DEPOIMENTO DE AURÍSIO MANQUITOLA

                 
A Rádio Itatiaia vai transmitir o depoimento de Aurísio Manquitola, testemunha ocular do insulto feito por um tal de José ao feiticeiro Mangalô, no povoado de Calango Frito e denunciado por Guimarães Rosa, em São Marcos de Sagarana.
- Bom dia, senhor Aurísio Manquitola! O senhor, então, é testemunha desse insulto ao negro João Mangalô?
- Bom dia! Verdade sim, verdadeira. Eu estava de passagem, vindo de Calango Frito e encontrei o tal José, domingando na entrada da mata.
- Conversaram?
- Só palavra de plumagem. Quando fomos andando, beirando a cafua do negro velho Magalô, lá estava ele sentado na soleira da porta. Mangalô é feiticeiro afamado dos melhores do povoado, respeitado e temido até pelo delegado que carrega escapulário com dente de cobra cozido em baeta vermelha. Calango Frito é cheio de feiticeiro por encomenda e profissão. Ninguém sai de casa sem derramar sal na soleira da porta ou carregar de memória a reza brava de São Marcos.
- E que aconteceu adiante?
- Esse tal José referido, muito destemido, descrente das artimanhas obscuras, estava se dirigindo pra Três Águas, e se excedeu quando viu o bruxo na meditação. Mangalô se pusera na quieta posição de cabriúna queimada, quando o referido José gritou em forma de cumprimento: “Conhece os mandamentos do negro? Primeiro: todo negro é cachaceiro. Depois, todo negro é vagabundo. E terceiro: todo negro é feiticeiro.” Com isso, selou-se a sorte desse arrogante José.
- E Mangalô?
- Mangalô escutou, olhou de lado e entrou pra cafua.
- Selou-se a sorte do descrente José?
- Aí aconteceu o imprevisto. O destemido entrou na mata apreciando tudo, os bambus, com as inscrições cabalísticas, a plumagem das árvores e o verde de tudo enquanto era cor dentro da mata fechada, num labirinto sem volta. Viu a lagoa mostrando o retrato invertido das plantas, tomando banho verde no fundo. Coisas mais de admirar.
- Nem se pensava mais no Mangalô?
- Passou a pensar e um corisco passou na sua frente. Tudo num átimo. Sentiu uma pancada preta vertiginosa, mas batendo de grau em grau. Depois, um ponto. Um grão, um besouro, um anu, um urubu, um golpe de noite. E escureceu tudo. O pior: cegara assim repentinamente, sem qualquer dor, sem motivo razoável, sem qualquer anúncio antecipado. Um susto. Agora começaram a crescer os grilos, os trilos dos pássaros. A patativa cantando clássicos.
- Cego? Perdido no labirinto da mata?
- Perdido e mal-achado. De retorno eu encontrei ele tateando as trilhas. De volta, chegamos na casa do feiticeiro Mangalô e o cego José entrou em luta corporal com ele, esganando o velho pra matar mesmo. Mangalô gritou: “Não me mate, sinhozinho!” E tirou de cima do jirau o boneco feito de pano grosseiro e retirou o espinho de árvore atravessado nos olhos desse boneco. E clareou tudo. Luz, luz, luz. O destemido José quase teve desmaio programado. Caiu de alegria. Ficou bom outra vez e aprendeu. Viu a luz. E, ao longe, na prateleira dos morros, cavalgavam-se três qualidades de azul. Foi só isso. Nada mais.
- Seu depoimento foi bom demais, Aurísio Manquitola! Nossos ouvintes agradecem. Obrigado e um abraço amigo para os amigos daí de Calango Frito, com muito respeito e admiração. Mande pra nós um escapulário cozido de baeta vermelha e uma cópia da oração de São Marcos. Estamos precisados. Com urgência.


Comentários

Postar um comentário

DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO

Postagens mais visitadas