terça-feira, 5 de setembro de 2017

RÉQUIEM = ESTADO DE MINAS GERAIS

Presidentes deste país, tantos quantos há vinte anos, nada fizeram ou olharam sequer para o segundo maior estado da Federação.


Estado libertário! O Brasil tem 500 anos mas Minas Gerais apenas 300. Serviu ouro em bandeja para portugueses e paulistas, que se digladiaram para ver quem carregava mais. E os governadores vinham da Corte. A soberba corte que carregou o que quis, com toda autonomia. Terra de ninguém. Não existiam ainda os mineiros caracterizados. E os paulistas ainda pensam, hoje, que a Guerra dos Emboabas foi feita por mineiros. Ainda cobram o Capão da Traição. E a Guerra Civil Brasileira de 1932? Também o estado foi vítima. Simplificando – toneladas de ouro foram carregadas, no século XVIII de Ouro Preto, até para a Inglaterra, via Portugal. Ficou o quê para Minas Gerais? Buracos, pobrezas e igrejas velhas e dispendiosas. Mais, - ficou ancorado o sentimento de submissão e medo.
Por que e o que significa essa má-vontade generalizada contra o desenvolvimento deste estado? Não há razão. Ainda culpam o estado pela Tropa que desceu de Juiz de Fora no em 31 de março de 1964. Ou ainda fazem cobranças por JK ter construído Brasilia e inaugurado a Nova Capital da República em 21 de abril de 1960.
Não há necessidade de ridicularizar Tiradentes, enforcado e esquartejado a machado em praça pública no centro da cidade do Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1792. Não há necessidade de omitir Felipe dos Santos, esquartejado ao ser amarrado em quatro cavalos, em disparada na frente do povo. Tantos vem pagando, até Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves. Omissão total ao ex-presidente, Itamar Franco, quem implantou o Plano Real.
Belo Horizonte, a capital do estado, foi planejada e construída com o suor do povo mineiro, em menos de quatro anos e inaugurada no dia 12 de dezembro de 1897, sem a menor colaboração do governo federal. Hoje, sem carnavais nem olimpíadas.
Omitir ou desprezar Minas Gerais é um ato de pura covardia. Presidentes deste país, tantos quantos há vinte anos, nada fizeram ou olharam para o segundo maior estado da Federação. Hoje, ainda desviam o olhar. Sem fazer relatórios – há 20 anos existe uma linha de metrô para o Barreiro (segunda região mais movimentada de Belo Horizonte), pronta e sem finalização. O sistema viário é mutilado. Quem vai de norte a sul do país passa em por este estado, que, em vista disso, constantemente atende acidentados de outros estados, socorridos em seus hospitais.

O mineiro realmente é calado. Esse orgulho e essa cabeça baixa.


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A LEITURA, PARA ONDE VAI? AMEAÇAS?

  • 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro, aponta pesquisa Retratos da Leitura. Há pessoas que nunca entraram numa livraria.
  • O livro muda de forma. Quem não se adapta desaparece. Existem várias formas de leitura sem ser pelo formato em livro.

Acordaram? Um sono intempestivo e alucinante, inacreditável.


E as grandes bibliotecas? E os estoques incomensuráveis  nas livrarias esperando compradores? E os prejuízos financeiros? E as Bienais do Livro? Salva vida? Marketing em extinção. Prejuízos.

A tecnologia não quer saber de nada, quer apenas passar por cima e ir à frente. Chore quem quiser. Acusam os jovens de desinteresse. Acusam a falta de tempo dos adultos. Acusam os analfabetos funcionais. Devem acusar o tempo. OH TEMPUS, OH MORES. O tempo passa. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Acabam-se as cartas. Acabam-se os cartões postais. Acabam-se os telegramas. Acaba o telefone fixo. Acabam as listas telefônicas. As enciclopédias transformaram em paginas virtuais.

Tudo se transforma. Dos gravadores e fitas cassete aos vídeos e à televisão. Tudo sob controle da tecnologia. E o cinema? Tudo ameaçado. O gosto do público, o tempo disponível, o excesso de fontes de informação e rapidez da comunicação. Vale lembrar que a maior velocidade da comunicação no mundo era feita pelo cavalo. Mesmo no século 19. E Moisés, Abraham e Jacob viveram nas mesmas condições de D.Pedro I no Brasil.
E os jornais e revistas? Dias contados. Quando o jornal e a revista chegam às mãos, as notícias já estão velhas. Quer mais?

Não precisa ficar sentado para deparar com alterações no comportamento da humanidade pela tecnologia. Até chuvas ela já faz, agora só falta criar um meio de teletransporte. Mas a qualquer dia desses, isso pode acontecer.

E as religiões? Cada dia uma nova modalidade religiosa. Umas concorrendo com as outras. E os dogmas? Caem um a um. Salve-se quem puder. Novos paradigmas. Até o inferno foi cortado dos castigos e torturas pós-morte. E Satanás? Perdeu o emprego? Grande número de demônios está no seguro desemprego. E os pecados mortais e veniais? 

Liberação total. Valem apenas a educação de base e o Código Penal. Mesmo assim, desatualizados. Por enquanto, somente a morte é inevitável, o número de idosos é surpreendente. 

Morrer ficou mais raro.



domingo, 27 de agosto de 2017

AOS CINQUENTINHAS


Antes, a Semiótica – palavrão que significa “a voz da natureza” – pois a natureza fala, grita e até se desespera. Mas há pessoas que não escutam, não traduzem e nem decodificam nada. 




Se o tempo escurece de repente, é sinal de que pode chover. Onde há fumaça, há fogo. Eis o beabá. São indícios ou sinais da natureza. A fome, a sede, a dor são vozes do corpo. O cansaço e o estresse são vozes do corpo. São indícios que clamam. Mesmo assim, há surdos, mudos, cegos e, sobretudo analfabetos, que não traduzem nem interpretam e nem atendem esses clamores.
Eis a questão, indícios.

Se o seu carro tem um barulho diferente, o motorista para e verifica a sua voz. No radiador põe água. Óleo no motor. Troca-se o pneu. Mas um motorista inapto pisa no acelerador com mais vontade, força o carro a andar e ele funde o motor.

O cinquentinha já aprendeu o que tinha que aprender. Já deu o que tinha que dar. Está na hora de tirar o pé do acelerador. Não significa estacionar seu carro. Significa dar mais atenção a ele. Já não é um carro novo. É um seminovo. Isso significa que é também um carro semivelho.

Quem não se adapta desaparece.

A natureza fala. A musculatura do corpo desgasta. O cérebro esquenta e exige pulos e saltos. Pode ser um salto maior do que as pernas. Cada ser humano tem a sua biografia construída e armazenada no seu arquivo interno. Perdê-la de um momento para outro não custa nada. Ouvir a natureza, escutar atentamente as vozes do corpo. Interpretar e dar cuidado a elas. Ter pena do seu corpo. Cuidar é preciso. Dever de cada um. Cuidar da sua casca. Uma casca de porcelana.

Jogar sua biografia no lixo? Depois de tanto sacrifício, de vitórias e conquistas? De erros e fracassos? De experiências de vida? Pensar bem é preciso. Além disso, todo comportamento é positivo. Quer dizer que cada um faz o que quiser de sua vida. Hitler não cometeu nenhum deslize, segundo sua consciência. Truman não pensou duas vezes ao autorizar o lançamento da bomba atômica. Um senador não jogou no lixo a sua brilhante biografia, num momento inesperado, colocando-se dentro de uma simples arapuca? Estes são suicídios programados a longo prazo. Todos evitáveis.


A música toca para todos. Dança quem quiser.   

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

TABAGISMO NO BRASIL

O hábito de fumar está relacionado com o campo afetivo/emocional e não com o cognitivo. Conhecer os males provenientes do tabagismo não é suficiente para que o fumante deixe o hábito. Nem o custo, nem as despesas serão suficientes. Depende da vontade do fumante. Depende apenas de uma decisão interna. A força de vontade depende de si mesmo.




Quem viajava em transportes coletivos, seja de avião, trem ônibus ou outros meios, tinha liberdade para fumar livremente, confortavelmente em suas poltronas. Com o desenvolver da viagem, o veículo parecia uma grande chaminé em fumaças e odores. “Salve-se quem puder”. Alguns passageiros, mais sensíveis ao possível incômodo causado aos outros, perguntavam, gentilmente:
- Incomoda-se se eu fumar?
- Fique à vontade.
Ninguém ousava repelir ou reclamar. Os não-fumantes se debatiam e se salvavam como podiam. Ou não podiam. Alguns cobriam o rosto com outras roupas disponíveis e ao término da viagem, ao chegar a casa, teriam que trocar de roupa e tomar um banho de imediato. O bafo do cigarro e suas fumaças e odores refletiam por toda parte. Eram os fumantes passivos, sujeitos aos mesmos resultados danosos dos fumantes.

Lei antifumo no Brasil - A partir de 3 de dezembro de 2014, passa a valer em todo o país a chamada Lei Antifumo que proíbe, entre outras coisas, fumar em ambientes fechados públicos e privados. A estimativa é que as novas regras influenciem os hábitos de 11% da população brasileira, composta por fumantes.
A Lei 12.546, aprovada em 2011, mas regulamentada em 2014, proíbe o ato de fumar cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos, narguilés e outros produtos em locais de uso coletivo, públicos ou privados, como halls e corredores de condomínios, restaurantes e clubes – mesmo que o ambiente esteja parcialmente fechado por uma parede, divisória, teto ou toldo.
Em caso de desrespeito à norma, os estabelecimentos comerciais podem ser multados e até perder a licença de funcionamento.
Houve fumantes que não acreditaram em ser viável essa proibição, em nível nacional e puseram descrenças e objeções, quanto às liberdades individuais. As reações contrárias a essa lei foram muito fortes e constantes. Entretanto, apesar de tudo, o Brasil tornou-se diferente de outras nações do mundo. A lei não foi para brincadeira e o povo acolheu finalmente as recomendações quanto à saúde da população, a peso de multas pesadas.
O brasileiro que visite outro país qualquer, mesmo que seja da América Latina, se assusta com o comportamento das pessoas quanto ao hábito de fumar em qualquer espaço. 
No Brasil, em caso de desrespeito à norma, os estabelecimentos comerciais podem ser multados e até perder a licença de funcionamento. Agora é proibido fumar em locais parcialmente fechados em qualquer um de seus lados por uma parede, divisória, teto ou toldo. Os estabelecimentos serão fiscalizados, poderão receber advertência, multas que podem chegar a R$ 1,5 milhão (descumprimento das normas sanitárias) e até mesmo serem interditados e terem sua autorização de funcionamento cancelada. A Lei vale também para áreas comuns de condomínios e clubes.
O Ministério da Saúde anunciou a regulamentação da Lei Antifumo, que estabelece ambientes fechados de uso coletivo 100% livres de tabaco. O objetivo é proteger a população do fumo passivo e contribuir para diminuição do tabagismo entre os brasileiros.
De acordo com a nova regra, está proibido o consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos e outros produtos fumígenos em locais de uso coletivo, públicos ou privados, mesmo que o ambiente esteja só parcialmente fechado por uma parede, divisória, teto ou até toldo. A norma também extingue os fumódromos e acaba com a possibilidade de propaganda comercial de cigarros até mesmo nos pontos de venda, permitindo somente a exposição dos produtos, acompanhada por mensagens sobre os malefícios provocados pelo fumo. A lei não restringe o uso do cigarro em vias públicas, nas residências ou em áreas ao ar livre.
Em vários países do mundo como China, Índia, Estados Unidos e Rússia, o tabagismo, tem alta prevalência. Calcula-se que a mortalidade mundial aumentou cerca de 5% nos últimos anos. Estima-se que um em cada quatro homens e uma em cada 20 mulheres fumem hoje em dia. Aproximadamente 80% dos tabagistas vivem em 24 países, sendo dois terços em países de baixa e média renda onde a carga das doenças e mortes relacionadas ao tabaco é ainda mais frequente. Estima-se também que os fumantes atuais consumam cerca de seis trilhões de cigarros todos os anos. O consumo de tabaco no mundo vem crescendo em países em desenvolvimento e reduzindo em países desenvolvidos.


Referências bibliográficas
http://www.blog.saude.gov.br/

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

ENTREVISTA VIRTUAL COM PADRE EUSTÁQUIO


É o missionário holandês que dedicou sua vida a aliviar o sofrimento dos seus semelhantes, em fervorosas súplicas à Divina Providência. Faleceu em Belo Horizonte, em 1943 e, pelas suas virtudes e pela sua dedicação, deu natural nome a uma região da cidade, onde foi glorificado e sepultado.  Santo Padre Eustáquio foi beatificado pelo papa Bento XVI, em 2005. Seu sepultamento foi trasladado para a Igreja dos Sagrados Corações, que ele iniciou a construir.




Entrevistador -Venerável Padre Eustáquio! Pelos Sagrados Corações, peço, antes de tudo, a sua bênção e a sua proteção.
Padre Eustáquio – Em nome de  Deus, e pela minha Congregação dos Sagrados Corações, será abençoado e protegido.
E – Graças a Deus! Amém!
PE – Graças a Deus!
E – Padre Eustáquio! Sua vida foi uma missão? A entrega de uma vida?
PE – Verdadeiramente, assim é. Quando um sacerdote decide entregar-se por uma causa a favor da humanidade, significa que ele tomou uma decisão para toda a sua vida. É a predominância da fé nos seus objetivos de vida.
E – E o senhor decidiu entregar a sua vida por uma causa de Deus e da humanidade!
PE – Isso mesmo! Eu, por minha vez, decidi a minha missão. O que eu iria prestar em serviços aos meus semelhantes? Foi uma decisão muito pensada e sofrida. Ter que abandonar a minha pátria, meus pais, meus familiares, todos e meus amigos fraternos. Sou de uma família de onze filhos. Eu era o oitavo. Nós nos amávamos muito.
E – E pesou mais a sua vontade de servir a Deus?
PE – Antevi a minha missão, entregando minhas mãos, meu corpo inteiro e, além disso, a minha própria alma, para ajudar pessoas em conflito, onde quer que estivessem.
E – E como surgiu essa força, essa convicção?
PE – Quando jovem estudante na minha pátria, Holanda, caiu em minhas mãos um livro sobre a biografia de um missionário belga da nossa Congregação, Padre Damião Veuster.
E – Sim! E o que tinha de especial esse padre Damião Veuster?
PE – Quando li os relatos do trabalho dele, da abnegação e entrega total â sua missão, houve um abalo no meu peito e eu me curvei fervorosamente.
E – E o que tinha feito o Padre Damião?
PE – Tão pouco aos olhos de muitos, ajudando pobres miseráveis, sem destino, que talvez não tivessem nenhum valor, sob o ponto de vista dos poderosos.  Tinha para Deus. Padre Damião seguiu por um caminho que o levaria à santidade. O missionário belga se entrega em ajudar uma população enferma na ilha do Havaí. Na época, um reinado carente, com alto índice de enfermidades, desde gripe à sífilis contraída ou hereditária, até a lepra.
E – E padre Damião entrou como voluntário?
PE – Nesse reinado, por comando das autoridades, os leprosos foram isolados numa ilha afastada, ilha de Molokai. Mais de 600 pessoas em estado de desespero. E famintas. Ilha de Molokai. O Havaí é hoje uma unidade incorporada aos EUA mas, na época, predominavam as enfermidades e o abandono.
E – Foram isolados, numa ilha afastada?
PE – A Royal Board of Health fornecia alimentos, mas não tinha condições de fornecer também medicamentos. Uma infelicidade generalizada. Todos condenados.
E – E Padre Damião? 
PE – Em 1865, foi colocado em missão na ilha do Havaí. O Monsenhor Louis Maigret, vigário apostólico, que protegia os leprosos, designou Padre Damião para assistir esses leprosos com os sagrados sacramentos e com os atos religiosos. Uma população segregada. Damião sabia que tal designação seria uma sentença de morte para ele.  Depois de muito pensar, Damião solicitou a sua designação para servir a Deus nessa ilha de Molokai.
E – E Padre Damião seguiu para Molokai?
PE – Damião chegou à ilha em 1873 e foi apresentado pelo Monsenhor Maigret como um pai para todos os moradores - “viverá e morrerá com vocês”. Isso foi. Damião assumiu essa paternidade total. Trabalhar sem saber por onde começar. Abriu tantas frentes de trabalho que nem imaginava resultados. Passou a construir um pequeno hospital, com a colaboração de um médico que tinha contraído a doença e se refugiou na ilha. Logo depois, uma capela, com a ajuda das mãos feridas dos leprosos. Uma  população revoltada. Nada podia ser diferente. Era uma população agressiva que matava por um punhado de arroz. Paz, apaziguar e manter clima de harmonia em princípio. Assim, incorporou a figura de pai, amigo, confidente, professor e representante de Deus. Foi realmente um pai para todos. Tornou-se mesmo mais que um pai e um irmão, procurando amenizar o sofrimento tanto quanto possível.
E – E aí morreu?
PE – Sim... mas antes disso, recebeu do Rei Kalakaua, do reino do Havaí, o título honorífico de Cavaleiro Comandante da Real Ordem. E, no dia que a Princesa Lydia Lili´uckalarti visitou a ilha para entrega da comenda, ela se comoveu tanto que não conseguiu ler o seu discurso. Padre Damião nunca usou essa medalha recebida.
E – Houve reconhecimento quanto ao seu trabalho?
PE – Sim... Nos EUA e na Europa – Hoje tem o título de Patrono Espiritual dos Leprosos do mundo inteiro. Era Jozef de Veuster, da Congregação dos Sagrados Corações, nascido em Tremelo, Bélgica, em 1840.
E – Um santo?
PE – Sim... Um santo. Dez anos depois de chegar a Molokai, num dia, colocou os pés numa bacia de água fervente. Nada percebeu. Foi constatada a contaminação da lepra. Ainda viveu por mais algum tempo sem abandonar a sua missão... Faleceu em 1889, nessa mesma ilha de Molokai. Era um missionário da minha Congregação, que tanto me emocionou e inspirou.   
E – Padre Damião foi assim admirado pelo senhor?
PE – Tornou-se meu ídolo inspirador. Tomei a decisão na minha vida, aliviar enfermidades e propor paz e harmonia entre as pessoas. Meu lema seria SAÚDE E PAZ. Vi que eu também poderia prestar algum serviço à humanidade. Qualquer pequena ajuda. Vi quão pequeno eu era diante do Padre Damião, diante da sua força e diante da sua convicção. Eu não era nada.
E – E o senhor era um jovem estudante na Holanda, nessa época.
PE – Eu era Humberto Lieshout, nascido em 1890, em Aarle Rixtel, Holanda. Iniciei o noviciado canônico em Tremelo, na Bélgica. Nessa época, adotei o nome de Eustáquio. Fiz votos de pobreza, castidade e obediência, como religioso da Congregação dos Sagrados Corações. Fiz votos perpétuos em 1919, após cursar Filosofia e Teologia na congregação e fui ordenado sacerdote.
E – Aí começa a sua vida sacerdotal?
PE – Sim. Inicialmente, comecei a prestar serviços em pequenas comunidades na região de Roterdam. Depois, atendendo refugiados belgas, vítimas do final da Primeira Grande Guerra de 1914/1918, até que fui designado para trabalhos na América do Sul.
E – E finalmente, o Brasil?
PE – Em 1925, chegamos ao Brasil. Éramos três sacerdotes, eu e os Padres Gil van den Boorgart e Padre Matias van Rooy. Dirigimo-nos a cidade de Uberaba, em Minas Gerais, a convite do Bispo Dom Antônio de Almeida Lustosa. Assumimos a pastoral do santuário episcopal e das paróquias de Nossa Senhora da Abadia, na cidade de Romaria da paróquia de São Miguel de Nova Ponte e Santana de Indianópolis, todas da Arquidiocese de Uberaba. Fiquei como vigário paroquial com prioridade para os serviços de atendimento às comunidades da região.
E – Uma comunidade rural de modestas aspirações?
PE – Uma comunidade afetiva e acolhedora. Aprendi muito e tive que me adaptar às circunstâncias. A atividade pastoral em Romaria, no início foi muito difícil. Pouco a pouco fomos nos acertando. Talvez uma descrença generalizada. Visitava os enfermos e pessoas que podiam me acolher com simpatia. Distribuímos fé e amor a Deus. Se as pessoas não vinham a mim eu iria a elas. Consegui mais do que esperava e reuni esforços em várias comunidades distantes. Montava a cavalo e viajava por todos os lados. Tive sucesso. Prestei alivio a pessoas em conflito físico e espiritual. Tudo era distante e as comunicações eram precárias.
E – Consta que o senhor era ágil, dinâmico e acolhedor. Atendia até mordida de cobra?
PE – Isto aconteceu. Comunidade rural, sem médicos ou medicamentos. Estava eu, cavando um local a procura de areia especial para algum aproveitamento a dores, quando fui chamado para dar os últimos sacramentos a um rapaz da região que tinha sido mordido por uma cobra e estava em estado terminal. Peguei o cavalo e fui disparado para o local. Manoel estava sem ar, perna roxa, suando frio, praticamente sem consciência. Lembro-me bem! Pedi que todos se afastassem do quarto. Tirei um bisturi da minha bolsa de couro e fiz um incisão no local da marca dos dentes da cobra. Perna roxa e inchada. Jorrou um sangue preto. Limpamos tudo. Coloquei minha boca nesse local e aspirei uma boa quantidade de sangue. Manoel, um belo rapaz, foi salvo, graças à vontade de Deus.
E – Mas o senhor já tinha dado bênçãos milagrosas a outros paroquianos em dificuldades e doenças.
PE – Sempre procurei atender e pedir a Deus por eles. Muitas vezes fui atendido.
E – Mesmo assim, depois de tanto trabalho, a Congregação aceitou a sua transferência para a cidade de Poá, em São Paulo.
PE – Meu voto de obediência exigia esse caminho diferenciado. Mas a população de Romaria não permitiu. Tudo fez para impedir a minha saída. Até o bloqueio de estrada de acesso. Finalmente, uma festa de despedida. E o caso de um crime abalou a cidade. Saí discretamente mas deixando a população entristecida, sei disso.
E – E o que encontrou em Poá?
PE – Tudo diferente. Uma paróquia nova, grande e confortável. Comunicação rápida. Tudo diferente em termos, pois a população era sofrida pelo trabalho nas indústrias e como hortigranjeiros. Atendia de forma diferenciada. Comecei a visitar enfermos e pessoas em dificuldades. Houve, em pouco tempo, uma procura desproporcional às minhas possibilidades de atendimento, principalmente pela água milagrosa que eu trouxera da cidade de Lourdes - França. Depois, pela fonte construída em homenagem a Lourdes. Houve curas a meu pedido. Houve distúrbio e pessoas de outras regiões acorriam às minhas bênçãos e ao meu atendimento. As autoridades eclesiásticas não queriam isso. Obrigaram-me ao recolhimento. Impediram que eu aparecesse para os paroquianos. Tudo tão estranho e desconfortável para mim. Isso fez com que pedissem meu afastamento. Passei um tempo de desconforto e de humilhação. Estava mesmo em desespero. Por que Deus me daria esse castigo? Meditei, viajei, sofri em desamparo. Talvez me afastar do país? Portugal me acolheria? Finalmente, fiz uma carta a meu amigo, Dom José Gaspar de Affonseca e Silva, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, relatando meu estado de desespero e humilhação e disposto a continuar o exercício paroquial em qualquer outra comunidade do estado de modo como ele julgasse apropriado. Dom Gaspar respondeu que seria inviável a minha permanência no estado, para evitar aglomerações e atividades que poderiam ocasionar até advertências do Sumo Pontífice e coisas assim. Estaria eu livre para ir para onde quisesse.
E – Era manifestação das autoridades eclesiásticas e não as do povo.
PE – Sim, mas o povo era a causa. Pensei que pudesse ser até uma contradição entre as autoridades que buscam o povo e depois, tenta afastá-lo.
E – E o senhor?
PE – Meu voto de obediência foi preservado. Procurei caminhos. Todos se fecharam. Eu era então um sacerdote rejeitado. Que fazer da minha vida? Por que Deus me deu um poder e ao mesmo tempo me tolhe e me angustia? Chegou finalmente a ordem para que eu me afastasse imediatamente, mesmo considerando que era tarde da noite quando recebi a comunicação. Obediência mesmo sem ter tempo de acabar de ler o meu breviário. Assim mesmo.
E – Que decisão?
PE – Que decisão? A quem recorrer? Não podia também prejudicar a imagem da minha Congregação. E meus amigos? Apareceu o Padre Gil. Confabulamos e traçamos planos em várias tentativas de acerto. Mais erros e decepções. Finalmente, uma luz. Padre Gil articulou-se com o Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral e me foi oferecida uma paróquia de subúrbio da cidade, ao redor de um hospital de tuberculosos, o Sanatório Alberto Cavalcanti.  Uma capela distante, de difícil acesso num bairro despovoado. Além de tudo com uma lista de recomendações. Aceitei tudo de pleno coração. Encontrei-me em casa.
E – Nova vida?
PE – Assim foi. Iniciei minhas atividades em Belo Horizonte, em 9 de abril de 1942,  e agi de acordo com as circunstâncias. Aos poucos fui crescendo e a comunidade foi chegando a mim. E foi chegando tão inesperadamente que alguns meses depois, Dom Cabral me pediu que esquecesse daquelas recomendações que tinha feito.
E – O povo acolhia as suas bênçãos!
PE – Sim... Vinham pessoas de várias regiões, inclusive de São Paulo mesmo. Assim foi, até que o atual prefeito da cidade, doutor Juscelino Kubitschek de Oliveira doou um terreno para a construção da Igreja dos Sagrados Corações. A pedra fundamental foi abençoada pelo próprio Dom Cabral, em 16 de maio de 1943.
E – Missão interminável?
PE – Percorria as ruas a pé, pelas trilhas e pelas montanhas da cidade, onde quer que os enfermos se encontrassem, até que em meados do mês de agosto, o enfermo fui eu mesmo. Não havia medicamentos para a febre tifo que tinha contraído e esperei com ansiedade o meu fim. Queria tanto despedir-me do meu amigo e confrade, padre Gil. Ele custou a aparecer. Quando ele surgiu na minha porta, em 30 de agosto de 1943, disse-lhe apenas – “Padre Gil, como demorou a chegar!”. E me despedi. Finalmente, me despedi.
E – Uma vida inteira, uma bandeira de Saúde e Paz! Não foram termos abstratos mas traduzidos em ações imediatas e contínuas. Mais ações e menos palavras.
PE – Padre Damião, Santo Padre Damião do Molokai, foi meu conselheiro em todas as horas. Tão pequena e leve foi a minha missão, mas dediquei todo meu esforço em interceder com a Divina Providência, para aliviar o sofrimento físico e espiritual dos meus semelhantes. Nada mais.
E – Novamente, peço a sua bênção, Venerável e Santo Padre Eustáquio! Reafirmo, perante a humanidade, que o senhor teve o dom de trazer alívio e tranquilidade para tantas pessoas que o procuraram, mediante a sua santidade,  e que tantos e silenciosos milagres realizou. O senhor não se referiu nem uma vez, nesta entrevista, a qualquer feito glorioso que tivesse realizado. Tudo guardado no seu coração, como se nada tivesse acontecido. Pelos Sagrados Corações, descanse em paz.


Referências Bibliográficas
Andrade, José Vicente. Venerável Padre Eustáquio. Congregação dos Sagrados Corações. Belo Horizonte, 2004
http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20060615_eustaquio_po.html
http://evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT&module=saintfeast&id=12527&fd=0
http://padreeustaquio.org.br/
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...