FELIPE TIAGO GOMES - ENTREVISTA VIRTUAL


APRESENTAÇÃO
Poucas pessoas sabem quem foi FELIPE TIAGO GOMES (1921 -1996), por isso são necessárias algumas palavras para reativar a memória e a gratidão do povo brasileiro. Bastaria uma só palavra e diria tudo:

EDUCADOR!!!
Um menino pobre, nascido na região rural do município de Picuí, Paraíba, alfabetizado pela sua irmã Francisca, levantou uma bandeira para proporcionar educação ao estudante pobre, onde quer que ele estivesse. Fácil? Um sonho, uma utopia, uma frustração antecipada. Nada disso. Conclamou alguns colegas da Faculdade de Direito em Recife, Pernambuco, em 1943, e montou uma escola, para os seus primeiros alunos pobres. Eles tornaram-se professores. Onde seria essa escola? No fundo de um armazém? Os alunos assistiam às aulas de pé ou sentados no chão. Depois, em caixotes velhos. Daí surgiu o primeiro ginásio para o estudante pobre: Ginásio Castro Alves. E o Ginásio Castro Alves abarcou o Brasil inteiro, em febre, em epidemia de cultura e educação. Centenas de ginásios em locais pobres, simples e pobres, como o próprios alunos pela força das comunidades. Assim surgiu a maior rede de ensino deste país – Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC. Desconhecida do grande público. Desconhecido o professor Felipe Tiago Gomes. Criador de centenas e centenas de ginásios, formando milhares e milhares de alunos gratuitamente. Repetindo: gratuitamente. Professores em centenas de milhares, tão pobres e dignos como os seus alunos e o seu grande mentor.
Uma bandeira, uma meta inviolável: educação para o estudante pobre.
FELIPE TIAGO GOMES!!!  
Referência internacional.
O Brasil reverencia seu destino e o abençoa, onde quer que esteja.


Entrevistador
Bom dia, professor Felipe! Hoje é domingo, dia de descanso, dia de festas e de passeios e o senhor ainda revirando papéis na mesa de trabalho?
Felipe Tiago Gomes
Olá! Os dias da semana são iguais em horas e minutos. Nesses domingos ensolarados costumo sempre passear pelo pensamento, viajando no tempo e no espaço, percorrendo obras realizadas e imaginando tantas pessoas em progresso na vida.
E
O senhor não perde a oportunidade de colher um sorriso de vitória dos seus estudantes!
FTG
Esta é a mais pura verdade. Revejo este sonho meio quixotesco de ajudar o estudante pobre, onde quer que ele estiver.
E
Quixotesco?
FTG
Sim, isso mesmo! Tantas pessoas tiveram pena de mim, quando eu tentava ajudar pessoas que não tinham recursos para crescer na vida, desenvolver-se, instruir-se.
E
E o que o senhor tinha com isso?
FTG
Nada e tudo! Talvez mirasse em mim mesmo. Um pobretão, filho de pobretão que quis inventar alcançar o caminho de uma vida melhor. Meus pais sofreram comigo, com minhas ideias, com o meu desconforto cultural, com a minha inconformidade com a própria vida rural pobre. Tinha que fazer alguma coisa. Eu me sentiria inconformado e envergonhado, se não lutasse com obstinação.
E
Professor! Vergonha de ser pobre?
FTG
Vergonha de permanecer na pobreza, do nascimento à morte. Tinha, sim. Meus pais se assustaram comigo. Minha irmã Francisca me ensinou a ler e a escrever. Ela tinha conseguido estudar e sabia muitas coisas além de plantar, capinar, colher e sofrer. Percebi que havia no mundo tantas outras coisas que eu poderia alcançar, se quisesse.
E
Que coisas?
FTG
Tantas coisas desconhecidas para mim, para o meu povo. A vida girava em torno da terra onde nasci, onde nasceram meus pais e meus avós. Eu e meus irmãos e minhas irmãs iríamos fechar o círculo de adubo dessa mesma terra, este pedaço de terra de Picuí, no estado da Paraíba. Já ouviu falar desse lugar? Tão pequeno e escondido que ninguém sabe onde fica.
E
Queria fugir do trabalho da enxada e do sol a sol?
FTG
Poderia ter continuado o trabalho dos meus pais e avós, como disse. Antevi que havia outros caminhos. Sentia tristeza, sim, pelo sofrimento e pobreza da minha família toda. Tinha que fazer alguma coisa. Tinha que ir em frente, buscar outras frentes, enfrentar os paredões que limitam a pobreza.
E
Disse que seus pais ficaram assustados?
FTG
Assustados e humilhados por não terem condições de alimentar os meus ideais de instrução. Simplesmente de instrução. Nem isso. Tive que receber ajuda de tantas pessoas que viram em mim uma possibilidade de crescer na vida, de ser um brasileiro ousado, ou simplesmente, de ser um brasileiro instruído.
E
Não era muita pretensão de sua parte querer continuar os estudos quando a maioria da população de sua terra entrava direto para o trabalho?
FTG
Talvez fosse mesmo. Mas eu não dei ouvido às vozes da derrota e do descaminho. Fui em frente com o peito aberto. Aceitei de bom grado ajuda e colaboração. Acreditaram em mim. Ajudaram na minha formação. Sou grato a todos e não posso citar nomes. A população de Picuí acreditou em mim e eu não podia mais voltar atrás.
E
Seguiu em frente?
FTG
Segui em frente sem olhar para trás. Despedi dos meus pais com lágrimas. Minhas e deles. Fui para Campina Grande tentar o curso ginasial. Não podia regressar sem resultados para mostrar e demonstrar. E mais alguém teve pena de mim. Coitado! Tanto esforço, tanta aspiração impossível! Tudo longe, tudo difícil, tudo intransponível. Antes, eu queria ser agrônomo. Depois, mudei de ideia e queria ir para Recife, estudar direito.
E
Muita pretensão e ousadia? Isso era um sonho de pleno romantismo?
FTG
Parece que era mesmo um sonho romântico. Mas eu fui lá e venci. Ingressei na Faculdade de Direito de Recife no ano de 1944. Eu estava nessa época com 23 anos de idade, pois nasci no dia 1º.de maio de 1921.
E
Não vou perguntar como esse milagre aconteceu. Mas foi um milagre?
FTG
Pode ter sido um milagre mesmo. Entretanto, podem imaginar que as minhas dificuldades eram menores do que a minha obstinação. E fiz de tudo nessa faculdade. Cheguei a ser presidente do Diretório Central dos Estudantes de Recife. Tantos companheiros, tantos amigos. Respeito e fidelidade. Agradeço a tantas as pessoas que me ajudaram. Claro que sem essa ajuda eu seria apenas um estudante pobre, infeliz e frustrado.
E
Estudante pobre?
FTG
Claro que eu era um estudante pobre! Podia ser diferente? Assumo a minha condição de estudante pobre, mas nunca perdi o ideal de também ajudar esses estudantes pobres do Brasil inteiro. Minha utopia. Podem pensar isso agora. Tantos e tantos estudantes pobres do Brasil se perdem nos paredões da vida. Pensei que eu tinha o dever de assumir um trabalho de restituição do que eu tinha recebido de tantas pessoas. Imaginei me colocar a serviço dos jovens pobres que estavam a meu redor. Via neles a minha figura mirrada e triste dos tempos que vivi na minha terra. Vou fazer alguma coisa por eles.
E
Alguma coisa por eles?
FTG
Alguma coisa. Alguma coisa de imediato. O tempo passa depressa, como disse. Os dias da semana são iguais. Só muda a nomenclatura. Por isso, conclamei alguns colegas da Faculdade de Direito. Alguns me olharam de lado, vendo que o poder público era o responsável pela pobreza e pela infelicidade do povo. Assim, mesmo assim, eu e uns cinco colegas nos tornamos professores. Sem concurso, sem salário, sem escola. Reunimos quase cem pré-estudantes e no fundo de um armazém, cedido pelo proprietário, iniciamos o nosso primeiro curso.
E
Curso gratuito? Também não havia muita coisa a oferecer aos candidatos!
FTG
Nem cadeiras para eles se sentarem. Os novos alunos assistiam às nossas aulas de pé. Ou sentados no chão. O proprietário do armazém se emocionou e arranjou caixotes velhos para alguns. Nós éramos professores de tudo. Vamos começar. Nada de ficar pensando em esperar as melhores condições. Nosso lema era ensinar agora mesmo. Nosso colégio se chamaria Castro Alves e iríamos oferecer ensinamentos à mão cheia. O poeta dos pobres escravos. Castro Alves tinha uma bandeira. Depois, vimos que Victor Raul Haya de La Torre, (1895 – 1979) tinha fundado a Universidade Popular no Peru, em 1912. Então, vamos começar também.
E
Sem nenhum planejamento?
FTG
Os estudantes não podiam esperar. O tempo é agora. Começamos a riscar as principais metas. O objetivo era o maior possível. Quando me referi a dom Quixote, imaginei mesmo que éramos visionários. Todos os amigos e colegas queriam bons empregos e bons salários. Nós estávamos perdendo tempo com pessoas sem eira nem beira. Que poderíamos esperar disso tudo? Vi tanto agradecimento e tanta alegria nos sorrisos desses alunos que me impulsionaram para o grande desafio: criar uma rede de ensino do estudante pobre. Sonhei fazer funcionar no Brasil uma rede de escolas comunitárias para levar a educação, sobretudo para estudantes pobres – tantas famílias com o eterno dilema de falta de recursos para formar seus filhos.
E
Era o garoto de Picuí querendo abraçar o mundo?
FTG
Mais do que isso. Agora, mais de meio século passado depois desse projeto imaginário, vislumbro a trajetória da minha vida com alegria imensa por ter tido a colaboração de tantos professores que trabalharam sem visar remuneração e com o apoio irrestrito do poder público. Vislumbro ainda o sorriso de agradecimento de tantos milhares de alunos, felizes por poderem subir na vida.
E
O senhor passou da teoria à prática num processo imediato?
FTG
Desculpe-me discordar no detalhe dessa informação. Passamos da prática para a teoria. O processo inverso de toda a temática pedagógica. Lembro-me que perguntaram a Dom Bosco como ele ensinava as crianças a nadar. E ele respondeu: “primeiro, jogo elas na água, depois vem técnica.”
E
Esse ginásio Castro Alves foi a “celula mater”?
FTG
Realmente! Com um pulo gigantesco, implantamos a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC, que se espalhou pelo Brasil como febre de cultura e educação. De Uruguaiana no estado do Rio Grande do Sul ao estado do Acre alguma cidade, por menor que fosse, teve a ousadia de implantar um ginásio gratuito, pela força da sua comunidade, pela força, pela vontade e pela sede do seu povo. Não vou citar números, nossa conversa não é um relatório. Centenas e centenas de ginásios gratuitos, centenas e centenas de professores abnegados, e milhares e milhares de alunos formados e preparados para a vida e para o sucesso pessoal. Como medir isso em números?
E
A CNEC é fruto de experiências e crescimento.
FTC
Isso é verdade. Não nascemos grandes e perfeitos. Antes, iniciamos um curso no fundo de um armazém. A meta era implantar Campanha do Ginasiano Pobre. Com a força do trabalho e com o sucesso dos empreendimentos, expandimos nossas pretensões para Campanha Nacional de Educandários Gratuitos - CNEG. Mais tarde, assumimos compromisso maiores e nos transformamos em Campanha Nacional de Escolas da Comunidade - CNEC. A meta inicial proposta era inviolável – o estudante pobre, ensino gratuito aberto a todos.
E
Nessa época era difícil uma pessoa matricular-se num ginásio?
FTG
Difícil demais até mesmo para famílias abastadas. Não era qualquer cidade que tinha um ginásio. O Brasil é um território grande. As comunicações precárias. O sistema de transporte mais precário ainda. A burocracia escolar exigia muitos documentos comprobatórios de escolaridade. E havia ainda um pequeno vestibular para se entrar num ginásio. O tal exame de admissão. Provas escritas e provas orais. Uma barreira. Exigia preparação e a reprovação era constante. Além disso, os pobres estão em todos os lugares. Principalmente em cidades que nem pensavam que um dia pudessem ter um ginásio. Ginásio era um sonho para poucos.
E
E os educandários das missões religiosas?
FTG
Foram fundados nas maiores cidades. Recebiam boas contribuições dos poderes públicos e prestavam um bom serviço. Serviço de alta qualidade. Mesmo assim, a meta era mais diversificada do que a nossa. Exigiam também retorno financeiro. Não era o nosso caso. Nossa meta, em certo ponto, contradizia cobrança de quem quer que fosse. Ensino gratuito era a nossa base de pensamento e ação. Uma meta simples e definitiva: educação para o estudante pobre onde quer que ele estivesse.
E
Mas o senhor parece um pregador religioso. Um missionário?
FTG
Nossa meta não envolvia religião, política ou qualquer segmento assemelhado. Volto a repetir, obsessivamente, nossa meta era o estudante pobre. Nunca tive vocação para padre. Missionário? Pregador? Vejo que afinal tinha uma missão a cumprir. E ela foi pesando cada vez mais sobre os meus ombros.
E
E o poder público?
FTG
Desde o nascedouro, a CNEC é mantida pela comunidade e é ela quem custeia as despesas com pessoal administrativo e de manutenção, com a ajuda do poder público. Nunca visamos lucro. Tirar recursos de quem tem pouco? Uma covardia. E nada de interesses pessoais. Esta a filosofia da vida da nossa entidade, desde a sua origem.
E
Houve dificuldades e barreiras pela frente?
FTG
Dificuldade era palavra do dia a dia. Tempestades, mas depois, bons ventos. Por várias vezes estive a ponto de fechar a CNEC. Vem a força da comunidade em contrapartida e o barco avança. Esta é a vida de qualquer organização.
E
Algum envolvimento político?
FTG
Nenhum. Mesmo assim, em 1968 eu fui preso por me julgarem comunista. Cuidar de escolas para pobres era coisa de comunista? Estive na alça de mira porque os órgãos de repressão dessa época achavam que eu possuía os arquivos da União Nacional dos Estudantes – UNE. Sofri pressão de militares para delatar professores da rede cenecista. Intervenção decretada no AI-5 – Ato Institucional. O governo não acreditava nesse projeto de estudante pobre e a própria rede privada nos encarava como concorrentes.
E
Hoje o senhor é o Superintendente Nacional da CNEC?
FTG
Como um operário, faço questão de participar e estar presente a todas as realizações e fui designado Superintendente Nacional, mesmo sem ter me afastado da nossa entidade nem um dia sequer da minha vida. Muito me honra. Fui membro do Conselho Federal da Educação e, como seria natural, lutei muito para atingir metas maiores dentro dos nossos princípios e valores. Nunca me afastei deles. Sempre tinha em mente a visão de tantos moços que estão também prejudicando a saúde pela deficiência alimentar para arcar com despesas de matrícula e mensalidades das escolas particulares. E o preço dos livros didáticos? As editoras se ligam em lucros imediatos. Nunca se preocuparam com a clientela. Não querem nem saber se o aluno dispõe de dinheiro para a compra de livros. A técnica editorial faz o livro usado um ano ser descartado. Livros descartados com objetivo de lucro.
E
A CNEC tem similar no Brasil?
FTG
Em 1948, no governo de general Eurico Gaspar Dutra, foi implantada a Campanha de Alfabetização de Adultos, com altos recursos financeiros. Por que não empregar mais recursos na alfabetização de crianças? Chegarão adultos alfabetizados. Tudo tem seu mérito. Hoje, além de tudo, temos uma universidade livresca. Professores sem ânimo de dar aulas. Primeiro o status, depois a inoperância. Assim, concluindo, nossa campanha não tem similar, sobretudo na dedicação e participação. Se éramos pobres, havia gente mais pobres do que nós. Alguma coisa podia ser feita. Conclamei os colegas para uma campanha de ginásios gratuitos. No final da 2ª. Grande Guerra (1939 – 1945), o povo estava em furor de patriotismo. Nosso lema vingou.
E
E as autoridades ou burocratas do ensino do Ministério da Educação acreditavam nessas propostas fantasiosas?
FTG
Em princípio, suspeitaram veementemente. Cheguei a passar um mês inteiro no Rio de Janeiro, onde estava o Ministério da Educação, procurando autorização para funcionamento legal do nosso Ginásio Castro Alves. Sem recursos, sobrevivi. Acredita? Depois, fomos ressarcidos de nossas despesas. Fundar um ginásio era tarefa de gigantes, na burocracia oficial. Papelada, documentos, etc. Aprovação disso, aprovação daquilo. Dava a impressão de que faziam de tudo para evitar a autorização de funcionamento de uma escola qualquer. Rigor excessivo. Fiscalização constante, como se fôssemos transgressores.
E
A CNEC obteve credenciamentos especiais para a implantação de ginasios pelo Brasil afora?
FTG
A nossa credibilidade foi arrancada pelo trabalho e pela demonstração desse trabalho realizado. Os prefeitos e as comunidades festejavam a nossa chegada à cidade. Um desses prefeitos, numa ocasião, chegou a decretar feriado municipal, o dia da inauguração do ginásio na cidade. Festas contínuas de agradecimentos. Até fogos! O Ministério da Educação acabou se curvando, por assim dizer, às nossas metas e à austeridade dos nossos empreendimentos. Ver para crer.
E
O Ministério da Educação mudou de procedimentos com relação à CNEC?
FTG
Tivemos apoio irrestrito do Ministério da Educação. Acrescento ainda que no governo do presidente Itamar Franco tivemos como ministro o professor Murilo Avellar Hingel, ex-professor de um dos ginásios gratuitos de Juiz de Fora. Foi professor e ex-diretor do ginásio. Um aliado de peito aberto.
E
E o senhor chegou a ser prefeito de Picuí?
FTG
Realmente fui designado prefeito da minha terra e mesmo durante o tempo de estudante em Recife. Fiquei prefeito por nove meses. Foi mais uma homenagem dos meus amigos da cidade natal. Uma homenagem mas, mesmo assim, esperavam que eu pudesse fazer alguma coisa por aquele povo. Mais tarde, com apoio e com a filosofia da CNEC o povo de Picuí se arregimentou e a comunidade construiu ginásio, hospital, praças de esportes e outras coisas mais.
E
O povo brasileiro reverencia e reconhece o seu trabalho.
FTG
Não posso citar nomes de pessoas que estiveram a meu lado nessa Campanha de Escolas da Comunidade. Tantos escreveram textos sobre a Campanha e já houve teses de mestrado sobre a nossa meta inviolável, como já me referi.
E
Tornou-se a CNEC a maior rede de ensino do país. Como dimensionar essa Campanha que se estendeu como epidemia transmissível?
FTG
Não ouso contestar. Parece mesmo que é uma epidemia a sede de educação nacional. Os tempos mudam e mudam-se as vontades, mas a educação é fundamental. O ser humano sobreviveu na natureza pelo poder intelectual principalmente. Crescer e aprender faz parte da vida e assim a educação se adapta às realidades contingenciais.
E
Alguns ginásios foram encampados pelo poder público. Mutilaram a CNEC?
FTG
Vejo isso de uma forma de crescimento e adaptação. Nosso objetivo está fortalecido por ensino gratuito. Quiseram nos acompanhar? Sejam bem-vindos. O nosso lema e a nossa meta persistem no ideário do ensino gratuito para quem quer que seja. Assim, agregaram-se a nós. Ninguém segura a força do progresso. Sou um cidadão de Picuí, mas não fico parado no tempo. Em frente. Despedi-me da vida no ano de 1996, mas não me afasto um momento sequer do meu rebanho, em pleno pastoreio.
E
Agradeço as suas palavras de construção e dignidade. Uma mensagem?
FTG
Que poderia dizer? Sou um simples homem do sertão e hoje o país tem horizontes mais amplos. Eu posso dirigir meus olhos, cheios de lágrimas, para tantos professores que se juntaram e essa tarefa de ajudar os estudantes pobres. Pobres são também esses professores do ensino fundamental. Todos pobres, incompreendidos e injustiçados. Injustiçados pelo poder público que não enxerga que, com eles, está a alavanca do desenvolvimento. Colocam esses professores debaixo das mais baixas camadas de remuneração e reconhecimento. Estudantes pobres foi a minha campanha em vida. Hoje, a campanha será em favor do professor pobre. Uma Campanha Nacional do Professor Pobre. CNPP.



COMPLEMENTO
MEMÓRIA ATIVA DO CNEG E DA CNEC

Escrita pelo professor Jenner Procópio de Alvarenga
(1926 – 2010)


Foi inaugurado, em janeiro de 1957, o ginásio da CNEC – Francisco Badaró – em Itamarandiba, estado de Minas Gerais, que já estava em funcionamento desde o ano anterior. Festa de inauguração oficial.Foi um sonho de muitas noites do nosso caríssimo amigo, colega e companheiro cenecista, professor Raymundo Nonato Fernandes, que já era um dos pioneiros da CNEG/CNEC no estado e membro da Diretoria Estadual e depois, presidente.No dia 6 de janeiro, dia de Reis, fui procurado, às pressas, pelo Raymundo, às 10h da manhã, para a viagem a Itamarandiba, onde seria inaugurado um educandário gratuito. Eu tinha me esquecido daquele compromisso porque chegara em viagem de núpcias de Araxá, três dias antes. A pressa era porque o avião da Nacional decolava do aeroporto da Pampulha às 11h para Diamantina e o táxi era muito lento. Foi uma correria para preparar a mala. E nem tive tempo para abraçar a esposa, e isso foi a primeira causa de sua restrição à Campanha e o fato é lembrado até hoje. Os companheiros de viagem foram os professores Helvécio Dahe, Wilson R.Camargo de Assunção. 
Em Itamarandiba já estavam o fundador, Raymundo Nonato Fernandes, o deputado estadual, Murilo Badaró, que participou de vários mandatos do Conselho Estadual e Nacional da Campanha e o saudoso jornalista Wander Moreira. O professor Helvécio Dahe, sempre preocupado com a assepsia anti-política da CNEC, advertiu o deputado estadual, Murilo Badaró, para que não fizesse da Campanha uma campanha política. Que fizesse apenas referência a seu pai, o patrono da escola, Francisco Badaró. Ele, então, “maneirou” no seu discurso.

Bem, voltemos a algumas horas antes, quando estávamos viajando de jipe de Diamantina para Itamarandiba. Na descida da serra, já próximos da cidade, fomos interceptados por um grupo de “capangas” que havia atravessado o jipe deles na estrada, impedindo-nos a passagem. Eles eram mal-encarados e usavam aquelas enormes capas de vaqueiro. Ficamos apreensivos, com receio de sermos roubados ou mortos por aqueles malfeitores, mesmo estando nós em missão rigorosamente pacífica e filantrópica. Depois de exigir que nós nos identificássemos, com aquelas agressivas perguntas – quem são vocês? – o que vieram fazer aqui? – ainda deram uns tiros de revólver para o alto, o que ainda mais nos assustou. Logo após, autorizaram nossa entrada na cidade, retirando o jipe do meio da estrada. – Os senhores podem passar!
Raymundo, que tinha ido nos buscar em Diamantina, fingiu muita surpresa e submeteu-se, aparentemente, às emoções daquela dramatização, embora soubesse que os tiros eram para avisar da nossa chegada, pois este e outros programas partiram de sua “coruscante” ideia.
Ao chegarmos ao hotel, apesar da neblina que caía, a praça em frente estava apinhada de gente que nos aplaudia, em meio o estrépito do foguetório e da “furiosa” banda de música com seus dobrados.Foi um tremendo choque e, ao mesmo tempo, uma agradável surpresa essa recepção, mineiramente preparada por Raymundo e seus “comparsas”. Nessa noite, noite de Reis, além da solenidade com discursos, acompanhamos os Marujos com seus uniformes para a Reisada, de casa em casa, visitando, cantando e recebendo goles e “mastigos” como brindes. Nós participamos de toda essa festa. Festa da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC.

Raymundo Nonato Fernandes dirigiu essa escola de sua terra natal por alguns anos, indo lá semanal ou quinzenalmente, para elaborar o planejamento das atividades pedagógicas, didáticas, culturais e financeiras daquele setor local. Essa escola tornou-se a mais importante do norte de Minas Gerais e, como tal, assim foi referida pela Inspetoria Seccional do MEC.

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