baixa o custo-aluno. Depois, mais dois, melhor ainda. Depois, porque não mais quatro. A sala comporta. O professor suporta?
A bagunça em sala de aula? Custa 20% da aprendizagem. E tira quanto do professor? Os outros 80% em estresse. Corta-se a autoridade do professor até mesmo dentro da sua sala de aula. Os alunos são os clientes, por isso, têm direito a tudo. Aos professores cumpre respeitá-los com subserviência. O ensino da matéria é o objetivo principal, mas o tratamento psicológico não é de sua alçada. Vem de casa, do leite materno e da orientação paterna e da direção do estabelecimento.
E vem a seguir, a inclusão escolar em contraposição à homogeneização de turmas – garantir o atendimento educacional especializado a pessoas com deficiência ou com necessidades especiais na rede regular de ensino. Tarefa para as entidades educacionais, para a direção e para os planejadores do ensino. Atinge o ideal para a humanidade, mas sobrou o real exclusivamente para o professor na sua nobre missão de ensinar. Eis a questão aberta, ou a ferida aberta. Jogam-se para a sala de aula pessoas que precisam de cuidados e tratamento educacional para juntarem-se democraticamente. O professor tem que adaptar-se às novas contingências e atender igualmente a todos. Igualmente? De que maneira? Misturados e juntos, eis a questão. A incompetência das diretorias faz torturas e frustrações. Tudo fácil e simples. Atende-se a determinação das autoridades. Quando o professor reage, é tratado de preconceituoso. Inclusão não é somente isso. Parte de um conceito universal de igualdade de tratamento a todos os seres humanos. Sem preconceitos ou rejeições.
As autoridades educacionais dizem que tudo está sendo feito da melhor forma possível, ou melhor, tudo está resolvido. A tendência é desfocar a problemática do real da inclusão e jogar tudo para debaixo do tapete. 
Soluções para a crise da educação? Se houver algum interesse terão que encontrar. Atualmente, falta o básico e fundamental: o interesse.

2 comentários:

  1. Pertinente demais este texto. É a realidade nua e crua da nossa educação. O interesse, realmente é a mola mestra para todas as ações humanas. Parabéns ao pensador Rogério!

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