sexta-feira, 17 de agosto de 2012

ALEIJADINHO - ENTREVISTA VIRTUAL

ALEIJADINHO
Antônio Francisco Lisboa
Escultor, Entalhador, Santeiro
.
A obra desconhece ou não quer saber se o artista padeceu na criação. Ela tem que falar por si mesma.

 Autor:Rogério de Alvarenga

Apresentação
Nas frias madrugadas de Vila Rica, hoje Ouro Preto, Minas Gerais, carregadas de brumas orvalhadas, ia Antônio Francisco Lisboa no seu burro velho, viajando sonolento pelas ruas tortas e íngremes da cidade. Assim se dirigia todo dia para o seu local de trabalho, onde quer que fosse.
Enfiava-se nas camisas de longas mangas, no seu paletó surrado, nas botas, no chapéu abanado e ainda, na grande capa que encobria também seu burro paciente e amigo. Dobrava a gola de seu paletó, como se fosse simplesmente uma proteção contra o frio cortante das manhãs serenas.
Não queria que ninguém o visse. Não queria ver ninguém. Não por maldade ou malquerer. Simplesmente magoado com as desditas, com tristeza profunda e irremediável.
A natureza transformou-o por completo e tirou as suas expressões humanas, substituindo-as por deformidades. Violentou-o em todas as partes de seu corpo. Seu rosto transfigurou-se. Sua fisionomia era incapaz de abrir um sorriso amistoso e fraterno para quem quer que fosse. Não por vontade própria, mas por imposições cruéis da natureza.
Entretanto, atrás desse vulto deformado e triste, havia um gênio da arte de esculpir e entalhar que, com suas obras, romperia os séculos como o expoente máximo das artes do século XVIII, como expressão referencial para o mundo.
Eis, pois, conosco, trazido pelas circunstâncias mais pungentes e dolorosas, a expressão da cultura mineira. Veio para uma conversa franca e decidida.
Ele relutou em vir. Veio mais como uma obrigação natural de artista, do que por dinheiro, por fama ou por prestígio. Nada disso tem mais valor para ele. Veio como se fosse um trabalho a executar com perfeição e arte. Veio, finalmente, como um dever a cumprir e, como sempre, com sofrimento. Nada mais. Assim, está conosco, em pessoa, o escultor, o entalhador, o santeiro, Antônio Francisco Lisboa.

Entrevistador 
Mestre Antônio Francisco Lisboa! Os nossos cumprimentos mais calorosos! É uma satisfação e uma honra poder vê-lo hoje conosco, para uma entrevista exclusiva.
Antônio Francisco Lisboa - Aleijadinho
Não digo que esteja aqui por um momento de satisfação, de uma honra ou de qualquer dispositivo semelhante. Estou aqui por sofrimento, cumprindo um dever da arte, como sempre o fiz.
Entrevistador - Peço desculpas pelo constrangimento, mas, como o senhor mesmo sabe, tornou-se um artista de renome internacional, pelo seu trabalho, pela sua técnica, pela sua habilidade e finalmente pelo seu destemor frente às imposições da vida.
AFL - A vida me tem sido cruel desde o dia que nasci.  Mesmo assim, nunca me intimidei com as adversidades e procurei cumprir as minhas obrigações e me dedicar exclusivamente ao trabalho.
E - E as suas obras são conhecidas pelo mundo afora.
AFL - São apenas expressões da minha dor física, do meu sofrimento interior, do meu desespero incontido e da minha obstinação. E, sem obstinação, sem compulsão, nada seria construído e demonstrado. Jurei expor meus sentimentos de revolta e angústia em cada parte da minha obra. Cada uma delas teria que chorar por mim.
E - Como o senhor deixou transfigurado nos Passos da Paixão, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo! Não é isso?
AFL - Nos Passos da Paixão tive uma oportunidade mais segura de poder imprimir nas figuras o sentido da violência, das falsidades humanas, da covardia, do sadismo de prazer na crueldade.
E - Foram as suas últimas obras?
AFL - Meus dez últimos anos de trabalho árduo. Passei a residir em Congonhas do Campo, no alto daquela colina maravilhosa e inspiradora. Meu sonho de escultor e entalhador! Nunca pensei que aquela oportunidade pudesse esgueirar-se para mim. E eu peguei-a com unhas e dentes, embora nessa época, já não tivesse mais unhas nem dentes.
E - Disseram que, para entender o sublime da sua obra, é preciso saber o quanto custou em sofrimentos. Jamais, talvez, o gênio exigiu tanto heroísmo para realizar-se.
AFL - Agradeço as referências, mas, a obra desconhece ou não quer saber se o artista padeceu na criação. Ela tem que falar por si mesma. Assim foram os Passos, também.   
E - O senhor mesmo não deve ter o registro de todas as obras que executou?
AFL - Realmente minhas anotações eram precárias. Hoje, os pesquisadores conseguiram determinar o conjunto das minhas obras. Sempre, como entalhador, trabalhando com madeira, esculpia parte de desenhos meus e também riscos de outros. Fiz imagens, obras de escultura monumental como fachadas, púlpitos, frontadas e finalmente, em Congonhas do Campo, produzi os Passos da Paixão e os profetas em pedra sabão. Só isso.
E - Tudo que executou saiu de uma região de mineradores que só queriam ver o ouro e o enriquecimento imediato. Como poderiam apreciar seus modelos de arte?
AFL - Isso mesmo. Era uma região montanhosa e deserta, até o final do século XVII. Em apenas cinqüenta anos tudo se transformou e aí florescia então uma civilização tão próspera, que iria desempenhar um papel primordial nos destinos do Brasil.
E - Os bandeirantes trouxeram mulheres, crianças, brancos, mamelucos, índios. Também gado e provisões. Também sementes de cereais com que iniciaram as lavouras. Mas, o que foi fundamental?
AFL - A descoberta do ouro. Gente chegando de São Paulo, da Bahia, de Portugal. Uma verdadeira loucura! Espalhou-se pelo mundo a notícia do ouro abundante e disponível para todos, sem nenhuma regulamentação. O mundo luso-brasileiro sucumbiu à tentação de riqueza imediata. Funcionários e soldados desertavam. Marinheiros abandonavam seus barcos. Monges largavam seus conventos, atirando seus hábitos às urtigas. Escravos e negros fugiam das plantações de cana de açúcar. Com essa afluência desesperada, vieram também a violência, o roubo, o massacre, os assaltos, os incêndios, as revoltas.
E - Mas os reis tanto de Portugal quanto da Espanha tiveram que refrear essa situação!
AFL - Portugal se transformou num deserto. O povo sumiu da Espanha. Houve então o cancelamento de passaportes, impedindo a saída desses povos para a América. Portugal tinha dois milhões de habitantes e passou para oitocentos mil.
E - Em Vila Rica foram criados modelos de organização e controle da cata do ouro?
AFL - Nunca fui minerador, mas sei que houve restrições. Inicialmente, não. Era de quem chegasse primeiro. Depois, com o espantoso volume de ouro catado, Portugal acordou e veio buscar o que era dele, por usurpação. E tentaram expulsar os descobridores paulistas na guerra dos Emboabas. Então, surgiram normas e regulamentação. Era o quinto do ouro retirado. Mais tarde, com as minas exauridas, o Marquês de Pombal instituiu taxas obrigatórias como contribuição extraordinária individual, a derrama.
E Portugal enriqueceu?
AFL - Poderia ter se enriquecido. Enriqueceram os paulistas. A descoberta das minas enriqueceu momentaneamente Portugal, mas trouxe também o fermento da liberdade. Em consequência, veio a perder o próprio Brasil.   
E - E sobravam riquezas até para as artes?
AFL - A arte em Minas Gerais é a coroação do barroco luso-brasileiro.
E - As artes acompanham o poder econômico?
AFL – Verdade! Mas em Vila Rica aconteceu um pouco diferente. A maior prosperidade das artes em Minas Gerais coincide com a decadência do ouro. Entretanto, o povo queria pagar as promessas aos santos de sua predileção. Ou pedir mais ouro, embora as minas já estivessem exauridas. Queriam mais milagres. .
E – O senhor conseguiu bons contratos de trabalho. Deve ter ganhado muito dinheiro nessa época.
AFL - Meu trabalho, dedicado e contínuo, nunca me deu tempo de ganhar dinheiro. Sempre trabalhei como operário, ganhando por dia, a jornal, na base de meia oitava de ouro. Tinha despesas com meus escravos e meus oficiais. Sempre paguei bem aos meus auxiliares. Meus escravos viveram comigo e juntos trabalhamos sem trégua. Nunca se viu um senhor trabalhar junto com os próprios escravos, lado a lado. Além disso, sempre distribuí parte do que ganhava com os pobres. Eles precisavam mais do que eu. Morri pobre, também. Pobre e abandonado.
E - Veio de uma família de artistas?
AFL - Meu pai, Manuel Francisco Lisboa, era insigne arquiteto português, que trabalhou demais em Vila Rica, até no Palácio do Governador. Meu tio, Antônio Francisco Pombal, era entalhador.  Minha mãe era uma escrava de origem africana. Foi escrava do meu pai. Nasci escravo e fui alforriado no dia do meu batizado. Em seguida, meu pai casou-se com uma portuguesa, Antônia Maria de São Pedro, com quem teve mais três filhas e um filho.
E - Quer dizer que você era mulato bastardo?
AFL - Sim, claro, mulato bastardo.  Fui humilhado, por isso, inúmeras vezes. pela infâmia de ser bastardo e mulato. Essa infâmia me impedia de assinar contratos e colocar meu nome nos registros das ordens religiosas. Sempre trabalhei para as irmandades na Ordem Terceira do Carmo e de São Francisco de Assis, sob contrato, mas nunca pude tampouco entrar para essas irmandades. Eram aristocráticas as ordens dos franciscanos e dos carmelitas, para as quais tanto trabalhei.
E - Os negros e mulatos ficaram isolados?
AFL - Os negros nunca deixaram se dominar. Criaram associações e irmandades onde os brancos também não podiam entrar. Os negros são orgulhosos, reagindo com violência às perseguições dos brancos. Criamos a ordem do Rosário dos Pretos e iniciamos a construção da igreja de Santa Ifigênia. Sempre fomos rejeitados. Meu pai era branco, arquiteto. Tinha seu atelier montado. Ele tinha oficiais e escravos. Aprendi muito com ele.
E - Fez trabalhos acompanhando seu pai?
AFL - Inicialmente, sim. Muitas vezes, sim. Meus brinquedos de infância foram feitos no atelier do meu pai. Depois, fui crescendo com pequenos trabalhos e me divertindo. Consegui me firmar como oficial, mesmo sem poder ter um registro. Ia conseguindo contratos próprios, até que chegou uma oportunidade na igreja matriz de Caeté. Ganhei o suficiente para melhorar de vida.
E - Seu pai era também carpinteiro e pedreiro?
AFL - Sim... ele era grande carpinteiro e juiz de oficio  Também trabalhei em madeira com ele. Sempre querendo aprender mais e a me aperfeiçoar nas artes de qualquer natureza. Meu meio irmão também participava. Trabalhamos juntos, por muito tempo. Depois da morte de meu pai, paguei os estudos para ele, até tornar-se padre, reverendo Antônio Felix Lisboa. Nas horas vagas era também entalhador, como não poderia deixar de ser.  
E - Você não se casou?
AFL - Estava mais pra viver a vida com os seus pequenos prazeres. Era jovem disposto e saudável. Frequentava as danças e gostava de me divertir também. Há algum mal nisso? Tive um filho bastardo, com uma mulata livre, cabra forra, de nome Narcisa, quando eu tinha já 47 anos de idade. Dei-lhe o nome do meu pai, Francisco Manuel Lisboa. Nunca me casei.
E – Você teve escola?
AFL - Não havia escolas regulares na época. Frequentei atelier de pintores, desenhistas, projetistas e até mesmo de entalhadores. Frequentei a escola do desenhista João Gomes Batista e na do entalhador José Coelho Noronha. Além disso, estive no seminário, aprendi a escrita e a leitura. Sei um pouco de latim. Mas, minha força estava no cinzel, no martelo, no formão. Precisava produzir. O estudo de latim me valeu muito.  Fui entalhador, escultor em madeira e pedra.
E – O segundo vereador de Mariana, Joaquim José da Silva, considera você como o iniciador de um novo estilo e um dos artistas que mais purificaram a arte da talha dos exageros do barroco. Diz ele que nem em Portugal havia alguém do seu nível.
AFL - Minha aprendizagem foi no canteiro dos altares das naves, principalmente em Caeté, onde fiquei sozinho com o meu desempenho. Meu aprendizado prático foi feito dentro de atelier, serrando madeira, lixando madeira, no trabalho braçal, sem escolhas ou preferências. Fiz de tudo na carpintaria do meu pai. Minha infância e meu aprendizado foram feitos no trabalho árduo. Minha infância foi trabalho.
E - Mas, seus biógrafos se dividem quanto ao ano de seu nascimento. Rodrigo José Ferreira Bretas diz que você nasceu em 1730 e outros, baseando no seu atestado de óbito, afirmam que você teria nascido em 1738, tendo falecido em 18 de novembro de 1814, aos  76  anos de idade. Que diz sobre isso, para um acerto definitivo?
AFL – Infelizmente, as brumas permanecerão. Hoje, nada mais posso dizer sobre isso. Vivi o suficiente para produzir uma obra que falará por mim. São polêmicas dos humanos. Um dia ou um ano não faz diferença para quem se encontra em outra esfera.
E - Verdade! Dessa forma, ficarão seus biógrafos atormentados com pequenos problemas, enquanto deixam de refletir sobre as marcas deixadas pela sua passagem pelo planeta Terra, as marcas de suas próprias mãos. Isso me faz tocar numa questão muito constrangedora, mas vou ter a ousadia de perguntar. Disseram que os Passos e os Profetas foram esculpidos por um homem sem mãos?
AFL - Hoje, não me exalto com tais questões. Já me irritei demais sobre esses problemas. Vivi belos anos de minha vida, com boa alimentação, prazer nos vinhos e nas danças. Sempre com saúde de ferro no trabalho pesado e constante, transportando toras de madeira. Mas em 1777, começou o meu calvário. Uma doença invadiu meu corpo, me deformou fisicamente, tirou meu humor, mas nunca a minha capacidade de produzir, de imaginar, de criar. Minhas mãos se entortaram, meus dedos começaram a cair.
E - Os dedos começaram a cair?
AFL - Sim. Inicialmente os dedos dos pés. Não conseguia mais me locomover. Tive que providenciar uma armadura de couro para firmar meus joelhos ao chão. Andava de joelhos. Mesmo assim, não fiquei fixado à terra. Tinha que me movimentar. Andei de joelhos. Tirem-me os dedos dos pés, mas a minha cabeça ainda dirige o meu corpo por onde for possível e impossível. Nunca fiquei parado ou deitado numa cama por causa disso.
E - Mas e os dedos das mãos?
AFL – Começaram a cair também. Primeiramente, minhas mãos se entortaram e eu não conseguia mais manusear o cinzel e a marreta. Estavam me prejudicando. Prejudicando o meu trabalho. Os dedos queriam cair e não caíam. Comecei a amputá-los, um a um. Colocava o cinzel sobre ele e meu escravo Maurício batia a marreta.
E - E o escravo Maurício executava essa tarefa sem resistência?
AFL - Com muita resistência, a princípio. Ou ele pegava a marreta ou eu lhe dava umas chibatadas nas costas. Preferia pegar a marreta. 
E - Amputou todos os dedos das mãos?
AFL - Menos o indicador e o polegar. Além disso, meu rosto deformou-se. Minha boca entortou. Minhas pálpebras se retorceram. Meus dentes foram caindo. Fiquei triste demais. Nunca acreditei que tal desgraça pudesse acontecer comigo. Minha cabeça inchou e meu rosto arredondou-se. Mais seria impossível. Sempre fui uma pessoa de boa fisionomia e gostava de mim. Sempre me achei um ser humano de boa aparência, capaz de despertar interesse, respeito e amizade entre os homens e admiração entre as mulheres. Restou isso de mim. Nunca me conformei. Nunca me conformei com isso, agora o digo com a maior força e desespero de meu coração. Tive ódio e desespero.
E - E essas alterações fisionômicas não aconteceram de um momento para outro. Foram mudanças repentinas?
AFL - Claro que não. A deformidade foi constante, mas gradativa e lenta para que eu notasse essas transformações diariamente.
E - Por isso, não queria mais ter contato com o público?
AFL - Odiei o mundo, as pessoas. Não queria mais ver ninguém. Não queria que me vissem. Procurei o isolamento no meu mundo. Sabia que as pessoas me achavam um monstro. Eu mesmo achava isso e não me perdoava. Por que? Por que? Tive que criar o meu mundo particular. Um mundo só meu. Um mundo do trabalho e da arte. Trabalhei os sete dias da semana, de sol a sol, ou melhor, de noite a noite.  Quanto mais me dedicava ao trabalho. mais esquecia do meu mal, da minha infelicidade constrangedora e inevitável. Só as minhas figuras, minhas estátuas falavam comigo, sem temor, sem asco.
E - Desculpe-me se toquei num assunto delicado e que trouxe reflexões desagradáveis para o senhor. 
AFL - Nunca admiti a mais leve referência ao meu estado físico. Muitos pensavam que eu tinha lepra. Lepra nervosa. Outros, que era zamparina, um mal epidêmico, um surto de gripe, ocorrido no Rio de Janeiro, provocando alterações no sistema nervoso e no locomotor, provocando, ainda, deformações. Outros diziam que eu tinha tomado muita erva cardina, da flora tropical, entorpecente alucinógeno. Outro diagnóstico me falava de humor gálico, sífilis hereditária ou adquirida. Escorbuto, provocando a necrose das extremidades.
E – O senhor se referiu a lepra?
AFL - Convivi em sociedade 37 anos e não transmiti meu mal a ninguém, nem a meus escravos com quem trabalhava. A lepra produz a atrofia dos músculos da mão, atrofia das pálpebras, paralisia facial, queda dos dentes. Além de tudo, é contagiosa. De qualquer jeito, seja qual for o tipo do meu mal, era um mal insuportável. Tanto sofri naquele tempo, como sofro agora, rememorando o que não teve cura. Com a sua permissão, peço que nunca mais me pergunte qualquer coisa relativa ao meu mal.
E - Nunca foi minha intenção rememorar fatos ou situações que fossem desagradáveis ou que pudessem trazer qualquer forma de ressentimento para o senhor. Apenas, uma questão básica sobre isso. Em 1777, quando estava no projeto da igreja das Mercês de Baixo, o senhor já estava sendo transportado pelos seus escravos?
AFL - Isso mesmo. Meu calvário começou em 1777 e só terminou com a minha morte em 1814. Tive 37 anos de sofrimento físico e de ordem psicológica grave. Cada vez mais grave e progressivo.
E - Foi então aí que o apelidaram de O ALEIJADINHO?
AFL - Uma crueldade inevitável. Compreendo que isso poderia ter acontecido. Sei, agora, que não faziam por mal. Entretanto, como eu poderia negar todas as evidências? E como eu poderia também aceitar uma verbalização frontal no meu desespero e na minha revolta? Não era apenas a dor física. Sentia-me feio, simplesmente. Horrível, medonho. Causador de compaixão. Nunca quis isso. Nunca aceitei essa caracterização. Se quiserem, podem continuar me chamando por esse apelido. Que posso fazer? Não me interessa mais se compreendam ou não. Para os séculos sei que não vou passar mesmo de um aleijadinho.
E - Melhor falar em trabalho, obras, projetos. São seus assuntos de preferência.
AFL - Vivi por eles, com abnegação total. A minha existência não teria motivo sem meu trabalho. As minhas talhas, minhas esculturas, minhas imagens de santos e, finalmente, os profetas do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas do Campo.
E - Nessa cidade mineira, distante 66 km de Vila Rica, estão as suas obras primas?
AFL - Acho que sim. Como artista, não posso desprezar nenhuma das minhas criações. Imagens de santos em talhas, portadas ou outras obras que realizei.Tanto em Vila Rica, como em Sabará, Caeté, São João del-Rey e muitas outras localidades importantes. Mas o Santuário de Congonhas do Campo é a síntese da minha expressão artística nesta vida de humanos. Entreguei-me a ela de corpo e, sobretudo, de alma.
E – Por que Congonhas do Campo?
AFL- O destino tinha que se cumprir. Tudo começou com um devoto minerador português Feliciano Mendes. Dizem que na vida não há encontros e sim, reencontros. O destino tinha que se cumprir. 
E - Que aconteceu com esse garimpeiro?
AFL - O minerador Feliciano Mendes, originário de Braga, fez uma promessa ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Curado de grave enfermidade contraída na própria mineração, decide dedicar sua vida ao culto do Senhor Bom Jesus e inicia em 1757, a construção da igreja de Congonhas, com a devida autorização das autoridades religiosas. Uma devoção a Cristo crucificado, venerado em santuários famosos do norte de Portugal, como os de Braga e Matosinhos. Ele mesmo iniciou a coleta de auxílios financeiros para a obra. Consta que ele abriu a lista com 60$000 (sessenta mil réis). 
E - Daí passou para um projeto do Sacro Monte?
AFL - Sim. Com a peregrinação de substituição. Se o devoto não podia visitar pessoalmente os lugares santos de Jerusalém, fazia suas orações na própria terra, em locais devidamente dispostos para esse fim.
E - Surgiu a ideia dos Passos ou pontos de parada de Jesus no seu caminho para o Gólgota? A Via Sacra?
AFL - Isso mesmo. A via dolorosa. Isso compunha o plano diretor do conjunto arquitetônico. Primeiramente, foram construídos o templo e o adro, com as escadarias. Com a conclusão dos Passos, mais uma etapa estava vencida. Observe que o conjunto arquitetônico teve início em 1757. Somente quarenta anos depois, iniciou-se a obra dos Passos. Um espírito superior sobrevoava os desígnios do santuário.   .
E - Quando você começou a obra dos Passos?
AFL - Em 1796, fui chamado para o término do projeto. E foi iniciado no dia primeiro de agosto desse mesmo ano. Com a ajuda dos meus oficiais.
E – O senhor já estava sexagenário?
AFL - Muitos poderiam duvidar de mim, da minha capacidade pela idade e pelas minhas condições físicas. Não dei ouvidos, nem pensei duas vezes e me embarquei para a cidade de Congonhas do Campo com todo meu pessoal, com minha obstinação e meu destino. Iria expor minha alma total e desnudada. Já que sempre quiseram me ver pessoalmente, vou me mostrar por inteiro, não só para meus contemporâneos, como também para toda a humanidade, pelos séculos afora.
E - Uma grande decisão?
AFL - Um velho aleijado, numa empreitada impossível! Mas, quando cheguei àquela maravilhosa colina, vi o horizonte se perder atrás de montanhas e montanhas sem fim. Então, ergui meu pensamento às causas impossíveis e entrei para o trabalho. Sabia que era um local predestinado. Impossível vislumbrar essa paisagem descortinada entre dobras de montanhas verdes, azuis e brancas no infinito sem suspirar as lágrimas de encantamento  e devoção a Deus. 
E - Trabalhou dia e noite?
AFL – Dia e noite num trabalho contínuo, em três anos. Assim, em 31 de dezembro de 1799, entreguei a primeira parte dos Passos da Paixão de Jesus.
E - São 66 estátuas de cedro, representando as cenas da Paixão de Cristo, distribuídas em sete grupos. Ceia, Horto, Prisão, Flagelação, Coroação de Espinhos, Cruz-às-costas e Crucificação. Três anos e cinco meses.
AFL - Isso mesmo.
E - Os profetas foram outro projeto?
AFL - Ao entregar o último lote das imagens, eu já estava com outro contrato nas mãos, para esculpir as estátuas dos profetas em pedra. Mais cinco anos de trabalho.
E - Mas as imagens dos Passos ainda não estavam terminadas totalmente?
AFL - A minha parte, sim. Elas estavam a céu aberto. Precisavam de policromia. Entretanto, de minha parte, pelo meu contrato, tudo estava concluído.
E - Suas imagens ficaram expostas sem proteção. Consta que uma devota, ao visitar uma dessas cenas dos Passos, julgou estar diante de um grupo de pessoas reais e tentou cumprimentar uma delas.
AFL - Pode ser verdade. Minha intenção era essa mesmo. Ter semelhança total com as figuras da época. Se tiver acontecido realmente, fico muito satisfeito em ter conhecimento disso.
E - Foi uma longa história o seu contrato para a obra dos Passos e do plano diretor em Congonhas do Campo, não é verdade?
AFL - Uma longa história.  E todas as histórias têm uma semente, um minúsculo sonho que fermenta e germina. Cresce e frutifica, quando bem cultivada. Foi iniciada em 1802 a construção de pequenas capelas para abrigar cada uma das cenas da Paixão. Só foram terminadas em 1818. Portanto, eu não tive oportunidade de vê-las.
E - Que pode dizer mais sobre essa história da construção das estátuas em pedra?
AFL - Com a responsabilidade de um contrato em mãos, tive que estudar a Bíblia com meus oficiais. Tínhamos gravuras para algumas cenas, como modelo. Mas, sempre prevalecia o imaginário. Agora, estávamos diante de profetas do Antigo Testamento. Quantos eram? Quantos seriam representados? Quais seriam escolhidos. Que posições gestuais iriam assumir? Tinha a intenção de representar posições de autoridade decisória, anunciando a vinda do Messias redentor, o salvador da humanidade. A harmonização entre o Antigo e o Novo Testamento.
E - Concentração, espiritualização, mediunidade?
AFL - Viajar pelo inconsciente, pelas gerações e gerações, até atingir o momento de alta significação mental, para que pudesse dirigir as minhas fragilizadas mãos pelo caminho certo e poder dar força expressiva aos meus profetas e poder ainda transportar fragmentos do espírito cristão até aos nossos dias.
E - E quantos profetas foram representados nas suas estátuas?
AFL - Apenas 12 profetas.
E - Mas, segundo o Antigo Testamento, são dezesseis.
AFL - Houve realmente um procedimento especial na escolha dos profetas. Não estou em condições de esclarecer esse fato. Houve ainda a presença de Baruc, que não era profeta, substituindo um deles.
E - Como estão posicionados no adro da matriz?
AFL - Seguem a ordem bíblica. Isaias e Jeremias estão no portal de entrada. Baruc está à esquerda e Ezequiel à direita. Depois, Daniel na parte central de honra e Oseias à direita. Amós, Abdias e Jonas estão nos ângulos laterais à esquerda. Finalmente, Naum, Habacuc e Joel estão em posições correspondentes à direita.
E - Quer dizer que não estão representados Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias e Miqueias.
AFL – Realmente não estão representados. Houve uma discrepância, Baruc era como se fosse um secretário de Jeremias. Ele não integra a lista de profetas.
E - Mas por que foi feita essas posições gestuais?    . 
AFL - Nos mistérios da Páscoa e do Natal, os profetas são invocados a testemunhar contra os judeus, dizendo cada um deles uma frase, extraída das profecias, representada por um rolo documental. Apresentam-se com gesticulação eloquente e porte de atores medievais.
E - São fantásticas as vestimentas e os diversos apetrechos de adorno.
AFL - Foram inspirados em documentos da Europa do Norte. Os patriarcas, com longos casacos e mantos, à moda turca. Debruados com faixas bordadas, com barretes em forma de turbantes. São figuras de Flandres, no Séc. XVII. A iconografia da Paixão baseia-se no evangelho de São João.            
E - Os profetas são trágicos nas suas feições e nas mensagens transmitidas pelo latim de suas cartelas. 
AFL - O vigor e autenticidade dos profetas estão em desacordo com um velho escultor debilitado e aleijado. Mesmo assim, são ameaçadores implacáveis do poder político e religioso, na devastação da vontade do povo na formação de uma república no Brasil e nos ideais de liberdade da época. Tudo arrasado pela força esmagadora, em trágicos acontecimentos que tive a oportunidade de presenciar na minha terra.
E - Houve outras obras, depois dos Profetas em pedra sabão?
AFL - Quase nada. Daí pra frente, a realidade do fim da vida tomou conta de mim e não tive mais forças para recomeçar, como tantas vezes o fiz. Um de meus escravos faleceu. Os outros foram alforriados, porque nem alimentação eu podia dar a eles. Cheguei ao fim da minha história. A partir de 1810 passei a viver de favores. Finalmente, nem de favores. Estava ainda vivo sem permissão de viver.
E - E seu meio-irmão, o padre Félix?
AFL - Não tive mais notícias dele, nem das minhas irmãs. Ninguém podia escutar os meus frouxos lamentos, tão frágeis e inaudíveis. Mesmo assim, encontrei uma pessoa abnegada, que me assistiu nos últimos dias de minha vida e na minha hora final.
E - Muito sofrimento, outra vez?
AFL - Nunca outra vez. Sempre tive dores pelo corpo inteiro, sem momentos de descanso. Minha nora Joana, mesmo com a sua extrema pobreza, teve  carinho, paciência e abnegação, com o resto do meu corpo infeliz. Foi carinhosa até a minha morte. Como cuidar de um velho deformado, de aspecto repugnante, sem as condições mínimas de higiene, com chagas abertas pelo corpo todo?. Me transportaram para a casa dela. Eu, entrevado. Um estropiado. Já estava cego. Como sobreviver? Para que sobreviver? Meu humor, minhas palavras de resignação desapareceram por completo da minha mente. Só reconhecia o desespero. Joana, mesmo assim, estava junto. Assim, numa hora oportuna, despedi-me do mundo e fechei meus olhos para sempre. Morri na privação mais extrema, num miserável catre feito de três pranchas de madeira, apoiados num tronco de árvore, onde sobrevivi por dois anos. Depois do dia 14 de novembro de 1814, já não estava mais aqui.  
E - Não é nossa intenção exigir mais depoimentos tão dolorosos como este. Penso que chega ao fim nossa carinhosa entrevista. Agradecemos de coração aberto. O senhor, um artista da escultura barroca do Século XVIII, nascido das minas ouro de Vila Rica, onde todos tinham as atenções voltadas para a riqueza fácil e imediata, Antônio Francisco Lisboa, dedicou-se exclusivamente, obstinadamente, à arte. Não ficou rico. Ficou famoso e laureado. Ficou reverenciado pelas gerações e gerações, com o testemunho das suas obras. Trouxe, agora, um momento de reflexão sobre o trabalho árduo e compulsivo, para as pessoas de qualquer ramo de atividade, na forma de mito e modelo.  Com firmeza e dedicação ao trabalho, o universo conspira, realmente, a seu favor. Gostaríamos agora de ouvir a sua mensagem de despedida.
AFL - Em vida, jamais teria dado uma entrevista e todos já sabem agora os motivos. Sempre tentei me envolver nas penumbras, de andar à noite e de trabalhar rodeado de tapume e fora da curiosidade dos meus contemporâneos. Muitas vezes fui grosseiro e áspero, na defesa dos meus princípios. Fui objeto de compaixão. Nunca desejei isso. Queria apenas que a minha obra fosse expurgada do desespero e do ódio pela natureza que me fez um ser hediondo. Assim, agora, neste momento, devo pedir, sim, apenas compaixão e pedir, ainda, que me absolvam por tantas iniqüidades que tenha cometido.  Para a humanidade, deixo as palavras dos profetas do adro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, estado de Minas Gerais, eloquentemente mística e altiva.
E - Meus agradecimentos na eternidade!     




AS CARTELAS DOS PROFETAS

1.  ISAIAS  - ISAIAE, CAP. 6
CUM SERAPHIM DOMINUM, CELEBRASSENT A SERAPH UNO ADMOTA EST LABRIS FORCIPE PRUNA MEIS
Ordem direta
Cum seraphim celebrassent Dominum, admota est pruna a seraphuno labris meis forcipe.
Tradução
Depois que os serafins celebraram o senhor, foi encostada por um serafim ­­­uma brasa aos meus lábios por meio de uma tenaz
2 - IEREMIAS – IEREMIAS CAP. 35
DEFLEO IUDAEAE CLADEM SOLYMAEQUE RUINAMAD DOMINUMQUE VELINT QUAESO REDIRE SUUM 
Ordem direta
Defleo cladem ludaeae et ruinam Solymaeet quaeso velint redire ad Dominum suum
Tradução
Choro o desastre de Judéia e a ruína de Jerusalém e peço que queiram voltar ao seu senhor
3 - BARUC  -  BARUC CAP. I
ADVENTUM CHRISTI IN CARNE POSTREMAQUE MUNDI. TEMPORA PREDICO PREMONEOQUE PIOS
Ordem direta
Predico adventum Christi in carneet postrema tempora mundi et premoneo pios.
Tradução
Anuncio a chegada de Cristo em carne e os últimos tempos do mundo aviso os bons. 
4 - EZEQUIEL – EZECHIEL CAP.I
QUATUOR IN MEDIIS DESCRIBO ANIMALIA FLAMIS HORRIBILESQUE ROTAS AETHEREUMQUE THRONUM.
Ordem direta
Describo quatuor animalia in mediis flamis et horribiles rotas et aethereum thronum.
Tradução:
Descrevo quatro animais no meio das chamas e horríveis rodas e o trono etéreo
5 – DANIEL – DANIEL CAP. 6
SPELAEO INCLUSUS (SIC REGE IUBENTE) LEONUM NUMINIS AUXILIO LIBEROR INCOLUMIS
Ordem direta
Inclusus spelaeo leonum (sic iubente rege) liberor incolumis auxilio Numinis.
Tradução
Preso na cova dos leões, por ordem do rei, sou libertado incólume pelo auxílio da Divindade.
6 – OSÉIAS – OSEE – CAP.I
ACCIPE ADULTERAM, AIT DOMINUS MIHI ID EXSEQUOR ILLA, FACTA UXOR, PROLES CONCIPIT ATQUE PARIT.
Ordem direta
Ait Dominus mihi: accipe adulteram. Exsequor id, Illa, facta uxor, concipit atque parit proles.
Tradução
Diz o Senhor para mim: recebe a adúltera. Cumpro isso. Ela, tornada esposa, concebe e gera filhos.
7 – JOEL – JOEL CAP. I,4
EXPLICO IUDAEAE QUID TERRAE ERUCA, LOCUSTA BRUCHUS RUBIGO SINT PARITURA MALI.
Ordem direta
Explico Iudaeae quid mali eruca, locusta, bruchus, rubigo paritura sint terrae.
Tradução
Explico à Judeia o mal que a lagarta, o gafanhoto, o bruco e a alforra produzirão para a terra. 
8 – AMÓS – AMOS CAP. I
PRIMO EQUIDEM PASTOR FACTUSQUE DEINDE PROPHETA IN VACCAS PINGUES INVEHOR ET PROCERES
Ordem direta
Equidem factus primo pastor, deinde propheta, invehor in vaccas pingues et proceres.
Tradução
Na verdade, feito primeiramente, pastor, depois profeta, invisto contra as vacas gordas e os líderes.
9 – ABDIAS  -  ABDIAS, CAP. I
VOS EGO IDUMAEOS ET GENTES ARGUO: VOBIS NUNTIO IUCTIFICUM PROVIDUS INTERITUM
Ordem direta
Ego arguo vos, Idumaeos et Gentes: providus nuntio vobis  iuctificum interitum.
Tradução
Eu acuso a vós, Idumeus e Gentios. E vos anuncio, previdente, uma lutuosa ruína.
10 – JONAS – JONAS, CAP. I
A CETO ABSORPTUS LATEO NOCTESQUE DIESQUE TRES VENTRE IN PISCIS: TUM NINIVEN VENIO.
Ordem direta
Absorptus a ceto, lateo tres noctes et dies in ventre piscis, tum venio Niniven.  
Tradução
Engolido pela baleia, fico escondido três noites e três dias no ventre do peixe: então, chego a Nínive.
11 – NAUM – NAUM, CAP. I
EXPONO NINIVEN MANEAT QUAE POENA RELAPSAM EVERTENDAM AIO FUNDITUS ASSYRIAM.
Ordem direta
Expono quae poena maneat Niniven relapsam, aio Assyriam evertendam funditus.
Tradução
Exponho que castigo pesa sobre Nínive decaída. Digo que a Assíria deve ser totalmente destruída. 
12 – HABACUC – HABACUC 1.2
TE BABYLON BABYLON TE TE CHALDAEAE TYRANNE ARGUO: AT IN PSALMIS TE DEUS ALME CANO.
Ordem direta
Arguo te, Babylon, Babylon, te te, tyranne Chaldaeae at cano te in psalmis, alme Deus.
Tradução
Acuso-te, ó Babilônia, Babilônia, a ti, ó tirano da Caldéia. Mas canto em, salmos, a ti, ó Deus criador.  






BIBLIOGRAFIA
BRETAS, Rodrigo José Ferreira. Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho. Patrimônio Histórico e Artístico Nacional:, RJ, n.15, 1951.
LANARI, Cássio. Rodrigo José Ferreira Bretas biógrafo do Aleijadinho. Centro de Estudos Mineiros: Belo Horizonte, 1968.
JORNAL CORREIO OFFICIAL DE MINAS. Ouro Preto. Ano II, quinta-feira, 19 agosto, n. 169, 1858.
FERREIRA, Delson Gonçalves. O Aleijadinho. Rona Editora, 2a.edição: Belo Horizonte, 2001.
JARDIM, Márcio. Aleijadinho catálogo geral da obra. Editora RTKF: Belo Horizonte, 2006.
OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. Passos da paixão Aleijadinho. Edições Alumbramento: RJ, 1989
ÁVILA, Affonso. Resíduos seiscentistas em Minas Gerais. Centro de Estudos Mineiros, 2 vol: Belo Horizonte, 1967.
CARPEAUX, Otto Maria. As sete cidades do ouro. Editora Itatiaia: Belo Horizonte, 2000
SALLES, Fritz Teixeira. Associações religiosas no ciclo do ouro. Centro de Estudos Mineiros – UFMG: Belo Horizonte, 1963.
MENEZES, Joaquim Furtado de. Igrejas e irmandades de Ouro Preto. IEPHA de Minas Gerais: Belo Horizonte, 1975 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

TIRADENTES - ENTREVISTA VIRTUAL


“Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação. Vamos fazê-la”
JOAQUIM JOSÉ DA SILVA XAVIER - HERÓI DA LIBERDADE DO BRASIL -
PATRONO CÍVICO DA NAÇÃO BRASILEIRA


Autor: Rogério de Alvarenga
           
Apresentação
Esta entrevista virtual traz informações seguras sobre a inconfidência mineira, movimento libertário que eclodiu na região de Vila Rica do Ouro Preto, no século XVIII. O Alferes Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, foi considerado o principal réu no processo instaurado: “AUTOS DA DEVASSA”, que foi montado por juristas portugueses, contratados para esse fim. Esses Autos da Devassa estão voltados, pois, para os interesses de Portugal, na defesa do seu patrimônio na colônia. São, entretanto, documentos valiosos e devem ser estudados adequadamente.  Aqui, o próprio Alferes apresenta a sua versão dos fatos ocorridos na época, para que não fiquem dúvidas quanto a sua personalidade, seus objetivos e sua participação direta nesse movimento. Os documentos oficiais e os compêndios dos pesquisadores são necessários para aprofundamento dos assuntos aqui abordados, para a continuidade e expansão da análise dos fatos históricos.  Nesta entrevista virtual, terão a oportunidade de conhecer mais alguns aspectos sobre a Inconfidência Mineira.  É uma contribuição modesta para a divulgação da verdade dos fatos históricos.  

ENTREVISTADOR:
Senhoras e senhores! Com exclusividade nacional, vamos apresentar uma entrevista com o alferes Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, nesta cidade de Vila Rica de Ouro Preto, ex-capital do Estado de Minas Gerais, no mais alto destas montanhas libertárias, de longos e ousados horizontes. O povo brasileiro reverencia o alferes Tiradentes como, de fato e de direito, PATRONO CÍVICO DA NAÇÃO BRASILEIRA, PATRONO DA POLÍCIA MILITAR E CIVIL DO BRASIL E PROTOMÁRTIR DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL. Estamos, agora, frente a frente, com a figura majestosa do herói da liberdade desta grande e livre nação brasileira. Eis, conosco, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier! Boa noite, Alferes Joaquim José da Silva Xavier!
ALFERES TIRADENTES – Boa noite!
E - Chegando agora a Vila Rica?
T - Sim. Chegando agora.
E - Desculpe-me por fazer uma pergunta inicial muito forte, mas o senhor, Alferes, é ídolo do Brasil inteiro e o povo gosta sempre de saber detalhes sobre a vida dos ídolos. Por isso é que vou fazer algumas perguntas. O senhor foi enforcado no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1789?
T – Não propriamente. Fui enforcado nesse dia de abril, mas em 1792 – fiquei três anos preso, incomunicável, numa prisão estreita, escura e fétida na ilha das Cobras, no Rio de Janeiro.
E - Mas uma coisa me deixa curioso: por que pediu licença ao seu carrasco Jerônimo Capitania, para beijar as suas mãos e os seus pés, na hora do enforcamento?
T – Foi apenas um ato de humildade. Naquela hora, me curvei, mas não me quebrei. Isso, nunca! Foi como Jesus Cristo, lavando os pés dos apóstolos.
E – O senhor é português?
T – Filho de português. Fiquei órfão de mãe, que era paulista, aos 9 anos e de pai aos 11. Fiquei só no mundo, como estou até agora. Meus irmãos cuidaram de mim enquanto puderam. Nasci na fazenda do Pombal, hoje pertencente à Ritápolis, perto de São João Del Rey. Sou da nação brasileira de Minas Gerais.
E - Mas o alferes é também um rico minerador de ouro? Em Vila Rica, todos têm uma bateia debaixo do braço, faiscando...
T – No meu caso, não. Sou alferes da Cavalaria Paga de Vila Rica e dedico todo meu tempo ao meu trabalho.
E - Mas tem as suas economias?
T - Tenho sim, algumas economias, Porque, antes de entrar para a Cavalaria, eu trabalhei muito de mascate, de dentista e, por isso me chamam de Tiradentes. Também eu entendo de plantas medicinais e receitava para os que me procuravam.
E - Portanto, o senhor, como militar, é um fiel servidor da soberana rainha de Portugal.
T – Nada mais do que isso. Sou encarregado das mais ousadas tarefas, para garantir a segurança, a nobreza e a divindade dos reis e rainhas.
E - Divindade dos reis e rainhas? Que significa isso?
T – Como dizem. Entretanto, todos nascemos nus. A natureza não distingue um príncipe de um mendigo. Se somos iguais perante a natureza, somos iguais perante a lei. Como disse, estou alferes – nunca consegui uma promoção! Não tenho tempo para bajular. Sou sempre o escolhido para as missões mais perigosas e não para promoções. Mesmo assim, não desisto facilmente de um empreendimento.
E – O senhor está satisfeito com o seu trabalho? Pode ser claro.
T – Sou militar de carreira, como disse. Se continuo, é porque estou satisfeito.
E - E o poder divino dos reis?
T – Vivemos tempos modernos. Há mudanças na França, na América Inglesa, com o povo no poder. Os reis estão na terra como seres comuns e vêm impingindo o medo e a insegurança no povo pela teologia, há séculos, usurpando a privacidade de todos. Eles mesmos, os reis e rainhas, estão agora apavorados, atingindo as raias da loucura. Dona Maria I, rainha de Portugal, está sabendo o que vem acontecendo com a bela Maria Antonieta na França e com Luis XVI. Pode ter o fim deles também, subindo os degraus da forca.
E – O senhor lê muito. Já leu sobre as leis institucionais dos Estados Unidos e também livros franceses sobre o Iluminismo. O senhor costuma citar o filósofo Rousseau. Segue as suas teorias?
T – Liberdade, igualdade, fraternidade – tese universal!
E – Quais as suas previsões?
T – Nem posso prever! Milhares de anos de opressão dos reis sobre o povo ignorante e faminto. Um dia, vislumbro a igualdade entre os povos, mesmo que seja a longo prazo. O povo no paraíso!
E -- Mas isso é uma mudança radical! Acredita nela?
T – Os reis e a nobreza estão apreensivos, temerosos, impotentes ante as novas ideias pregadas com sangue nas ruas de Paris.
E – E essas ideias podem ser fatais ao senhor, pois são perigosas.
T – Os tronos são obstáculos odientos e usurpadores da plena felicidade do povo. E têm que ser combatidos!
E – Suas respostas me deixam também temeroso. Espero que não lhe tragam constrangimento e nem consequências desagradáveis.
T – Nunca deixei de falar o que penso em qualquer lugar e com qualquer pessoa que seja. Não tenho medo e afronto o perigo com desafio e coragem. Digo o que penso, meu ideal, meu sonho de ver este país tornando-se uma república livre e independente.
E – Daí surgiu a ideia de um levante em Vila Rica? É a famosa revolução dos poetas?
T – Não só dos poetas, mas de militares, empresários, mineradores, religiosos.
E – E os poetas?
T – Dizem a revolução dos poetas tentando desmerecer o movimento que se avoluma, que cresce a cada dia pela vontade do povo. Poetas, sim, intelectuais, arautos da liberdade a qualquer custo! Liberdade de expressão, na divulgação dos sentimentos do povo escravo.
E – Mas, poetas?
T – É a expressão da cultura dominante, uma vertente da arte da nossa metrópole Vila Rica, a mais populosa e rica cidade do mundo nessa época. Reuniam-se na Arcádia, para discussão de temas culturais, econômicos, financeiros, políticos. Antes de tudo, para divulgar os acontecimentos do mundo moderno.
E – O que vem a ser poeta?
T – Ser poeta é ter a coragem de expressar seus sentimentos mais íntimos, seu ideário de liberdade, com eloquência e destemor.
E – E os nobres e fidalgos?
T – Estão em baixa. Odeiam o povo. Repetem com frequência a expressão maldita: “o povo fede!”
E – Alferes, o senhor, nas suas conversas, sempre fala em transformar o regime do Brasil numa república. Refere-se à América Inglesa?
T – Sim! Aos Estados Unidos da América. Um triunfo completo. Um sistema republicano instaurado em 4 de julho de 1776, e com liberdade.
E – E essa liberdade que existe na república tem limites?
T – Sim, é lógico que tem, mas quem determina seu limite são as leis votadas democraticamente e a liberdade de uma pessoa termina onde começa a de outra.
E – Alferes, o senhor disse que era designado para ousadas tarefas, e acredito que uma delas era o comando da patrulha nas estradas.
T – Comandava e patrulhava o caminho novo. Estrada perigosa, cheia de assaltantes, ladrões nas emboscadas. Protegia os viajantes e tropeiros, transportando centenas de quilos de ouro. Levavam tudo para o Rio de Janeiro, centenas e centenas de quilos de ouro. Pelo tratado de METHUES, dali seguiam o caminho de Londres, império britânico, em troca de proteção a Portugal que tinha medo da Espanha. Era o quinto do ouro. A maior parte desse ouro, entretanto, tomava o rumo de São Paulo, pelas mãos dos exploradores ousados e gananciosos. Centenas de mineradores paulistas. Levaram tudo que encontravam. 
E – Mas o alferes parece um revoltado!
T – Não posso negar que não fico revoltado. Chega um novo governador e em três anos vai embora com as cargas cheias de ouro. Ele e os serviçais. Luto pela liberdade de nossa terra.
E – E com que idade o senhor foi enforcado?
T – Aos 45 anos, solteiro. Deixei uma filha e um filho. Nada mais.
E – Não tinha medo do que aconteceu com Felipe dos Santos que foi esquartejado em Mariana em 1720?
T – O destino dos idealistas é a morte, sem túmulo. A liberdade não tem preço, não conhece limites. Todos vivem aqui, hoje, em cárcere aberto! Não temo os truculentos. Falo por mim, para as gerações futuras.
E – E Joaquim Silvério dos Reis?
T – Sempre foi meu amigo e confidente. Dez anos mais moço que eu. Ele tem muitos alqueires de terra, duas centenas de escravos, mas deve 220 mil réis à Fazenda Real.
E – Ele participava do levante?
T – Claro! Ele queria ficar livre da dívida. Ambicioso demais, aquele baixinho atarracado, grosso e solteirão.
E – E os bacharéis que chegam de Coimbra?
T – Iam logo dizendo que em Minas não há homens. O Silvério é companheiro ousado. Está fazendo campanha disfarçadamente. Homem de plena confiança.
E – E o novo Brasil? Como será após a independência?
T – Povo rico, fábricas abertas, sem mandar, obrigatoriamente, uma parte para Portugal, sem que ele pague o que qualquer outra nação vai pagar.
E – O alferes não percebeu que muitas pessoas estão se afastando do senhor por causa de suas ideias e seus discursos?
T – Algumas, sim. Outras, não. Falo abertamente de um plano ou sonho. Continuo na minha fé de ajudar a construir um país novo. Para os medrosos, todas as portas se encontram fechadas.  
E – Sabe que andam dizendo que o senhor é louco?
T – Pode ser isso. Vejo mais do que os outros. Sinto profundamente a exploração selvagem do ouro de Vila Rica. Sou uma pessoa de múltiplas funções. Já fui tropeiro, cirurgião dentista, minerador, soldado, médico e engenheiro. Vou construir um trapiche no cais do porto do Rio de Janeiro e ainda modernizar a captação de água. Conheço todo o caminho novo, de fio a pavio, e conheço demais a cidade do Rio de Janeiro.
E – O senhor é mesmo corajoso!
T – Não precisamos de governadores gananciosos. Uma voz tem que se levantar dessa multidão de cordeiros famintos que ama os lobos. Cabeça baixa, chapéu na mão. Pobres e miseráveis, endividados. E a rainha de Portugal, milionária. Que leve o diabo.
E – Fala isso em qualquer lugar?
T – Nas pensões por onde passo, com os tropeiros, com os amigos e com os inimigos, em todos os lugares onde alguém pode me escutar!
E – E o senhor já está conhecido em todos os lugares!
T – Conheço menos do que me conhecem. Até o governador me conhece e eu mesmo não o conheço. Nas ruas e nas praças, me tiram o chapéu.
E – Chamam-no de louco!
T – Louco por liberdade. Os bárbaros portugueses não poupam nada para nos fazer submissos, com receio de que possamos seguir os nossos próprios passos.
E – E o que pretende?
T – Uma república livre e independente, uma bandeira, a libertação dos escravos, uma universidade.
E – E isso não é a própria loucura?
T – Pode ser para alguns. Quem vê o horizonte, vê o caminho a seguir.
E – E se tudo fracassar?
T – Pelo menos o primeiro passo estará dado. Cumpre aos seguidores dar o segundo passo. Sem o primeiro não haverá o segundo. E não haverá o último!
E – O governador Luis da Cunha Menezes deve estar preparando alguma coisa contra o senhor!
T – Ele já está rico e vai embora. Chega o Visconde de Barbacena, para substituição. Sai um novo rico chega um novo pobre. Todos submissos à poderosa rainha de Portugal, cordeiros famintos, na busca do quinto do ouro de todos os mineradores. Com a derrama, saia de onde sair. O ouro tem que aparecer.
E – Que significa o quinto?
T – Se você extrai cem quilos de ouro, automaticamente, vinte quilos são da rainha. Sem dó, nem piedade. Quem não colhe tem que pagar do mesmo jeito. Dívidas se fazem mesmo sem pedir emprestado, simplesmente por viver em Vila Rica. Dívidas impagáveis.
E – Não havia defensores do povo?
T – O ouvidor, Tomás Antônio Gonzaga, tudo via e ouvia. Mas nada podia fazer porque era seu dever proteger o reino português.
E – O ouvidor Tomás Antônio Gonzaga era também um grande poeta?
T – Um grande poeta que se denominava Dirceu, apaixonado pela Marilia – Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Iam se casar. Ela tinha 17 anos e ele 45.
E – Não se casaram?
T – Não se casaram porque foi preso oito dias antes do casamento.
E – Que pena não se casarem!
T – Estavam de romance há muito tempo. Os parentes dela resistiram muito. Mas, o amor é cego. Conversavam das janelas com seus lencinhos brancos. Tinham um código. Ela era uma jovem de beleza simples e natural.
E – Amavam-se à distância?
T – Isso. Ele fazia versos e mandava pra ela. Ela bordava os lencinhos brancos para ele.
E – Família importante a dela?
T - Ela era filha de um capitão, mas órfã de mãe. Gonzaga deu-lhe o nome suposto de Marília. Para ele, Dirceu. Então surgiu Marília de Dirceu.
E – Quem era esse Gonzaga?
T – Português, bacharel, jurista, figura de maior relevo na Capitania. Poeta. Escreveu Tratado do Direito Natural.
E – Ele devia ser um homem muito poderoso!
T – Elegante nas posturas e no vestir. Sabia até bordar. Na Europa os homens faziam trabalhos magníficos.
E – E Cláudio Manuel da Costa
T – Era jurista, advogado, 60 anos, solteiro. E havia o Inácio José de Alvarenga Peixoto, casado com Bárbara Heliodora. E tantos outros...Unidos pelo mesmo ideal, todos sonhando com uma pátria livre. Pobres e ricos!  Militares, religiosos, intelectuais, mineradores, fazendeiros, donos de estalagem, agrimensores, alfaiates.
E – O senhor e os outros conspiradores o que decidiram?
T – Um levante. Tomar o palácio do Governador, sua guarda. Dominar a  Capitania em menos de uma hora. Meu plano foi discutido e aprovado por todos. Eu teria a honra de invadir o palácio do Governador, prender o Visconde de Barbacena, ou cortar a sua cabeça, se fosse preciso. Houve ideias contrárias ao corte de sua cabeça. Os religiosos acharam que não devia. Na hora, eu iria decidir. Seria o primeiro passo. Nada podia falhar. Eu sozinho iria fazer o mais importante. Uma honra pra mim. Sempre as missões mais perigosas. O governador seria surpreendido sem tropas, sem munição, libertos os escravos e o povo livre dos impostos. A pátria livre! “quereis a liberdade ou a tirania?” A capital seria São João Del Rey. Vila Rica seria a sede da universidade. Estaria instaurada a Republica do Brasil. Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa estavam elaborando as novas leis dessa república nascente e livre, aberta para o mundo.
E – Mas nada disso aconteceu?
T – Não tinha chegado o dia. Eu estava no Rio de Janeiro, licenciado da Cavalaria, para meu projeto de trapiche e captação de água potável.
E – E o que houve?
T – O Joaquim Silvério dos Reis pediu audiência ao Governador Visconde de Barbacena e contou tudo. Eu não sabia de nada. Delatou. Deu nomes, citou lugares de reuniões e a tática de execução do plano. Disse que o primeiro a ser morto seria o próprio Governador Visconde de Barbacena. E falou que eu, o alferes Tiradentes, seria incumbido de cortar o seu pescoço.
E – O governador acreditou?
T – Mesmo sem acreditar, acreditou. Mandou o Silvério escrever tudo e relatar tudo no papel. Queria um documento. Claro que ele antevia a montagem da Devassa ou formar o “corpo de delito”!
E – E Joaquim Silvério dos Reis foi o Judas?
T – Eu me encontrei com ele dois dias antes. Confabulamos firmemente. E ele escreveu tudo e entregou ao Visconde de Barbacena. Mesmo assim, continuou no convívio dos confederados.
E – E o Visconde de Barbacena?
T – Mandou chamar depois Joaquim Silvério para ser portador de carta ao Vice-Rei, no Rio de Janeiro.
E – E a capitania?
T – Estava entregue a brasileiros. A libertação estava à vista se não fosse a delação do Joaquim Silvério. Sua Majestade não tinha aqui, em Vila Rica, nem um barril de pólvora. Tinha que pedir soldados, pedir munição.
E – Que fez o Visconde de Barbacena?
T – Suspendeu a derrama. Suspendeu a cobrança de impostos. O povo aplaudiu de imediato. Nossos confederados ficaram atônitos. Alguma coisa tinha acontecido e ninguém tinha ficado sabendo. Joaquim Silvério delatou, o Visconde se protegeu, mas ninguém sabia da traição de Joaquim Silvério. Percebiam qualquer coisa no ar. Combinaram então negar tudo. Nego tudo. Nego.
E – A suspensão da derrama foi uma bomba?
T – Uma bomba de altos significados. Nosso lema: “LIBERTAS QUAE SERA TAMEN” estava suspenso no ar. Nossa bandeira em triângulos tremulava no ar, mas agora açoitada por fortes ventos ameaçadores.
E – Mas o senhor estava no Rio de Janeiro, não estava?
T – Sim... eu estava trabalhando no meu projeto. Não estava sabendo de nada. Falava com todas as pessoas divulgando os planos de uma república nova e independente. Falei com os cariocas e achei-os fracos – por isso sofriam tanto. Disse que queira vê-los açoitados como negros.
E – Estando no Rio de Janeiro, não notou nada estranho?
T – Percebi que estava sendo seguido. Todos tinham medo de falar comigo. Medo de serem envolvidos em alguma coisa. Sempre covardes e fracos.
E – Estava sendo seguido?
T – Seguido e procurado por onde fosse. Precisava de meu passaporte, meu salvo-conduto para regressar a Vila Rica e não conseguia. Estava sem autorização para viajar. Precisava viajar e não podia.
E – Que providências tomou para voltar?
T – Procurei o Vice-Rei, Luís de Vasconcelos. Sabia que não conseguiria esse passaporte, pelas atitudes de todos.  Sabia também que o levante não teria êxito sem mim em Vila Rica. Sabia que o fracasso seria a morte, a prisão, o esquartejamento, o sofrimento, a tortura nas prisões ou o desterro, a perda dos bens, a destruição das famílias de todos os companheiros. Minha angústia foi total. E eu não sabia de nada sobre a delação do Joaquim Silvério.
E – Em que dia o alferes foi preso?
T – No dia 10 de maio de 1789, uma segunda-feira. Fui conduzido para uma prisão estreita, escura, nos porões da fortaleza da ilha das Cobras no Rio de Janeiro. Incomunicável. Sem saber por quê. Imaginava que teria havido algum acontecimento desagradável em Vila Rica.
E – Aí começaram as prisões?
T – Claro! Todos os confederados foram presos. Alguns trazidos para o Rio de Janeiro, acorrentados. Prisão até para os próprios denunciantes para averiguações. Quem denunciou fora do tempo, fora do prazo, foi preso imediatamente por cumplicidade. Hoje temos a carta denúncia de Joaquim Silvério dos Reis transmitida livremente pela internet. Mas, naquele momento, eu nada sabia.
E – E os interrogatórios.
T – Cada dia um dos confederados era preso, acorrentado e seus bens vendidos em hasta pública. Suas famílias ficavam na miséria imediata, ou socorridos nas casas dos parentes que não tinham medo de ser envolvidos.
E – E o Visconde?
T – Com a documentação em mãos, abriu uma devassa, um inquérito policial com documentos e declarações por mais contraditórios que fossem. Estava aberta a DEVASSA – fulminante e implacável.
E – E o Vice-Rei?
T – Abriu outro inquérito no Rio de Janeiro. Uma devassa a mais, aberta no dia 7 de maio de 1789.
E – E na capitania de Minas Gerais, que aconteceu?
T – Chega a notícia de duas devassas abertas. Todos os implicados se diziam inocentes. Nem se dignavam  ter ouvido as palavras desse tal alferes falastrão, louco, inconsequente. O Visconde nunca viu tanto fingimento. Tantos súditos fiéis à sua Majestade. Todos delatavam. Até o próprio Gonzaga... mas as nuvens da desgraça cobriam a todos.
E – Mas, e Gonzaga? Que aconteceu com ele?
T – Foi preso em 21 de maio, mesmo ainda na cama. Era o primeiro detido em Minas. Foi levado para o Rio de Janeiro em escolta. Em Vila Rica já não havia prisão para tanta gente. Presos incomunicáveis, sem ver a luz do sol.
E – E Alvarenga Peixoto?
T – Foi preso em São João Del Rey. Réus aos montões, perseguidos por patrulhas. Alguns tentaram fugir. Tudo em vão. Os bens foram imediatamente colocados em hasta pública, sem julgamento, sem análise de culpa. Até um estrangeiro, Nicolau Jorge foi preso.
E – E o povo?
T – Povo é povo mesmo. Só aparecia para delatar e procurar ser confidente do governador. O medo era generalizado. O povo procura se proteger denunciando a torto e direito.
E – Todos culpados?
T – Nem uma palavra de contestação. Silêncio sobre as brumas. Ninguém ousava protestar.
E – Afinal abriram-se duas devassas?
T – Sim. Duas devassas, uma no Rio de Janeiro pelo Vice-Rei,  Luis de Vasconcelos e Souza, e outra em Vila Rica, pelo Visconde de Barbacena. E as duas se digladiavam, procurando envolver o maior número de culpados.
E – E havia culpados?
T – Nunca houve culpados e nem foi executada nenhuma ação do pretendido levante. Ninguém tinha nada para se culpar ou de sentir-se culpado. Apenas, os representantes da Coroa portuguesa queriam mostrar fidelidade e produção. Prendiam, envolviam famílias no processo, causando a miséria e a desgraça. Nada mais.
E – Ambas as devassas tinham o mesmo objetivo?
T – Com o mesmo objetivo de eliminar e massacrar um possível desejo despertado na Colônia em ver-se livre do jugo português. Ambas, conflitantes e mentirosas.
E – Então os réus eram inocentes?
T – As devassas se prolongavam com sacrifício e sofrimento extraordinários dos possíveis réus. Aprisionados! Prisões fétidas. E, além de tudo, sem saber o motivo pelo qual estavam presos. Simplesmente porque falaram uma palavra a mais, ou ouviram uma palavra mais eloquente?
E – E os bens das pessoas acusadas e presas?
T – Todos os bens confiscados imediatamente à prisão. Vendidos para financiar as despesas da devassa. As famílias se arrastavam na miséria total e imediata.
E – E o Joaquim Silvério dos Reis?
T – Foi preso na masmorra da ilha das Cobras, nas mesmas condições de todos os demais acusados. Sofreu as mesmas iniquidades, para verificação, para constatação de suas denúncias. Ainda corria o risco de as denúncias estarem fora dos prazos e envolvido no processo.
E – Você foi interrogado quantas vezes?
T – Apenas quatro vezes, com acareações diversas. Um dia, um desembargador me inquiriu: “disseste que os cariocas eram patifes, vis, e que teria sido bem feito que levassem um bacalhau?” Respondi que eles são dormentes e insensíveis ao sofrimento do povo. Disse ainda que o povo é grande e que eu não estaria em condições de riqueza e poder para arrastá-lo à conquista de uma quimera.
E – Houve alguma acareação com Silvério?
T – Sim...eu fui arrastando as minhas corrente. Queria cumprimentá-lo como amigo, pois não sabia de sua delação. Depois, senti a amargura da acusação frontal. Pesou-me mais do que as próprias correntes que eu transportava.
E – Outras acareações e interrogatórios?
T – Voltaram a me perguntar sobre o que tinha dito dos cariocas. Depois, qual a verdade sobre a sublevação de Minas? Nunca dei um nome sequer, nunca falei a palavra “levante”. Nunca dei uma palavra sequer. Não seria confissão porque não tinha nada a confessar a ninguém. Principalmente a esses estrangeiros!
E – Soube que seu amigo Alvarenga Peixoto tinha sido preso também?
T – Tinha uma vaga ideia, mas sem confirmação. Somente depois fiquei sabendo. Pobre Alvarenga, pobre Bárbara Heliodora.
E – Encontrou-se ainda com Alvarenga Peixoto.
T – Numa acareação em 1791, me parece.
E – E Gonzaga? Que crime cometeu?
T – Ninguém cometeu crime algum. O pensamento é livre e voa pelo espaço sem comprometimento. Querem acusar as pessoas pelo simples fato de desejarem uma república para esse novo e grandioso país? Nas horas vagas, Gonzaga versejava para a sua amada, na sua casa, no outro lado da rua. Pobre Gonzaga. Nunca teve amizade por mim. Ia fazer as leis da república. Apenas isso. Crime algum. Um jurista apaixonado, intelectual.
E – Foi assim, até o final?
T – Planos, delações, depoimentos, acusações infundadas. Estou rodeado de zombarias, insultos, mofa. Uma coroa de espinhos. Um louco! Gênio ardente! Homem sem nenhum conceito! Rústico, atroado.
E – Louco?
T – Como eu poderia ser louco se atrás de mim vinham padres, mineradores, empresários, juristas, poetas, militares e até o meu próprio comandante?
E – E a “Inconfidência” estava concluída?
T – Claro e totalmente concluída, documentada pelas mãos dos meus juízes inquiridores que a arremataram como quiseram. Essa “Devassa” foi construída pelos próprios juízes e desembargadores estrangeiros. Eles construíram essa “Devassa” que aí está. Forjaram, mentiram, torturaram até conseguir as formas e os conteúdos desejados. Fiquei só. Fiquei só, como sempre estive na vida. Ninguém por mim. Mas, perante o tribunal ainda respondi: “não!”
E – Mas, finalmente teve que confessar!
T – Não fale essa palavra confessar! Nada tinha a confessar. Poderia relatar as ocorrências, mas nunca em forma de confissão policial. Não cometi um deslize sequer que acusasse a minha consciência, o meu foro íntimo. Tudo em plena convicção em louvor à minha pátria. Mas o tribunal me pressionou mais uma vez. “Você é o cabeça do motim da capitania de Minas Gerais! Você é o louco da sedição! Você convocou e convenceu até estrangeiros! Você é um covarde, alferes traidor de sua Majestade! Todos os seus companheiros, padres, juristas, militares, mineradores, empresários são unânimes em confirmar que suas palavras inflamadas levaram todos à desgraça, ao infortúnio, ao sofrimento sem limites! Confesse, traidor!” Prosseguiram mais acusando do que perguntando. Na minha vez, respondi: “projetei, sim, o levante para criar uma pátria livre e rica! Sempre neguei, mas não foi por covardia. Não queria implicar meus amigos e companheiros justamente para preservar a integridade de cada um deles. Todos me ouviam, me incentivavam e me acompanhavam. Tudo neguei por eles! Pelos meus amigos! Digo, agora, diante destas circunstâncias, com a clareza das minhas convicções – sim, é verdade que eu premeditava esse levante. É minha a ideia. Planejei tudo sozinho! Tenho a fronte erguida para os meus ideais de uma pátria livre e independente do jugo português! E queiram os senhores juízes deste tribunal ou não, mais hoje, mais amanhã as sementes germinarão e o Brasil será uma das maiores nações livres do mundo! Livre do jugo de quem quer que seja! Esta é a minha convicção inabalável. Nunca uma confissão! Não ocultarei a mais leve coisa da verdade. Faltar a ela seria me desculpar, o que não o faço e nunca farei!” 
E – Ficou sabendo o nome dos seus juízes no tribunal?
T – Não perco tempo de saber o nome deles. Sei de cor, mas nem ouso repetir, por asco. Falsificadores, corruptos e fiéis escudeiros da rainha louca de Portugal. Mas um nome eu fiz questão de saber. É do desembargador Machado Coelho Torres, que ouviu as minhas declarações finais. Ele ditou para o escrivão: “confessou livre de ferros e em liberdade!” Um ridículo conflito de ideias e de palavras. Em plena ironia! Não tive como não rir no meu íntimo mais profundo e amargurado. – Livre de ferros e em liberdade!
E – Quais os seus bens que foram sequestrados?
T – Duas canastras de couro com objetos de uso pessoal, uma sesmaria, três escravos e a minha cabeça cheia de ideais de república e de liberdade. Livros, uma rede de algodão.
E – E que fim levou Joaquim Silvério dos Reis?
T – Esteve aprisionado durante nove meses, também incomunicável. Nesse período, seus duzentos escravos se debandaram, suas terras foram invadidas. Sua moral arrasada. Foi a zero e nenhum morador da região ousava dirigir-lhe a palavra, quando foi solto. Um gelo total. Foi premiado por pensão vitalícia de 400$000 anuais. A vida foi cruel para ele também. Viveu bastante para ouvir o grito de independência e nunca mais pôde voltar a ver as montanhas.
E – Mas e o final, a conclusão dessas devassas paralelas?
T – Os dois processos se entrecruzavam, divergiam. Houve substituição de juízes e o próprio Vice-Rei foi substituído por Dom José Luís de Castro, o conde de Resende. Mudanças nos interrogatórios, dúvidas, incompetências, corrupção, chegando-se a desentendimento entre os próprios juízes. Ciúmes de bajuladores, forjando depoimentos, desentendimento e complicação feitos pela ignorância de portugueses e seus descendentes.         
E – E a sentença?
T – Os interrogatórios terminaram. Sai a relação dos condenados e suas sentenças em 18 de abril 1792 – Eram trinta e quatro réus, sendo que três deles faleceram durante o julgamento, inclusive o jurista Cláudio Manuel da Costa, supostamente por suicídio. Esses réus tiveram direito à defesa. Foi determinado um advogado para estudar o processo e emitir a defesa. Ele analisou os supostos crimes de cada um dos réus. Reconhece a culpa de alguns e a inocência de muitos e pede à sua Majestade, humildemente, o perdão de suas loucuras e insânias. Muito bem, advogado de defesa!
E – Mas o senhor ainda não falou na sentença.
T – A sentença foi longa e triste. Foram trazidos todos os réus para a sala do Oratório da cadeia. Quando se reuniram quase não mais se reconheceram. Barbados, grisalhos, olhos deslumbrados pela luz, vestidos em panos de algodão, aproximaram-se uns dos outros. E as pesadas correntes tiniam ao tentarem se abraçar. E falavam incontrolavelmente como se estivessem sedentos de conversa.
E – Mas e a sentença?
T – Levaram dezoito horas lavrando a sentença, terminando às duas horas da madrugada. O próprio Vice-Rei, Conde de Resende, fez questão de acompanhar o desfecho, sem arredar o pé. Onze religiosos do convento Santo Antônio foram imediatamente chamados, pois nenhum condenado à morte podia ouvir a sentença sem estar assistido por um religioso. Assim, receberia os últimos suspiros do infeliz, conduzindo à vida eterna, até alcançar o novo julgamento por Deus, Nosso Senhor.
E – E a sentença continua demorando a sair!
T – Imagine a ansiedade de todos esses supostos réus! Pois bem! Às duas horas da madrugada do dia 19 de abril de 1792, entrou na cadeia um séquito de oficiais da justiça, alguns juízes, onze religiosos e, com a entrada do escrivão, todos se calaram. Foi um instante supremo e decisivo. Então, com aparente calma, o desembargador Luís Alves da Rocha, desdobrando o maço de laudas escritas, dava a entender que uma fria decisão, intencionalmente meditada, iria brotar dos seus lábios. Eu mesmo estava com meu colar de correntes de ferro ao pescoço, aguardando o desfecho num dos cantos da sala. O desembargador leu o preâmbulo e fez considerações gerais sobre o movimento como o mais horroroso dos crimes. Ergui a cabeça quando ele leu o meu nome: “mostra-se que entre os chefes e cabeça da conjuração, o primeiro que suscitou as ideias de república foi o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha Tiradentes, da Cavalaria Paga da Capitania de Minas Gerais e que concebeu o abominável intento de conduzir os povos daquela capitania a uma rebelião.” Naquele momento, tive consciência do crime de que eu era acusado. Até então, não sabia por que motivo tinha sido encarcerado, tinha sofrido tantos interrogatórios e acareações.
E – E saiu, finalmente, a sentença?
T – Finalmente, sim. “Fica condenado o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha Tiradentes, a ser conduzido com baraço e pregão pelas ruas públicas ao lugar da forca e nela morra de morte natural para sempre e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica onde, em lugar mais público, seja pregada em um poste alto até que o tempo a consuma. Ainda, seu corpo deverá ser dividido em quartos e pregados em postes pelo caminho de Minas. Declaram o réu infame e seus filhos e netos, tendo-os e os seus bens aplicam para o fisco e Câmara Real. A casa que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique e, não sendo própria, será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados e, no mesmo chão, levantará um padrão, pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu.” Neste momento, eu tinha o olhar perdido no espaço.
E – E os demais réus?
T – Todos condenados ao enforcamento. Menos cinco que seriam deportados para a África. E Cláudio Manuel da Costa, que morreu na prisão, teria a memória infamada, assim como filhos e netos e os bens confiscados.
E – Desespero geral?
T – Sim... Desespero geral. O dia amanhecia com jatos de luz penetrando pelas frestas das pesadas portas e pelas grades do presídio. Deitamos nas camas que foram preparadas para os condenados, carregando os pesados colares de correntes de ferro. O mundo desabou. A tênue esperança, se existiu um dia, desapareceu para sempre. Todos condenados à forca. Nada mais.
E – E o advogado de defesa?
T – Advogado de defesa? Que fazer? Pediu que a pena fosse comutada em cárcere perpétuo, inclusive a de Tiradentes. Mas o desânimo havia turvado o espírito. A sentença parecia ter vindo sem perspectiva de mais defesa alguma.
E – Que fazer?
T – Aproximava-se velozmente o instante supremo. Os onze condenados à forca eram assistidos por onze frades que os confessavam e os animavam. Como se despertassem de um pesadelo, entreolharam-se aqueles olhos vermelhos de angústia e de pranto. Mas, alguns ainda tinham esperança de comutação da pena. Foram momentos de muita ansiedade. Recursos do advogado de defesa. A forca armada na praça pública aguardava apenas a sentença final. A praça totalmente cercada. O público estava realmente triste com o espetáculo que iria assistir.
E – Degredo perpétuo?
T -- Os juízes estavam inflexíveis. Degredo perpétuo? Menos mal. Os condenados gemiam pelas paredes, agonizando lentamente, sempre fazendo tinir os ferros das correntes. Por toda parte, havia sentinelas com as armas apontadas.
E – Finalmente, a comutação da pena?
T – Quando tudo estava perdido, quando os espíritos pareciam conformados com o próprio terror, entra novamente o escrivão. Os recursos tinham sido rejeitados, um a um. E, no entanto, o desembargador que, de maneira velada, tinha compactuado da ansiedade geral, trazia um ar feliz. Abriu os autos e, lentamente, leu: “em observância à carta da dita Senhora, mandam que execute inteiramente a pena da sentença no infame réu Joaquim José da Silva Xavier por ser o único que na forma da carta se faz indigno da Real Piedade da dita Senhora rainha de Portugal. Quanto aos demais réus, a quem deve aproveitar a clemência real hão por comutada a pena de morte na de degredo perpétuo”.
E – E o ouvidor Tomás Antônio Gonzaga?
T – Foi condenado ao degredo perpétuo.
E – O senhor foi o único condenado à morte. Que houve então?
T – Uns e outros se abraçaram e uma Salve Rainha foi rezada com muito fervor, entrecortada por explosões súbitas de choro. Na realidade, tudo estava previsto e os juízes apenas fizeram um drama particular, em suspense, aterrorizando os réus. Prepararam uma cena para um sofrimento indizível dos réus.
E – E o alferes Tiradentes ficou novamente só, diante da morte?
T – Enquanto todos festejavam aos gritos de euforia, eu estava a um canto, realmente só. Nenhum abraço, nenhuma palavra. Assim permaneci calado, até que pudesse felicitar um a um pela graça que tinham conseguido. Virei-me para o padre confessor e disse-lhe: “felizmente, não levo ninguém comigo! Dez vidas eu daria se as tivesse, para salvar as deles! Eu sou a causa da perdição desses homens, mas felizmente não levarei ninguém comigo”.
E – Finalmente o dia 21 de abril de 1792!
T – Após o enforcamento em praça pública, meu carrasco foi autorizado a decepar a minha cabeça a machado, no próprio local do enforcamento. Em quatro partes subdividiram meu corpo. Após salgar fartamente cada parte do meu corpo, elas deveriam ser hasteadas em postes altos para a mais escandalosa temeridade contra a Real Soberania. 
E – E a sua cabeça foi hasteada em Vila Rica, em local de grande movimento, em solenidade cívica, sendo convocadas as autoridades e o povo para a comemoração?
T – Assim foi feito. Mas, conforme determinação da sentença, minha cabeça deveria permanecer por tempo suficiente para se deteriorar no mastro desse poste. Entretanto, alguém, na calada da noite, afrontou as autoridades da Capitania e levou-a consigo para um jazigo eterno. Não desdenho a minha sorte. Meu salvador morreu também assim, nu, por meus pecados.
E – Impossível é para nós brasileiros livres, agora, neste momento, deixar de sentir um forte impulso de admiração e respeito pela sua ousadia e pelo seu destemor. Agradecemos a sua presença para esta entrevista, Alferes Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes. Gostaríamos, ainda, de ouvir as suas palavras finais.
T – Foi uma oportunidade feliz poder retornar e sentir a minha pátria e meu povo  livres. Dez vidas eu daria, em mil pedaços poderiam subdividir meu corpo para plantar a semente da liberdade e para vê-la germinar vigorosamente em meu país, com uma república livre e independente, com os escravos libertados e uma universidade criada em Vila Rica. Nunca me arrependi do falei ou do que fiz. Este louco e falastrão nunca teve um crime a confessar e nunca se curvou diante dos portugueses estrangeiros. Ele teve apenas a ousadia de responder simplesmente “NÃO!”
E – Uma lembrança finalmente trazemos para o senhor, neste nosso encontro. Uma de suas velhas canastras.
(O alferes abre a canastra e retira a bandeira de Minas Gerais. Sacode-a e coloca-a no ombro esquerdo. Depois, tira a bandeira do Brasil, sacode-a no ar e coloca-a no ombro direito. Em seguida, abre os braços, como se quebrasse algemas, permanecendo nessa posição, com a cabeça erguida. Ouve-se o hino da independência, cantado por uma só voz. Depois, um coro de multidão).

Bibliografia
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BARBOSA, Waldemar de Almeida. A decadência das minas e a fuga da mineração. Belo Horizonte: UFMG, 1971
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FERNANDES, Raymundo Nonato. A Inconfidência. Belo Horizonte: Revista Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, vol. XXIII,  pag. 297, 2000
JARDIM, Márcio José da Cunha. A Inconfidência Mineira e a formação da nacionalidade. Belo Horizonte: Revista Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, vol. XXIII,  pag. 217, 2000
JARDIM, Márcio José da Cunha. A devassa da Inconfidência Mineira. Belo Horizonte: Tribunal de Alçada, 1995
MAXWEL, Kenneth. A devassa das devassas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974   
TORRES, Luiz Wanderley. Tiradentes a áspera estrada para a liberdade. São Paulo: Atheniense, 1991
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SOUZA, Washington  Peluso  Albino de.  Ensaios sobre o ciclo do ouro.  Belo Horizonte: UFMG, 1978
MENEZES,  Adalberto Guimarães. Parque Histórico Nacional Tiradentes. Belo Horizonte: Gráfica e Editora Del Rey, 2011

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