ANTONIO CONSELHEIRO E SEU MOVIMENTO MESSIÂNICO
A palavra de Deus semeia amor
e bondade. Da sua mão decorre o trabalho para a sobrevivência. Nosso povoado
sempre procurou obstinadamente a paz e trouxeram-nos a guerra, a destruição, a
morte. A alma dos sertanejos, degolados, mortos e insepultos, paira nos céus
desta República.
- ANTÔNIO CONSELHEIRO – Para sempre seja louvado, irmão!
E – Senhor Antônio
Vicente Mendes Maciel! O senhor chegou a esta aldeia de Canudos, norte do
estado da Bahia, portador da desgraça e da destruição?
AC – Prezado amigo!
Cheguei a esta comunidade por missão imposta pelo meu Deus, para salvar seu
povo, ajudar, trabalhar, ensinar. Tudo para a glória de Deus.
E – E no final, chegou
à destruição total do povoado.
E – Seu povo?
AC – Passei a
considerar a população de Canudos como meu povo, meus amigos, amigos fraternos.
E – Por que essa
amizade?
AC – Quando bati às
portas desta aldeia, a população me acolheu como um emissário da palavra de
Deus.
E – Emissário? O
senhor veio de onde?
AC – Vim andando a pé,
de pouso em pouso, suportando a fome, a sede, o cansaço, a desesperança.
Perdido no espaço e no tempo dos sertões torrados pelo sol e pela seca. Quantos
anos tenho andado pelo sertão, levando a palavra de Deus? Nem sei. Talvez tenha
sido 10 anos? Talvez, 20? Nunca mais peguei num calendário. Meu guia é o
próprio destino.
E – Sim! Mas a sua
origem?
AC – Minha terra é
Quixeramobim, no Ceará, onde nasci em 1830. Minha família tinha posses, estudei
muito. Trabalhei desde jovem. Fui professor e advogado prático, isto é, sem
diploma. Atendia meu povo de muitas maneiras. Como professor, ensinava de tudo.
De tudo que o povo precisasse. Eu era uma pessoa socialmente ajustada, até que
um dia, um desastre, o desmoronamento do meu lar. Meu lar foi desfeito pela
traição da minha esposa. Fiquei triste demais, desmoralizado socialmente. Saí
pelo mundo, pregando a palavra de Deus, a misericórdia.
E – É um sacerdote?
- AC – Sou um
sacerdote de Deus pela liberdade de voluntário, a serviço da salvação da
humanidade. Não sou sacerdote de formação. Sempre fiquei ao lado do povo pobre
desassistido, abandonado. No sofrimento físico e mental.
E – Voluntário?
AC – Sim, voluntário!
Porque não? A palavra de Deus é livre para todos. A mão de Deus está disponível
para todos os que veem o caminho do bem, da misericórdia. E mesmo, o caminho da
glória na eternidade.
E – E o quê o senhor
fazia em Canudos?
AC – Pregava a palavra
de Deus, primeiramente. Depois, fazia de tudo. Tudo que fosse preciso. De
pedreiro a professor. Ajudava na construção das casas de quem quer que fosse.
Na organização da aldeia. Na agricultura, na pecuária. Ensinava nas minhas
pregações diárias. Incentivava a preparação para o trabalho. Vim para ajudar a
todos e não para pedir ajuda.
E – Ajudava na
construção desses casebres, dessas taperas?
AC – Nunca pensamos em
construir palácios! Sim, para os pobres tinha que ser uma construção imediata,
pequena que fosse. Uma tapera, ou mesmo um esconderijo. Tudo para hoje ou para
agora. Um agradecimento à obra de Deus.
E – Mas o senhor mesmo
era um pobretão!
AC – Sim! Um pobretão!
Isso não significa que fosse um ignorante qualquer. Tinha estudos e sabia
alguma coisa sobre organização e orientação do trabalho.
E – E o povoado
cresceu?
AC – De forma
inesperada! A população aumentou. Além dos forasteiros sem pouso, chegaram
milhares de ex-escravos, perdidos e abandonados no sertão, com suas famílias,
desalojados das fazendas dos
latifundiários. Libertados da escravidão, mas sem trabalho, sem rumo, sem destino.
Tão pobres e miseráveis como todos nós em Canudos. Fugindo da seca. Mas a seca
estava em todos os lugares.
E – Seca?
AC - Um período de
seca interminável. Canudos estava às margens do rio Vaza Barris e podia
sobreviver. Resolvi fundar outro povoado mais produtivo. Dei o nome de Belo
Monte, mesmo vendo que estávamos num vale prodigioso. E Canudos não suportava
mais tanta gente que todo dia ia chegando.
E – E havia
alimentação e moradia para todos esses forasteiros?
AC – Tudo pouco e
repartido. Tudo distribuído de mãos abertas. Moradia? Como disse, até mesmo
esconderijo do sol e do sereno da noite tinha para todos. E todos agradeciam.
Ninguém pedia nada além do que podia existir para ele. Ninguém reclamava ou se
lastimava.
E – E assim ficou um
grande povoado de pobres famintos ou até miseráveis?
AC – Sim! Por que
negar? Pobreza não é doença e não é motivo de vergonha ou desespero. E isso não
significava que todos deviam ficar de braços cruzados, aguardando a chegada de
mais sofrimento. Lutar todos os momentos da vida. Sobreviver!!
E – E o senhor transformou-se
num prefeito?
AC – Nunca agi como
comandante ou delegado. Bondade e amor escorre das mãos de Deus. Distribuí
tarefas e responsabilidades para as lideranças de acordo com os diversos
setores de produção.
E – Seus ministros ou
secretários?
AC – Cada responsável
por um setor tinha o seu grupo de trabalho. Produção para distribuição para
todos. O lucro era a satisfação dos resultados. Nesse ritmo surgiu o
entusiasmo. A luta contra a fome era a meta principal.
E – E a população
cumpria as suas determinações?
AC – De certa forma,
sim. Não havia uma determinação, mas orientação no trabalho, visando resultados
maiores. Povo tão carente que muitas vezes resistia em começar uma tarefa, por
julgar-se incapaz ou impossível de ser realizada.
E – Transformou-se
assim num comandante?
AC – Comandante é
termo militar. Nada do nosso feitio. Distribuir responsabilidades de acordo com
a habilidade e interesse de cada um de nós. Desde a higiene, a saúde, a
educação. A limpeza o bem-estar.
E – E a população
obedecia ao que o senhor pregava?
AC – A princípio, não
entendiam as palavras ou essas ideias eram novas para eles. Depois, eu mesmo
peguei a executar as tarefas de varrer, limpar, organizar. Acharam então o
caminho da ordem e do desempenho. Fui varredor e servente de pedreiro. Aí,
começaram a me ajudar, até que tomassem o trabalho para eles mesmos. Dei
exemplos de humildade e dedicação.
E – Viram que o
pobretão podia fazer alguma coisa. Ajudar!
AC – Viram que eu
queria fazer alguma coisa, antes de ficar falando palavras de Deus. Ação
correspondente às palavras. Ajudava de porta em porta, ouvia e via a
infelicidade geral. Minhas mãos afagavam e incentivavam. Não vou dizer que
curavam, porque não tinha esse dom, mas abriam um pequeno sorriso de
agradecimento. Eu, na minha simplicidade, ficava satisfeito com esse pagamento.
Um pequeno sorriso é uma mensagem de agradecimento, vindo do coração.
E – E esse povoado foi
enchendo de gente?
AC – Como disse,
chegava gente todo dia. Nosso progresso começou a ser percebido pelos
fazendeiros da região. Começaram a ter medo da nossa força. Nossa força? Eles
eram os poderosos. Juntaram-se com a Igreja e levantaram histórias de que
iríamos tomar as suas terras. Que iríamos marchar até a Capital e restaurar a
monarquia. Coisas tão impossíveis, coisas imaginárias para causar a nossa
desgraça. Na verdade, os fazendeiros tinham ficado sem os seus escravos, agora
libertados. As fazendas ficaram improdutivas.
E – As fazendas
ficaram sem empregados?
AC – Empregados?
Ficaram sem escravos. Pagar empregados? Nunca pensaram nisso. Uma calamidade
pagar alguém pelo trabalho. Eles mesmos, os fazendeiros, não queriam trabalhar.
A escravidão era coisa do passado. Os últimos escravos abandonavam seus lares e
rodavam perdidos no mundo.
E – E essa revolução
propagada pelos fazendeiros e Igreja?
AC – Foi o início da
nossa desgraça. De boca em boca, essa história da nossa revolução foi parar nas
autoridades constituídas da República. Como podíamos fazer uma revolução? Nunca
pensamos nisso. Nem sabíamos o que era isso. Nosso povo só pensava na
sobrevivência, em como viver o dia de amanhã. Sempre nos armamos de paz.
E – Como que uma
comunidade de miseráveis poderia fazer uma revolução?
AC – Como? A força das
injustiças e a força dos poderosos informavam que o povo de Canudos, cá em
baixo, sujava a água que eles bebiam lá em cima. Não tínhamos preocupação com a
guerra, porque seria totalmente ilusória. Desnecessária. Poderiam arrasar toda
nossa comunidade com um sopro mais forte, apenas. Não tínhamos condições de
defender, quanto mais de atacar. Nunca iríamos sair do nosso território para
qualquer ataque bélico. Uma ideia que nunca passou pela cabeça de nenhum de
nós.
E – Fizeram uma
revolução pela sobrevivência e pela paz?

E – Mas que deu
resultados?
AC – Da areia e das
pedras surgem as flores e os frutos, plantados e cuidados com abnegação.
Estávamos no caminho certo, superando as nossas dificuldades básicas. Passaram
a me chamar de Conselheiro, de amigo, de pai. Eu não tinha mais nem um minuto
de descanso. Atendia a todos a qualquer hora do dia ou da noite.
E – E os fazendeiros?
AC – Continuaram a nos
agredir. Juntaram-se todos à Igreja e nos denunciaram à República, pedindo
providências imediatas. Um só pedido: a nossa destruição. Nada mais.
E – E a guerra de
Canudos começou?
AC – Quando começou o
dia de 24 de novembro de 1896, bem de madrugada ainda, o Exército estava às
nossas portas. Bem armados belicamente, fuzis e metralhados, nos acordaram.
Nós, sem armamento, sem técnicas de combate, juntamos nossas ferramentas de
trabalho, espingardas velhas, revólveres enferrujados, foices, facões, porretes
e entramos em guerra. Matar ou morrer? Não. Morrer ou matar. Resistimos. O
tempo foi a nosso favor. O sol abrasador chegou e nosso inimigo não ia suportar
essa inclemência. Nossos soldados, sem pensar no que fazer, atacaram em
retaguarda. No final da batalha, muitas mortes de ambos os lados, e o Exército
teve de debandar. Cantamos vitória do povo unido e reunido. O Exército da
República diz que apenas abandonou o campo de batalha e que não foi vencido.
Então, por que debandaram? Foi a primeira vitória do nosso povo. Que força é
essa? Que valentia e que coragem?
E – Sim. Mas o
Exército voltou mais bem preparado!!!
AC – Agora, estávamos
também mais preparados. Juntamos o armamento abandonado pelos adversários no
campo de batalha e nossas forças se recompuseram. Nessa segunda investida do
Exército, nossa vitória foi cantada em termos nacionais. O país inteiro
comentava as nossas vitórias. Chegou, então, a terceira força, comandada por
eminentes generais, vindos da Capital da República e foram rechaçados com
violência. Até os generais foram trucidados. Não fomos buscar a guerra.
Estávamos nessa guerra apenas para nos defender. Nossas orações eram dirigidas
no sentido de pedir paz e que nos deixassem viver a nossa vida de sertanejos
perdidos nesse deserto de sofrimento.
E – Mas seu dia
chegou! O Exército tinha que lavar sua honra de três derrotas consecutivas.
AC – Foi a carnificina
final e acabada. Desta vez, com equipamento de guerra pesado, arrasaram por
completo a nossa comunidade. Degolaram mulheres, crianças e velhos. Tudo sem dó
nem piedade. Incendiaram todos os nossos casebres. Casebres indefesos. Morte
total. Desaparecemos do mapa. Eu mesmo, tive morte nesse dia. Mesmo assim, fui
exumado e degolado a faca, para gáudio dos sádicos inimigos. Éramos nessa
época, mais de 20.000 flagelados, mortos e degolados, cabeças cortadas. Do
Exército, mais de 5.000 soldados perderam a vida. Essa foi a Guerra dos
Canudos. Setembro de 1897. Que lucro teve a República? Decisão, decisões desastradas!
Esta é historia contada e recontada por tantos quanto tiveram alguma referência
desse desastre.
E – Essa guerra foi
criminosa?
AC – Antes de tudo,
toda guerra é criminosa, mas esta foi considerada como o maior crime, tido e
havido, nesta República.
E – E o final dessa
Guerra de Canudos?
AC – O conflito de
Canudos mobilizou aproximadamente doze mil soldados, oriundos de dezessete
estados brasileiros, distribuídos em quatro
expedições militares. Em 1897, na quarta incursão, os militares
incendiaram o arraial, mataram grande parte da população e degolaram centenas
de prisioneiros. Estima-se que morreram ao todo, cerca de 25.000 pessoas,
culminando com a destruição total da povoação.

AC – Bem sei! Sei
também e reafirmo que esta Guerra de Canudos constituiu-se num dos maiores
crimes já praticados em território brasileiro. Covardia exacerbada. Acabaram
com a pobreza do país? Desapareceu a miséria? Reina, agora, o silêncio em
Canudos! Dormem em paz os sertanejos insepultos e sonhadores! Tudo pela glória de Deus!
E – Beato Antônio
Conselheiro, louvado seja nosso senhor, Jesus Cristo!!!
AC – Para sempre seja
louvado, irmão.