sexta-feira, 27 de março de 2020

SOMATOGNOSIA? COMO SOU EU?


A visão ou reconhecimento do próprio corpo é o que revela esta palavra misteriosa que vive nos porões da fisiologia humana.


Nunca me vi, como vou saber quem sou eu, diz o Duque, meu cão fila de estimação. Mas o Cauli, o pequenez encrenqueiro, sabe que o Duque é da sua espécie, apesar de ter crescido demais.
Assim, gira a fauna terrestre. Nenhum animal pode dizer que ele é feio ou bonito, porque ele nunca viu a sua própria cara ou o seu próprio corpo. Como é que o Duque vai saber que ele é um cão? Mesmo assim, acontece com todos os animais dessa selva diversificada e abrangente. Agregam-se os animais, por espécies ou raças, uns aos outros que têm os mesmos interesses e preferências pessoais, se admiram, se divertem  ou se combatem, se acasalam e formam as suas famílias, ou seus arrastões.
Um pássaro qualquer, mesmo sem reconhecer a sua identidade, levado do Brasil para a Argélia, encontra lá os seus pares. Eles nunca se viram num espelho e se identificam com CPF e tudo mais. Falam a mesma língua e se comunicam livremente, na maior intimidade. Será que eles estão por dentro das recomendações do grego, Sócrates, (479 – 399) a.C. de “conheça-te a ti mesmo”?
Por outros caminhos, o ser humano tem espelhos mas dificilmente se conhece. Muitas vezes se julgam maiores ou menores, mais feios ou bonitos.
Dorian Grey apunhalou o seu retrato de jovem e de ilustre beleza, de jovem amado por todos e todas. Não aceitou as transformações que a velhice impôs a seu tipo de homem admirado. Não aceitou isso. O conhecimento do corpo, do próprio corpo, causa perplexidade. Eis a verdade do (Gnorízete tó autó), conheça-te a ti mesmo.


O espelho não é suficiente e nem eficaz. O que existe, por detrás dessa imagem, a mente não diz. Eu me vejo assim, mas como os outros me vêem? Há discrepâncias de percepções que não são contabilizadas. Eu me vejo de uma forma e as pessoas, em particular, podem me ver de forma diferente do que eu me imagino.
Essa crueldade de desinformação ainda pode causar maiores danos. Por que motivo o corpo atrai  ou repele interesse de outros. Como reconhecer os pontos nevrálgicos? E a miss Brasil reconhece o grau ou nível de atração de seu corpo? Existe uma aura que vagueia sobre a sua cabeça? Existe um odor, um feromônio envolvendo ou repelindo? Como uma pessoa pode saber se ela não conhece o seu próprio corpo? Mesmo assim, o corpo fala mais alto. Mesmo com todos os espelhos da vida, a somatognosia ainda esconde os seus segredos para si mesma.


domingo, 8 de março de 2020

AUDIOLIVRO JK - BRASÍLIA


Coletânea com 3 audiolivros sobre JK e a Construção de Brasília 


Um dos presidentes mais populares da história do Brasil. Escolhido como o primeiro e maior estadista brasileiro do século XX. Juscelino foi, sem dúvida, uma personalidade de alto nível de habilidade no tratamento interpessoal e desenvolvimentista por natureza. Nunca teve como meta o reconhecimento de sua obra. Sua vida foi uma missão. Cumpriu-a. Era um ser humano que sentia e respirava o respeito e a amizade, acima de tudo. Era preciso ousar, e JK ousou ao anunciar seu programa de governo – 50 anos de progresso em 5 anos de realizações, com pleno respeito às instituições democráticas.


Vídeo 1 = Porque Construí Brasília - 44:40min
Vídeo 2 = Como Construí Brasília - 50:13min
Vídeo 3 = Inauguração de Brasília - 42:27min






terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

JK RELATA SUA MORTE

Jornal da Tarde -O estado de São Paulo- agos/1976

Um dos presidentes mais populares da história do Brasil morreu misteriosamente num acidente, quando lutava pela redemocratização do país. Dúvidas surgidas naquela tarde nunca foram esclarecidas. Poderia tratar-se não de acidente, mas de atentado?


Eis um relato virtual do ex-presidente Juscelino Kubitschk de Oliveira, sobre os acontecimentos de sua própria morte. 

No dia 22 de agosto de 1976, uma tarde de domingo, eu viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro em companhia do meu amigo e motorista, Geraldo Ribeiro quando, no quilômetro 165 da via Dutra, fui vítima de um acidente, com uma fechada de um ônibus da empresa da Viação Cometa. Isso obrigou o Geraldo a sair da pista e colidir com uma carreta que vinha em sentido contrário. Foi um acidente fatal para mim e para o Geraldo, com morte imediata. Nada mais sei. 
Estive em São Paulo na casa da revista Manchete, a convite do meu amigo Adolfo Bloch. Foi ele um amigo até os meus últimos momentos. Faltavam 20 dias para eu completar 74 anos de idade. 
Fui exposto nas mesas de um bar para constatação geral. O corpo do motorista Geraldo foi colocado num caixão de alumínio e lacrado. Parecia já preparado. Depois, meu corpo foi transportado para o Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro. Em seguida, fui removido para o saguão do Edifício Manchete. Sarah e as nossas filhas Márcia e Maristela chegaram ao amanhecer. Os meus amigos começaram a chegar, logo após. O povo já cantava a canção “Peixe Vivo”. Ao meio-dia de 23 de agosto, o cortejo seguiu a pé até ao Aeroporto Santos-Dumont. O meu caixão estava coberto com a bandeira do Brasil. Fui transportado nos ombros do povo do Rio de Janeiro, num percurso que durou mais de uma hora. Ao chegar ao aeroporto, o povo aplaudia emocionado. 

Despedida de JK nos braços do povo - foto: arquivo CB

Finalmente, segui para Brasília! Às 16 horas o BOING PP – VLT da VARIG chegava a Brasília. O povo, emudecido, viu abrirem-se as portas do avião. Silêncio total de 30.000 pessoas que aguardavam no aeroporto.  Aguardando o corpo, estava uma “Kombi”, junto ao BOING, coberta com a bandeira do Brasil. As portas do avião se abriram e apareceu um funcionário da empresa. Fez o sinal-da-cruz.  Meu corpo foi colocado na “kombi” por Ulisses Guimarães e outros amigos diletos. O povo aplaudia sem cessar e sem saber se chorava ou se cantava o “Peixe-Vivo”, desde as 13 horas. Grupos se reuniam, informalmente, em corais emocionantes. O cortejo seguiu lento! 4.000 automóveis! Fila interminável até à Catedral Metropolitana de Brasília, a 20 km de distância! 40 jovens motociclistas, com blusões pretos portavam faixas. O esquife entrou na Catedral, carregado pelo povo. A Catedral era flores e candangos! Eles construíram e agora entraram! Por mais estranho que pareça, estavam felizes por estar perto de mim! Havia centenas e centenas de coroas! Estavam bonitas, no começo. Depois, esses amigos candangos, que não tinham dinheiro para comprar flores, foram arrancando as mais bonitas e jogando sobre o meu caixão. Os cordões de isolamento eram enormes! Uma senhora disse para um militar: “os senhores estão isolando o quê? Tem alguma coisa aqui para ser isolada? Nós viemos buscar o nosso presidente no maior respeito que ele merece! Já não chega esse isolamento de tantos esses anos? Vamos! Tirem essa corda que eu vou passar!” Os taxistas não cobravam as corridas e abaixaram os taxímetros Não cobravam de nenhum passageiro! A missa foi celebrada pelo Arcebispo dom José Newton, pelo Núncio Apostólico Dom Carmine Rocco e mais 25 padres, iniciando às 17h15. Quase não houve missa. Ela foi várias vezes, interrompida por palmas, hinos, lamentações e choro! Do lado de fora, o povo se comprimia com gritos de JK! JK! JK! Sarah pronunciou algumas palavras, recebidas entusiasticamente pelo povo. Pedia calma e prudência! O povo atendeu por alguns momentos, mas, logo depois, era revivida a situação de desespero geral. 

Grupo de motociclista acompanha o cortejo de JK - foto: Fernando Bizerra

Um grupo de índios xavantes de Mato Grosso conseguiu chegar até perto do caixão, colocado bem debaixo dos anjos de Ceschiatti. Um candango, de alma pura, perguntou? “Ele vai ser enterrado?” Fazia sentido essa pergunta? Eram seis horas da tarde quando o meu caixão foi retirado da Catedral. Seria colocado num carro vermelho estacionado. Aí, o povo, os candangos não permitiram e me carregaram nos ombros calejados. O caminho é longo! Vários quilômetros! Mas, em pleno transe, ninguém pensava nisso. Alucinação. Tinha o meu destino: “deitar-me para dormir em paz!” O percurso foi longo e sofrido. Finalmente, de madrugada, na hora das serestas, cheguei ao CAMPO DA ESPERANÇA. Fui sepultado ao lado do meu amigo Bernardo Sayão e a 150 metros do Candango Desconhecido, já horas altas dessa madrugada, no raiar do dia 24 de agosto, sempre carregado pelo povo que não sabia se cantava ou se chorava ou se fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Foi isso. Foi assim que me contaram em cartas. Nada mais, penso agora. Ninguém transmitiu pela televisão essas cenas, por falta de coragem ou por imposição, dita legal. 

Aglomeração de milhares de pessoas  na Esplanada para se despedir do ex-presidente JK , o pai de Brasília-  foto: Arquivo CB

Agradeço de coração, mais uma vez, esta derradeira oportunidade de falar ao meu povo! Agora, simplesmente faço parte da história. As minhas palavras revelam muito pouco de tantos acontecimentos da fase da amargura da minha vida. As gerações futuras hão de prosseguir estudos e pesquisas para elucidar fatos que passaram encobertos. Sou grato ao meu povo. Tudo que fiz teve a marca da minha alegria e da festa de minha vida. O sofrimento foi temporário. Fica indelével a mensagem que escrevi quando visitava o planalto central pela primeira vez e impressa, depois, em placa, no Palácio da Alvorada: 

DESTE PLANALTO CENTRAL, 
DESTA SOLIDÃO QUE EM BREVE SE TRANSFORMARÁ 
NO CÉREBRO DAS ALTAS DECISÕES NACIONAIS, 
LANÇO OS OLHOS, 
MAIS UMA VEZ, 
SOBRE O AMANHÃ DO MEU PAÍS 
E ANTEVEJO ESTA ALVORADA, 
COM FÉ INQUEBRANTÁVEL 
E UMA CONFIANÇA SEM LIMITES 
NO SEU GRANDE DESTINO. (JK) 


DECRETO DE CASSAÇÃO DO MANDATO E DOS DIREITOS POLÍTICOS D SENADOR JUSCELINO KUBITSCHEK DE OLIVEIRA 
Fonte: Diário Oficial, Seção I, Parte I, 8 de junho de 1964. 

Ministério da Justiça e Negócios Interiores 

DECRETO DE 8 DE JUNHO DE 1964 

O presidente da República, no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo parágrafo único do artigo 10 do Ato Institucional de 9 de abril de 1964 e tendo em vista a indicação do Conselho de Segurança Nacional, resolve Cassar o mandato legislativo e suspender os direitos políticos por dez anos do senador Juscelino Kubitschek de Oliveira. 

Brasília, 8 de junho de 1964; 143º da Independência e 75º da República. 

H. Castello Branco 
Milton Soares Campos 



BIBLIOGRAFIA
BOJUNCA, Cláudio, O artista do imossível, Objetiva, RJ, 2001
JARDIM, Serafim, JK onde está a verdade?, ed. Vozes, Petrópolis, 2a. edição, RJ, 1999
COUTO, Ronaldo Costa, Brasília Kubitschek de Oliveira, ed. Record, RJ, 2001
KUBITSCHK, Juscelino, Por que construí Brasília, Bloch Editores, RJ, 1975
KUBITSCEK, Juscelino, Meu caminho para Brasília vol III – 50 anos em 5, Bloch Editores, , RJ, 1975
OLIVEIRA, Carlos Alberto Teixeira de, Cinqüenta anos de progresso em cinco anos de governo, ed. Mercado Comum, Belo Horizonte, 2006
NEVES, Aécio, Juscelino a oportunidade e a virtude, in Cinqüenta anos de progresso em cinco anos de governo, Mercado Comum, pág. 217-228, Belo Horizonte, 2006
BAGGIO, Marco Aurélio, Juscelino Kubitschek sua excelência, editora B, Belo Horizonte, 2005
NETO, João Pinheiro, Juscelino um caso de amor, Mauad editora, RJ, 1994
VAZ, Allisson Mascarenhas, Israel, uma vida para a história, Cia Vale do Rio Doce, RJ, 1996



sábado, 22 de fevereiro de 2020

JUSCELINO KUBITSCHEK - O ESTADISTA DO SÉCULO XX

Tornou-se incontestável pela história contemporânea o reconhecimento de que JK representa, com segurança e unanimidade, o título de cidadão do século, no Brasil.


A confirmação foi feita pela revista, Isto é, de dezembro de 1999, mediante opinião de 30 personalidades da vida pública brasileira, tendo sido editada no número 1574, em separado. O júri indicou 30 nomes e foram classificados 20 deles. Jk foi escolhido como o primeiro e maior estadista do século. Não há especificação da metodologia utilizada, mas ficaram também classificados, por ordem de escolha, Getúlio Vargas, em segundo lugar, Ulisses Guimarães, em terceiro e Tancredo Neves em quarto. Seguem-se, por ordem de escolha, as seguintes personalidades: Luiz Carlos Prestes, Betinho, Marechal Cândido Rondon, Barão do Rio Branco, Jânio Quadros, João Goulart, Fernando Henrique Cardoso, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Castelo Branco, Teotônio Vilela, Brig. Eduardo Gomes, Luiz Inácio Lula da Silva, Oswaldo Aranha, Campos Sales e Rodrigues Alves.
Juscelino foi, sem dúvida, uma personalidade de alto nível de habilidade no tratamento interpessoal e desenvolvimentista por natureza. Disse ele, uma vez, que “não tenho vocação para obras pequenas”. Um episódio, muito simples, pode confirmar esta característica do estadista. Quando era governador do estado de Minas Gerais, foi convidado pelo secretário de Estado da Agricultura para um evento onde se distribuiriam 40 mil enxadas. JK, ao fazer um comentário, disse ao secretário: “Pensei que fossem distribuir 40 mil tratores”.
E quando era prefeito de Belo Horizonte, na década de 40, contratou mais de mil carroceiros, com seus respectivos burros, para abrir as avenidas Amazonas e Antônio Carlos. Projetou essas avenidas com 50m de largura. Agora, 50 anos depois, num grande esforço, o governo estadual conseguiu o alargamento da av. Antônio Carlos para 25m de largura. Eis a visão de futuro.


Av. Amazonas com destaque da Praça Raul Soares- BH anos 40. fonte curraldelrei.blogspot

JK sabia ouvir. E ouviu o jovem Tuniquinho, em Jataí, no estado de Goiás, quando fazia um discurso político em 1955. Tuniquinho perguntou: “É possível seguir a Constituição do país, transferindo a Capital da República para o planalto central? O senhor prometeria fazer isso?” JK tomou um susto e num átimo de decisão, não teve alternativa e prometeu e cumpriu. Para a inauguração de Brasília, Tuniquinho não foi esquecido.
Juscelino conhecia os operários, construtores de Brasília, os candangos, pelo nome. Conversava e aplaudia cada um deles.
Juscelino chorou a morte do engenheiro Bernardo Sayao, bravo sertanista, fiel pioneiro, ex-vice-governador do estado de Goiás, encarregado da construção da estrada Belém/Brasília, tolhido por ocasião da derrubada de uma árvore.
Mais tarde, JK teve a permissão de comparecer ao velório de sua irmã, Naná, única e amada irmã, quando estava em exílio político e não poderia voltar ao país, sem ser preso. Chegou, o mais camuflado possível, para que ninguém o reconhecesse. Era impossível. Por onde passava, recebia abraços e cumprimentos de tantos que o admiravam. Com dificuldade, chegou ao lado da irmã, falecida. Meditou e conseguiu um minuto de silêncio. Houve um momento de silêncio total, de respeito ao ambiente. JK meditou a sua vida, seu sofrimento, sua amargura. Pensou na sua vida de criança pobre ao lado da irmã e não suportou. Teve uma primeira lágrima caída. Depois outra. Enfim, não suportou e teve um choro convulsivo que não terminava. Por fim, chorou mesmo tudo que tinha que chorar. Foi um desabafo.
Cumpria a sua missão de vida. Fazia a sua parte. Nunca teve como meta o reconhecimento de sua obra. Sua vida foi uma missão. Cumpriu-a. Era um ser humano que sentia e respirava o respeito e a amizade, acima de tudo.



terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A FONÉTICA LUSO BRASILEIRA

Toda gramática tem por objeto cuidar da morfologia, da sintaxe e da fonética, na normalização de um idioma. Assim a fonética é uma das vertentes do estudo da gramática 




A FONÉTICA 

Trata-se de ponto fundamental de um idioma. A fala constitui o meio de comunicação entre as pessoas de uma região ou país. A língua escrita obedece a normas rígidas no arranjo das palavras para formar um pensamento. O vocabulário é a base. E a fonética? 
A fonética, isto é, a fala, é um idioma vivo, transferível por contaminação. Mutável e adaptável. Sem lei. Assim o foi na transformação do latim em línguas românicas. Cada uma delas com suas características especiais, mas resguardando-se a origem ou propriamente a sua paternidade. Daí, do Latim Vulgar, latim do povo, latim mal-falado, latim diversificado, surgiram o português, o francês , o italiano, o espanhol, o, catalão, o galego, o provençal e o romeno. São chamadas de línguas latinas. 

E o que acontece com o idioma português? 

Estruturalmente está firme nas reformas ortográficas e na preservação da sintaxe. O vocabulário sobrevive. A fonética caminha num barco sem timoneiro. Para onde?  Em qualquer idioma, a fonética é a disciplina que analisa como produzir e perceber os sons criados pelo sistema vocálico.  É o estudo da fala. Envolve: 
A acústica, que estuda as características físicas dos sons que compõem a fala, a fonética auditiva, o estudo dos processos que são realizados por quem recebe e interpreta a onda sonora. 
A fonética é representada pelo Alfabeto Fonético Internacional(AFI), um sistema de notação baseado no alfabeto latino. A ideia, por trás da criação do AFI, é a de se definir símbolos fonéticos que possam ser compartilhados por mais de um idioma, simplificando o aprendizado de línguas. 
Os caminhos da Língua Portuguesa falada são vários. Observe-se que não se fala como escreve e nem escreve como se fala. O povo cria as suas maneiras próprias de falar o seu idioma, e a cultura local interfere nesse caminho. 
O português falado no Brasil, com 210 milhões de habitantes, carrega a língua portuguesa, sem dúvida. Hoje, o português falado em Portugal difere em várias regiões do Brasil. Em princípio, no Brasil, preservam-se as vogais nas articulações, com aproximação à língua italiana na formação dos fonemas ou sons. A interjeição “Ah” tem um só fonema. “Ca/za” tem dois fonemas. 
  •  O brasileiro gosta de vogais. Portugal valoriza as consoantes, aproximando-se mais da língua francesa. (esperança ou sprança). Procura-se eliminar as vogais. 
  • Na filologia, de outra forma, no final de todas as palavras, a vogal “E” tem som de I. Pense em termos como: alface, doce, alegre e até nomes próprios como Liliane. 
  • Da mesma forma, no final das palavras, a letra “O” é pronunciada como “u”, (contu); Monteiro (Monteiru); século (séculu), mas permanece quando são acentuadas: (Maceió, avô e avó.) 
  • A letra “L” assume também divergências. Nos dialetos ou regionalismos, assume vários sons diferentes, como (carnavau, Brasiu, carma ou caima, calma. (Influência do Nhengatu, língua do tronco Tupi). 
  • A letra “R” vem com suas características. No fim das palavras pode aparecer com sonato caipira ou gutural ou desaparecer, como corrê, brincá.
  • A letra “S” pode soar como x ou z (casa) 
  • A letra “X” é a mais versátil. (exame, blindex, enxame, exportação, táxi) 
E a nasalização? O Nhengatu era um idioma fortemente nasalizado. O brasileiro recebeu essa herança.A nasalização é a vocalização que sai do nariz, principalmente com as letras “M e N”. irmã, manhã. Outro caso em que a nasalização é uma parte importante da pronúncia das palavras é quando elas levam o acento til (~), (manhã, irmã) .

Tente ler em voz alta os textos abaixo, como teste de hiper nasalidade; tampando o nariz com dois dedos: 

“Os homens estão sempre descobrindo luas em torno de planetas, distantes em muitos sistemas planetários. Mas, muitas luas são descobertas em torno de numerosos planetas".

“O gato espreguiçou-se e estirou-se sobre o sofá. Paulo, que saía, ao vê-lo, recordou que precisava deixar-lhe água, pois logo precisava sair e a tigela estava vazia.” 


Variação linguística – A língua em movimento 

É um fenômeno que acontece com a língua e pode ser compreendida por intermédio das variações históricas e regionais.  Em um mesmo país, com um único idioma oficial, a língua pode sofrer diversas alterações, feitas por seus falantes. Como não é um sistema fechado e imutável, a língua portuguesa ganha diferentes nuances. (Obs. O Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho Melo (1699 – 1782), em 1758, por decreto, oficializou obrigatória a Língua Portuguêsa nas colônias). Proibiu o Nhengatu. 
No português que é falado nas unidades da Federação ou cidade ou núcleo habitacional surgem as línguas especiais de profissionais e as gírias, alem dos dialetos. Cada dia a língua brasileira e a portuguesa, foneticamente vão se diversificando. Claro que um idioma une um povo, mas as variações podem ser consideráveis e justificadas de acordo com a comunidade na qual se manifesta. 
As variações acontecem porque o princípio fundamental da língua é a comunicação oral, então é compreensível que seus falantes façam rearranjos de acordo com suas necessidades comunicativas, porque são os verdadeiros donos da língua. Os diferentes falares devem ser considerados como variações, e não como erros. Se se tratarem como erro estas variações, incorre-se no preconceito lingüístico, associado ao status das pessoas. O português falado em algumas cidades do interior do Brasil pode ganhar estigma pejorativo de incorreto ou inculto, mas, na verdade, essas diferenças enriquecem esse patrimônio cultural, que é a própria língua portuguesa 

Samba do Arnesto
Adoniran Barbosa 

O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Nós fumos não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez nós num vai mais
Nós não semos tatu!
No outro dia encontremo com o Arnesto
Que pediu desculpas mais nós não aceitemos
Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa
Mas você devia ter ponhado um recado na porta
Um recado assim ói: "Ói, turma, num deu pra esperá
Aduvido que isso, num faz mar, num tem importância,
Assinado em cruz porque não sei escrever. 

Há, na letra da música, um exemplo interessante sobre a variação linguística. E se cada pessoa decidisse escrever como fala? Um novo idioma seria inventado, alterando a gramática e todo o sistema linguístico, determinado pelas regras, que cairiam por terra. Mas a fonética tem pouca ação dentro das gramáticas normativas da língua. Contudo, o que o compositor Adoniran Barbosa fez pode ser chamado de “licença poética”, já que ele transportou para a modalidade escrita a variação linguística presente na modalidade oral. As variações linguísticas acontecem porque são livres e vivas, crescem e florescem. O meio sociocultural fala mais alto. A gramática faz vistas grossas. 

Moda da Pinga 
Inezita Barroso 

Co'a marvada pinga é que eu me atrapaio / Eu entro na venda e já dô meu taio 
Pego no copo e dali num saio / Ali mesmo eu bebo, ali mesmo eu caio 
Só pra carregá é queu dô trabaio, oi lá! 
Venho da cidade, já venho cantando / Trago um garrafão que venho chupando 
Venho pros caminho, venho trupicando /Chifrando os barranco, venho cambeteando 
E no lugar que eu caio já fico roncando, oi lá! 
O marido me disse, ele me falô / Largue de bebê, peço pro favor 
Prosa de home nunca dei valor / Bebo com o sor quente pra esfriá o calô 
Se bebo de noite é pra fazer suadô, oi lá! 
Cada vez que eu caio, caio deferente / Meaço pra trás e caio pra frente 
Caio devagar, caio de repente / Vou de currupio, vou deretamente 
Mas sendo de pinga eu caio contente, oi lá! 
Pego o garrafão é já balanceio / Que é pra mode vê se tá mesmo cheio 
Num bebo de vez por que acho feio / No primeiro gorpe chego inté no meio 
No segundo trago é que eu desvazeio, oi lá! 
Eu bebo da pinga porque gosto dela / Eu bebo da branca, bebo da amarela
Bebo no copo, bebo na tigela / Bebo temperada com cravo e canela 
Seja quarqué tempo vai pinga na goela, oi lá! 
Eu fui numa festa no rio Tietê / Eu lá fui chegando no amanhecê 
Já me deram pinga pra mim bebê / Já me deram pinga pra mim bebê, tava sem fervê, oi lá! 
Eu bebi demais e fiquei mamada / Eu caí no chão e fiquei deitada 
Aí eu fui pra casa de braço dado / Ai de braço dado é com dois sordado 
Ai, muito obrigado! 


A moda da mula preta
Luiz Gonzaga 

Eu tenho uma preta com sete palmo de altura 
A mula é descanelada / Tem uma linda figura, ai, ai, ai 
Tira fogo na calçada / No rampão da ferradura, ai, ai, ai
Com uma morena delicada / Na garupa faz figura, ai, ai, ai
A mula fica enjoada / Pisa só de ancadura (bis) 
O ensino da criação / Veja quanto que regula, ai, ai, ai,
O defeito do mulão / Eu sei que ninguém calcula, ai, ai, ai,
Moça feia e marmajão / Na garupa, a mula pula, ai, ai, ai, 
Eu fui passear na cidade / Só numa volta que eu dei, ai, ai, ai,
A mula deixou saudade / No lugar onde passei, ai, ai, ai, 
Pro mulão de qualidade / Quatro conto eu injeitei, ai, ai, ai,
Pra dizer mesmo a verdade / Nem sastifação eu dei, ai, ai. 
Fui dizendo boa tarde, pra minha casa voltei/ ai,ai,ai

Assim, as divergências regionais campeiam. Chega-se a pensar que há um outro idioma parecido com a língua portuguesa falada em Portugal. Mesmo a língua culta, falada no Brasil, tem suas características muito acentuadas. Hoje pode-se dizer que, foneticamente, há grandes diferenças entre Brasil e Portugal. Daí, para onde vai essa diversidade fonética da língua portuguesa? A população de Portugal, em 2019, é de 10.190.160 habitantes. O Brasil conta com vinte vezes mais a população de Portugal. 



Referências 
Boone,David R. Sua voz está traindo você.Ed. Artes médicas sul ltda.Porto Alegre, RS, 1991. 
MEDEIROS, Adelardo.  A Língua Portuguesa. Disponível em: http://www.linguaportuguesa.ufrn.br/pt
Rocha Lima. Gramática normativa na Língua Portuguesa. Briguiet & Cia. Editores, RJ 1957.
Said Ali – Gramática Histórica da Lingua Portuguesa.
Serafim da silva Neto, Fontes do Latim vulgar

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